No qual venho a público para, enfim, elucidar a única coisa que me interessa nessa Olimpíada chinesa: o nome da capital.
Se pudéssemos ler mandarim, o grupo de dialetos que regula oficialmente a língua chinesa, todos estaríamos aptos a compreender estes ideogramas e, então, o mundo seria mais feliz e os restaurantes aqui no Brasil serviriam comida chinesa verdadeira. Infelizmente, não é o caso.
Em função de nossa inépcia, senhores mui gentis desenvolveram maneiras de transliterar os sons dos ideogramas para fonemas mais próximos a nós outros, ocidentais; processo conhecido como romanização - que também se aplica a outros alfabetos e sistemas de escrita, como o cirílico (usado por muitos povos do leste europeu e do norte asiático), o árabe, o grego, etc. Trata-se de um expediente muito complexo, no qual adequações e aproximações nada sutis são exigidas.
Os caracteres chineses não representam fonemas - mas idéias. Para cada um dos 5 mil caracteres meramente "alfabetizantes" utilizados (dentre os mais de 55mil existentes), há quatro formas diferentes de serem ditos, variando o registro de sua tonalidade. Então, para proceder as aproximações meramente fonéticas, foram inventados três métodos principais. Quais sejam:
- Wade-Giles: criado por Thomas Wade, um diplomata britânico, em 1867, posteriormente revisto e melhorado por Herbert Giles, esse método, além de indicar o som correspondente ao fonema dos caracteres chineses, também indica seu tom através de números sobrescritos ao lado das sílabas. (exemplos: 妈 = ma1, 麻 = ma2, 马 = ma3, 骂 = ma4)
- Yale Romanization: um método criado para facilitar a compreensão do chinês (em seus diversos dialetos) pelos soldados americanos na Segunda Grande Guerra, ou seja, usa sons familiares aos ouvidos anglófonos para marcar fonemas e tons; talvez seja algo mais simples aos ouvidos dos gringos do que aos nossos, e de fato os exemplos deste artigo na Wikipédia confirmam essa impressão.
- Hanyu Pinyin: diferentemente dos dois últimos, esse método é, de fato, uma romanização e não uma "anglicização" dos caracteres. Criado pelos próprios chineses a fim de buscar uma uniformização das transliterações, é aceito mundialmente por ser menos hermético e mais intuitivo do que os anteriores - na medida em que busca exprimir os "sons das palavras", sem se prender a nenhuma língua ocidental ou a símbolos de alfabetos fonéticos ininteligíveis. (Como exemplo, o nome da China: 中國, Zhōngguó e não, Chung¹-kuo² - como ficaria usando o Wide-Giles.)
De acordo com o que reportaram os primeiros viajantes europeus ao chegar à China (o "Império dos Chins", nome da dinastia reinante naqueles anos), o nome de sua capital soaria como "Paquim" ou "Pequim". A tradição desta aproximação em português manteve-se durante todos os séculos em que Portugal permaneceu em território chinês e até hoje, estendendo-se, inclusive, a outros topônimos, como Nanquim (Nanjin, 南京), Cantão (Guangzhou, 廣州), Xangai (Shanghai, 上海), etc.
Essa tradição, no entanto, está sendo revista - uma vez que os organismos internacionais que regulam essas questões, passaram a considerar o método Pinyin de transliteração dos caracteres chineses como o preferencial. Entidades como a Organização Internacional para Estandardização (ISO 7098:1991, 1979), a Biblioteca do Congresso Americano (cujas diretrizes encontram-se neste site), o próprio Governo chinês e o Governo de Cingapura (onde o chinês é uma das línguas oficiais).
É por isso que de alguns anos pra cá, temos visto muito mais Beijing (Běijīng) em anúncios, placas, reportagens, blogs, atlas, etc., etc. do que a antiga forma Pequim (Pei3 ching1). Foneticamente, são a mesma coisa - apenas tentativas diferentes. O sons do b e do p, na boca de um chinês, ficam muito parecidos. Tanto que criam essas confusões todas.
Agora, o ponto principal dessa questão: nenhuma das duas formas está errada. Não queira dar uma de sabidão no bar, no emprego, no blog se você não sabe. Não há, na essência, diferença nenhuma, uma vez que ambos os nomes referem-se a tentativas de transliteração dos mesmos caracteres chineses - o que há são opções por métodos diferentes para tanto. Usando o mais antigo, diz-se Pequim; usando o mais recente, diz-se Beijing.
Por fim: não, Beijing não é Pequim em inglês; não, quem diz Beijing não é um maldito vendido ao Império.
E, obviamente, não, isso realmente não importa.
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O nome da capital chinesa segue uma tradição muito comum dos países do Extremo Oriente - refere-se literalmente à função desempenhada pela cidade. Assim, Beijing (北京) significa "capital do norte", enquanto que Nanjing (南京), nome de uma das antigas capitais, significa "capital do sul" - ou ainda: como Tóquio (東京) e Đông Kinh (東京, em chinês - hoje chamada Hanói), capital do Vietnã, significam "capital do leste", e Kyoto (京都) e Seul (京城, em chinês) significam apenas e tão-somente, "capital". Repara nos caracteres, um sempre se repete: 京, "kyo", representa "capital".
PS: E, claro, se você não tem instalados em seu computador os arquivos que permitem ver caracteres orientais, esse post ficou cheio de quadrados inexpressivos. Vá se informar.

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