¿Cuba libre?

De estar em la vieja Habana e ter que cumprir os prazos de entrega dos mantimentos para Cienfuegos, sem repouso, aparece um som qualquer vindo no alto de um daqueles prédios baixos ao lado del Malecón que te obrigam a parar por uns minutos e esquecer compromissos e o plano de fuga do conhecido do primo daquela guajira que conheceu na noite anterior. Ela te contou mas se perguntarem, nunca vi mais anti-revolucionária.

É um som macio. Batidas leves em timbales e "gum guns". Um senhor vai cantando com voz grave (e por isso mesmo, carinhosa) uma música que te cala fundo n'alma.


Lleva en su alma La Bayamesa
tristes recuerdos de tradiciones
cuando contempla sus verdes llanos
lágrimas vierte por sus pasiones.

Vai tudo ecoando: tres, timbales, alaúde cubano e vozes. É com cenho grave que passa por baixo da sacada um senhor antigo, suas calças tão puídas quanto sua testa; ouve e não compreende de pronto. La Bayamesa que conhece é cantada nas escolas e em ocasiões da aparição de El Comandante - mas aquela, mais doce, igualmente poderosa, subverte a letra ainda que remeta aos versos tão conhecidos.

As ondas acertam em cheio a amurada.

Não é fácil distinguir os sons. A rua é muito barulhenta. Mas está ali, naquela voz muito séria e compenetrada, a essência de um país todo. É com um amor incompreensível que a música é cantada. Amor pela Ilha.

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De onde digo, eu, que compreender a essência da palavra liberdade passa longe da capacidade humana. Não está a meu alcance descobrir-lhe o sentido se, desafortunadamente, não a vejo com os olhos nus. Afirmo (com medo): não há liberdade senão aquela que parte de si. É uma conquista e um fardo que se constrói de dentro pra fora - sendo que suas muitas interpretações não são mais do que esboços tortos de um desenho belo demais. Não há como.

É livre quem não tem o que comer? Não. Como não é aquele que come, mas não pode pensar por si. Mas, ainda que uns tenham a garantia da possibilidade de orar a seus deuses ou escrever seus jornais, não estariam presos a outros grilhões, menos óbvios - que legitimam, porque está aí sua segurança, a mão-firme que mantém suas existências num prumo conhecido e de poucos sobressaltos? É uma questão que precisa de tratamento muito cuidadoso. Mas costumam erguer bandeiras defendendo pontos de vista que carecem reflexão.

Não está a Liberdade circunscrita a um modelo. Não é escravizando vidas em função desse modelo que a Liberdade sairá plena em suas possibilidades efetivamente libertadoras. A construção da idéia precisa partir de si. Liberdade maior e, de certo modo, verdadeira é aquela conquistada de dentro pra fora. Nascer preso a um modelo a priori não te transforma em livre, ou melhor, torna-te um liberto dentro de uma jaula.

Quando se diz que o ideal é a posição de observador, aquele que à revelia das imposições salta para longe da situação a que se vê subjugado, não pode haver percepção mais correta. Apontar a falha de outros estando mergulhado em uma situação falha (justificando-a), não pode ser completamente correto.

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O som das ondas no Malecón torna a encher os ouvidos. A música já não se ouve mais. Morreram. Mas existem em pequenas pérolas. Estavam ali, o tempo todo, sem que os notassem as pessoas e suas vidas (presas-livres). Um que as percebeu trouxe à luz e sem mais logrou sucesso - que não é fácil medir. Têm qualidade e são preciosas as peças musicais. Mas vai além disso. Muito além. Porque refletem o amor por um país inteiro, algo que não entendem os que não ouviram as ondas, o tres, suas vozes e algo de um mistério que, inerente, confunde ou (tragicamente) dá certezas.

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Escrito porque assisti ao documentário "Buena Vista Social Club" e sou um apaixonado por esses senhores; mas, também, porque li este post do Pedro Dória - ao qual, obviamente, não pretendo corrigir ou condenar, apenas reverberar em outro sentido. Ou no mesmo. Não sei bem.

diga lá:


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