devo estar enganado, mas acho que estava invadindo uma casa. penso que com algum sucesso, já que lembro de ouvir a sirene e, de repente, as janelas explodirem; fui carregado pelos braços pra fora e uma luz muito forte só me deixava entrever o azul tosco das viaturas. gritavam comigo. muitas vozes e um burburinho de rádios indecifrável.
parece que sentado no banco de trás do carro -- que corria muito -- via relances de rostos assustados. não me conheciam, mas estavam familiarizados com o barulho das viaturas: o ronco propositalmente alto dos motores, o apito agudo e os gritos pedindo passagem que os soldados cuspiam, pendurados nas janelas. o motorista do carro onde eu estava falava ininterruptamente comigo algumas frases soltas e muitos insultos -- parecia muito alterado, muito satisfeito.
não sei porque invadira a casa. disso não me lembro. houve uma explicação no sonho, um começo, mas o dia inteiro se encarregou de deixar somente uma lembrança pálida. conversava com alguém, alguns momentos de dúvida e, logo em seguida, estávamos na casa a ser aberta.
chegamos ao prédio que um dos guardas disse se chamar "Quartel do DOI". era uma construção quadrangular de dois andares, com uma grande área aberta no centro. em cada andar, muitas celas -- ou quartos --, dispostos com as janelas para a tal área aberta. lembro de ter pensado: "podia ser pior, ainda bem que tenho diploma". um segundo depois, não era mais esse prédio. era um lugar subterrâneo, escuro, frio, barulhos de gotas caindo... paredes altíssimas. e eu (ou aquele que supus ser), sentado num canto, abraçando os joelhos.
não demorou muito, ouvi as grades se abrindo e eram quatro homens. usavam coturnos sujos. dois deles seguravam cassetetes, um terceiro empurrava uma espécie de carrinho de compras e o último, na minha direita, trazia fios e um grande alicate. ao me cercarem, os dois que empunhavam cassetetes me levantaram e arrancaram minha camiseta. o que levava o carrinho deu uma risada e disse algo em uma língua que não reconheci -- que soou próximo ao meu ouvido, apesar de ele estar do outro lado da sala (ou cela, não sei bem).
no segundo em que o dono dos fios se aproximava, rindo muito e gritando, um barulho qualquer me despertou.
olhei pro lado, esperando o choque (imagino que era isso que pretendiam), mas só vi o relógio marcando "07:02". ainda tinha mais quarenta minutos de sono. preferi levantar e beber algum café.
e agora não sei se quero deitar de novo.



Esses sonhos que atentam contra a integridade física do indivíduo dão uma sensação de impotência terrível. Pior que a agressão em si é não poder fazer nada, não ter por/para onde fugir, não correr rápido o suficiente, etc. Embora não deixe de ser uma experiência interessante.
não sei se quero mais, Bruno. na teoria pode ser interessante, mas acho que passar por aquele desespero de novo -- além do dia inteiro que ficou estranho por conta disso --, acho que melhor não.
virou uma história. tomara que filha única.
abraço.