rumo à revolução

em resposta a um e-mail na lista de discussão do Centro Acadêmico das Ciências da Terra, também conhecido como CACT-Unicamp, que falava sobre três greves acontecendo (ou acontecidas) em Campinas, São Paulo, nos últimos dias: 1) dos motoristas e cobradores de ônibus, 2) do funcionalismo público e, 3) da universidade pública.

entender esse movimento é entender o mundo. são três greves, simultâneas. nenhum diálogo entre as três. reivindicações que não ultrapassam o direito individual de consumo - quero mais dinheiro para mais compra. o que, vejam, é legítimo. há que se comprar leite e pão, há que se ir a um cinema ou tomar uma cerveja no fim de semana.

sabemos que a cidade não oferece isso a todos. não da forma como ela se organiza. ou, como é organizada por nós. no entanto, imagino, lá estão faixas, carros de som, muitos gritos e palavras de ordem, as mesmas figuras e suas bandeiras, a "força do povo" em ação.

nada menos "povo" do que isso. nada menos esclarecedor do que três greves, simultâneas, que não dialogam. tinha um senhor que dizia: o necessário, meu menino, é que todos, independente se têm uma vassoura na mão, um giz, um carimbo, vestem preto ou azul, dizem bom dia ou acordam de mau humor, todos precisam reconhecer-se como uma classe. vai ver ele tava mesmo é certo. e é o que falta.

enquanto grupos segregados, desunidos, portanto fracos, continuarem "batalhando" por seus interesses particulares e não saírem (não sairmos!) às ruas aos milhões, a coisa embolorada - que boia, como disse o Diego -, permanecerá por aí. é preciso que nos reconheçamos na mesma e desagradável situação. olhar pro cara que tá do meu lado no ônibus, na fila do banco, no PF, na greve e confirmar minha semelhança, a indissociabilidade dos meus anseios dos anseios dele.

no dia 1º de Maio, dia dos que trabalham, na França (e sempre a França, me perdoem), todas as centrais sindicais - separadas e brigando por seus interesses há anos (séculos?) - se juntaram e milhões (e isso não é uma hipérbole) marcharam por Paris. Dizem que o Sarkozy evitou deixar a cama naquele dia - um mal súbito, não houve médico que explicasse.

aqui no Brasil (sempre o Brasil, perdoem mais uma vez), eu vi, meninos, uma multidão indo pra festa da CUT e pra festa da Força. nem uma festa junta eles puderam fazer. o Paulinho não teve vergonha de aparecer. mas eu e meus escrúpulos. coisa mais em desuso. vi, também, lá em Porto Alegre, linda cidade, outra multidão indo benzer carteiras em missa com a Nossa Senhora dos Navegantes, vulgo Iemanjá - que esse sincretismo brasileiro funciona à perfeição. é lindo tudo isso.

daí que: como? como se não há reconhecimento? sozinho, não dá. fica complicado.

2 Comments

e obrigado por transpor meus pensamentos.

um reivindica salário melhor, outro taxa menor, outro aquilo, outro acolá, mas sempre reivindicando coisas isoladas que melhoram apenas uma minúscula parcela de seus próprios interesses.

sempre na frança, sempre 68, algo corretíssimo sobre essa questão foi pichado nos muros, sempre os muros: soyez réaliste, demandez l’impossible.

os problemas são muito maiores e mais complexos do que um salário baixo.

'soyez réaliste, demandez l'impossible'. é motto pra vida, Pablo. ;)

diga lá:


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