Eu não sei do lugar - porque eu não estava lá. Entre o que eu escrevo agora e o começo de noite do domingo, morri uma parte e renasci outra. Se tinha mais 35mil pessoas ao meu lado, se choveu ou se fez frio, se os amigos estavam ali pra ser encontrados, se a luzes ou o vento, se a lama... Não sei. Eu não estava lá.
Não sei quais foram todas as músicas. Não lembro de ter respirado por duas horas e meia. Mas chorei. Chorei porque sim e porque foi a recompensa mais incrível por mais de dez anos de espera. Uma catarse minha, em mim - num tudo ao mesmo tempo que.
Tudo doía. O corpo todo, dolorido e amortecido. Em alguns momentos tudo o que estava muito confuso e difuso (com exceção do palco) voltava a ganhar forma, porque a dor de ficar em pé, num piso irregular, insistia em me trazer de volta à Chácara do Jóquei. Mas eu não estava ali - e se a dor rasgava os músculos, a próxima música sempre trazia mais lágrimas e uma euforia contida, silenciosa, como que por respeito.
E não porque sejam deuses de um planeta distante do meu. Eram ali uns meninos, tocando instrumentos e cantando - como tantos outros. Não eram deuses. Mas um respeito pela qualidade do que era apresentado, pela comoção coletiva, pela alegria de estar em pé (por quatro horas, na mesma posição) pra ver uma de minhas bandas favoritas.
Just 'cause you feel it doesn't mean it's there.
Lembro de ter pensado bobamente num momentos dos momentos em que voltei ao chão: "E a mãe do Thom, o que ela acha disso tudo? Como é?" Bobamente.
Fui absorvido pela dor e por um torpor que poucas vezes senti. Balançava o corpo pra diminuir o incômodo e pra deixar a música entrar por todos os poros. Me "alimentando de música", seguindo uma sugestão fantástica de Renmero, que junto com a Bia e a Michele, dividiram comigo a vitória. Mais essa vitória épica.
Você não ganha de mim quando o assunto são vitórias. Nunca.
This is what you'll get when you mess with us
Foram minutos infinitos. Entre uma música e outra a ansiedade me consumia. E nos primeiros acordes, adivinhados, mais uma porrada.
Um coro de 35mil pessoas convencendo a banda a continuar cantando a música que na teoria deveria ter acabado. E eles cantavam conosco. E sorriam. Eu os vi sorrindo e cantando junto. À merda com a modéstia: fomos uma grande audiência. Um coro de 35mil vozes. Catárticas. Entoando mantras. Eles estavam felizes, sorriam - riam! - e se surpreendiam com aquilo tudo.
Mas não vi nada. Eu não estava lá. Aquilo tudo não existiu. Foi sonho, com muitas luzes e uma das melhores bandas do mundo.
Your ears are burning
Denial, denial
Your ears should be burning
Denial, denial
Não quero me achar mais.

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