Imagine que houve uma "discussão" no Twitter sobre a existência ou não de "preconceito contra a classe média" nos posts do blog "Classe Média Way of Life".
Imagine que um lado afirma que, sim, o tom do blog é preconceituoso, porque "a classe média é o novo preto" -- são as exatas palavras --, já que ela, a classe, sofre essa (inadequada, segundo compreendi) personificação de certo tipo de comportamento dito "da classe média", que não necessariamente pertence ao grupo social em questão, mas que lhe é impingido por pessoas preconceituosas.
Imagine que o outro lado contesta a afirmação do primeiro dizendo que, na verdade, não se trata de preconceito, uma vez que os textos do blog são escritos por representantes da própria classe média e, portanto, o que existe é auto-crítica, cujo veículo é o humor. Uma atitude louvável, a auto-crítica, que permite uma percepção da situação a partir de dentro, ressaltando pontos negativos na própria experiência. Expediente que pode desembocar numa reflexão saudável sobre os problemas e, talvez, na bem-vinda mudança. Em outras palavras, a auto-crítica como estopim de uma crise -- e a crise sendo, ela mesma, o estopim de revoluções comportamentais.
Agora imagine que o primeiro lado não dá o braço a torcer e não arreda pé de sua posição. Insiste que, na verdade, o blog é preconceituoso e hipócrita porque os autores não "admitem" que fazem parte da classe média em momento algum durante suas postagens. Criticam os comportamentos se imiscuindo de qualquer "responsabilidade" sobre os fatos -- ou seja, não embalam o Mateus que pariram.
O que o primeiro lado parece não ter compreendido é que nosso mundo é um mundo profundamente segregado. Um mundo onde os indivíduos de "tipos" diferentes caminham por estradas que raramente se cruzam. Uns não se dão a saber dos outros -- que literalmente são tratados como "os outros", um grupo (ou vários grupos) distintos de mim, externos à minha existência, irrelevantes dentro dos aspectos que compõem minha vida.
A isso chamamos classes sociais (e vários apêndices podem vir junto: economia, espaço, política, etc.). Vivemos numa sociedade de classes: dividida, desunida; alheios uns aos outros.
O Brasil, como poucos países do mundo, é um exemplo do que de pior essa sociedade de classes pode criar. Há, por aqui, uma pequena parcela da população que vai muito bem, obrigado (em diversos aspectos, mas especialmente no acesso àquilo que a vida pode oferecer de melhor), e uma maioria esmagadora de pessoas que experimentam uma existência repleta de privações, muito em função do lugar que ocupam na nossa pirâmide social. Dentro da pequena parcela de pessoas que podem, que têm acesso, está a classe média -- bem na rabeira, se equilibrando no orçamento apertado de fim de mês, que, ainda assim, permite algum luxo nessa vida severina.
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão
("Meu caro amigo")
Pois bem.
Imagine que a classe média, representada pelos posts do tal blog, por quem os escreve, por mim, por você, vivemos nessa ilha de prosperidade. Vivemos nessa ilha de prosperidade e, segundo as pesquisas mais recentes, somos quem, de fato, têm acesso à internet no conforto de nossos lares. Os "internautas" somos ainda um grupo restrito aqui no Brasil. Ainda é muito caro ter um computador, pagar um serviço de conexão, comprar uma mesa e uma cadeira confortáveis, ter um estoque (digno) de cervejas na geladeira se, como a maioria (não nos esqueçamos), precisamos sobreviver com salários miseráveis (obviamente, quando há salário) nessa carestia eterna.
Temos então essa ilha. Nessa ilha convivemos com outra classe social: a classe rica. Os ricos "na batata" -- com a licença da paráfrase -- que nasceram ricos, estão ricos, morrerão ricos. Pessoas pra quem o carro do ano, a roupa da moda, o último aparelhinho mágico do Steve Jobs, não são "sonhos de consumo", mas uma realidade tão corriqueira que, a bem da verdade, não significam tanto. Para a classe média, no entanto, ali na bordinha da ilha, ter todas essas coisas -- poder desfilar com o iPod no ouvido, dentro do carro zero quilômetro, vestindo uma marca qualquer -- são muito significativas. E mais. São indicativos de que este indivíduo se trata de alguém muito bem sucedido, fora do comum, não-ordinário. É visto com inveja e desdém pelos pares que não conquistaram (ainda!) seu lugar ao sol -- e que pra isso, insistem no método "cidadão de bem".
Circundando essa ilha, temos, por definição, o mar. Mas não se trata de um mar qualquer. É um mar de merda. Uma imensa extensão de agruras liquefeitas. Um oceano de miséria, carência, esquecimento. Criado pela ilha e, ao mesmo tempo, criador da ilha -- numa relação perniciosa para o lado frágil da corda, já diria o outro.
Nesse mar, nesse terceiro espaço, vive a maioria. Vivem as pessoas que a classe média insiste em temer: a classe pobre. "O Outro". O demônio dentro do armário, que cutuca a bunda da classe média com seu tridente todas as manhãs, pra lembrar que "sem trabalho duro, não se chega a lugar nenhum". Ou pior, chega: à classe pobre. E isso é inadmissível.
Tanto a classe rica quanto a classe pobre, no entanto, não prestam muita atenção à classe média. Para os ricos, não passamos de arremedos, tiros que saem constantemente pela culatra, tentativas mal-sucedidas, fonte inesgotável de vergonha alheia. Para os pobres, somos os caras que tacam fogo em mendigo, que fecham as janelas (blindadas, depois de três meses de economia) ao entrar numa "área perigosa" (normalmente um bairro pobre) -- e querem mais é que a gente se exploda. Nós é que ficamos queimando a mufa com ambos -- admirados com os primeiros, observando de soslaio os segundos.
Os ricos e os pobres têm suas próprias lógicas, suas próprias territorialidades no espaço. Isso fica muito claro dentro do espaço urbano -- onde há que se conviver com todos os tipos. Infelizmente, dizem alguns. Há bairros ricos e há bairros pobres. Há eventos de ricos e há eventos de pobres. Há baladas de ricos e há baladas de pobres. No ambiente virtual, isso se repete. O que eu, excelso representante da classe média, faço na internet é diferente do que uma pessoa rica vai fazer ou do que outra, pobre, vai fazer (lá na lan house).
Mas há os momentos em que o mar de merda avança sobre a ilha. E todos fogem -- quase sempre. Exemplos: 1) Não há o que chamam de "orkutização" de mídias sociais? As pessoas esvaziando espaços virtuais quando "o outro" invade domínios pouco consolidados com essas "conversas de pobre", "esses erros de português", "esse comportamento chulo", "esse computador das Casas Bahia", etc. 2) Não há o medo eterno da classe média (e dos ricos, também, por que não?) com relação à violência, ao que foi conquistado "com tanto suor", que pode a qualquer momento ser roubado por essa massa ignara e suja? E tome vidro blindado, grades, muros, guaritas, armas, polícia pra quem precisa com sua "violência preventiva". 3) Não há aquele momento na festa de formatura ou de casamento em que todos dançam "rebolando até o chão" quando toca um funk carioca -- produto egresso dos morros, das favelas, do populacho, "som de preto"; mas que na hora "de se soltar", serve? Quando o mar avança, as classes na ilha chiam (menos enquanto dura a festa). Quando permanece mar: permanece longe, distante, incógnito -- bom.
Fica ali a classe média espremida entre o que pretende ser e o que despreza. Nessa ilha criada pela nossa sociedade espacial, economica e socialmente segregada.
Confusa, perdida, embasbacada, alienada, massa: é para o centro da ilha, a morada dos ricos, que a classe média olha. Acaba que se esquece do mar. E se acostuma a achar que todos vivem como si ou como os ricos (se for alguém "que mereça"). Quando, na verdade, a maioria está no mar -- levando uma vida do cão, à sua maneira. Aqui peca quem não acredita na auto-crítica, pois considera que todos são como si, que tem as mesmas inquietações e as mesmas preocupações -- que outras classes além da classe média escreveriam um blog rindo da classe média. Não, não escreveriam.
Tudo isso pra dizer que, provavelmente, a segunda parte está correta na sua contestação. Fica patente, se você analisa a realidade social do Brasil, que os autores do blog muito provavelmente são representantes da mesma classe média que criticam através do humor. É, portanto, uma auto-crítica, como ensinou a segunda parte, e não "preconceito contra a classe média". Considerar essa possibilidade é não compreender o país em que vive. Me parece muito pouco provável que um rapaz vá gastar seus reais de tempo na lan house pra ficar escrevendo textos sobre a classe média -- esse monstrengo que ele "desentende", que não lhe diz nada, que é apenas o carro com os vidros fechados ou a senhora que segura a bolsa na frente do corpo quando ele passa.
A classe média rindo de si é o melhor que essa história toda tem: entendendo sua ignorância em relação ao que lhe cerca, entendendo seus antolhos, estes sim, perigososamente preconceituosos.
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Nomes e links não citados de propósito. São pessoas conhecidas e foi uma "discussão" largamente acompanhada, e este não se trata de um post sobre essas pessoas.