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o único prédio em que se nota algum silêncio e pessoas dormindo aqui em volta tem o nome duvidoso de Edifício Stella Luiza. parece ser um conjunto antigo, porque chama-se "edifício", mas tem apenas três andares, além do térreo -- com uma porta simples, que dá direto para a calçada. os prédios dessa região de São Paulo são antigos, em sua maioria. subindo essa mesma rua (vindo da Pedroso de Moraes) existe um portal onde se lê -- ironicamente -- "Vila Sossego": uma rua com muitas casas pequenas (como antigamente predominavam por toda cidade) que dá de cara com uma das vias mais movimentadas e caóticas em muitos quilômetros.

nos outros prédios, muito mais altos do que o mirrado Stella Luiza, algumas janelas acesas. poucas. as torres parecem enfeites de Natal com defeito. aqui e ali se notam sombras e reflexos de uma televisão ou um computador ligados. enquanto olhava, não vi pessoas.

a rua (e suas travessas) estão silenciosas. na medida do possível. ainda resquício do ano novo. é uma cidade ainda acordando pra loucura que lhe significa.

não vejo pessoas mas as adivinho resultados de tudo o que lhes faz (e fez) rir e chorar, ao longo da vida. exatamente como eu. ainda há pouco chorando ao lembrar de uma das minhas histórias revivi a sensação que me acompanhou durante muitos meses após o acontecido; me sentia a pessoa mais triste do planeta, único ser humano a carregar sobre os ombros toda a dor da vida. tive que rir da minha ingênua pretensão.

I'll tell you all my secrets, but I lie about my past.


São Paulo é um lugar especial pra quem deseja seus horizontes ampliados, suas ilusões rasgadas, seus delírios concretizados. é um lugar duro e rude. não te convida, não te afaga.

(

às quatro e quinze da manhã, pessoas que acordaram muito tempo antes estão zumbis nos ônibus que sobem -- um atrás do outro -- esta mesma rua. em qualquer dia. sob qualquer condição essas pessoas têm que estar onde quer que seja antes de eu mesmo pensar em me levantar.

)


é óbvio, hoje:

nunca fui nem serei diferente de quem está acordado, na torre ao lado, assistindo à televisão, a um filme, vendo pornografia na internet, chorando. há o mesmo em todos, algo que nos identifica, que nos torna parte de uma mesma história sarcástica e irônica.

(

pense em quem mora na Vila Sossego e a ironia, não só da cidade, te dá um tapa.

)


ano que começa com apenas uma opção: EPIC.

por enquanto,

let me fall out of the window with confetti in my hair
deal out Jacks or Better on a blanket by the stairs
I'll tell you all my secrets, but I lie about my past
and send off to bed for evermore


a quem já cantou essa canção comigo, bêbados pelas ruas de uma cidade qualquer; a quem já ouviu essa canção comigo numa noite qualquer; a quem amaldiçoou a vida comigo ouvindo essa canção; àqueles em quem tropeçarei, ao longo da vida, ao som dessa canção: happy fucking new year.

Imagine que houve uma "discussão" no Twitter sobre a existência ou não de "preconceito contra a classe média" nos posts do blog "Classe Média Way of Life".

Imagine que um lado afirma que, sim, o tom do blog é preconceituoso, porque "a classe média é o novo preto" -- são as exatas palavras --, já que ela, a classe, sofre essa (inadequada, segundo compreendi) personificação de certo tipo de comportamento dito "da classe média", que não necessariamente pertence ao grupo social em questão, mas que lhe é impingido por pessoas preconceituosas.

Imagine que o outro lado contesta a afirmação do primeiro dizendo que, na verdade, não se trata de preconceito, uma vez que os textos do blog são escritos por representantes da própria classe média e, portanto, o que existe é auto-crítica, cujo veículo é o humor. Uma atitude louvável, a auto-crítica, que permite uma percepção da situação a partir de dentro, ressaltando pontos negativos na própria experiência. Expediente que pode desembocar numa reflexão saudável sobre os problemas e, talvez, na bem-vinda mudança. Em outras palavras, a auto-crítica como estopim de uma crise -- e a crise sendo, ela mesma, o estopim de revoluções comportamentais.

Agora imagine que o primeiro lado não dá o braço a torcer e não arreda pé de sua posição. Insiste que, na verdade, o blog é preconceituoso e hipócrita porque os autores não "admitem" que fazem parte da classe média em momento algum durante suas postagens. Criticam os comportamentos se imiscuindo de qualquer "responsabilidade" sobre os fatos -- ou seja, não embalam o Mateus que pariram.

O que o primeiro lado parece não ter compreendido é que nosso mundo é um mundo profundamente segregado. Um mundo onde os indivíduos de "tipos" diferentes caminham por estradas que raramente se cruzam. Uns não se dão a saber dos outros -- que literalmente são tratados como "os outros", um grupo (ou vários grupos) distintos de mim, externos à minha existência, irrelevantes dentro dos aspectos que compõem minha vida.

A isso chamamos classes sociais (e vários apêndices podem vir junto: economia, espaço, política, etc.). Vivemos numa sociedade de classes: dividida, desunida; alheios uns aos outros.

O Brasil, como poucos países do mundo, é um exemplo do que de pior essa sociedade de classes pode criar. Há, por aqui, uma pequena parcela da população que vai muito bem, obrigado (em diversos aspectos, mas especialmente no acesso àquilo que a vida pode oferecer de melhor), e uma maioria esmagadora de pessoas que experimentam uma existência repleta de privações, muito em função do lugar que ocupam na nossa pirâmide social. Dentro da pequena parcela de pessoas que podem, que têm acesso, está a classe média -- bem na rabeira, se equilibrando no orçamento apertado de fim de mês, que, ainda assim, permite algum luxo nessa vida severina.

É pirueta pra cavar o ganha-pão Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro Ninguém segura esse rojão ("Meu caro amigo")

Pois bem.

Imagine que a classe média, representada pelos posts do tal blog, por quem os escreve, por mim, por você, vivemos nessa ilha de prosperidade. Vivemos nessa ilha de prosperidade e, segundo as pesquisas mais recentes, somos quem, de fato, têm acesso à internet no conforto de nossos lares. Os "internautas" somos ainda um grupo restrito aqui no Brasil. Ainda é muito caro ter um computador, pagar um serviço de conexão, comprar uma mesa e uma cadeira confortáveis, ter um estoque (digno) de cervejas na geladeira se, como a maioria (não nos esqueçamos), precisamos sobreviver com salários miseráveis (obviamente, quando há salário) nessa carestia eterna.

Temos então essa ilha. Nessa ilha convivemos com outra classe social: a classe rica. Os ricos "na batata" -- com a licença da paráfrase -- que nasceram ricos, estão ricos, morrerão ricos. Pessoas pra quem o carro do ano, a roupa da moda, o último aparelhinho mágico do Steve Jobs, não são "sonhos de consumo", mas uma realidade tão corriqueira que, a bem da verdade, não significam tanto. Para a classe média, no entanto, ali na bordinha da ilha, ter todas essas coisas -- poder desfilar com o iPod no ouvido, dentro do carro zero quilômetro, vestindo uma marca qualquer -- são muito significativas. E mais. São indicativos de que este indivíduo se trata de alguém muito bem sucedido, fora do comum, não-ordinário. É visto com inveja e desdém pelos pares que não conquistaram (ainda!) seu lugar ao sol -- e que pra isso, insistem no método "cidadão de bem".

Circundando essa ilha, temos, por definição, o mar. Mas não se trata de um mar qualquer. É um mar de merda. Uma imensa extensão de agruras liquefeitas. Um oceano de miséria, carência, esquecimento. Criado pela ilha e, ao mesmo tempo, criador da ilha -- numa relação perniciosa para o lado frágil da corda, já diria o outro.

Nesse mar, nesse terceiro espaço, vive a maioria. Vivem as pessoas que a classe média insiste em temer: a classe pobre. "O Outro". O demônio dentro do armário, que cutuca a bunda da classe média com seu tridente todas as manhãs, pra lembrar que "sem trabalho duro, não se chega a lugar nenhum". Ou pior, chega: à classe pobre. E isso é inadmissível.

Tanto a classe rica quanto a classe pobre, no entanto, não prestam muita atenção à classe média. Para os ricos, não passamos de arremedos, tiros que saem constantemente pela culatra, tentativas mal-sucedidas, fonte inesgotável de vergonha alheia. Para os pobres, somos os caras que tacam fogo em mendigo, que fecham as janelas (blindadas, depois de três meses de economia) ao entrar numa "área perigosa" (normalmente um bairro pobre) -- e querem mais é que a gente se exploda. Nós é que ficamos queimando a mufa com ambos -- admirados com os primeiros, observando de soslaio os segundos.

Os ricos e os pobres têm suas próprias lógicas, suas próprias territorialidades no espaço. Isso fica muito claro dentro do espaço urbano -- onde há que se conviver com todos os tipos. Infelizmente, dizem alguns. Há bairros ricos e há bairros pobres. Há eventos de ricos e há eventos de pobres. Há baladas de ricos e há baladas de pobres. No ambiente virtual, isso se repete. O que eu, excelso representante da classe média, faço na internet é diferente do que uma pessoa rica vai fazer ou do que outra, pobre, vai fazer (lá na lan house).

Mas há os momentos em que o mar de merda avança sobre a ilha. E todos fogem -- quase sempre. Exemplos: 1) Não há o que chamam de "orkutização" de mídias sociais? As pessoas esvaziando espaços virtuais quando "o outro" invade domínios pouco consolidados com essas "conversas de pobre", "esses erros de português", "esse comportamento chulo", "esse computador das Casas Bahia", etc. 2) Não há o medo eterno da classe média (e dos ricos, também, por que não?) com relação à violência, ao que foi conquistado "com tanto suor", que pode a qualquer momento ser roubado por essa massa ignara e suja? E tome vidro blindado, grades, muros, guaritas, armas, polícia pra quem precisa com sua "violência preventiva". 3) Não há aquele momento na festa de formatura ou de casamento em que todos dançam "rebolando até o chão" quando toca um funk carioca -- produto egresso dos morros, das favelas, do populacho, "som de preto"; mas que na hora "de se soltar", serve? Quando o mar avança, as classes na ilha chiam (menos enquanto dura a festa). Quando permanece mar: permanece longe, distante, incógnito -- bom.

Fica ali a classe média espremida entre o que pretende ser e o que despreza. Nessa ilha criada pela nossa sociedade espacial, economica e socialmente segregada.

Confusa, perdida, embasbacada, alienada, massa: é para o centro da ilha, a morada dos ricos, que a classe média olha. Acaba que se esquece do mar. E se acostuma a achar que todos vivem como si ou como os ricos (se for alguém "que mereça"). Quando, na verdade, a maioria está no mar -- levando uma vida do cão, à sua maneira. Aqui peca quem não acredita na auto-crítica, pois considera que todos são como si, que tem as mesmas inquietações e as mesmas preocupações -- que outras classes além da classe média escreveriam um blog rindo da classe média. Não, não escreveriam.

Tudo isso pra dizer que, provavelmente, a segunda parte está correta na sua contestação. Fica patente, se você analisa a realidade social do Brasil, que os autores do blog muito provavelmente são representantes da mesma classe média que criticam através do humor. É, portanto, uma auto-crítica, como ensinou a segunda parte, e não "preconceito contra a classe média". Considerar essa possibilidade é não compreender o país em que vive. Me parece muito pouco provável que um rapaz vá gastar seus reais de tempo na lan house pra ficar escrevendo textos sobre a classe média -- esse monstrengo que ele "desentende", que não lhe diz nada, que é apenas o carro com os vidros fechados ou a senhora que segura a bolsa na frente do corpo quando ele passa.

A classe média rindo de si é o melhor que essa história toda tem: entendendo sua ignorância em relação ao que lhe cerca, entendendo seus antolhos, estes sim, perigososamente preconceituosos.

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Nomes e links não citados de propósito. São pessoas conhecidas e foi uma "discussão" largamente acompanhada, e este não se trata de um post sobre essas pessoas.

Já faz umas duas semanas que uma notícia não me deixa em paz, algo que eu não teria visto se a Bia não tivesse chamado minha atenção. Uma notícia que, a bem da verdade, deve ter passado batida para a maioria das pessoas, mas que há dias volta e me assombra.

Lia-se na notícia que o zoológico da Faixa de Gaza viu-se obrigado a pintar um casal de burros como se eles fossem zebras porque as crianças de Gaza queriam ver uma zebra de perto -- e porque seria caro demais trazer um animal verdadeiro pelos túneis que ligam esta região ao Egito.

Um dos meus grandes professores, um dos meus verdadeiros mestres, me ensinou uma vez que compreender o mundo passa por procurar entender a situação do outro, tentar mimetizar o que acontece ali -- e buscar uma tal "experiência compreendedora" que permita uma tentativa de analisar holisticamente o mundo (mesmo que dentro de um recorte analítico, porque não se pode fugir disso), foi o que ele disse.

Olhando o burro pintado de zebra, tentando enxergar o mundo que está ali, disponível ao dono do zoológico, por exemplo, que não vê outra alternativa a não ser pintar o burro, na intenção de ver o sorriso da criança, vislumbro o que de pior conseguimos criar, depois de tantos milênios de erros, como seres humanos. É essa síntese macabra, suja, esfregada na nossa cara, do quão injusta e perversa a humanidade pode ser.

Se eu dissesse apenas "há crianças na Faixa de Gaza", minha vida inteira não daria conta de lidar com todas as pertubações que isso me causa. Há crianças em Gaza e elas viram da janela de suas casas homens sendo mortos, homens matando, tanques e tiros e bombas e fogo e dor. São crianças perdidas, no meio do fogo cruzado de uma luta que as desumaniza antes que elas tenham condições de se enxergarem como humanas -- herdeiras de toda tradição humanística que nos diferencia de uma besta qualquer. Essas crianças na Faixa de Gaza simplesmente não têm chance alguma contra o mundo, nascem perdedoras.

E, no entanto, veem uma figura no livro escolar de uma zebra e olham para os pais pedindo para ver uma, andando e pastando, como as veem em suas imaginações. Porque, apesar de tudo, e isso é maior do que qualquer dor no mundo, apesar de tudo, mesmo em Gaza, essas crianças ainda são crianças. Essas crianças olham para a figura de uma zebra correndo pela savana africana e, no mesmo instante, ali num qualquer bairro de uma Gaza destroçada, uma zebra, a savana, três ou quatro pássaros, um elefante, outras pessoas, com suas roupas coloridas e suas peles escuras explodem no ar, aparecem e correm, gritam, fazem barulho, batem os dentes, mexem os rabos, estão por ali, cheiram, é possível tocá-las.

Mas,

Antes que a próxima bomba exploda. Antes que o Estado de Israel resolva destruir sua escola. Antes que sua mãe morra por usar um véu. Antes que seu pai, confundido, se exploda numa praça de uma cidade israelense qualquer.

Ainda assim, destituída de toda humanidade, esvaziada de suas possibilidades de criança, oca, ainda assim, o que vemos ali é uma criança.

Em Gaza não tem uma zebra. Em Gaza nunca existirá uma zebra. Perdeu-se toda e qualquer esperança de uma zebra, em Gaza. Então o dono do zoológico e os pais das crianças, numa noite quente qualquer, se encontram e decidem que o melhor para as crianças de Gaza é pintar um casal de burros; simular um casal de zebra, que a partir desse momento, deixa de ser um burro transformado em zebra e passa a simbolizar a agressão que vêm sofrendo todas as vidas que circulam, sombras, por Gaza.

Pequenas sombras -- desejando uma zebra, em todo o seu direito de criança que precisa ver a zebra do desenho abanando o rabo em frente a si. Apegadas a um fiapo de fantasia que ainda lhes é permitido, essas crianças são o símbolo do descaso do mundo diante de algo tão horrendo e sem tamanho em sua crueldade.

São crianças de Gaza que veem um casal de burros pintados de zebra e fantasiam. Elas sorriem. Veja a cara de absoluto assombro do menino de vermelho. A sombra-menino vendo a sombra-zebra fantasiando um mundo de savanas e cheiros, que ele nunca vai ver -- mas que foi, eu tenho a mais absoluta e perturbadora certeza de que foi, a melhor história que ele já contou para o avô.

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Tentar entender tudo isso e tentar passar essa minha perplexidade só aconteceu porque grandes amigos ouviram minhas pertubações e me ajudaram. Fica o agradecimento.

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Una llegenda africana intenta donar una explicació folklòrica a les ratlles d'aquest èquid:

Fa molt de temps, les zebres no tenien les ratlles blanques i negre que tenen avui en dia, sinó que eren totes blanques. Quan veien una zebra, alguns deien que es tractava d'un creuament entre un cavall de color blanc i un ase, o potser una mula. En aquell temps, la gent encara intentava domesticar els cavalls salvatges per poder cavalcar-los i lluir-los davant de tothom, car eren molt bells.

Les zebres rebien un altre nom perquè eren diferents dels cavalls i les mules. A diferència dels seus cosins, era molt difícil capturar i ensinistrar una zebra. Un dia, una zebra que encara era molt jove es perdé i, caminant, caminant, acabà dins un poblat. La gent començà a mirar-la i a xiuxiuejar, pensant en maneres de poder capturar-la.

La zebra s'espantà, i es donà compte del que li volien fer. Començà a córrer mentre la gent entrava a casa a buscar una xarxa per caçar-la. Corregué i corregué, fins que finalment li vingué una idea. Veié un pot de pintura negre i, sense pensar-s'ho dues vegades, el féu tombar; la pintura s'escampà per terra en moltes ratlles ondulades. La zebra s'hi rebolcà fins que les ratlles li quedaren pintades al cos, pensant que així quedaria lletja i la gent ja no la voldria capturar.

La gent del poble la trobà, i veié el que havia fet. Com que pensaven que ja no era bonica amb totes aquelles ratlles negres per sobre el pelatge, la deixaren anar. Aviat, totes les zebres començaren a fer el mateix perquè la gent no les molestés. Amb el pas del temps, ja no els calgué fer-ho, car començaren a néixer d'aquesta manera. Però ara les ratlles les feien belles.

Vou muito pelo que sinto. Não preparo e não planejo. Dá muito errado - numa proporção quase indecente. Mas errar - não saber para onde, nesse sentido -, me dá a chance de surpresas e certas descobertas ao acaso. Frutos do caos e da sensibilidade do mundo, alheios à retidão, à força bruta. Erro.

"[...] uma célebre resposta de Sarah Bernhardt quando uma jovem atriz comunicou, orgulhosa, não ter medo de errar: 'Não se aflija, querida, isso vem com o talento'".

Eu não diria apenas 'talento'. Diria 'talento para a vida'.

Enquanto eu fumava, recomeçou a pingar. Uma chuva bem-vinda. Há quem dissesse, uma chuva que atrapalhou o momento, as últimas tragadas. Não. As últimas tragadas, essas, antes do sono, sempre me levam a uma revisão do dia, um recontar de tudo o que houve e, quase sempre, à tentativa inútil - tanto quanto compreensível - de corrigir o que não saiu a contento. Mas nessas últimas tragadas, hoje, choveu. E eu me resignei. Brindei à chuva, ao mundo, à vida, aos amigos e aos pequenos erros.

Eu não seria quem sou se não tivesse aprendido a respeitar minhas falhas, se não soubesse que elas são a real expressão da minha (particular e intransferível) tentativa de vida - que não são poucas e não são inválidas.

Erro, portanto. E durmo com a chuva tamborilando em minha janela de madeira. Porque há vida.

Durante esta semana alunos de um segundo colegial foram convidados por seu professor de História a participar de um debate em que deveriam se opor dois grupos: um deles contrário e outro a favor das cotas raciais para o ingresso em universidades públicas brasileiras.

Me assustou o fato de que vários desses alunos vieram a mim pedir ajuda com argumentos para a discussão proposta. Porque esses adolescentes não sabiam o que fazer com a obrigação de defender algo que lhes parece errado. Me perguntaram quais seriam as posições daqueles que concordam com essa política.

O público do debate, adolescentes das classes A e B, é bastante característico nas suas ideias, nos seus preconceitos -- são fileiras cerradas na crença de que a política de cotas lhes agride, lhes é prejudicial, lhes põem em situação desfavorável na competição a que são instados durante os anos de exame vestibular.

Muitos deles, certamente, repetem irrefletidamente argumentos absorvidos. Ao léu. Inadvertidamente.

Porque é preciso um malabarismo intelectual (que caracteriza certo grau de desonestidade histórica) para não perceber como o mínimo necessário as chamadas políticas afirmativas. O objetivo de tais políticas públicas não é outro senão uma tentativa ainda muito rasa de reparação de injustiças históricas, imensas, profundas, radicalmente incrustadas em nossa sociedade. Ainda hoje, cento e vinte e um anos depois da assinatura da Lei Áurea. Sobretudo hoje quando as diferenças abismais existentes entre as pessoas, baseadas na cor de suas peles, em suas origens, em suas crenças, tornam-se mais uma vez "naturais", "comuns". Se é que um dia deixam de sê-lo.

O comércio secular de escravos negros africanos é o maior responsável pela total desorganização de, pelo menos, dois continentes inteiros -- a América e a África --, em função de interesses externos a estes lugares. (Isso para que a discussão permaneça "em nossos quintais"; ignorando todos os outros eventos de seres humanos cativos, que abundam na História.) O continente africano talvez precise de muitos séculos ainda para encontrar um ponto de equilíbrio entre a herança maldita deixada por esta prática suportada pelos "países desenvolvidos" e as necessidades prementes do presente que se impõem. Enquanto não consegue, consome-me em conflitos sociais, étnicos, movidos por interesses de ordens econômica e/ou política que, séculos depois, ainda lhe são estrangeiros.

Na América, especialmente a parcela que por séculos dedica-se a servir como "armazém" de gentes e de mercadorias aos "países desenvolvidos" (está para nascer termos mais esvaziado de sentido), a constituição de uma elite local subjugada aos "primos nobres" fez-se à custa de muitas vidas negras (e índias, por igual), trazidas d'além-mar como escravas para fazer girar a roda-viva, faminta, da expansão do capital mercantil europeu. Roda-viva que nos obriga a uma posição subalterna no jogo político internacional; não muito diferente daquela que sempre ocupamos durante nossa curta história e comandada, a punhos de ferro, por representantes modernos daquela elite consumidora de vidas.

Esses jovens são meu quinhão dessa elite. Um quinhão cercado por muros altíssimos construídos por preconceitos e entendimentos equivocados mais antigos do que qualquer memória que tragam consigo. Entendimentos que mudaram de forma, mas não de essência. Privilégios garantidos em uma sociedade antiga, "segura", do ponto de vista de uns poucos, que se mantêm, se reproduzem e cada vez mais se enterram fundo no agir das pessoas.

É fato conhecido que o sistema de cotas adotado pelo governo brasileiro deve muito com relação à nossa realidade histórica -- posto que é uma cópia mal-ajambrada do sistema norte-americano. A situação brasileira cria casos como o meu, por exemplo: neto de italianos, espanhóis, índios e negros. Com a pele mais alva do que muito europeu "puro-sangue", mas "com um pé na senzala" -- como costuma pontuar minha mãe, fazendo graça. A determinação de cotas estritamente raciais em nosso caso fica comprometida pela presunção da auto-afirmação, segundo a qual não é possível a ninguém negar minha negritude, se eu achar por bem declará-la. Num país cuja população é composta principalmente por mestiços e mulatos, a separação óbvia em raças (como acontece nos Estados Unidos ou nos países europeus) fica dificultada.

No entanto, é preciso um grau significativo de desonestidade para negar a necessidade de uma política afirmativa dessa magnitude. Ainda que não nos moldes perfeitos, a criação e aplicação dessas políticas é um passo firme e adiante na tentativa de quebra do ciclo vicioso que insiste em manter a sociedade brasileira refém de uma estrutura muitíssimo semelhante àquela imediatamente posterior à assinatura da Lei pela Princesa Isabel, em 1888. Dar a chance de mudança de condições de vida à parcela mais desfavorecida e injustiçada do país é o objetivo e, felizmente, o resultado dessa política de cotas. Sua imperfeição momentânea é passível de ajustes, queremos crer; sua existência e manutenção são, sem sombra de dúvida, uma vitória que precisa ser defendida e esclarecida à população.

Especialmente à população que constitui essa elite; tão temente por seus privilégios seculares. Elite que deveria enxergar a adoção da política de cotas como algo que extrapola os limites de seu tempo de vida, algo que extrapola mesmo suas preocupações um tanto confusas e momentâneas sobre a quantidade de vagas em cursos universitários. Na faculdade onde estudei, de um total de trezentos alunos apenas dois eram negros. No universo de alunos da Universidade Estadual de Campinas, com algo em torno de quinze mil alunos, entre graduação e pós-graduação, chutar que apenas mil sejam negros é uma estimativa muito generosa. Algo está obviamente errado.

E é um erro maior do que Unicamp, do que meus alunos deste segundo colegial, do que este texto, do que discussões acaloradas. É um erro e um problema que estão na própria base de construção deste país (e de outros, muitos outros). É preciso que se faça algo. O fato de a iniciativa partir do âmbito governamental não é nada mais do que o mínimo a se esperar de governos decentes, honestos e sensíveis à História do país que comandam. Não se trata da única ferramenta de reparação das injustiças históricas, mas é, seguramente, a mais efetiva e mais frutífera.

Não é uma questão de "deixar" -- é o ato, certa segurança nisso, alguma convicção, respeito a um espírito e uma utopia libertária, de "não proibir".

E nesse ponto, cada qual decide o que melhor pode fazer, não me cabe definir em que corda as pessoas vão se enforcar.

Mas tudo isso MORRE quando os outros agentes são alunos.

Linhas tortas escritas a lápis no caderno que sempre me acompanha em algum momento no fim do semestre passado. A caixa alta, inclusive, apesar de minha letra ser sempre maiúscula.

Mostram um pouco o espírito que me regia naqueles dias. Estava cansado e desiludido com minha profissão e, sinceramente, com meu papel. Desanimado por não ser compreendido. Não sei proibir. Não gosto da expectativa que têm os pais, as coordenações, os próprios alunos, por vezes, de que eu seja um esteio autoritário em pé feito dois de paus na frente da sala.

Hoje entrei nas salas novamente, quatorze dias depois do prazo estipulado antes da histeria coletiva em torno da "pandemia" de gripe suína (ou gripe A, ou H1N1, como queiram). Encontrei nos corredores da escola frascos com álcool em gel. Não encontrei muitos alunos, proibidos pelos pais temerosos de reencontrar seus colegas e amigos. Não vi ninguém de máscara -- e suspirei aliviado. A paranoia estava ali, estampada nas piadas, nas brincadeiras, nos olhares furtivos a cada espirro ou tosse mais sentida. O medo irracional encontra terreno fértil entre as crianças. Muito imaginativas. Especialmente se é estimulado.

Na primeira aula, às sete da manhã, numa sala de oitavo ano (uma sétima série, minha sala predileta entre todas), achei por bem conversar com eles sobre tudo isso. Foi o que fiz. Mas em nenhum momento endossando o medo. Dei a eles fatos, números e expus a eles uma visão diferente do que todos ouviram nas férias. Enquanto falava, e enchia a lousa com rabiscos e desenhos de vírus, fui interrompido pelo esposo da diretora, um médico renomado da cidade; que, obviamente, veio aos pequenos apresentar as preocupações da escola com relação às "medidas de segurança" sugeridas pelos órgãos de saúde pública. Via nos olhos das crianças a dúvida: ouvimos o médico e suas recomendações de não nos abraçarmos, de não dividirmos canudos e lanches, ou ficamos com o Thiagão, sem medo, entendendo de onde vem essa histeria toda?

Ficaram comigo. Mas muito educados, ouviram o médico e responderam em coro a suas perguntas retóricas.

Porque, veja, naquela escola (mas em todas elas), se não sou eu (e tantos outros) a dar a cara a tapa, dizendo às crianças o que de fato acontece, ninguém mais fará. E é preciso fazer. É preciso dizer às pessoas algo além do que elas ouvem ingenuamente todos os dias quando ligam a TV ou entram na internet. É um tipo qualquer de subversividade. Remar contra e tentar fazer daqueles meninos e meninas duzentos zumbis a menos.

É óbvio que falho miseravelmente quando entro em outra sala e me desanimo de expôr a eles a mesma trova de antes. Ignoro suas preocupações e suas dúvidas, pra logo em seguida abrir a (maldita) apostila e destilar o conteúdo que preciso destilar. Professores são humanos. E mesmo onde não havia atmosfera receptiva, insisti em falar; e fui ouvido por poucos. Enquanto falava, era interrompido por alunos que não se interessavam pelo que ouviam, que pediam pra ir ao banheiro ou, nada discretamente, tiravam seus celulares das mochilas e trocavam mensagens diversas. Nesse momento, num retorno, escrevi:

Espero sensibilizar robôs insensíveis. Da mesma forma que reagem passivamente à morte pela fome de semelhantes, ignoram os motivos do que lhes atinge por todos os lados.

Passivamente. Bovinamente.

E esta talvez seja a lembrança que agora, nesta madrugada, me tira o sono. Foi nesta mesma sala em que escrevi o primeiro texto. Me sinto responsável pelo desrespeito deles, pelo desinteresse deles, pela falta de consciência daqueles adolescentes que se impressionam com um novo aparelho eletrônico qualquer, mas pouco sentem o mundo que lhes devora, parte por parte, dia a dia. É estúpido e inútil, mas estou aqui, me consumindo.

Em duas horas, estarei novamente em pé, diante dele, e não quero dar chance ao sentimento que criou o primeiro texto. Preciso firmemente renovar em mim o que me move: certo sentimento libertário. É não-proibir, coisa alguma, a ninguém. E inclusive, tentar.

Essa profissão é um inferno. Uma eterna escolha entre o que é fácil e o que é (parece, ao menos) certo.

Uma vez, sentado em uma margem de rio, fui obrigado a me render à beleza que inundava meus olhos. Não pude simplesmente ignorar e seguir como se aquilo fora mais uma das muitas coisas que presenciamos na vida e não lhes damos o valor devido. Tentar descrever é sempre muito inútil e pouco justo -- com a memória e com quem lê a tentativa -- tudo já nasce impregnado de frustração.

O rio não é largo; infelizmente não é como aqueles que dizem existir em terras que não conheço: massas de água impossíveis de distinguir de oceanos. Adoraria, um dia, estar à margem de um desses rios-oceanos. O que via naquela tarde, no entanto, era possivelmente um rio estreito - não mais do que dez metros de um lado ao outro. No estreito espaço em que me encontrava havia muitas árvores e muita sombra, um cheiro verde, adocicado, típico das matas após uma forte chuva. Cheiro de terra e grama molhada. Uma névoa qualquer de verde.

O rio corria rápido, engolindo com pressa pedras acumuladas em seu leito. Ainda assim, sua superfície servia de espelho para todo o mundo que nascia, tranquilo, em sua volta. Nuvens e árvores duplicados, transmutadas em água -- que rolava por baixo das imagens, ao mesmo tempo que por dentro das imagens. E o ruído borbulhante de um rio.

Na margem oposta a mim erguia-se um monte muito suave e recoberto de relva alta. As folhas, muito longas, eram lambidas pela brisa suave que insistia em soprar - atrapalhando-lhes o sossego. (Não havia cerca. Em nenhum ponto.) Menos árvores cresciam por ali, muitas delas desfolhadas, seus caules retorcidos, ótimos poleiros, imagino. O espaço todo muito sereno era incomodado quando, vez por outra, avistava uma das árvores. A calma era quebrada por alguns segundos, para retornar dali a pouco; como um carinho.

Algumas árvores -- porque o mundo não é apenas um lugar de tristeza -- fugiam ao padrão. Estavam, também, aparentemente secas, sem nenhum verde. Os mesmos galhos fortes, contorcidos, suplicantes. Mas essas árvores explodiam. Explodiam em cores. Eram principalmente amarelas, mas era possível encontrar exemplares lilases e um, apenas um, branco.

Embaixo da árvore com as flores brancas estava formado um tapete. Percebi logo que a ausência de outras semelhantes e aquelas flores mortas todas no chão significavam que aquela era uma árvore efêmera, muito rara, com um período muito curto de floração.

O ipê-branco, soube depois, explode por apenas um único dia. Um única vez a cada ano. E nesse espaço de pouquíssimas horas, precisa preservar-se. É por isso que se encontram tão poucos nas matas -- e daí a exuberância de sua cor, a beleza chamativa de suas flores.

As montanhas que se levantam até onde os olhos conseguem enxergar, nessa época do ano, são presenteadas com raras mas infinitamente belas explosões de cores e de vida. É lindo estar sentado à margem de um rio, no alto de um morro, observando os pequenos pontos amarelos, lilases e, se a vida resolver te presentear, um lindo ponto branco entre os vales.

Não tirei foto -- não me pareceu correto. Estava sozinho -- passeava. E, como disse antes, tentar reviver aquele momento através destas linhas é uma injustiça com a memória de um momento tão sublime e uma injustiça sem par, com todos os que não estiveram lá comigo.

Gosto ainda mais dos invernos muito frios e secos, por saber que isso garante, em fins de julho, começo de agosto, ipês improváveis, fantásticos, irreais.

Tenho um ipê amarelo no meu quintal. As primeiras flores desabrocharam nesta madrugada. Não há nenhuma folha. Daqui a alguns dias, não haverá mais uma árvore - mas um presente.

_______

No verbete da Wikipédia dedicado ao ipê-branco há uma foto do ipê que está num dos estacionamentos da Unicamp, ao lado do ginásio, que eu admirei, florido, todos os sete anos que passei naquela universidade.

sigo calado. e as portas que pareciam se abrir, quando vistas de dentro, permanecem fechadas. não falo, não me entendo, me procuro muito mais do que um breve encontro e o que está, por enquanto, não aplaca. são, são horas muito tardes. está errado. o que devia acontecer -- sono e repouso e compreensão pra ser compreendido -- nunca. nunca e por quê? no hay, yo creo, pero no hay.

é a antítese. é o dissabor. mas não é lento e reclamando. isso de estar acordado. mais: a obrigação de dormir. ter que dormir é a antítese de dormir.

ponho os óculos e penso no Hemingway que está entreaberto na pia do banheiro. leituras que vou fazê-las mancas. talvez falta de talento pra Hemingway ou Camus. é preciso aceitar que não saberei aprender a ler. como não sei (ou saberei) escrever. é um me enganar mais do qualquer coisa.

jamais tocarei um violão. aceito isso. mas insisto no Ernesto.

vou chegar atrasado: 'é o thiago', o thiago pode. penso sobre mim ~ o que os outros enxergam. isso não é comportamento de um adulto. Adulto. é só o que eu vejo: um moleque grande. como assim eu tenho que dar respostas e saber? eu não sei. nem sou.
mas tem esse impulso de sentar na frente do teclado, pensando em Hemingway, e escrever. pretensão.

eu iria pra Uganda. iria pra Uganda ler Hemingway pra prisioneiros do maior presídio em Kampala. não ter talento, nesse caso, pouco significa, porque eu apenas leria, ressoaria, "Adeus às armas" -- não seria preciso dar explicações.

explicações me matam um pouco a cada giro.

é estúpido. ficava feliz porque há alguns anos me descobri sendo eu mesmo, sem máscaras nem tentativas. apenas era. doidivanas. pareciam gostar. agarravam minhas mangas, grudavam em minhas calças, meus cabelos eram compridos e eu queria pular por corredores brancos de chão encerado. as famas.

aperta que sai. um vulcão que explode, uma espinha. claxon.

Se você não fuma, eu vou entender o seu asco. Vou entender que você sinta pena de mim por eu estar me matando lentamente, cometendo o suicídio a cada cigarro tragado. É um direito seu pensar em mim como uma pessoa rasteira, enganada pelo falso charme do cigarro, iludida pelas campanhas publicitárias que me prometem (ou prometiam) o Mundo de Marlboro, mal informada e ignorante dos malefícios que essas "quatro mil e setecentas substâncias tóxicas" levam a minh'alma a cada novo maço.

Eu entendo e respeito.

O que eu não entendo, sinceramente, é alguém em sã consciência, ciente dos fatos, inteligente a ponto de escapar da vileza que é a influência do cigarro nas vidas humanas, compactuar com essa lei fascista, baixada goela abaixo da população, criada pelo Governo do Estado de São Paulo.

Fumar é um hábito que pode ser muito desagradável a quem não o cultiva. Compreendo isso vivamente. Exatamente por isso, evito fumar perto de pessoas que não fumam. Eu diria "é um fumar consciente", se isso não soasse tão estúpido. O que acontece é: sejamos polidos; quem não fuma, prefere não fumar por tabela também. Desse modo, acendo meu cigarro em lugares que pouco incomodam outras pessoas. E penso que esse comportamento se repete com a maioria dos fumantes -- especialmente porque fumar pode determinar, até mesmo, se você é apto ou não para trabalhar nesta ou naquela empresa. Há relatos de professores que não foram contratados unicamente porque fumavam. De uma estupidez sem tamanho.

Essa lei do governo José Serra tem vários pontos discutíveis. O pior deles talvez seja a criação de um estado de denuncismo, onde os frequentadores dos lugares em que agora fica proibido o livre-fumar podem delatar o dono do estabelecimento e os fumantes que desrespeitaram a proibição. A vigilância fica a cargo do cidadão comum que, imbuído da nobre missão de erradicar esse problema, transforma-se em policial de seus iguais. Tudo isso legitimado pelas letras da lei. E ninguém parece notar esse absurdo.

E a imbecilidade não termina aí. As propagandas do Governo do Estado tentando angariar apoio à sua lei primam pela falta de lógica -- são uma rasteira no bom senso. Como essa, que vi piscando no topo do site Último Segundo, do IG.


Então, agora, os fumantes somos responsáveis por sujar o ar de todo um estado. Ignoram-se as causas concretas de tal fato para que fique provada a necessidade de esta lei ser apoiada pela maioria da população. População muito preocupada com a qualidade do ar que respira, certamente, enquanto vai até a padaria da esquina de carro. São oitocentos carros novos por dia somente na cidade de São Paulo e os fumantes, esses nojentos, somos os reais culpados pelos níveis altíssimos de poluição atmosférica.

Eu nunca compreendi porque as ações contra o fumo sempre foram mais "incisivas" (para usar um termo mais brando) do que as investidas contra todos os outros tipos de drogas. É socialmente aceitável um porre por semana, incluídos os eventuais riscos a outras vidas (se a pessoa resolver dirigir para casa, por exemplo), mas é abominável a ideia de alguém se matar (e matar a outros!) acendendo um cigarro.

E, veja, não se trata aqui de uma comparação tosca entre o melhor entre o pior. Fumar faz mal -- ninguém sabe melhor disso do que quem fuma. Se você não fuma, ótimo. A vida vai dar um jeito de te matar de outra forma, mas, felicite-se!, você não é mais um dos muitos iludidos e seus maços de cigarro. Agora, eu, que fumo, não posso ser impedido de querer fumar um cigarro enquanto tomo minha cerveja no fim de semana. Especialmente se eu faço isso tomando o máximo de cuidado para evitar o seu transtorno, amigo não-fumante. Se você resolve que a melhor saída é me denunciar ao poder público, multar o estabelecimento, você está concordando com a ideia de que algumas liberdades podem (e talvez devam) ser suprimidas em nome de um bem comum. Vê o perigo? Vê porque essa é, de fato, uma lei fascista?

Você, não-fumante, um policial à paisana, um cidadão convertido em fiscal do Estado, zelando pelo bem-estar "da maioria", passa a escrutinar as vidas alheias, coibindo certos atos que atentam contra a "qualidade de vida" da população. Você, não-fumante, me proíbe certo ato de liberdade -- e todos ficam muito felizes; afinal, todos temos o ar limpo, os bares sem fumaça e sem esse cheiro nojento. Agora pensa: eu, fumante, posso encontrar novas (ou antigas) formas de proibir certos atos de liberdade caros a você, da mesma forma legitimado pelo Estado. Esqueça o cigarro; use outro símbolo. E daí, como ficamos?

em resposta a um e-mail na lista de discussão do Centro Acadêmico das Ciências da Terra, também conhecido como CACT-Unicamp, que falava sobre três greves acontecendo (ou acontecidas) em Campinas, São Paulo, nos últimos dias: 1) dos motoristas e cobradores de ônibus, 2) do funcionalismo público e, 3) da universidade pública.

entender esse movimento é entender o mundo. são três greves, simultâneas. nenhum diálogo entre as três. reivindicações que não ultrapassam o direito individual de consumo - quero mais dinheiro para mais compra. o que, vejam, é legítimo. há que se comprar leite e pão, há que se ir a um cinema ou tomar uma cerveja no fim de semana.

sabemos que a cidade não oferece isso a todos. não da forma como ela se organiza. ou, como é organizada por nós. no entanto, imagino, lá estão faixas, carros de som, muitos gritos e palavras de ordem, as mesmas figuras e suas bandeiras, a "força do povo" em ação.

nada menos "povo" do que isso. nada menos esclarecedor do que três greves, simultâneas, que não dialogam. tinha um senhor que dizia: o necessário, meu menino, é que todos, independente se têm uma vassoura na mão, um giz, um carimbo, vestem preto ou azul, dizem bom dia ou acordam de mau humor, todos precisam reconhecer-se como uma classe. vai ver ele tava mesmo é certo. e é o que falta.

enquanto grupos segregados, desunidos, portanto fracos, continuarem "batalhando" por seus interesses particulares e não saírem (não sairmos!) às ruas aos milhões, a coisa embolorada - que boia, como disse o Diego -, permanecerá por aí. é preciso que nos reconheçamos na mesma e desagradável situação. olhar pro cara que tá do meu lado no ônibus, na fila do banco, no PF, na greve e confirmar minha semelhança, a indissociabilidade dos meus anseios dos anseios dele.

no dia 1º de Maio, dia dos que trabalham, na França (e sempre a França, me perdoem), todas as centrais sindicais - separadas e brigando por seus interesses há anos (séculos?) - se juntaram e milhões (e isso não é uma hipérbole) marcharam por Paris. Dizem que o Sarkozy evitou deixar a cama naquele dia - um mal súbito, não houve médico que explicasse.

aqui no Brasil (sempre o Brasil, perdoem mais uma vez), eu vi, meninos, uma multidão indo pra festa da CUT e pra festa da Força. nem uma festa junta eles puderam fazer. o Paulinho não teve vergonha de aparecer. mas eu e meus escrúpulos. coisa mais em desuso. vi, também, lá em Porto Alegre, linda cidade, outra multidão indo benzer carteiras em missa com a Nossa Senhora dos Navegantes, vulgo Iemanjá - que esse sincretismo brasileiro funciona à perfeição. é lindo tudo isso.

daí que: como? como se não há reconhecimento? sozinho, não dá. fica complicado.

Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão e que, para ser verdadeira, tenho que continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entendê-la. Toda compreensão súbita me parece muito com uma aguda incompreensão. Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se em si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes. Qualquer entender meu nunca estará à altura dessa compreensão, pois viver é somente a altura a que posso chegar - meu único nível é viver.
(Clarice Lispector, "A paixão segundo GH")

:
porque estar certo de si, numa infinita pretensão de sabedoria não é de fato saber de si. é menos, e diz menos, do que flutuar em incertezas.

"todo momento de achar é um perder-se em si próprio."

Eu preciso que esses meninos pensem - que sejam livres para pensar e que se dediquem a essa liberdade.

Não é possível que permaneçam presos a um cabedal de ideias que lhes é pretérito sem que tenham a vontade (e o hábito, adquirido) de contestar tudo o que na maior parte do tempo parece normal.

Naturalizados, certos comportamentos sociais tornam-se uma espécie perniciosa de dogma que mais emburrece do que esclarece. E a minha função dentro de uma sala de aula é trazer à luz essas normalidades e destrinchá-las.

Mas fica óbvio que cada vez mais a resistência com relação a esse exercício de liberdade vai aumentando. Talvez minha perspectiva na comparação com a geração que hoje senta nas salas de aula seja outra e derivada de um outro tipo de construção do conhecimento e do próprio entendimento do mundo - que me permite a dúvida. Talvez seja somente um problema do "público" a quem me dirijo: excessivamente "infértil", um solo rude, já viciado.

E são crianças. São adolescentes. A força para as mudanças está neles e no entanto, o que eu vejo são reproduções irrefletidas de comportamentos que não lhes pertencem. A influência da família e de certo tipo de propaganda subtrai dessas pessoas a característica inata do "cogito", da dúvida. Eles simplesmente não duvidam, não querem duvidar e em torno de si, um escudo criado por esses elementos (família + propaganda bem sucedida) transforma qualquer tentativa de discussão num ambiente estéril.

Digo isso porque durante esses dias, achei de discutir (fiquei, pelo menos, na tentativa) alguns assuntos que tornaram à moda ultimamente. Entre eles, a "questão ambiental", suscitada pela campanha da ONG SOS Mata Atlântica, "Xixi no banho".

Como toda discussão ambiental, essa campanha propõe uma solução local, pontual, para um problema que é global. Ignorando a pertinência de uma reflexão em maior escala, incita as pessoas a uma atitude perante o problema que, além de ser algo absolutamente nojento e desnecessário, não dá conta da complexidade do processo. É, no entanto, um conforto para a tal República Morumbi-Leblon-Belvedere¹ a chance de "fazer alguma coisa" sem descalçar as pantufas, no conforto de casa. A consciência pesada fica aplacada em função de uma ação individual, inócua, mas convincente (especialmente quando em conversas com quem "não faz nada"). E esse convencimento é fruto da propaganda massiva, que usa os meios mais eficientes para tanto (no caso, um site "bonitinho", com uma trilha sonora "engraçadinha" e muitas frases de efeito) que acertam em cheio a alma do cidadão de classe média que aceita urinar no chuveiro, mas não dispensa o carro, não diminui o ritmo de consumo, não se organiza em prol de atitudes "macroescalares".

Toda discussão ambiental que se baseia na famigerada "responsabilidade individual" é um erro de perspectiva monumental. Ajuda a diminuir o sentimento de culpa, cativa pela ideia de pertencimento a um grupo "ambientalmente ativo e responsável", mas na prática não significa uma mudança estrutural; mudança que precisa acontecer se a intenção (legítima, diga-se) é a melhoria da qualidade de vida e do trato com o planeta e com nossos "vizinhos".

Educação ambiental é um faca de dois gumes. Ela deve existir, sem dúvida nenhuma, mas precisa se dedicar a instruir as pessoas ao bom convívio dentro de uma comunidade. Ambiente, este conceito, não significa apenas a floresta amazônica ou o rio da cidade; significa, também, a co-existência saudável entre todos os indivíduos da sociedade. E nesse sentido, é absolutamente necessário que se entenda a importância de não jogar lixo na rua, nos rios, de usar menos o transporte individual, de exigir esta ou aquela atitude dos governantes. Como um todo. O conjunto da sociedade trabalhando em favor de uma melhoria significativa na vida de seus indivíduos. Educação ambiental não pode mascarar essas questões seriíssimas focando seus trabalhos no "adestramento" das crianças e jovens dentro da falsa percepção de que deixar de varrer o quintal com a mangueira, desligar a torneira pra escovar os dentes, fazer xixi no banheiro são soluções efetivas contra a degradação do planeta. Porque não são. São paliativos de consciência.

O planeta está sendo degradado por conta do estilo de vida que todos levamos. Se ações individuais resolvessem o problema, ótimo. Mas apenas uma mudança em grande escala (principalmente com a alteração nos níveis de consumo) pode fazer alguma diferença².

Não adianta nada eu fechar minha torneira enquanto escovo os dentes, se um produtor de soja nos latifúndios do Mato Grosso continuar usando (e poluindo) bilhões de litros de água potável todo mês para irrigar sua plantação que vai alimentar o gado europeu.

O problema é sistêmico. Não adiantam soluções lineares.

O que não significa que a atitude deva ser a de simplesmente cruzar os braços ou dar de ombros. De modo algum. Algo precisa ser feito e é bom que hajam pessoas dedicadas a isso. Apenas que suas ações precisam ser globais, não pontuais.

Os alunos, ao ouvirem isso, recusaram a reflexão. Muitas pessoas recusam. Sentem-se até ofendidas, porque, afinal de contas, "estou fazendo a minha parte". É ótimo que exista a noção do problema, mas não é bom que as tentativas de solução sejam direcionadas equivocadamente.

__________
¹ Expressão cunhada (até onde sei) pelo Idelber Avelar, que vem muito a calhar.
² É emblemático nesse ponto o curta/documentário produzido por Annie Leonard, chamado "The Story of Stuff". Em menos de 30 minutos, está descrito todo o processo produtivo que destrói o planeta, baseado no consumo de massa. Há uma versão em português (dublado e legendado) neste endereço.

escrevi minhas primeiras frases em catalão.

Tinc molt desig d'aprendre a parlar el català. Escoltar música català crec que és un bon començament.

Una vegada més, gràcies per l'avís.

Una forta abraçada,

enviadas a um menino (catalão, por suposto) que me indicou meu vício atual, a banda catalã Manel. basta uma visita ao meu profile no Last.FM que qualquer um nota quanto a banda tem me acompanhado.

e mais do que isso. me põe em contato com essa língua que eu considero uma das mais belas que já ouvi. não sei até que ponto é verdadeira a afirmação de que o português, aos ouvidos estrangeiros, é sonoro, leve, "fluido", quase uma língua cantada, mas é por acreditar nesta assertiva que afirmo: eis aí uma língua para competir com a nossa em fluidez, leveza e beleza.

quem fala catalão, não termina as palavras. e, apesar de ser uma língua aparentada ao português, não se entende muita coisa do que dizem os falantes. a construção das frases, das palavras, o jeito de dizerem, como soa, por exemplo, "Els millons professors europeus" (o nome do disco do Manel), nunca vai ser o que achamos.

pretendo aprender a falar catalão. como pretendo aprender russo (mais do que apenas saber ler o alfabeto cirílico). me pergunte por quê.

  • quero não terminar palavras catalãs.
  • numa volta pela Unicamp, anos atrás, entrei no prédio onde aconteciam as aulas de línguas da universidade. cada sala dedicada a uma língua, havia hebraico, inglês, espanhol, alemão, grego, latim, japonês, francês e russo. na sala do russo, num quadro de avisos, estavam pregadas duas redações escritas naquele dia, com o cirílico cursivo (que eu nunca tinha visto). achei lindo. foi ali a decisão.

tenho um livro novo do Dostoiévski, "Братья Карамазовы" ("Os irmãos Karamázov"). é ele meu autor preferido - do pouco, muito pouco, que li. "Crime e castigo" é o maior livro que conheço (e não me refiro a tamanho). o drama psicológico, denso, cruel, poderoso influenciou tanto meu modo de pensar durante um tempo que nem sei. e agora, anos, muitos anos depois, finalmente compro "Os irmãos Karamázov", que, dizem, é a obra máxima do russo.

"livro novo" não significa que paguei extorsivos R$80 por uma nova edição. o livro é uma edição de 1980 do Círculo do Livro, com capa dura e em perfeito estado de conservação - ao que parece, nunca o leram.

ao mesmo tempo, comprei um presente para uma aluna que comemorou seus 15 anos neste sábado. "Budapeste", escrito por Chico Buarque. também um exemplar semi-novo. porque livro precisa ter história.

eis a dedicatória:

Isa,

Porque Budapeste é amarela, mesmo com um Danúbio (supostamente) azul lhe cruzando a alma e dividindo histórias entre Óbuda e Pest.

E porque a fantasia em prosa, transformada em poesia, faz da vida o que ela pode ser.

Não desista do húngaro. Não fuja ao respeito do Diabo. Aventure-se - e o amarelo, não-suposto, será sua chance de uma travessia possível.

Com carinho, Thiago e Bia.

com a intenção deliberada de que ela não entenda logo de cara.

Eu não sei do lugar - porque eu não estava lá. Entre o que eu escrevo agora e o começo de noite do domingo, morri uma parte e renasci outra. Se tinha mais 35mil pessoas ao meu lado, se choveu ou se fez frio, se os amigos estavam ali pra ser encontrados, se a luzes ou o vento, se a lama... Não sei. Eu não estava lá.

Não sei quais foram todas as músicas. Não lembro de ter respirado por duas horas e meia. Mas chorei. Chorei porque sim e porque foi a recompensa mais incrível por mais de dez anos de espera. Uma catarse minha, em mim - num tudo ao mesmo tempo que.

Tudo doía. O corpo todo, dolorido e amortecido. Em alguns momentos tudo o que estava muito confuso e difuso (com exceção do palco) voltava a ganhar forma, porque a dor de ficar em pé, num piso irregular, insistia em me trazer de volta à Chácara do Jóquei. Mas eu não estava ali - e se a dor rasgava os músculos, a próxima música sempre trazia mais lágrimas e uma euforia contida, silenciosa, como que por respeito.

E não porque sejam deuses de um planeta distante do meu. Eram ali uns meninos, tocando instrumentos e cantando - como tantos outros. Não eram deuses. Mas um respeito pela qualidade do que era apresentado, pela comoção coletiva, pela alegria de estar em pé (por quatro horas, na mesma posição) pra ver uma de minhas bandas favoritas.


Just 'cause you feel it doesn't mean it's there.


Lembro de ter pensado bobamente num momentos dos momentos em que voltei ao chão: "E a mãe do Thom, o que ela acha disso tudo? Como é?" Bobamente.

Fui absorvido pela dor e por um torpor que poucas vezes senti. Balançava o corpo pra diminuir o incômodo e pra deixar a música entrar por todos os poros. Me "alimentando de música", seguindo uma sugestão fantástica de Renmero, que junto com a Bia e a Michele, dividiram comigo a vitória. Mais essa vitória épica.

Você não ganha de mim quando o assunto são vitórias. Nunca.




This is what you'll get when you mess with us


Foram minutos infinitos. Entre uma música e outra a ansiedade me consumia. E nos primeiros acordes, adivinhados, mais uma porrada.

Um coro de 35mil pessoas convencendo a banda a continuar cantando a música que na teoria deveria ter acabado. E eles cantavam conosco. E sorriam. Eu os vi sorrindo e cantando junto. À merda com a modéstia: fomos uma grande audiência. Um coro de 35mil vozes. Catárticas. Entoando mantras. Eles estavam felizes, sorriam - riam! - e se surpreendiam com aquilo tudo.

Mas não vi nada. Eu não estava lá. Aquilo tudo não existiu. Foi sonho, com muitas luzes e uma das melhores bandas do mundo.


Your ears are burning
Denial, denial
Your ears should be burning
Denial, denial


Não quero me achar mais.

Férias acabando e mais um ano pela frente. Desde que comecei a trabalhar em escolas -- ou, "com Educação" -- meus anos nunca mais foram os mesmos, não há rotina. Eu não tenho a menor ideia do que está pra acontecer nem sei exatamente o que esperar. Além disso, foram quase dois meses de férias (e ainda terei mais um, em julho) -- quais outros profissionais podem se dar a esse luxo?

Nem tudo são flores, é claro. Trabalhar com Educação exige paixão, exige que a pessoa esteja preparada pra aceitar que numa sala com trinta alunos, dois (quando muito) realmente escolherão ouvir e tentar absorver o que ela diz. Não é fácil, especialmente se as expectativas são altas. E minhas expectativas são sempre altas. Com todos.

Imagino que professores das disciplinas Exatas não sintam com tanta ênfase esse peso. Se a molecada sabe calcular a área do triângulo ou decorou a fórmula do Movimento Uniformemente Variado, ótimo; se não, vão se dar mal na prova -- suas notas refletirão isso e serão argumentos sérios e firmes pra críticas ao sistema e ao pouco interesse dos pequenos. É um chute, me parece que é essa a relação a que esse time de professores se apega. Agora, no caso dos professores das disciplinas Humanas, em alguns casos, o buraco é mais embaixo.

Durante os anos de faculdade (mas não determinado por eles, certamente) o entendimento de qual venha a ser o papel de um professor (ou como querem ultimamente, de um "educador") vai muito além do que simplesmente ser ali na frente um megafone que repete conteúdos de livros, apostilas, o que seja. O contato que temos, nós outros, professores de disciplinas Humanas, com as mais diversas formas de compreensão da sociedade, constantemente postos em contato com seus problemas e dilemas, exige uma postura diante de tudo. Essa postura diante das questões humanas (seja qual for) reflete diretamente em nosso comportamento diante das classes e na relação com o trabalho feito ali.

São generalizações.

Quando, então, me posto diante da meninada e começo o ano letivo, trago na mochila, além de caderno e livros, um sem-fim de opções. Opções ideológicas, sobretudo. Porque lecionar é um trabalho de paixão -- movido por convicções ideológicas. Se não é, penso, não presta.

É perigoso dizer isso. Perigoso porque pode dar a impressão de que o que um professor "engajado" faz nas salas de aula é criar um pequeno mas fervoroso exército, moldado segundo suas convicções, disposto a qualquer coisa. Mas não é verdade. A motivação ideológica vai além das escolhas de como tratar determinados assuntos, vai além do pendor político de cada um; não é disso que se trata. A motivação é, acima de tudo, o que te empurra pra fora da cama todas as manhãs, porque de trinta, salvam-se dois. Não é a criação de exércitos. É a necessidade de insistir.

O modelo educacional está falido. É um fato que muitos insistem em não enxergar -- especialmente os mais velhos na profissão. É difícil mudar antigos hábitos. Mas não funciona mais. Funcionava pouco na minha época de aluno e, hoje em dia, muito menos. Os alunos não tem qualquer interesse pela escola. E não porque sejam delinquentes em potencial (como já ouvi aqui e ali), mas porque essa instituição -- criada no já distante século 19 -- não responde mais às necessidades dessa geração. Dessa, de duas antes dessa, e de todas as que virão depois. É preciso uma revisão completa, irrestrita, gigantesca -- e virtualmente impossível -- para que as coisas comecem a entrar em algum eixo de novo.

No final do ano passado conheci essa mãe. O filho dela, meu aluno, pula de escola em escola desde que começou a frequentá-las. Nunca se adaptou a nenhuma delas e sempre foi visto (muito em função de como as coisas estão estruturadas) como um "aluno problema". Se um dia te disserem que seu filho é um "aluno problema", esteja preparado pra mesma situação. "Alunos problemas" não são "problemas" pra Escola -- são encaminhados, tratados como doentes, visitam psicólogos, terapeutas, analistas...

Esse menino chegou em 2007 como um cachorro assustado pelos espancamentos frequentes: assustado, calado, macambuzio, pelos cantos. Dormiu em todas as minhas aulas. No fim do ano, muito provavelmente por pedido da mãe, foi aprovado e chegou ao primeiro colegial diferente. Começou a namorar uma amiga da classe e, por assim dizer, desabrochou. Continuou tirando notas baixas e dormindo em algumas aulas, mas falava, interagia, enfim, começou a se sentir acolhido.

Acontece que o método de avaliação que adotamos exige notas, que somam pontos, que numa relação das mais subjetivas que já experimentei na vida, me dizem "objetivamente" quanto daquilo tudo que eu tentei ensinar ele aprendeu. Pelas notas, ele não tinha aprendido muita coisa. Então a mãe veio conversar com os professores. E disse o que eu já sabia: não importa quantas vezes o filho dela seja reprovado, ele jamais vai "acordar", "se interessar", "se conscientizar" (ou qualquer eufemismo desses que "educadores" adoram).

O filho dela e tantos outros filhos pelo mundo não se enquadram no esquema atual dessa instituição que tantos defendem com unhas e dentes. As notas dele (ruins ou boas) não significam absolutamente nada -- em nenhuma análise, menos na que levamos em conta, na que me diz "objetivamente" que um 4,8 de conhecimento é pior do que um 5,0. É estúpido e cruel. É injusto e mentiroso. É uma imensa prisão, essa instituição Escola onde os pais descarregam seus filhos todas as manhãs.

Nem tudo são flores. Acordar de manhã e lembrar de tudo isso obriga a um empurrão, uma alavanca. E essa alavanca é acreditar que estar ali em pé, diante do filho dessa mãe, muito mais do que garantir a ele um histórico escolar ilibado dentro dessa merda de meritocracia em que vivemos, vai lhe dar ferramentas, vai lhe explodir a cabeça, vai lhe apresentar um mundo para além dessa lama toda. Se não for isso, não dá -- é simplesmente impossível.

Eu sou um professor. Hoje dá pra dizer isso sem muito medo. Me tornei um professor e sou uma pessoa apaixonada por isso. Se antes havia dúvidas, hoje elas cresceram e são outra coisa -- ainda interrogações e medos, mas outras coisas.

Na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, tudo recomeça. Sem a menor suspeita do que está por vir, me declaro feliz com tudo. Feliz mas consciente de tudo quanto está orbitando minhas aulas. Não são só aulas, "shows geográficos"; ao menos não quero que sejam (apenas) isso. É uma consciência pesada, que tem a reboque responsabilidades tão grandes e tão destruidoras que não tenho a menor ideia de como ainda estou inteiro. Inteiro? Não, em partes, desconexas. Uma confusão de mim.

Sobre o meu aluno: ele foi reprovado. Estará novamente no primeiro colegial, sem namorada ou amigos. Foi reprovado pelos votos dos professores de Exatas, que não acreditaram no que a mãe disse (ou simplesmente não ouviram).

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