Como início desta seção do blog, seria uma injustiça sem tamanho não fazer o primeiro post falando da Kapela Ze Wsi Warszawa -- especialmente porque foi a partir desta banda que comecei a levar mais a sério minha busca pela música feita em lugares pouco prováveis. Antes deles, minha maior diversão era apenas colecionar bandas de países diferentes, sem entender muito bem o que isso significava.
Quando encontrei essas músicas -- o que não foi difícil, porque já há algum tempo a banda vem recebendo muita atenção fora da Polônia --, a primeira coisa que me impressionou, obviamente, foi a língua na qual elas são cantadas. O polonês é uma das muitas línguas eslavas faladas na Europa oriental, incrivelmente diferente aos meus ouvidos acostumado com a sonoridade das línguas românicas; parente próxima do tcheco, do eslovaco, é-me absolutamente incompreensível.
Aqui um parênteses necessário: não entender as canções, de fato, não se constitui num problema. É possível ouvi-las e apreender-lhes a mensagem sem aparentemente entender o que dizem as letras. Talvez esteja aí a mágica da coisa toda -- mas não sei ao certo. Fim do parênteses.
Tudo ficou ainda mais incrível quando descobri, com a ajuda de um aluno intercambista vindo da Polônia, que as músicas são cantadas numa variação antiga da língua. O que faz todo sentido, se procuramos entender a intenção da banda.
O nome, Kapela Ze Wsi Warszawa, significa algo como "A Banda da Vila de Varsóvia". A capital do país, apesar de não ser uma metrópole gigantesca, está longe de ser uma vila -- no entanto, o que está expresso no nome do grupo é a sua motivação: buscar nas raízes da cultura popular elementos tradicionais que, fundidos a retalhos de modernidade, recriassem a Polônia para os próprios poloneses. Numa batalha contra a cultura de massa, que impõe determinados ritmos às pessoas, esse pessoal viajou por todo o país recolhendo expressões populares em todos os cantos. Um mosaico de experiências que estavam sendo esquecidas ou, no mais das vezes, ignoradas pela imensa maioria, em função do que vão chamar de narrow-mindedness em seu manifesto criativo, induzida por um comportamento dito de manada.
Dizer, portanto, que são uma banda da "vila de Varsóvia" não peca quanto à lógica daquilo que desejam fazer, ou seja, trazer Varsóvia (e a própria Polônia, de um modo geral) de volta à sua essência, aos seus sons, à sua identidade -- tornada tão fluida em todos os cantos desse mundo nos dias que correm. É, ao fim e ao cabo, uma tentativa de resistência. Mas nada de faixas e gritos de ordem; pelo contrário, música bonita, bem executada, repleta de tambores e flautas que somadas a uma voz que varia de estridente a rouca, resulta numa apresentação incrível da alma de um país que tem uma história repleta de invasões e, conseqüentemente, de tentativas de desconstrução do sentimento polonês -- que tem gosto de batata.
Recomendo fortemente a audição do disco "Wiosna Ludu" ("Primavera dos povos"), de 2002, lançado pela gravadora Orange World.



oi, cara, se você me permite o off-topic, queria dizer que quando vi o nome do seu blog ri comigo mesmo, me lembrando de uma historieta "familiar". quando morava na alemanha, e vivia aproveitando os vôos baratíssimos da easyjet, fiz o "sacrifício" de levar minha mae para conhecer budapeste (ô que saudade). e lá estava eu, entre as delícias de uma viagem com a momi, instaladas eu e a velha num albergue da juventude em que nao há só juventude (muito bom aliás o muquifo, bem localizado e tal). vai que uma tardinha dormitávamos no quarto, depois de ter andando metade de Buda a pé (quase matei a senhora de tanto andar), quando ela senta de repente na cama e diz em alto e bom som: bratislava! cara, quase caí da cama ao lado - hein, como? como nao tive a chance, nem ela, de dar um pulo na eslováquia, pairou uma certa dúvida do porquê de tal exclamacao assim no meio do nada. ela nao sabia explicar. acho que sao os ventos do leste, uma espécie de estado de espírito. ver budapeste sob o sol de outono é visitar um pouco de cada um desses países de sonho - e bratislava, cá para nós, é o nome perfeito.
desculpa o espaco tomado. abraco.
ah, é claro, o nome deve ter vindo pelas águas do danúbio...
haha, um grito assim, saído das entranhas de lembranças que nem mesmo sua mãe, numa noite muito inspirada, saberia explicar é mais ou menos o que imagino que exista por aqueles cantos.
a poeira amarela que paira sobre Budapeste, sobre a qual já li em alguns livros, sem saber se é real, me encanta.
um dia ainda desço o Danúbio, andréa, parando em cada vilarejo e em cada capital; saboreando os sons todos. são os sons, os sons das pessoas daquele pedaço de mundo que me enfeitiçam tanto.
não é um 'espaço tomado', de modo algum. é espaço compartilhado. volte sempre. =)
beijo.