porque hoje, numa sala de sétima série eu dei uma daquelas aulas que fazem a coisa toda valer a pena. o tema foi "transposição do rio São Francisco" e, sem me alongar no assunto, provei pra eles o tamanho dessa mentira e como existem soluções muito mais eficazes, efetivas (que levam água a quem tem sede), baratas e honestas.
no fim da aula, a classe toda: "thiago, vamos montar uma ong e ir até lá furar poços!", "porque você não se candidata e vai lá furar poços, construir cisternas, usar direito o dinheiro público!" e eu quase chorei na frente deles; mas chorei, depois, sentado numa praça em Amparo, por entender que cumpri meu papel ali.
mostrei a eles que por mais distante que essa questão possa parecer, ela está ligada diretamente a tudo o que está errado no nosso país e que isso tem, sim, influências diretas, mais do que diretas, cruciais, nas nossas vidas, aqui em São Paulo, no Rio Grande, em Minas ou em qualquer lugar. porque é isso o que falta, "só" isso: que nos percebamos, todos, num mesmo barco, à deriva, controlado por pessoas desonestas.
fiz o que o Ministro do STF, Joaquim Barbosa, fez, ao peitar Gilmar Mendes, o presidente daquele tribunal, um canalha, um câncer, um exemplo daquilo que nos leva cada vez mais ao buraco. fiz, com muito menos coragem, com muito menos poder, mas fiz. é simbólico tal e qual. e aqueles meninos todos vão pra casa e comentam com os pais, e os pais, nos trabalhos, comentam com colegas e a informação correta se espalha e pode render frutos.
e é isso. é pra isso que venho. é esse o meu papel.
não quero pôr ninguém dentro de faculdade, não pode ser esse o meu objetivo. não é. felizmente, contra todo um sistema montado pra isso, azeitado pra criar imensas massas de manobras, não é. me esfolo em aulas que quase sempre dão errado. mas hoje, naquele sétimo ano, funcionou como deve.
e eu chorei.
amanhã, daqui a pouco, quando acordar, pra ir falar a classes sobre agronegócio no Brasil, sobre urbanização, sobre shopping centers vs. praças, vai ser essa de novo a minha tentativa: trazer esses meninos, todos eles, embotados por uma realidade absurdamente alienante, para situações e fatos que alteram seu cotidiano, o cotidiano de 190 milhões de pessoas e devem, sim, ser pensados e combatidos e aplaudidos e repudiados e imitados e expurgados.
uma aula como a de hoje, reafirma a minha vocação. uma aula como a de hoje, confirma que tenho feito meu papel - pequeno, formiga, mas absolutamente necessário.
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perdoem os erros de digitação e o mau português. aos borbotões. saiu-me aos borbotões.

grande gafanhoto (:
não tenho o que dizer, só reafirmar a reafirmação final - um grande papel.
Lindo. :) Mais lindo ainda porque também sou professora e sei na pele o que você sentiu. Me fez lembrar de quando fui a São Paulo pela primeira vez e visitei o MASP: queria todos os meus alunos - que moram em Belém, como eu - estivessem ali, naquele momento. E quando contei isso a eles, das maravilhas que vi e que desejo que todos eles vejam, eu chorei e chorei lá na frente deles. E ganhei um daqueles abraços coletivos enoooormes e inesquecíveis. :)
Um abraço pra você.
sim, abraços coletivos são um carinho sem tamanho, Luciana. acontece, às vezes. percebi que dar aulas seria minha vida quando vi, pela primeira vez, o entendimento nascendo nos olhos daquele menino. fui pego por essa espécie de magia. e hoje, quando acerto, choro - porque é sempre muito difícil fazer a coisa certa.
volte sempre. outro abraço. ;)
maravilha
Thiago... e eu chorei lendo seu post e seu comentário respondendo à Luciana. Sei muito bem desse sentimento que você expôs aqui. Há muitos anos escolhi ser professora.Foi uma escolha mesmo, consciente, poderia ter continuado com o tabalho que já realizava e que, em termos financeiros, até que valia a pena. Nunca me arrependi da escolha que fiz... como você, quando vejo olhos espantados com algumas informações e debates que ocorrem em sala de aula, sei que esse ofício é, sem dúvida,de máxima importância. Nem sempre dá certo, ralamos para estruturar uma aula que prenda a atenção e, obviamente permita ampliar o conhecimento ... nem sempre ocorre, mas quando ocorre é um prazer, uma alegria que só o choro ppossibilita um respiro.
Abraço fraterno.
Marilda
Ps. Cheguei aqui por indicação do mestre Idelber, lá do Biscoito Fino. Gostei... muito.
... eu, q tb sou professor, quase chorei tb.
E eu, que estou tão frustrada por causa das 80% das vezes em que dá errado, ando precisando de um milagre desses que você relata, uma epifania. Mas o raio é esse, sabe. Não tô me aguentando muito com isso das pequenas alegrias. Queria tê-las à mão cheia. Então venho pensando muito em garantir uma outra fonte de renda até que possa pedir exoneração, mesmo antes de algum dos concursos que presto darem certo (sou formanda em Biblioteconomia).
Mas aí que entro na sala de uma turma querida e me dá nó na garganta de imaginar que eu quero tanto que chegue o dia em que eu vou até lá pra me despedir.
Mas realmente não anda fácil.