radical

Nem sempre as aulas são bem sucedidas. Seja por um motivo externo à escola ou particular, seja por interferência dos alunos que naquela manhã pouco estão interessados na geografia da África, em algumas manhãs, as aulas acontecem de jeito torto.

Às vezes saem mais ou menos como planejamos. E que alegria falar e ser ouvido, explicar e ser entendido, pretender confundir e de fato conseguir...

Ao mesmo tempo, existem assuntos mais interessantes que outros para os alunos -- e mesmo para mim. Algumas aulas me empolgam mais do que outras. A de hoje, no segundo colegial, me empolga muito: uma apresentação sintética do continente africano; desfiando um rosário de atos desumanos, o desrespeito pela própria essência da vida, os direitos mais básicos ignorados em nome do lucro e da cobiça de estrangeiros, etc., etc., e outros dramas. Vou jogando a eles nomes de países que jamais sonharam existir, vou citando ditadores e monstros, vou criando a imagem de um continente largado à própria sorte, chego a ficar sem fôlego e a cada momento, inadvertidamente, costumo ouvir suspiros de comoção e inconformismo.

Costuma ser uma aula sufocante para todos. Hoje, no entanto, não foi. Hoje mais parecia que eu ditava uma receita de bolo qualquer. Hoje não consegui ser o professor que me propus a ser quando tudo isso começou.

E ficou pior.

Numa alternativa desesperada, apelei para um argumento que sempre rende boas discussões: a globalização. Apresentei um único dado, que costuma ser um bom início: o fosso abismal da distribuição de renda nesse país tropical (que diz: 1% da população detém 15% da renda nacional, enquanto 60% das pessoas divide apenas 13%; sendo provavelmente inexato, mas indiscutivelmente impactante). Apenas para descobrir, minutos depois, que todo meu esforço (e cheguei a transpirar) resultaria em risinhos e chacotas sobre meu "radicalismo".

"Professor, você é muito comunista" -- disse um deles, com ênfase irônica no negrito.

Não tenho a menor intenção de fazer panfletagem nas minhas aulas. Longe de mim. Gosto da discussão e do debate de idéias saudáveis. E, de fato, sou "muito comunista". Mas nesse caso, hoje, saí daquela sala me sentindo um pouco incompetente. Não por não ter "convencido" os alunos, mas por não ter conseguido transmitir minha mensagem de um jeito adequado. A África continua morrendo à míngua e meus alunos daquela sala pouco se importam.

2 Comments

Sempre uma surpresa: qdo menos se espera, a aula é perfeita. Ou não.

Acho que o que me deixava totalmente esgotada, qdo dei aulas, era fazer a manutenção da sensação de fracasso e vitória a cada aula, em cada série, a cada fim de 50min. De um momento pra outro a sensação de sucesso é sobreposta pelo fracasso.

O bom é que dia seguinte é outro dia, talvez venha um sucesso. Aí que alegria em dar aula não?

Te entendo, pois dou aula de ética. :-)

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esta página contém um post de Thiago Gonçalves publicado em abril 23, 2008 1:48 PM.

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