sobre a moça do telemarketing

Já não me lembro quando foi a última vez em que passei um fim de semana trabalhando. Há anos optei por não mais deixar meus domingos (e sábados, como não?) passarem em vão, meramente semelhantes a qualquer "dia útil" - como se fossem tragicamente inúteis os dias dedicados a relaxar, fazendo qualquer outra coisa que não trabalhar.

Foi uma escolha. Alhures há até quem opte por continuar a toada semanal durante os dias pretensamente dedicados ao descanso. Nos últimos tempos, é preciso que se diga, para alguns, certo glamour foi adicionado ao fato de, inexoravelmente, estar obrigado a permanecer trabalhando horas ininterruptas para, enfim, dar conta da quantidade de idéias, telefonemas, e-mails, prazos, clientes, genialidades... É, como se diz, "chique" estar atarefado nas horas previstas para, inclusive, a procrastinação a que me dedico tão ferozmente.

Tudo isso faz muito sentido num determinado nicho da sociedade que encontra nesse tipo de comportamento respaldo e similitudes. Funciona mais ou menos como encontrar outro amigo que também era sempre o último a ser escolhido no futebol, aquele cara que também fazia fitas K7 piratas com as músicas mais incríveis dos vinis que o primo rico trouxe da ida aos Estados Unidos, alguém que também goste de pão francês com Toddy (ok, achei poucos assim até hoje). Significa reconhecer-se no outro através de comportamentos comuns, na maioria das vezes reduzir a amplitude do mundo a apenas esse desdobramento e, de um modo bastante eficiente, fazer outros (fora desse grupo) acreditarem que bom mesmo é comer pão com Toddy ou "ser produtivo" num domingo. Poucas coisas me desanimam tanto quanto "ser produtivo", especialmente num domingo.

É compreensível (e é desnecessário dizer que generalizar implica em ignorar exceções algo óbvias) que para alguns - mesmo entre aqueles que podem escolher - seja impossível ignorar o trabalho durante os finais de semana. Mas há um ponto que precisa ser levantado. Entre aqueles que trabalham aos sábados e domingos, há quem decididamente não optou por isso. Porque, para que haja a possibilidade da escolha, é preciso que existam condições pretéritas. É possível pensar em uma herança gigantesca, que te permita flanar mundo a fora, sem qualquer preocupação mais presa ao chão - mas quantos têm esse abono histórico? No mais das vezes, o que condiciona as possibilidades de escolha é o estudo. Não o estudo oferecido às massas, deficiente e cabresto nas horas mais cruciais; mas a chance de conhecer e, em função disso, almejar conhecer ainda mais, de tomar contato com os milênios de produção intelectual, seja em bancos de escola ou devorando livros e engolindo conversas por conta própria.

Quantos dentro da sociedade em que vivemos e que construímos cotidianamente podem dizer: conheço e almejo conhecer mais? Na medida em que a imensa maioria queda-se alijada do processo, servindo apenas como burro de carga que a tudo carrega nas costas sem reclamar, temos que a Vida, esta, maiúscula, acaba sendo dividida, segregada, desconstruída, descaracterizada - num movimento que cria vidas, agora minúsculas, valorizadas diferentemente. Enquanto a uns é dada a chance de escolher, a outros, ficam os restos. Numa mirabolante reviravolta mental, passamos, inclusive (e tragicamente), a naturalizar essa situação. E aqui mora todo o perigo.

É-me completamente plausível e nem um pouco assustador o fato de que, enquanto assisto a um show em praça pública, gratuito, de um artista qualquer, uma senhora - com seus mais de 60 anos -, ou uma criança, fique perambulando entre as fileiras de expectadores, numa noite gelada de inverno, recolhendo latas de alumínio que deixei pelo chão. Torna-se natural dentro da minha perspectiva, inclusive, esperar que aquela pessoa e seu saco apareçam, porque, penso eu, melhor recolhendo latas e fazendo algum dinheiro, do que me roubando. Acostumamo-nos a uma visão absurda e torpe do mundo: na qual a pretensão individualizante acaba extinguindo a própria dimensão do humano. Vivo na crença inabalável de que o que sou e/ou o que faço, basta.

Essa naturalização do comportamento individualizante, que destrói a visão "humanizadora" do mundo, cria situações em que simplesmente ignoramos (e essa expressão é a mais exata) a existência do outro. Passamos a desconsiderar que o outro, como eu, tem suas expectativas, seus sonhos, seus medos, suas angústias... Reduzimos tudo àquilo que a mim faz alguma diferença. E aí fica fácil justificar para si mesmo pessoas vivendo em favelas, um continente inteiro à míngua como a África, um celular no bolso mais caro do que três vezes o salário mínimo de três quartos da população brasileira - a noção bastante equivocada de que meu dinheiro, comprando um serviço, compra quem me oferece o serviço.

A primeira coisa que digo a todas as classes onde entro para dar aulas é: eu não sou empregado de vocês, nem dos pais de vocês, porque pagam mensalidade nessa escola; sou, no máximo, empregado da escola, a quem presto serviços como profissional liberal, portanto, em qualquer discussão futura, não me venham com esses argumentos. (Porque em algum momento eu tenho que parecer bravo - mas isso dura quinze minutos.)

Esquecer o Humano em detrimento de certas individualidades - e com isso cometer injustiças e incoerências - está na base do que o capitalismo, na forma da globalização, acaba por destruir em todos e em cada um, aos poucos. A racionalização das relações humanas, que naturaliza crueldades e torpezas, está desfazendo nossa chance de um mundo mais feliz.
Se a escolha entre defender um mundo comunista ou um mundo capitalista residisse apenas em considerar ou não a essência humana que há no outro, saber reconhecê-la e respeitá-la a todo custo, minha escolha já estaria feita há muito tempo - e sem dúvida penderia para o lado em que ter consciência de ser não significaria me isolar nessa certeza frágil e fria.

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Este texto foi escrito a partir de inquietações fomentadas por uma conversa via Twitter com o Doni há alguns dias. Expandindo horizontes daquilo que ficou bem restrito nos poucos caracteres da microblogagem.
O Bruno também gastou ali alguns minutos para aprofundar seu ponto e, obviamente, assim que o Doni escrever seu texto, ele será linkado aqui com todo prazer.

1 Comments

É por isso que adoro o Twitter. Uma reclamação a respeito de um diálogo levou a um debate, e eu adoro debates. Olha, eu entendo seus argumentos, de verdade, mas são tantos os pontos em que discordo e vejo outros argumentos que minha cabeça vai explodir. O que é ótimo, porque só vai garantir um diálogo melhor entre nossos textos... Escreverei desenvolvendo as idéias, para logo. Por enquanto, acho que vou só transcrever o diálogo.

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