polegares opositores

"Aula de guerrilha" é um conceito estranho (que nem sei até que ponto já foi usado), ainda mais vivendo tempos em que as ações de guerrilha têm sido utilizadas de maneira tão irresponsável apenas como mais uma forma de impulso ao consumo desvairado. No entanto, tenho a impressão de que foi o que se passou nesta manhã numa classe.

As crianças, de um modo geral, andam anestesiadas por tamanha onda de informação e virtualidade. Os problemas que minimamente afligiam gerações anteriores hoje sequer chegam a ser mencionados em conversas de intervalo. Não se interessam por abrir seus horizontes ou tocar com alguma profundidade em certos temas que repelem entre zombarias e troças.

Em nenhum outro estrato social a indiferença em relação ao outro (algo que me perturba muito) é tão facilmente perceptível. O individualismo sugerido e, certamente, suscitado pelo mundo (pós-)moderno acerta em cheio as cabecinhas na maior parte do tempo acríticas - que, sem maiores dificuldade, interiorizam certos comportamentos que no mais das vezes nem sabem direito de onde vêm e/ou quais são seus "motores" ou intencionalidades finais.

A aula, nascida numa noite insone de devaneios e visões confusas, compôs-se de três partes:


  • Introdução silenciosa [ou Assistindo ao curta-metragem "Ilha das Flores" (1989)];

  • Instrução à desarmonia [ou Incitação ao barulho e à confusão];

  • Percepção dos contrastes [ou Indefinição de moldes].

A primeira parte consistiu, basicamente, na permanência quieta em sala para assistir aos pouco mais de treze minutos do curta-metragem mais famoso deste lado do Atlântico. Quem, desde 1989, deixou de ver "Ilha das Flores" na escola, afirmo, não pertence a esse mundo. Sou capaz de recitar falas do filme, tantas são as vezes que já o vi - como aluno ou como professor. Exclamações foram permitidas e, inclusive, encorajadas pelo não-sossego do professor, que se remexia todo na cadeira nas passagens mais trágicas. Houve alguma comoção - que permaneceu em stand-by até voltarmos à sala, aptos a dar prosseguimento.

É preciso que se diga. O desenrolar do bimestre trouxe para a ordem do dia o tema da fome. Durante algumas aulas, em que foram expostos conceitos básicos sobre agricultura (como meio de sedentarização lá nas Antigas, comercial/moderna, como fruto de exploração da terra...) houve um pulo rápido e necessário para a ligação da produção de comida (em quantidade imensa, até exagerada) com a produção da fome.

A desarmonia instaurou-se quando, num círculo, pedi que todos respondessem ao mesmo tempo as perguntas que comecei a fazer. Pedi para que não gritassem, que apenas falassem, como se conversassem comigo normalmente. O resultado: um amontoado de vozes que respondiam sem entender o que diziam a perguntas aleatórias que eu fazia, enquanto girava pelo círculo, sem interromper o movimento nem as questões (com as exceções dos momentos de riso incontroláveis). Nesse emaranhado de respostas e perguntas, criei para eles a imagem de uma mesa farta, à espera, repleta de tudo quanto eles próprios mais gostassem. Num último momento, disse a eles que, por mais que tentassem, a comida nunca podia ser alcançada. Eles tinham fome, a comida estava lá, servida e convidativa, mas inatingível. Vi rostos se contorcerem tentando pegar a batata frita.

Depois disso, levei a imaginação dos pequenos para um lixão. Pedi que descrevessem o espaço, as sensações - ainda no burburinho tremendo. Fizeram. E enquanto faziam e começavam a sentir nojo do que eles mesmos criavam, fiz entrar na cena um caminhão de lixo (cor de rosa, segundo uma das meninas) que, sem aviso, despejou ao lado deles grande quantidade de restos de comida. Aquela comida (agora lixo) podia ser alcançada e a fome era ainda maior do que antes. Eles não tinham opção. Vi com surpresa meninas e meninos tamparem os rostos desfeitos em caretas de asco com as mãos. Eles estavam fuçando o lixo em busca de comida - exatamente como os "seres humanos da Ilha das Flores", sem os porcos.

Quando abriram os olhos e se assustaram com a luz, pedi que descrevessem com cinco (ou mais) palavras o que sentiram, que escrevessem essas palavras num pedaço de papel e que dobrassem, sem que ninguém visse. Me entregaram esses papéis e eu redistribuí os "segredos" entre todos - misturando. A terceira parte, que finalizou o exercício, consistiu na leitura para todos do que estava escrito em cada um dos papéis e nas caras de espanto que se seguiam aos "Olha! Eu também coloquei isso!" ou "Como assim?".

Tentando trazê-los pra perto de um problema que aflige milhões de pessoas, me surpreendi com o resultado. Crianças que têm do bom e do melhor, desesperadas pensando no que poderiam fazer pra, no mínimo, ajudar o pessoal que sobrevive recolhendo restos de comida em lixões, enquanto (e eles sabiam disso) tanta comida é produzida no mundo - sem nunca chegar às bocas que têm fome.

Me coube o trabalho de rescaldo. Tratando de acalmá-los e pôr seus pezinhos de volta no chão. Não sem deixar com eles alguma bagagem. Intenção conquistada através de um método, talvez, pouco ortodoxo mas eficiente na sua capacidade ímpar de pô-los em contato com um lado que não costumam experimentar do mundo. Me atrevo a chamar de "aula de guerrilha" essa iniciativa, porque foi um choque, mas um "choque produtivo", frutífero - para eles e, obviamente, para mim.

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Se o player do Porta Curtas não funcionar, sempre podemos recorrer ao YouTube, onde o curta foi dividido em duas partes: primeira e segunda.

Os verbetes do filme na Wikipédia e na Desciclopédia (e seu humor questionável), com contabilização de exibições em alguns colégios.

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