Escrito na folha de rosto de As cidades invisíveis, de Italo Calvino.
Este livro é pra que você poupe o céu de seu levantar de rosto, de seu franzir de cenho e de seu olhar inquiridor e errante sobre as nuvens.É pra você poupar o céu de fitar teu rosto franzido. É pra você voltar os olhos para baixo e inquirir Marco Polo e Kublai Khan. Este livro é pra que você possa descobrir (absolutamente) todas as cidades possíveis e impossíveis grafadas sobre o mundo.
Mas vá lá que, talvez, ao ler a descrição de uma ou outra cidade, você acabe, novamente, por voltar o rosto pro céu e inquirir nuvens. Talvez seja por isso que você deva ter este livro.
Um presente da Fernanda, que veio com o livro junto.
Geografias fantásticas nos relatos de Marco Polo ao imperador dos mongóis. Cidades de desejo e de memória. Porque cidade é algo apaixonante; o veneziano sabia disso, o khan descobriu prontamente. Tenho a impressão de que estudá-las exige toques sutis de poesia -- poesia do concreto, poesia de sentir. Não concebo compreender cidades sem procurar pelo que não está expresso. Já disseram sobre as intenções que moldam o espaço (os objetos ficando não necessariamente onde deveriam, mas onde querem que fiquem); vai além.
Um cruzamento de avenidas, não é apenas isso. Pra descobrir o além (e eu acredito que seja esse o grafar de que se constitui o "termo geográfico"), não basta ter olhos para o que está impresso; porque é preciso perceber o cruzamento de avenidas no entendimento da moça que está ali, na janela, observando a criança que vende balas no farol, enquanto conversa com um amigo ao telefone e lhe descreve a cena. Nesse enredo, nesse novelo -- é aí que está a geografia que eu quero, que eu acredito existir.



amém.
amém?
a minha cidade preferida é ercilia.