Já faz umas duas semanas que uma notícia não me deixa em paz, algo que eu não teria visto se a Bia não tivesse chamado minha atenção. Uma notícia que, a bem da verdade, deve ter passado batida para a maioria das pessoas, mas que há dias volta e me assombra.
Lia-se na notícia que o zoológico da Faixa de Gaza viu-se obrigado a pintar um casal de burros como se eles fossem zebras porque as crianças de Gaza queriam ver uma zebra de perto -- e porque seria caro demais trazer um animal verdadeiro pelos túneis que ligam esta região ao Egito.
Um dos meus grandes professores, um dos meus verdadeiros mestres, me ensinou uma vez que compreender o mundo passa por procurar entender a situação do outro, tentar mimetizar o que acontece ali -- e buscar uma tal "experiência compreendedora" que permita uma tentativa de analisar holisticamente o mundo (mesmo que dentro de um recorte analítico, porque não se pode fugir disso), foi o que ele disse.
Olhando o burro pintado de zebra, tentando enxergar o mundo que está ali, disponível ao dono do zoológico, por exemplo, que não vê outra alternativa a não ser pintar o burro, na intenção de ver o sorriso da criança, vislumbro o que de pior conseguimos criar, depois de tantos milênios de erros, como seres humanos. É essa síntese macabra, suja, esfregada na nossa cara, do quão injusta e perversa a humanidade pode ser.
Se eu dissesse apenas "há crianças na Faixa de Gaza", minha vida inteira não daria conta de lidar com todas as pertubações que isso me causa. Há crianças em Gaza e elas viram da janela de suas casas homens sendo mortos, homens matando, tanques e tiros e bombas e fogo e dor. São crianças perdidas, no meio do fogo cruzado de uma luta que as desumaniza antes que elas tenham condições de se enxergarem como humanas -- herdeiras de toda tradição humanística que nos diferencia de uma besta qualquer. Essas crianças na Faixa de Gaza simplesmente não têm chance alguma contra o mundo, nascem perdedoras.
E, no entanto, veem uma figura no livro escolar de uma zebra e olham para os pais pedindo para ver uma, andando e pastando, como as veem em suas imaginações. Porque, apesar de tudo, e isso é maior do que qualquer dor no mundo, apesar de tudo, mesmo em Gaza, essas crianças ainda são crianças. Essas crianças olham para a figura de uma zebra correndo pela savana africana e, no mesmo instante, ali num qualquer bairro de uma Gaza destroçada, uma zebra, a savana, três ou quatro pássaros, um elefante, outras pessoas, com suas roupas coloridas e suas peles escuras explodem no ar, aparecem e correm, gritam, fazem barulho, batem os dentes, mexem os rabos, estão por ali, cheiram, é possível tocá-las.
Mas,
Antes que a próxima bomba exploda. Antes que o Estado de Israel resolva destruir sua escola. Antes que sua mãe morra por usar um véu. Antes que seu pai, confundido, se exploda numa praça de uma cidade israelense qualquer.
Ainda assim, destituída de toda humanidade, esvaziada de suas possibilidades de criança, oca, ainda assim, o que vemos ali é uma criança.
Em Gaza não tem uma zebra. Em Gaza nunca existirá uma zebra. Perdeu-se toda e qualquer esperança de uma zebra, em Gaza. Então o dono do zoológico e os pais das crianças, numa noite quente qualquer, se encontram e decidem que o melhor para as crianças de Gaza é pintar um casal de burros; simular um casal de zebra, que a partir desse momento, deixa de ser um burro transformado em zebra e passa a simbolizar a agressão que vêm sofrendo todas as vidas que circulam, sombras, por Gaza.
Pequenas sombras -- desejando uma zebra, em todo o seu direito de criança que precisa ver a zebra do desenho abanando o rabo em frente a si. Apegadas a um fiapo de fantasia que ainda lhes é permitido, essas crianças são o símbolo do descaso do mundo diante de algo tão horrendo e sem tamanho em sua crueldade.
São crianças de Gaza que veem um casal de burros pintados de zebra e fantasiam. Elas sorriem. Veja a cara de absoluto assombro do menino de vermelho. A sombra-menino vendo a sombra-zebra fantasiando um mundo de savanas e cheiros, que ele nunca vai ver -- mas que foi, eu tenho a mais absoluta e perturbadora certeza de que foi, a melhor história que ele já contou para o avô.
_______
Tentar entender tudo isso e tentar passar essa minha perplexidade só aconteceu porque grandes amigos ouviram minhas pertubações e me ajudaram. Fica o agradecimento.
______
Una llegenda africana intenta donar una explicació folklòrica a les ratlles d'aquest èquid:
Fa molt de temps, les zebres no tenien les ratlles blanques i negre que tenen avui en dia, sinó que eren totes blanques. Quan veien una zebra, alguns deien que es tractava d'un creuament entre un cavall de color blanc i un ase, o potser una mula. En aquell temps, la gent encara intentava domesticar els cavalls salvatges per poder cavalcar-los i lluir-los davant de tothom, car eren molt bells.
Les zebres rebien un altre nom perquè eren diferents dels cavalls i les mules. A diferència dels seus cosins, era molt difícil capturar i ensinistrar una zebra. Un dia, una zebra que encara era molt jove es perdé i, caminant, caminant, acabà dins un poblat. La gent començà a mirar-la i a xiuxiuejar, pensant en maneres de poder capturar-la.
La zebra s'espantà, i es donà compte del que li volien fer. Començà a córrer mentre la gent entrava a casa a buscar una xarxa per caçar-la. Corregué i corregué, fins que finalment li vingué una idea. Veié un pot de pintura negre i, sense pensar-s'ho dues vegades, el féu tombar; la pintura s'escampà per terra en moltes ratlles ondulades. La zebra s'hi rebolcà fins que les ratlles li quedaren pintades al cos, pensant que així quedaria lletja i la gent ja no la voldria capturar.
La gent del poble la trobà, i veié el que havia fet. Com que pensaven que ja no era bonica amb totes aquelles ratlles negres per sobre el pelatge, la deixaren anar. Aviat, totes les zebres començaren a fer el mateix perquè la gent no les molestés. Amb el pas del temps, ja no els calgué fer-ho, car començaren a néixer d'aquesta manera. Però ara les ratlles les feien belles.

[comentário que tentei enviar anteontem, sem sucesso]
bem provavelmente a melhor história do menino, e é uma farsa descarada. é absurdo por DEMAIS existirem coisas assim; deveriam ser intangíveis e inimagináveis numa sociedade que quisesse se prezar enquanto sociedade.
Porque, apesar de tudo, e isso é maior do que qualquer dor no mundo, apesar de tudo, mesmo em Gaza, essas crianças ainda são crianças.
& ótimo texto, meu caro. me emocionou pra valer.