Estar numa sala de aula congrega uma quantidade imensa de responsabilidades e compromissos. Saber que o trabalho realizado pode (porque, infelizmente, é apenas uma possibilidade) vir a render frutos que nem de longe eram esperados, nos dá - a nós, professores - uma tarefa real e sensível, sem medida de importância e relevância, dentro do quadro da sociedade. Ainda mais hoje, e sobretudo hoje, quando as interferências/influências tornaram-se tão absurdamente poderosas a ponto de o simples fato de saber reconhecê-las aparentemente configurar-se num ato propriamente revolucionário*.
Ao notar essa fundamental e crítica função social dos professores, estando dentro do sistema, surgem novas e ainda mais cruciais escolhas a serem feitas; que podem ser resumidas a: 1) tratar de ignorar a tal função (note-se que por opção consciente) ou 2) deixar (conscientemente, por certo) a cabeça explodir - e, portanto, estar engajado, não-livre (mas liberto), fluindo e flanando sobre o mar de silêncios, anuências e acomodações.
(Eu ainda não sei aonde vai me levar essa cabeça que jaz em pedaços.)
Optar pelo mais difícil significa entender (e defender esse entendimento) que o trabalho a ser desenvolvido vai muito, mas muito além daquilo que, por força de lei, me vejo obrigado a ensinar aos pequenos. Passa por admitir-se um lavrador de sonhos, de chances - em última instância, para desespero de alguns, de mentes. Um serviço verdadeiramente abnegado, feito de lágrimas e ideologias; numa ordem incerta, que porá à prova as últimas em função das primeiras.
Repetir incessantemente ladainhas sem fim, cantilenas, esperando pelo melhor, ou seja, que dentro do imenso grupo, sempre tão heterogêneo (e por isso, justamente, microcosmo do todo), surjam algumas reações, ou poeticamente, algumas pérolas a partir dos grãos semeados. Poucas, mas multiplicadoras em seu élan intrinsecamente revolucionário, como se disse.
É esse o "trabalho de formiga" a que se referem os professores cujas cabeças já explodiram. Trata-se do fruto dessa insistência, parte imperceptível do todo, mas infinito nas suas miúdas significâncias - certamente relevantes - para a formação da totalidade.
Ignorar não facilita, como é óbvio pensar. Isso porque apenas transforma esse compromisso numa assombração recorrente. Não há inocentes no processo; nem inocência tampouco.
As dúvidas são sempre e tantas. Saber decidir solitariamente se a insistência merece ainda e mais uma vez ganhar corpo constitui-se, a meu ver, neste ponto da minha experiência, como o maior desafio dentro dessa profissão. Uma profissão que não é como as outras, posto que trabalhar com Educação obriga ao contato diário com o Humano. Supõe a (des)construção do cabedal prático, teórico, moral - cultural, em última instância -, que será em grande parte definidor, durante os anos passados nas salas de aula, do tipo (e dizendo assim fica mesmo muito ruim) de pessoa que conduziremos para dentro da sociedade.
A partir do momento em que essa função social fundamental do professor é ignorada ou, como vem acontecendo repetidas vezes, subvertida em função de certas determinações, digamos, de cunho mercadológico, o conjunto da sociedade passa a perder significativamente. Nas manobras comandadas por grupos perseguindo seus interesses (nem sempre em sintonia com as necessidades da maioria), o entendimento dessa antiga e nobre atividade vai se perdendo em meio a "refuncionalizações"; que por sua vez, criam "tipos" de pessoas (e de sociedades, conseqüentemente) bastante alquebradas, bastante mudas, bastante úteis ao ciclo a que pertencem - sem saber que pertencem, sem querer saber, sem nada.
Somos, enfim, um exército de enganados.
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* Revolução essa que diz respeito a mudanças individuais de entendimento e compreensão do Mundo e daquilo que o compõe, sem necessariamente significar a imposição, com base na força, dessas novas concepções aos outros ou, ainda, a todo conjunto da sociedade.

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