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No qual venho a público para, enfim, elucidar a única coisa que me interessa nessa Olimpíada chinesa: o nome da capital.

Se pudéssemos ler mandarim, o grupo de dialetos que regula oficialmente a língua chinesa, todos estaríamos aptos a compreender estes ideogramas e, então, o mundo seria mais feliz e os restaurantes aqui no Brasil serviriam comida chinesa verdadeira. Infelizmente, não é o caso.

Em função de nossa inépcia, senhores mui gentis desenvolveram maneiras de transliterar os sons dos ideogramas para fonemas mais próximos a nós outros, ocidentais; processo conhecido como romanização - que também se aplica a outros alfabetos e sistemas de escrita, como o cirílico (usado por muitos povos do leste europeu e do norte asiático), o árabe, o grego, etc. Trata-se de um expediente muito complexo, no qual adequações e aproximações nada sutis são exigidas.

Os caracteres chineses não representam fonemas - mas idéias. Para cada um dos 5 mil caracteres meramente "alfabetizantes" utilizados (dentre os mais de 55mil existentes), há quatro formas diferentes de serem ditos, variando o registro de sua tonalidade. Então, para proceder as aproximações meramente fonéticas, foram inventados três métodos principais. Quais sejam:

  • Wade-Giles: criado por Thomas Wade, um diplomata britânico, em 1867, posteriormente revisto e melhorado por Herbert Giles, esse método, além de indicar o som correspondente ao fonema dos caracteres chineses, também indica seu tom através de números sobrescritos ao lado das sílabas. (exemplos: 妈 = ma1, 麻 = ma2, 马 = ma3, 骂 = ma4)
  • Yale Romanization: um método criado para facilitar a compreensão do chinês (em seus diversos dialetos) pelos soldados americanos na Segunda Grande Guerra, ou seja, usa sons familiares aos ouvidos anglófonos para marcar fonemas e tons; talvez seja algo mais simples aos ouvidos dos gringos do que aos nossos, e de fato os exemplos deste artigo na Wikipédia confirmam essa impressão.
  • Hanyu Pinyin: diferentemente dos dois últimos, esse método é, de fato, uma romanização e não uma "anglicização" dos caracteres. Criado pelos próprios chineses a fim de buscar uma uniformização das transliterações, é aceito mundialmente por ser menos hermético e mais intuitivo do que os anteriores - na medida em que busca exprimir os "sons das palavras", sem se prender a nenhuma língua ocidental ou a símbolos de alfabetos fonéticos ininteligíveis. (Como exemplo, o nome da China: 中國, Zhōngguó e não, Chung¹-kuo² - como ficaria usando o Wide-Giles.)

De acordo com o que reportaram os primeiros viajantes europeus ao chegar à China (o "Império dos Chins", nome da dinastia reinante naqueles anos), o nome de sua capital soaria como "Paquim" ou "Pequim". A tradição desta aproximação em português manteve-se durante todos os séculos em que Portugal permaneceu em território chinês e até hoje, estendendo-se, inclusive, a outros topônimos, como Nanquim (Nanjin, 南京), Cantão (Guangzhou, 廣州), Xangai (Shanghai, 上海), etc.

Essa tradição, no entanto, está sendo revista - uma vez que os organismos internacionais que regulam essas questões, passaram a considerar o método Pinyin de transliteração dos caracteres chineses como o preferencial. Entidades como a Organização Internacional para Estandardização (ISO 7098:1991, 1979), a Biblioteca do Congresso Americano (cujas diretrizes encontram-se neste site), o próprio Governo chinês e o Governo de Cingapura (onde o chinês é uma das línguas oficiais).

É por isso que de alguns anos pra cá, temos visto muito mais Beijing (Běijīng) em anúncios, placas, reportagens, blogs, atlas, etc., etc. do que a antiga forma Pequim (Pei3 ching1). Foneticamente, são a mesma coisa - apenas tentativas diferentes. O sons do b e do p, na boca de um chinês, ficam muito parecidos. Tanto que criam essas confusões todas.

Agora, o ponto principal dessa questão: nenhuma das duas formas está errada. Não queira dar uma de sabidão no bar, no emprego, no blog se você não sabe. Não há, na essência, diferença nenhuma, uma vez que ambos os nomes referem-se a tentativas de transliteração dos mesmos caracteres chineses - o que há são opções por métodos diferentes para tanto. Usando o mais antigo, diz-se Pequim; usando o mais recente, diz-se Beijing.

Por fim: não, Beijing não é Pequim em inglês; não, quem diz Beijing não é um maldito vendido ao Império.

E, obviamente, não, isso realmente não importa.
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O nome da capital chinesa segue uma tradição muito comum dos países do Extremo Oriente - refere-se literalmente à função desempenhada pela cidade. Assim, Beijing (北京) significa "capital do norte", enquanto que Nanjing (南京), nome de uma das antigas capitais, significa "capital do sul" - ou ainda: como Tóquio (東京) e Đông Kinh (東京, em chinês - hoje chamada Hanói), capital do Vietnã, significam "capital do leste", e Kyoto (京都) e Seul (京城, em chinês) significam apenas e tão-somente, "capital". Repara nos caracteres, um sempre se repete: , "kyo", representa "capital".

PS: E, claro, se você não tem instalados em seu computador os arquivos que permitem ver caracteres orientais, esse post ficou cheio de quadrados inexpressivos. Vá se informar.

Não se contam muitas histórias fantásticas para crianças hoje em dia. Suponho que a realidade já há algum tempo tenha ultrapassado qualquer enredo criado em quartos escuros... As pessoas já não se impressionam com facilidade nem se incomodam verdadeiramente com situações graves. Às crianças, imagino, isso deve fazer uma falta tremenda. Vão desaprendendo a sonhar, os pequenos. O que é, certamente, uma pena.

Pensei nisso enquanto o guia falava sobre a chegada dos primeiros imigrantes europeus ao Rio Grande do Sul. Foram trinta e seis dias em navios, o desembarque em uma região inóspita, ainda por desbravar - trazidos por promessas que, como se viu, jamais foram integralmente cumpridas: nenhum colono recebeu as terras ou as ferramentas a que teriam direito, nenhum italiano ou alemão encontrou o paraíso que esperavam. E, no entanto, lá estão seus descendentes, plantando e colhendo, produzindo deliciosos vinhos, cantando e dançando como então. É uma história fantástica. Não hiperbolicamente falando, não é um elogio ou uma exaltação; é fantástica no sentido de que, hoje, fica realmente difícil encaixar nos cenários muitos, as dificuldades e agruras que supomos terem enfrentado. O fato de aquelas pessoas terem sobrevivido a isso e conseguido manter relativamente intactos certos aspectos culturais que os identificam mutuamente, é algo fora do comum, quase como se inventado - fantástico.

Se as crianças soubessem como tudo aquilo se deu, aposto que não teriam dificuldade em acreditar noutras fantasias.

A improvável beleza de vales escarpados recheados de nuvens que se enrolam entre as árvores me fez querer desistir de tudo e construir por conta própria uma casa como aquelas: teto baixo, toda em madeira, cercas?, uma chaminé - e me lembro de ter visto um ou dois cachorros nos lugares mais adequados. No caminho para Caxias do Sul, embalando um sono querido, vi uma queda d'água que em nada deve àquelas inventadas em clássicos ficcionais; com casinhas encarapitadas no alto da rocha, uma torrente d'água que caía com estrondo num vale escuro e florestado por pinheiros e outros tipos. Havia vapor e, posso garantir, cheiro de comida de nona saindo daquelas janelas.

"Portugueses nas baixadas, alemães nas encostas e italianos nas serranias", disse o guia, explicando a rede urbana gaúcha com um poder de síntese invejável. Flutuando entre eles, essa névoa estranha que encobre tudo e no segundo seguinte, vai embora, rápida e fria. É um frio diferente e confuso. Antes eu dizia que era um "frio mais molhado" e por isso, mais gelado. Agora não sei mais. Me confundi, me perdi nas minhas idéias sobre o que é frio e as alterações que o tornam mais ou menos gelado. No fim, me contentava com o vapor que saía aos montes, sem muito esforço, a qualquer hora do dia.

Estar em Gramado e "ser turista" talvez exija um pouco mais de paciência do que se imagina. Isso de "ser turista" não te deixa realmente conhecer o lugar visitado. Permanecer sobre a tutela de guias e roteiros cerceia a liberdade do conhecimento espontâneo e, de certa forma, mais desejável no encontro com o diferente. Ao invés de "turistar", viajar. Um viajante se dispõe aos atrasos, aos almoços simples, à pouca afetação. Um turista anseia por viver algo extraordinário - literalmente. Em função disso, exageram, excedem - na maior parte do tempo, comicamente - por encontrar respaldo das pessoas que estão ali para criar essa ilusão. No fim, são experiências.

Uma semana no Sul e ficam o sotaque, o cheiro do mate, a hospitalidade, a cerveja uruguaia na Rua Coberta, o aconchego, o carinho - e a certeza absoluta de uma memória absurdamente seletiva.

Conforme chegarem as fotos, escolho as melhores e coloco no flickr.

É uma foto e tem uma folha marcada no concreto. Imagino que quando foram fazer a calçada, que está em Toronto, a folha caiu inesperadamente naquela retidão toda do concreto e lá ficou, porque ou isso ou pisar no trabalho recém-terminado e ter que refazer tudo. É o resultado de uma preguiça e é atestado de que nesse mundo, o pouco que se pode, e é mesmo muito pouco, fica pequeno diante da ação de um caos extremo que nos governa.

A tentativa é prever e antecipar o caos. A idéia é conduzir nossa mente (igualmente caótica) a ações racionais, que, pré-ordenadas, encontram-se no limite entre o possível e o permitido. E, de onde?, vem uma folha que cai no concreto fresco de uma calçada em Toronto e põe tudo abaixo. Tudo, absolutamente tudo.

Da mesma forma, num exercício de raciocínio, o absurdo de construírem caminhos cimentados por onde andar. Não vou passar por ali, se há uma alternativa melhor -- sei disso. Mas a tentativa é domar esse impulso algo incontrolável. E caminhar pela grama, a partir desse momento, torna-se grave, desaconselhável - em certos casos, proíbe-se com uma placa. As alternativas - "caminhos sociais" - vão surgindo: sinuosos, "errados", ignorando a racionalidade que se impõe de alto a baixo.

A mesma racionalidade que é imposta a tudo, a todo momento - e faz convergirem nossos pensamentos essencialmente libertos de qualquer amarras a uma forma de agir, a um procedimento, a "o certo"; em detrimento de opções. E este, saiba, é um mundo de opções; e somos essencialmente livres para optar. Construir caminhos cimentados, convergentes - quanta crueldade.

De modo que, por estranho que seja, por proibido que seja, por errado e condenável, caminho pela grama.

Ocorreu neste domingo um referendo na Bolívia que pretendia consultar a população do departamento de Santa Cruz sobre a possibilidade de maior autonomia econômica e administrativa para esta região. Os últimos números dão conta de que mais de 85% das pessoas foi favorável às mudanças. Entender esse fato passa, necessariamente, por entender o que tem acontecido naquela região do continente e, inclusive, qual o papel do Brasil nesta querela que aparentemente pode tratar-se de assunto interno, exclusivo de nosso vizinho.

É bom que se diga, o departamento de Santa Cruz corresponde a mais de 30% da área territorial boliviana (tão castigada nos últimos duzentos anos). Está economicamente para o país como o estado de São Paulo está para o Brasil ou a província de Buenos Aires está para a Argentina, ou seja, concentra a maior parte do Produto Interno Bruto (com as maiores produções industriais e agrícolas); apresenta os melhores indicadores sociais (medidos segundo a renda per capita, os índices de ocupação e o famoso e famigerado "Índice de Desenvolvimento Humano", IDH) e é onde estão as maiores reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) da Bolívia. É, portanto, a região mais rica e identificada com os modelos externos de "civilidade" que encontramos no país andino.

Aliado aos dados animadores da economia cruceña temos alguns elementos característicos da região que merecem atenção. A população nacional é composta majoritariamente por indígenas e mestiços, numa proporção que beira os 90% -- formada por representantes e descendentes dos dois principais grupos étnicos: aimarás e quéchuas. Em Santa Cruz, no entanto, estão concentradas uma população significativa de guaranis (tanto que sua língua nativa tem status oficial ao lado do castelhano) e, com grande destaque, a minoria branca do país (por volta de 7% da população total, que está em torno de 9,7 milhões de habitantes). Esta minoria branca é identificada, em grande parte, como a elite agrária da Bolívia, responsável pelo salto quantitativo da economia de Santa Cruz. São latifundiários, descendentes dos europeus que ali chegaram com o irmão de Francisco Pizarro, ainda no século 16, vindo de Cuzco, e hoje se dedicam às plantações de soja e algodão.

Em Santa Cruz de la Sierra, a capital do departamento, convivem mais de 1,3 milhão de pessoas, é a segunda cidade da Bolívia, atrás apenas de La Paz. O aumento desenfreado da população começou a partir da década de 1970 e se estende até hoje, com o número dobrando durante as décadas de 1990 e 2000. A cidade, que se organiza em anéis concêntricos --- diferentemente do esperado pra uma povoação colonial espanhola (mais sobre isso, qualquer dia desses) -- está na região conhecida como "llanos", que inclui uma parte do chaco, da bacia do Prata e uma série de grandes tributários da bacia amazônica, uma região de imensas planícies aluvionais (as "llanuras") às bordas da grande floresta.

Pois bem. Esta região faz fronteira com o Brasil (uma extensa fronteira, aliás, com bem mais de 1,5 mil quilômetros); mais exatamente, com os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Não por acaso, a riqueza de Santa Cruz, o tal "salto quantitativo da economia", aconteceu em função do aumento exponencial da área cultivada de soja naquela região -- à semelhança do que vem acontecendo nos estados brasileiros citados. Os responsáveis pelas plantações, seus proprietários, são os cruceños da minoria branca e ruralistas brasileiros radicados em Santa Cruz de la Sierra, que aproveitam os solos férteis, os preços baixos (um hectare de soja na Bolívia custa US$240, ou a metade do hectare brasileiro), a oferta quase inexplorada de terras, a abundância de mão-de-obra (dos bolivianos dos Andes, que invadiram Santa Cruz em busca da prosperidade que não se alastrou pelo resto do país), para levar ao território boliviano a atividade agropecuária predatória que seus patrícios praticam no Brasil.

É sabido na Geografia que as esferas de poder, quando se sobrepõem, normalmente terminam por criar demandas diferentes para cada um dos lados envolvidos. Quando falamos em "poder", normalmente nos referimos à capacidade que tem um determinado grupo (coeso em seus interesses) de alterar o rumo dos eventos. Este referendo que foi levado a cabo neste domingo no departamento de Santa Cruz é um resultado prático e repercutido pela mídia de um processo absolutamente característico do período histórico que vivemos. A fragmentação territorial é determinante para que os interesses desses grupos possam alcançar seu objetivos. Em outras palavras: a elite agrária de Santa Cruz (bem como a elite agrária do Mato Grosso e de Rondônia) tem feito seu jogo no sentido de conseguir para si uma parcela maior e mais significativa do poder que hoje são obrigados a dividir com o presidente índio -- a quem não reconhecem --, que está sentado em La Paz, tentando "impor sua cultura indigenista em tudo ".

Dessa forma, organizam um referendo, convocando a população às urnas para decidir o futuro deles próprios. Ora, se toda a sua família fosse empregada dos grandes sojicultores, se estes empresários pedissem a sua opinião, se o contraponto à sua realidade fosse a realidade dos bolivianos dos Andes, o que você escolheria? Pois aí está a explicação para 85% de aprovação às mudanças constitucionais na estrutura da República da Bolívia.

O que essas pessoas não percebem, como não percebemos nós, brasileiros, é que atender a essas demandas originadas nas elites agrárias, produtoras da "verdadeira riqueza", de modo algum atende (ou atenderá num futuro concebido) às nossas aspirações e necessidades. Os fazendeiros bolivianos e brasileiros que têm destruído a Amazônia nos llanos bolivianos não têm nada a nos oferecer como meta de futuro que não seja alguns poucos empregos, menos florestas, mais soja, mais soja, mais soja, menos Bolívia, menos Brasil, menos gente, mais dinheiro, mais dinheiro. Aparentemente, à maioria, estas recompensas bastam.

A mim não. E por isso, falo.

Como início desta seção do blog, seria uma injustiça sem tamanho não fazer o primeiro post falando da Kapela Ze Wsi Warszawa -- especialmente porque foi a partir desta banda que comecei a levar mais a sério minha busca pela música feita em lugares pouco prováveis. Antes deles, minha maior diversão era apenas colecionar bandas de países diferentes, sem entender muito bem o que isso significava.

Quando encontrei essas músicas -- o que não foi difícil, porque já há algum tempo a banda vem recebendo muita atenção fora da Polônia --, a primeira coisa que me impressionou, obviamente, foi a língua na qual elas são cantadas. O polonês é uma das muitas línguas eslavas faladas na Europa oriental, incrivelmente diferente aos meus ouvidos acostumado com a sonoridade das línguas românicas; parente próxima do tcheco, do eslovaco, é-me absolutamente incompreensível.

Aqui um parênteses necessário: não entender as canções, de fato, não se constitui num problema. É possível ouvi-las e apreender-lhes a mensagem sem aparentemente entender o que dizem as letras. Talvez esteja aí a mágica da coisa toda -- mas não sei ao certo. Fim do parênteses.

Tudo ficou ainda mais incrível quando descobri, com a ajuda de um aluno intercambista vindo da Polônia, que as músicas são cantadas numa variação antiga da língua. O que faz todo sentido, se procuramos entender a intenção da banda.

O nome, Kapela Ze Wsi Warszawa, significa algo como "A Banda da Vila de Varsóvia". A capital do país, apesar de não ser uma metrópole gigantesca, está longe de ser uma vila -- no entanto, o que está expresso no nome do grupo é a sua motivação: buscar nas raízes da cultura popular elementos tradicionais que, fundidos a retalhos de modernidade, recriassem a Polônia para os próprios poloneses. Numa batalha contra a cultura de massa, que impõe determinados ritmos às pessoas, esse pessoal viajou por todo o país recolhendo expressões populares em todos os cantos. Um mosaico de experiências que estavam sendo esquecidas ou, no mais das vezes, ignoradas pela imensa maioria, em função do que vão chamar de narrow-mindedness em seu manifesto criativo, induzida por um comportamento dito de manada.

Dizer, portanto, que são uma banda da "vila de Varsóvia" não peca quanto à lógica daquilo que desejam fazer, ou seja, trazer Varsóvia (e a própria Polônia, de um modo geral) de volta à sua essência, aos seus sons, à sua identidade -- tornada tão fluida em todos os cantos desse mundo nos dias que correm. É, ao fim e ao cabo, uma tentativa de resistência. Mas nada de faixas e gritos de ordem; pelo contrário, música bonita, bem executada, repleta de tambores e flautas que somadas a uma voz que varia de estridente a rouca, resulta numa apresentação incrível da alma de um país que tem uma história repleta de invasões e, conseqüentemente, de tentativas de desconstrução do sentimento polonês -- que tem gosto de batata.

Recomendo fortemente a audição do disco "Wiosna Ludu" ("Primavera dos povos"), de 2002, lançado pela gravadora Orange World.

Nem sempre as aulas são bem sucedidas. Seja por um motivo externo à escola ou particular, seja por interferência dos alunos que naquela manhã pouco estão interessados na geografia da África, em algumas manhãs, as aulas acontecem de jeito torto.

Às vezes saem mais ou menos como planejamos. E que alegria falar e ser ouvido, explicar e ser entendido, pretender confundir e de fato conseguir...

Ao mesmo tempo, existem assuntos mais interessantes que outros para os alunos -- e mesmo para mim. Algumas aulas me empolgam mais do que outras. A de hoje, no segundo colegial, me empolga muito: uma apresentação sintética do continente africano; desfiando um rosário de atos desumanos, o desrespeito pela própria essência da vida, os direitos mais básicos ignorados em nome do lucro e da cobiça de estrangeiros, etc., etc., e outros dramas. Vou jogando a eles nomes de países que jamais sonharam existir, vou citando ditadores e monstros, vou criando a imagem de um continente largado à própria sorte, chego a ficar sem fôlego e a cada momento, inadvertidamente, costumo ouvir suspiros de comoção e inconformismo.

Costuma ser uma aula sufocante para todos. Hoje, no entanto, não foi. Hoje mais parecia que eu ditava uma receita de bolo qualquer. Hoje não consegui ser o professor que me propus a ser quando tudo isso começou.

E ficou pior.

Numa alternativa desesperada, apelei para um argumento que sempre rende boas discussões: a globalização. Apresentei um único dado, que costuma ser um bom início: o fosso abismal da distribuição de renda nesse país tropical (que diz: 1% da população detém 15% da renda nacional, enquanto 60% das pessoas divide apenas 13%; sendo provavelmente inexato, mas indiscutivelmente impactante). Apenas para descobrir, minutos depois, que todo meu esforço (e cheguei a transpirar) resultaria em risinhos e chacotas sobre meu "radicalismo".

"Professor, você é muito comunista" -- disse um deles, com ênfase irônica no negrito.

Não tenho a menor intenção de fazer panfletagem nas minhas aulas. Longe de mim. Gosto da discussão e do debate de idéias saudáveis. E, de fato, sou "muito comunista". Mas nesse caso, hoje, saí daquela sala me sentindo um pouco incompetente. Não por não ter "convencido" os alunos, mas por não ter conseguido transmitir minha mensagem de um jeito adequado. A África continua morrendo à míngua e meus alunos daquela sala pouco se importam.

Escrito na folha de rosto de As cidades invisíveis, de Italo Calvino.

Este livro é pra que você poupe o céu de seu levantar de rosto, de seu franzir de cenho e de seu olhar inquiridor e errante sobre as nuvens.

É pra você poupar o céu de fitar teu rosto franzido. É pra você voltar os olhos para baixo e inquirir Marco Polo e Kublai Khan. Este livro é pra que você possa descobrir (absolutamente) todas as cidades possíveis e impossíveis grafadas sobre o mundo.

Mas vá lá que, talvez, ao ler a descrição de uma ou outra cidade, você acabe, novamente, por voltar o rosto pro céu e inquirir nuvens. Talvez seja por isso que você deva ter este livro.

Um presente da Fernanda, que veio com o livro junto.

Geografias fantásticas nos relatos de Marco Polo ao imperador dos mongóis. Cidades de desejo e de memória. Porque cidade é algo apaixonante; o veneziano sabia disso, o khan descobriu prontamente. Tenho a impressão de que estudá-las exige toques sutis de poesia -- poesia do concreto, poesia de sentir. Não concebo compreender cidades sem procurar pelo que não está expresso. Já disseram sobre as intenções que moldam o espaço (os objetos ficando não necessariamente onde deveriam, mas onde querem que fiquem); vai além.

Um cruzamento de avenidas, não é apenas isso. Pra descobrir o além (e eu acredito que seja esse o grafar de que se constitui o "termo geográfico"), não basta ter olhos para o que está impresso; porque é preciso perceber o cruzamento de avenidas no entendimento da moça que está ali, na janela, observando a criança que vende balas no farol, enquanto conversa com um amigo ao telefone e lhe descreve a cena. Nesse enredo, nesse novelo -- é aí que está a geografia que eu quero, que eu acredito existir.

Sigo numa busca interminável por aquilo que costumam chamar "world music". Me interesso absurdamente pela música feita nos lugares mais improváveis - e esse será um assunto recorrente por aqui.

Tenho algumas predileções, mas não costumo refutar nada antes de ouvir com calma. É um trabalho sem fim (e fico contente que seja assim), porque quanto mais fundo se vai, mais o abismo se alarga. As novidades nunca cessam. Há sempre uma sonoridade diferente em algum canto do mundo por ser descoberta; e quando relaxo e penso "até que enfim encontrei esse disco", no segundo seguinte descubro algo absolutamente inesperado e a empresa recomeça.

Já foi mais difícil encontrar essas músicas. Quando comecei a me interessar por elas, as redes de compartilhamento não davam conta de suprir minha curiosidade. Encontrar esses discos à venda aqui no Brasil é ainda mais difícil - especialmente porque este comércio depende de importações e, garanto, "world music" não é a etiqueta mais procurada nas lojas do ramo (mesmo nas boas lojas).

O termo vem entre aspas porque, como toda classificação, merece ressalvas. No caso, este nome vem colado a virtualmente toda música que é produzida fora dos Estados Unidos e do Reino Unido. De um modo geral, sambas brasileiros, tangos argentinos, reggaes jamaicanos, mantras tibetanos, fados portugueses, batuque africano, chançons francesas, enfim, todos esses gêneros musicais são identificados genericamente como "world music" pelos críticos americanos e britânicos. Esta classificação, como convém a todas elas, homogeneíza num grupo amorfo experiências musicais que não falam inglês e que são, obviamente, distintas entre si. Mesmo dentro do Reino Unido, as músicas cantadas nas línguas celtas são "world music".

Está em curso no mundo um movimento de resgate de ritmos tradicionais. São inúmeras as publicações (virtuais ou não) que se dedicam a mostrar ao resto do mundo exemplos do que está sendo feito. Cito aqui as que mais visito: fRoots, Mondomix, At-Tambur, National Geographic World Music... Há, também, muitos festivais que reúnem artistas das mais diferentes origens. Citaria como principais, incorrendo em erros certamente: o Festival de Sines, em Portugal, o Festival de Kaustinen, na Finlândia, o Festival Masala e o Carnaval de Culturas, ambos na Alemanha. Mas a Europa é pródiga em eventos internacionais que se dedicam à música folclórica e étnica (aqui o calendário com todos os eventos do continente e aqui, todos os que acontecem apenas na Grã-Bretanha).

Este resgate, se me permitem a digressão, tem uma finalidade muito particular, qual seja, a de barrar o processo de nivelamento de todas as culturas em função de uma única expressão artística, que eu chamaria "hegemônica". É sabido que as rádios ao redor do mundo (especialmente as FMs) contribuem sobremaneira para esta homogeneização, na medida em que entregam a todos os povos pacotes pré-fabricados que acabam obscurecendo a visão das pessoas para outras possibilidades. São muito comuns as caras de espanto (pra dizer o mínimo) quando pessoas entram em contato com músicas diferentes daquilo que estão acostumadas a ouvir. Não percebem, por comodismo ou manipulação, a importância que têm essas outras músicas na construção do modo como nos compreendemos enquanto grupo, povo ou mesm como indivíduos.

Penso que trazer relatos sobre as descobertas que fiz seja algo relevante. E, mesmo que ignorada essa digressão anterior, estar em contato com diferenças é sempre muito interessante.

Está, portanto, inaugurada esta seção no blog. Espero que acrescente de alguma forma e fomente descobertas em outros cantos.

Numa aula rápida sobre polonês hoje aprendi como ler "Ę", "Ą" e que, pra dizer tchau, é só escrever "ćał". Numa aula rápida sobre polonês, se dermos sorte, sempre é possível entendermos um pouco mais sobre como, no fundo, somos todos parecidos. Um mesmo instinto curioso que movimenta o mundo por baixo do verniz. O polonês que me ajudou a ver isso não tinha idéia do que encontraria aqui quando saiu de Koszalin há quase um ano. Veio animado por imagens que pouco correspondiam à nossa realidade, mas que explicava o Brasil aos poloneses.

O que há de impressionante nas descobertas que faço enquanto ouço o polonês é muito parecido com o que há de incrível no que a Larissa contou hoje. A geografia criativa, uma idéia de um teórico da linguagem do cinema - que te leva a Roma, numa caminhada entre Paris e Nova York, ao invés de ao fundo do Atlântico -, é a geografia que paira na imaginação das pessoas de um jeito muito semelhante a como desde sempre. Apesar dos tempos, de tecnologias de informação, de GPS no carro, de Google Earth, de uma propaganda pesadíssima sobre a "aldeia global", a imensa maioria das pessoas mantém uma relação distante com os lugares que estão além do habitual. Poucos sabem realmente o que está "lá" - especialmente quando o "aqui" é confortável, conhecido, familiar.

Numa perspectiva que passa pelo polonês, pelo teórico do cinema, pela esquina incógnita, por atravessar barreiras, penso o "ser geógrafo" como algo ainda envolto num mistério antigo; sou aquele que existe para acabar com os "estereótipos geográficos". Aquele que te conta certas peculiaridades distantes com a intimidade de quem vive diversos cotidianos. O "grafar" ao qual me disponho não é mais o mesmo a que se dedicaram tantos outros antes de este mundo se tornar um único ecúmeno¹. Hoje já não preciso de grandes descrições de um todo amplamente conhecido - me ocupo em compreender como as partes se relacionam entre si e com esse todo.

Às outras pessoas, no entanto, a relação que permanece é com seu entorno. Quanto mais distante estiver o "lá", mais imaginação entrará no processo que cria a imagem do tal lugar. Mesmo hoje; mesmo depois de tudo - caravelas, séculos, guerras, internet -, o que o outro representa para nós é feito em grande parte da mesma imaginação que permite Roma entre Paris e Nova York. A Polônia não existe, a não ser como resultado das histórias de Koszalin que ouço, da atmosfera que algumas músicas criam, do "ćał" que pronuncio com o sotaque de um país que do ponto de vista dos poloneses, igualmente não existe por si.

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¹ 1) diz-se de ou área geográfica que é permanentemente habitada pelo homem; 2) o todo em oposição às partes; o geral, o universal.

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