Numa aula rápida sobre polonês hoje aprendi como ler "Ę", "Ą" e que, pra dizer tchau, é só escrever "ćał". Numa aula rápida sobre polonês, se dermos sorte, sempre é possível entendermos um pouco mais sobre como, no fundo, somos todos parecidos. Um mesmo instinto curioso que movimenta o mundo por baixo do verniz. O polonês que me ajudou a ver isso não tinha idéia do que encontraria aqui quando saiu de Koszalin há quase um ano. Veio animado por imagens que pouco correspondiam à nossa realidade, mas que explicava o Brasil aos poloneses.
O que há de impressionante nas descobertas que faço enquanto ouço o polonês é muito parecido com o que há de incrível no que a Larissa contou hoje. A geografia criativa, uma idéia de um teórico da linguagem do cinema - que te leva a Roma, numa caminhada entre Paris e Nova York, ao invés de ao fundo do Atlântico -, é a geografia que paira na imaginação das pessoas de um jeito muito semelhante a como desde sempre. Apesar dos tempos, de tecnologias de informação, de GPS no carro, de Google Earth, de uma propaganda pesadíssima sobre a "aldeia global", a imensa maioria das pessoas mantém uma relação distante com os lugares que estão além do habitual. Poucos sabem realmente o que está "lá" - especialmente quando o "aqui" é confortável, conhecido, familiar.
Numa perspectiva que passa pelo polonês, pelo teórico do cinema, pela esquina incógnita, por atravessar barreiras, penso o "ser geógrafo" como algo ainda envolto num mistério antigo; sou aquele que existe para acabar com os "estereótipos geográficos". Aquele que te conta certas peculiaridades distantes com a intimidade de quem vive diversos cotidianos. O "grafar" ao qual me disponho não é mais o mesmo a que se dedicaram tantos outros antes de este mundo se tornar um único ecúmeno¹. Hoje já não preciso de grandes descrições de um todo amplamente conhecido - me ocupo em compreender como as partes se relacionam entre si e com esse todo.
Às outras pessoas, no entanto, a relação que permanece é com seu entorno. Quanto mais distante estiver o "lá", mais imaginação entrará no processo que cria a imagem do tal lugar. Mesmo hoje; mesmo depois de tudo - caravelas, séculos, guerras, internet -, o que o outro representa para nós é feito em grande parte da mesma imaginação que permite Roma entre Paris e Nova York. A Polônia não existe, a não ser como resultado das histórias de Koszalin que ouço, da atmosfera que algumas músicas criam, do "ćał" que pronuncio com o sotaque de um país que do ponto de vista dos poloneses, igualmente não existe por si.
_______________
¹ 1) diz-se de ou área geográfica que é permanentemente habitada pelo homem; 2) o todo em oposição às partes; o geral, o universal.



tralalá. 'tô aqui.
no discurso presidencial da UGI (na década de 40, 50? não lembro) o geógrafo Wright escreveu que o que move os geógrafos (e os afeitos ao geografar) é o canto da sereia: a sereia cantando, seduzindo, te chamando pra lá. É querer saber (sentir nos poros, no calcanhar que dói de tanto caminhar/explorar) o que está lá (e pq está lá, como está lá, que é lá).
(eu tenho este texto do Wright, riso)
e comentário obscuro: vc é humanista (e não sabe).
então caí (caimos) no Canto de Ossanha da Geografia. fui perceber isso tarde; digo, "tarde", porque não é mesmo tarde.
bem-vinda. =)
ps: se eu disser que esse texto foi escrito tendo por pano de fundo o seu orientador, Sumaré e Campinas, vai parecer ainda mais estranho. então não digo. (mas foi.) talvez eu seja. em quem disse que é só um ou outro?
geografia.milton santos. know how. know why.
[esquenta nao. tenho habito de andar por ai resmungando]
fique à vontade, Jorge. sobre o Milton ainda falo... ou resmungo junto, sei lá. =)
é, ser um ou outro não é possível mesmo. risos.
obs.: mostrei o post pra eduardo e ele disse que realmente, parece que vc leu Wright pra escrever o post. e ele tb disse que gostou do blog.
:)
pois diga ao Eduardo que é sempre bem-vindo, inclusive pra dar pitacos. =) seria um prazer.
e, ó puxa, a Fernanda concordou comigo. haha. ora viva. =P
gaaahhhh!
eu só voltei pra salvar minha reputação! eu não sou uma 'do contra' inveterada!
é tudo baseado em reflexões sériíssimas sobre existencia plena, ceticismo, universalidade, parcialidade e condição humana (de existência).
afe. até cansei de mim.