Eu preciso que esses meninos pensem - que sejam livres para pensar e que se dediquem a essa liberdade.

Não é possível que permaneçam presos a um cabedal de ideias que lhes é pretérito sem que tenham a vontade (e o hábito, adquirido) de contestar tudo o que na maior parte do tempo parece normal.

Naturalizados, certos comportamentos sociais tornam-se uma espécie perniciosa de dogma que mais emburrece do que esclarece. E a minha função dentro de uma sala de aula é trazer à luz essas normalidades e destrinchá-las.

Mas fica óbvio que cada vez mais a resistência com relação a esse exercício de liberdade vai aumentando. Talvez minha perspectiva na comparação com a geração que hoje senta nas salas de aula seja outra e derivada de um outro tipo de construção do conhecimento e do próprio entendimento do mundo - que me permite a dúvida. Talvez seja somente um problema do "público" a quem me dirijo: excessivamente "infértil", um solo rude, já viciado.

E são crianças. São adolescentes. A força para as mudanças está neles e no entanto, o que eu vejo são reproduções irrefletidas de comportamentos que não lhes pertencem. A influência da família e de certo tipo de propaganda subtrai dessas pessoas a característica inata do "cogito", da dúvida. Eles simplesmente não duvidam, não querem duvidar e em torno de si, um escudo criado por esses elementos (família + propaganda bem sucedida) transforma qualquer tentativa de discussão num ambiente estéril.

Digo isso porque durante esses dias, achei de discutir (fiquei, pelo menos, na tentativa) alguns assuntos que tornaram à moda ultimamente. Entre eles, a "questão ambiental", suscitada pela campanha da ONG SOS Mata Atlântica, "Xixi no banho".

Como toda discussão ambiental, essa campanha propõe uma solução local, pontual, para um problema que é global. Ignorando a pertinência de uma reflexão em maior escala, incita as pessoas a uma atitude perante o problema que, além de ser algo absolutamente nojento e desnecessário, não dá conta da complexidade do processo. É, no entanto, um conforto para a tal República Morumbi-Leblon-Belvedere¹ a chance de "fazer alguma coisa" sem descalçar as pantufas, no conforto de casa. A consciência pesada fica aplacada em função de uma ação individual, inócua, mas convincente (especialmente quando em conversas com quem "não faz nada"). E esse convencimento é fruto da propaganda massiva, que usa os meios mais eficientes para tanto (no caso, um site "bonitinho", com uma trilha sonora "engraçadinha" e muitas frases de efeito) que acertam em cheio a alma do cidadão de classe média que aceita urinar no chuveiro, mas não dispensa o carro, não diminui o ritmo de consumo, não se organiza em prol de atitudes "macroescalares".

Toda discussão ambiental que se baseia na famigerada "responsabilidade individual" é um erro de perspectiva monumental. Ajuda a diminuir o sentimento de culpa, cativa pela ideia de pertencimento a um grupo "ambientalmente ativo e responsável", mas na prática não significa uma mudança estrutural; mudança que precisa acontecer se a intenção (legítima, diga-se) é a melhoria da qualidade de vida e do trato com o planeta e com nossos "vizinhos".

Educação ambiental é um faca de dois gumes. Ela deve existir, sem dúvida nenhuma, mas precisa se dedicar a instruir as pessoas ao bom convívio dentro de uma comunidade. Ambiente, este conceito, não significa apenas a floresta amazônica ou o rio da cidade; significa, também, a co-existência saudável entre todos os indivíduos da sociedade. E nesse sentido, é absolutamente necessário que se entenda a importância de não jogar lixo na rua, nos rios, de usar menos o transporte individual, de exigir esta ou aquela atitude dos governantes. Como um todo. O conjunto da sociedade trabalhando em favor de uma melhoria significativa na vida de seus indivíduos. Educação ambiental não pode mascarar essas questões seriíssimas focando seus trabalhos no "adestramento" das crianças e jovens dentro da falsa percepção de que deixar de varrer o quintal com a mangueira, desligar a torneira pra escovar os dentes, fazer xixi no banheiro são soluções efetivas contra a degradação do planeta. Porque não são. São paliativos de consciência.

O planeta está sendo degradado por conta do estilo de vida que todos levamos. Se ações individuais resolvessem o problema, ótimo. Mas apenas uma mudança em grande escala (principalmente com a alteração nos níveis de consumo) pode fazer alguma diferença².

Não adianta nada eu fechar minha torneira enquanto escovo os dentes, se um produtor de soja nos latifúndios do Mato Grosso continuar usando (e poluindo) bilhões de litros de água potável todo mês para irrigar sua plantação que vai alimentar o gado europeu.

O problema é sistêmico. Não adiantam soluções lineares.

O que não significa que a atitude deva ser a de simplesmente cruzar os braços ou dar de ombros. De modo algum. Algo precisa ser feito e é bom que hajam pessoas dedicadas a isso. Apenas que suas ações precisam ser globais, não pontuais.

Os alunos, ao ouvirem isso, recusaram a reflexão. Muitas pessoas recusam. Sentem-se até ofendidas, porque, afinal de contas, "estou fazendo a minha parte". É ótimo que exista a noção do problema, mas não é bom que as tentativas de solução sejam direcionadas equivocadamente.

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¹ Expressão cunhada (até onde sei) pelo Idelber Avelar, que vem muito a calhar.
² É emblemático nesse ponto o curta/documentário produzido por Annie Leonard, chamado "The Story of Stuff". Em menos de 30 minutos, está descrito todo o processo produtivo que destrói o planeta, baseado no consumo de massa. Há uma versão em português (dublado e legendado) neste endereço.

3 Comments

Fazer a sua parte é parte do processo, mas não é nem de longe a única solução. É, repetindo-me, parte apenas - pequena, diria, pq o verdadeiro impacto é gerado por instâncias muito maiores que a do indivíduo. Toda a questão ambiental envolve essa contextualização de sociedade de consumo que temos. É muito mais complexo que apenas não fazer xixi no banho. Por isso campanhas assim, em minha opinião, são inócuas. Pq não vão mudar os hábitos de consumo, q é o q mais precisamos neste momento.

é um conforto saber que você, Lucia, uma pessoa a quem eu admiro e respeito, compartilha da mesma opinião que eu. fico aliviado e entendo que este é, por enquanto, o caminho a seguir: contestar ações inócuas, como você bem disse - que transformam a questão ambiental num jogo de "limpa consciência" para a classe média e seu xixi no banho.

um beijo, querida. ;)

Concordo plenamente com o dito, não adianta nos matarmos se outra pessoa vem e acaba com nossos esforços, mas nem por isso devemos parar com isso.. devemos amplificar as ideias, fazer xixi no banho é uma ideia, eu mesmo sempre fiz desde criança... E vou continuar fazendo, Mas isso é um grau de areia, da praia do ambientalismo...
O Governo tem como dever fiscalizar o uso indevido de recursos ambientais.. Mas nem por isso devemos ficar de braços cruzados.. Pq ai vem a pergunta, e quem fiscaliza o fiscal? Somos nós! O Brasil ta mesmo na hora de fazer outra revolução, pra melhor, pra acabar com a roubalheira, pra acabar com o uso indevido do dinheiro publico, pra acabar com as taxas abusivas dos impostos, e sim, por melhoras nas leis e na fiscalização ambiental! Cabe a nós mudar o mundo, pq ficar sentado, não vai fazer mudar nada...^^

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