A semana está acabando e foi assim.
Começou com o show do Radiohead e tanto choro e muita dor. Mas foi um grande show, sem a menor sombra de dúvida e não tenho mais tantos elogios a fazer - boa parte deles está aqui, o que torna qualquer nova tentativa em esforço desnecessário.
Na segunda-feira eu não trabalhei, e muita coisa aconteceu num dia só. Acordei em São Paulo e dormi em Pedreira, com muitas escalas no meio do caminho. Quando finalmente parei, a cabeça girava com tanta informação. Por exemplo, saber com alguma certeza de que até a linha amarela do metrô ficar pronta, a Chácara do Jóquei não é um lugar decente pra ir assistir a shows. É muito longe. Mesmo se você está acostumado a andar por São Paulo atravessando o mundo pra chegar aos lugares. Não vá até lá com o seu cavalo - o coitado não merece essa jornada. E a grama nem é tão verde.
Depois, trabalho. E eu sou professor - o que implica em acordar muito cedo e ir ter com muitas, mas muitas crianças. Mais do que isso, porque não é simplesmente estar lá com elas, batendo papo e contando que a linha amarela do metrô paulistano não está pronta, que o José Serra desalojou um monte de gente por causa de uma obra mal feita, que ninguém saiu culpado dessa história e que, horror!, querem que ele seja presidente do país. Não é isso. Eu tenho que ficar lá na frente deles ensinando coisas. Claro que falar sobre o metrô, falar mal do José Serra, do PSDB, das políticas públicas podres desse partido podre, do show do Radiohead, é ensinar - mas me obrigam a falar, por exemplo, sobre conceitos demográficos (população relativa, população absoluta, crescimento vegetativo e coisas tão chatas quanto). "É o que está na apostila e precisa ser dado". É o "conteúdo". E mães mandam bilhetes nas agendas dos filhos se o "conteúdo" não é cumprido à risca.
"Conteúdo" o meu ovo. Mas os caras me pagam pra isso e eu, uma puta da educação, não tenho muita opção. Ensino sobre conceitos demográficos. São uns quatrocentos alunos - e eles precisam saber do metrô, das coisas erradas do governo José Serra; não sobre taxa de natalidade, assim, crua. Se eu pudesse juntar as duas coisas e falar sobre metrô+natalidade, porra, seria fenomenal - porque aí eu teria chance de falar do show -, mas não me deixam, porque existem as apostilas e elas têm prazos e datas e. Então fica um pouco complicado.
Mas nem sempre é isso. Porque a gente precisa do caos. "A gente não quer eles quietos" aprendendo sobre as feições geomorfológicas da América. A gente quer eles andando pra lá e pra cá dentro da sala, experimentando, atrapalhando a professora na sala ao lado (que devia estar ensinando alguma coisa sobre números primos) e aprendendo - apreendendo, assim, a vida. Porque senão é sentar e esperar bater o sinal. Uma hora ele bate, mas tem uma diferença crucial entre esperar ele bater, sentado, resignado, e espera ele bater cansado, suando, depois de ter feito o moleque notar que, sim, existe uma relação direta entre a música que ele gosta de ouvir e a geografia, essa que eu tento mostrar pra ele - longe, muito longe das porcentagens e dos índices. Eu odeio índices. Se você, durante uma conversa, fala em números, eu paro de te ouvir. Sem o menor constrangimento. Acendo um cigarro e vejo a Billie Holiday sorrindo e cantando. É muito mais divertido e significa muito mais pra mim.
Devia significar mais pro mundo. Viveríamos melhor. Sem índices e com as divas do Jazz flutuando entre nossas cabeças. Cantando e sorrindo.
Eu fiz eles me contarem, em poucas linhas ("Atividade chupeta", era o nome do... exercício?), o que eles sentiam quando escutavam suas músicas preferidas. Que escrevessem livremente e me contassem o melhor possível como era escutar aquela música. Sem me dizer o nome da música, porque essas crianças andam com um gosto terrível pra músicas.
Eles escreveram e os resultados, se não excepcionais, me deram a medida das coisas que eu esperava: apesar de ouvirem músicas ruins, existe a possibilidade de um dia eles pararem por sete minutos e contemplarem a beleza que é Ella Fitzgerald sendo genial - e seus óculos fundo-de-garrafa. Está ali, escondido, mas está ali essa possibilidade. Tanto que quando a música que tocou fui eu quem escolhi, as reações foram maiores e melhores (em quantidade e em qualidade). Escrevam mais e, que lindo!, se surpreenderam ao descobrir que existe algo além e que, sim, eles podem gostar das músicas que o professor maluco escuta. Vi olhos lacrimejando (além dos meus) enquanto assistíamos ao Justin Vernon cantando à capela. Isso não tem preço - e nenhuma apostila inspira professores a agir assim.
Odeio apostilas.
Então, cansa. É massacrante, porque só dá certo em 20% das vezes. Você vai criar e na sua cabeça vai ser mágico, perfeito. Na hora, quando os outros precisam comprar sua ideia, nada vai acontecer como programado. O caos é meu amigo, companheiro de aulas, mas ele cansa, às vezes. E apesar disso, não me vejo fazendo outra coisa.
Agora fico aqui, ouvindo o disco novo do Mastodon. Amanhã não tenho hora pra acordar e essa sensação é das melhores que posso ter. Não ter horário. Porque o difícil não é acordar cedo, é ir dormir sabendo disso.
Mas o disco. Fui apresentado ao Mastodon ouvindo "Leviathan". E me surpreendi ouvindo uma banda de metal progressivo e curtindo muito. Ouvi acompanhado pelos melhores comparsas e, dizem, a chama do metal acendeu em meu peito tão dedicado ao folk e ao rock alternativo. Esse disco novo, "Crack the Skye", é diferente daquele. Me parece que tem mais guitarras e mais "gritos". A faixa seis, que dá nome ao álbum, é uma mistura estranha de coisas que costumo ouvir com esses "gritos" (que vêm entre aspas porque provavelmente têm um nome correto, que eu desconheço). Sou um "ser não-metal", mas não nego a qualidade dessa banda e que ouvindo essas faixas ganho uma força qualquer, um ânimo diferente. É bom. Diferente do primeiro que ouvi, mas bom, sem dúvida.
[São os amigos que têm dado o tom aos últimos tempos. Um tanto de referências novas e descobertas maior, muito maior do que eu.]
Foi uma grande semana.

que bom que vc anda semeando o caos na mente das crianças. adoro.
:]
me irrita é esquecer, às vezes, de ler o que eu realmente gosto de ler, como seus textos. e perder tempo com alguma coisa desnecessária, quando poderia estar aqui.
(meu leitor de feed às vezes me acha e me traz de volta ao real. ou ao sonho, sei lá).
abraço.
vou fazendo o possível, Fer. ;)
poxa, mas volte sempre, Clarinha. é uma alegria saber que você anda por aqui e que gosta do que encontra. :)
beijo às duas.
Ainda estou pensando na tal "Atividade chupeta".
E confesso que fiquei com uma puta inveja (mas daquelas boas) de você ter ido ao show.Depois quero uma daquelas conversas que você chega e diz "oi,Lia" e sai contando coisas.Não consigo adicionar o seu blog no meu.Que coisa.Como dizem por aqui "tá-se bem".Pois...
=*
Thiago, vim parar aqui por indicação de Madoka, que passou pelo meu blog e comentou alguns posts sobre educação. Você conseguiu traduzir bem a mesma sensação que eu tive quando levei alguns trechinhos orquestrados de "Carmen", de Bizet, pra uma sala de 5a. série no ano passado. Eles leram uma adaptaçãozinha da história em um projeto de leitura que eu faço teimosamente, mandando às favas com muito gosto a apostilinha (sou professora de História). Eles perceberam que o que era pra eles um emaranhado de sons recoberto de preconceitos mil tinha nuances, intenções, mensagens e sensações. Identificamos juntos em cada trecho (Marcha do Toreador, Habanera, etc) as partes da história lida. Foi lindo.
Um abraço!