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Este post está errado. Confundi as definições. Posseiros são os "grileiros" de terras devolutas - que falsificam os documentos que comprovam a posse dessas terras.

Falha indesculpável que Brigatti, muito camarada, me fez ver. Amanhã mesmo arrumo a confusão de conceitos com os alunos.

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Na apostila.

b. Relações de trabalho [no campo]
· Ocupante ou Posseiro: ocupante de uma propriedade sobre a qual não tem nenhum direito, explorando terras alheias sem nada pagar (em dinheiro, em produto ou em trabalho) pelo seu usufruto.

Na lousa.

6. "Posseiro": produtor rural que usa terras sem possuí-las formalmente. Cultivam terras improdutivas; que de outra forma, têm dono, mas não têm quem lhes dê uma função social real.

Porque sim.

em resposta a um e-mail na lista de discussão do Centro Acadêmico das Ciências da Terra, também conhecido como CACT-Unicamp, que falava sobre três greves acontecendo (ou acontecidas) em Campinas, São Paulo, nos últimos dias: 1) dos motoristas e cobradores de ônibus, 2) do funcionalismo público e, 3) da universidade pública.

entender esse movimento é entender o mundo. são três greves, simultâneas. nenhum diálogo entre as três. reivindicações que não ultrapassam o direito individual de consumo - quero mais dinheiro para mais compra. o que, vejam, é legítimo. há que se comprar leite e pão, há que se ir a um cinema ou tomar uma cerveja no fim de semana.

sabemos que a cidade não oferece isso a todos. não da forma como ela se organiza. ou, como é organizada por nós. no entanto, imagino, lá estão faixas, carros de som, muitos gritos e palavras de ordem, as mesmas figuras e suas bandeiras, a "força do povo" em ação.

nada menos "povo" do que isso. nada menos esclarecedor do que três greves, simultâneas, que não dialogam. tinha um senhor que dizia: o necessário, meu menino, é que todos, independente se têm uma vassoura na mão, um giz, um carimbo, vestem preto ou azul, dizem bom dia ou acordam de mau humor, todos precisam reconhecer-se como uma classe. vai ver ele tava mesmo é certo. e é o que falta.

enquanto grupos segregados, desunidos, portanto fracos, continuarem "batalhando" por seus interesses particulares e não saírem (não sairmos!) às ruas aos milhões, a coisa embolorada - que boia, como disse o Diego -, permanecerá por aí. é preciso que nos reconheçamos na mesma e desagradável situação. olhar pro cara que tá do meu lado no ônibus, na fila do banco, no PF, na greve e confirmar minha semelhança, a indissociabilidade dos meus anseios dos anseios dele.

no dia 1º de Maio, dia dos que trabalham, na França (e sempre a França, me perdoem), todas as centrais sindicais - separadas e brigando por seus interesses há anos (séculos?) - se juntaram e milhões (e isso não é uma hipérbole) marcharam por Paris. Dizem que o Sarkozy evitou deixar a cama naquele dia - um mal súbito, não houve médico que explicasse.

aqui no Brasil (sempre o Brasil, perdoem mais uma vez), eu vi, meninos, uma multidão indo pra festa da CUT e pra festa da Força. nem uma festa junta eles puderam fazer. o Paulinho não teve vergonha de aparecer. mas eu e meus escrúpulos. coisa mais em desuso. vi, também, lá em Porto Alegre, linda cidade, outra multidão indo benzer carteiras em missa com a Nossa Senhora dos Navegantes, vulgo Iemanjá - que esse sincretismo brasileiro funciona à perfeição. é lindo tudo isso.

daí que: como? como se não há reconhecimento? sozinho, não dá. fica complicado.

Eu preciso que esses meninos pensem - que sejam livres para pensar e que se dediquem a essa liberdade.

Não é possível que permaneçam presos a um cabedal de ideias que lhes é pretérito sem que tenham a vontade (e o hábito, adquirido) de contestar tudo o que na maior parte do tempo parece normal.

Naturalizados, certos comportamentos sociais tornam-se uma espécie perniciosa de dogma que mais emburrece do que esclarece. E a minha função dentro de uma sala de aula é trazer à luz essas normalidades e destrinchá-las.

Mas fica óbvio que cada vez mais a resistência com relação a esse exercício de liberdade vai aumentando. Talvez minha perspectiva na comparação com a geração que hoje senta nas salas de aula seja outra e derivada de um outro tipo de construção do conhecimento e do próprio entendimento do mundo - que me permite a dúvida. Talvez seja somente um problema do "público" a quem me dirijo: excessivamente "infértil", um solo rude, já viciado.

E são crianças. São adolescentes. A força para as mudanças está neles e no entanto, o que eu vejo são reproduções irrefletidas de comportamentos que não lhes pertencem. A influência da família e de certo tipo de propaganda subtrai dessas pessoas a característica inata do "cogito", da dúvida. Eles simplesmente não duvidam, não querem duvidar e em torno de si, um escudo criado por esses elementos (família + propaganda bem sucedida) transforma qualquer tentativa de discussão num ambiente estéril.

Digo isso porque durante esses dias, achei de discutir (fiquei, pelo menos, na tentativa) alguns assuntos que tornaram à moda ultimamente. Entre eles, a "questão ambiental", suscitada pela campanha da ONG SOS Mata Atlântica, "Xixi no banho".

Como toda discussão ambiental, essa campanha propõe uma solução local, pontual, para um problema que é global. Ignorando a pertinência de uma reflexão em maior escala, incita as pessoas a uma atitude perante o problema que, além de ser algo absolutamente nojento e desnecessário, não dá conta da complexidade do processo. É, no entanto, um conforto para a tal República Morumbi-Leblon-Belvedere¹ a chance de "fazer alguma coisa" sem descalçar as pantufas, no conforto de casa. A consciência pesada fica aplacada em função de uma ação individual, inócua, mas convincente (especialmente quando em conversas com quem "não faz nada"). E esse convencimento é fruto da propaganda massiva, que usa os meios mais eficientes para tanto (no caso, um site "bonitinho", com uma trilha sonora "engraçadinha" e muitas frases de efeito) que acertam em cheio a alma do cidadão de classe média que aceita urinar no chuveiro, mas não dispensa o carro, não diminui o ritmo de consumo, não se organiza em prol de atitudes "macroescalares".

Toda discussão ambiental que se baseia na famigerada "responsabilidade individual" é um erro de perspectiva monumental. Ajuda a diminuir o sentimento de culpa, cativa pela ideia de pertencimento a um grupo "ambientalmente ativo e responsável", mas na prática não significa uma mudança estrutural; mudança que precisa acontecer se a intenção (legítima, diga-se) é a melhoria da qualidade de vida e do trato com o planeta e com nossos "vizinhos".

Educação ambiental é um faca de dois gumes. Ela deve existir, sem dúvida nenhuma, mas precisa se dedicar a instruir as pessoas ao bom convívio dentro de uma comunidade. Ambiente, este conceito, não significa apenas a floresta amazônica ou o rio da cidade; significa, também, a co-existência saudável entre todos os indivíduos da sociedade. E nesse sentido, é absolutamente necessário que se entenda a importância de não jogar lixo na rua, nos rios, de usar menos o transporte individual, de exigir esta ou aquela atitude dos governantes. Como um todo. O conjunto da sociedade trabalhando em favor de uma melhoria significativa na vida de seus indivíduos. Educação ambiental não pode mascarar essas questões seriíssimas focando seus trabalhos no "adestramento" das crianças e jovens dentro da falsa percepção de que deixar de varrer o quintal com a mangueira, desligar a torneira pra escovar os dentes, fazer xixi no banheiro são soluções efetivas contra a degradação do planeta. Porque não são. São paliativos de consciência.

O planeta está sendo degradado por conta do estilo de vida que todos levamos. Se ações individuais resolvessem o problema, ótimo. Mas apenas uma mudança em grande escala (principalmente com a alteração nos níveis de consumo) pode fazer alguma diferença².

Não adianta nada eu fechar minha torneira enquanto escovo os dentes, se um produtor de soja nos latifúndios do Mato Grosso continuar usando (e poluindo) bilhões de litros de água potável todo mês para irrigar sua plantação que vai alimentar o gado europeu.

O problema é sistêmico. Não adiantam soluções lineares.

O que não significa que a atitude deva ser a de simplesmente cruzar os braços ou dar de ombros. De modo algum. Algo precisa ser feito e é bom que hajam pessoas dedicadas a isso. Apenas que suas ações precisam ser globais, não pontuais.

Os alunos, ao ouvirem isso, recusaram a reflexão. Muitas pessoas recusam. Sentem-se até ofendidas, porque, afinal de contas, "estou fazendo a minha parte". É ótimo que exista a noção do problema, mas não é bom que as tentativas de solução sejam direcionadas equivocadamente.

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¹ Expressão cunhada (até onde sei) pelo Idelber Avelar, que vem muito a calhar.
² É emblemático nesse ponto o curta/documentário produzido por Annie Leonard, chamado "The Story of Stuff". Em menos de 30 minutos, está descrito todo o processo produtivo que destrói o planeta, baseado no consumo de massa. Há uma versão em português (dublado e legendado) neste endereço.

a Cidade ela é o espaço das diferenças. e da expressão dessas diferenças. tanto quando o diferente está na quantidade de dinheiro (e aí são casas com 30 cômodos e barracos de compensado), como quando a diferença são formas de compreensão da sociedade completamente opostas.


Visualizar 6emeia em um mapa maior

o que define a Cidade é o e. não é um espaço de ou. estamos ali, todos juntos e se alguém resolve expressar sua condição, sua (in)diferença, seus anseios, todos vemos. expressar-se, na Cidade, é necessário. o desconforto, quando causado, é benéfico.

isso jamais será vandalismo. a não ser que queiramos uma cidade asséptica, não-humana, esvaziada daquilo que lhe dá vida. uma Cidade sem pessoas, não é uma Cidade. e pessoas sentem; precisam expressar o que sentem. pintam pequenos postes com feições de deuses africanos. o por quê? que se invente o porquê.


é vida. é o pulso da Cidade. é arte porque é necessário.

porque hoje, numa sala de sétima série eu dei uma daquelas aulas que fazem a coisa toda valer a pena. o tema foi "transposição do rio São Francisco" e, sem me alongar no assunto, provei pra eles o tamanho dessa mentira e como existem soluções muito mais eficazes, efetivas (que levam água a quem tem sede), baratas e honestas.

no fim da aula, a classe toda: "thiago, vamos montar uma ong e ir até lá furar poços!", "porque você não se candidata e vai lá furar poços, construir cisternas, usar direito o dinheiro público!" e eu quase chorei na frente deles; mas chorei, depois, sentado numa praça em Amparo, por entender que cumpri meu papel ali.

mostrei a eles que por mais distante que essa questão possa parecer, ela está ligada diretamente a tudo o que está errado no nosso país e que isso tem, sim, influências diretas, mais do que diretas, cruciais, nas nossas vidas, aqui em São Paulo, no Rio Grande, em Minas ou em qualquer lugar. porque é isso o que falta, "só" isso: que nos percebamos, todos, num mesmo barco, à deriva, controlado por pessoas desonestas.

fiz o que o Ministro do STF, Joaquim Barbosa, fez, ao peitar Gilmar Mendes, o presidente daquele tribunal, um canalha, um câncer, um exemplo daquilo que nos leva cada vez mais ao buraco. fiz, com muito menos coragem, com muito menos poder, mas fiz. é simbólico tal e qual. e aqueles meninos todos vão pra casa e comentam com os pais, e os pais, nos trabalhos, comentam com colegas e a informação correta se espalha e pode render frutos.

e é isso. é pra isso que venho. é esse o meu papel.

não quero pôr ninguém dentro de faculdade, não pode ser esse o meu objetivo. não é. felizmente, contra todo um sistema montado pra isso, azeitado pra criar imensas massas de manobras, não é. me esfolo em aulas que quase sempre dão errado. mas hoje, naquele sétimo ano, funcionou como deve.

e eu chorei.

amanhã, daqui a pouco, quando acordar, pra ir falar a classes sobre agronegócio no Brasil, sobre urbanização, sobre shopping centers vs. praças, vai ser essa de novo a minha tentativa: trazer esses meninos, todos eles, embotados por uma realidade absurdamente alienante, para situações e fatos que alteram seu cotidiano, o cotidiano de 190 milhões de pessoas e devem, sim, ser pensados e combatidos e aplaudidos e repudiados e imitados e expurgados.

uma aula como a de hoje, reafirma a minha vocação. uma aula como a de hoje, confirma que tenho feito meu papel - pequeno, formiga, mas absolutamente necessário.

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perdoem os erros de digitação e o mau português. aos borbotões. saiu-me aos borbotões.

Conteúdo colaborativamente criado. A principal colaboração aconteceu entre o ócio e minha pessoa.

Foram quatro horas fuçando no Google Maps para criar um mapa que exibe as peripécias espaciais nas quais já me meti.

São nove estados. mais de cem cidades - onde fiquei por pelo menos duas horas. Os motivos gerais das idas estão por ali. A maioria das viagens foram financiadas pelos anos de faculdade de Geografia, que me obrigavam a ir conhecer de perto tudo aquilo que ia vendo nos livros. Algumas outras feitas por conta própria - em especial, na região mais próxima à minha casa. E as demais feitas com a grande companhia de amigos.

Sem mais delongas, ei-lo:

A sensação de impotência diante dos acontecimentos em Gaza tem me torturado nos últimos dias.

A internet e sua não-linearidade, seu completo desapego a hierarquias de todo tipo (apesar de alguns rankings inúteis e ocos), tem dado a esse massacre um tom diverso do que estamos acostumados. Já não dependemos mais dos comunicados dos diários da Velha Mídia. Através da rede - complexa e descentralizada - podemos encontrar as informações cada vez mais próximas da realidade. É um profundo golpe no modus operandi da circulação ininterrupta de informações distorcidas, falaciosas, rasas, tão caras aos meios tradicionais de "comunicação". A repetição de mentiras ou, vá lá, inverdades, meia-verdades, pelos canais que conquistaram a confiança de um público acrítico acaba tornando fantasias em fatos. Fatos discutidos nos botecos, nas casas, entre amigos - mas dentro da cabeça de cada uma dessas pessoas, especialmente.

Esse poder, com a internet, diminui gradativamente. Porém, o alcance dessa mudança depende fulcral e terminantemente da expansão da rede. A expansão do meio técnico (que dá suporte físico ao meio virtual) é atributo dos Estados, em função do interesse comum, uma vez que é nos territórios - nacionais e/ou regionais - que tais intervenções efetivamente acontecem. Ocorre que, no mais das vezes, as decisões estatais (e não apenas com relação aos meios de comunicação) estão submetidas a interesses específicos, quase sempre corporativamente estratégicos, dos grupos que, a priori, decidem quais informações serão transmitidas (ou não) ao grande público. E a esses, muito pouco interessa que a maioria das pessoas tome contato com as versões factuais dos acontecimentos. Não lhes interessa o esclarecimento, ou ainda, a mera possibilidade de esclarecimento da massa.

Falar em revolução da comunicação através da internet, portanto, é, em grande parte, inverossímil. A rede certamente trouxe maior liberdade na circulação dos fatos, ampliou as vozes, deu oportunidade de expressão a uns quantos que, a depender das mídias tradicionais, jamais seriam ouvidos. Mas para que seu potencial, por assim dizer, "revolucionário" torne-se efetivo, a expansão do meio técnico precisa tornar-se universal, democrática, irrestrita. E, hoje, infelizmente, não é o que acontece.

A expansão de redes (comunicacionais, de transporte, quais sejam) não determinam o desenvolvimento. As teorias que defendiam esse ponto de vista há muito foram desconsideradas. Porém, o que se vê nos planejamentos governamentais é sempre essa ideia. Ou seja, assim que a estrada (fibra óptica, cabo, ferrovia, eletricidade, etc., etc.) passar por aquele rincão "atrasado", o "desenvolvimento econômico" chegará e consequentemente, o "desenvolvimento humano". É uma ilusão. Que sustenta um tipo de planejamento estatal não-conforme que as necessidades do interesse comum, mas de uns poucos. Exemplos não faltam. Todos os planos plurianuais brasileiros estão sentados em cima dessas concepções equivocadas - desde os anos 50, com Juscelino Kubitschek e suas rodovias rasgando o interior do País.

Não é, no entanto, o caso de desacreditar ou desabonar o barulho das novas vozes. Há, pela internet, esforços legítimos e honestos no sentido de trazer ao público (ao maior público possível) as informações em sua forma mais verossímil. No caso do crime que vem sendo cometido pelo Estado de Israel, do genocídio, da limpeza étnica perpetrada contra o povo palestino, pontos de resistência e clareamento do debate existem, são lidos, crescem em importância, em influência e, como no caso da notícia do Jornal Nacional, começam a ser debatidos em mesas de bar, escolas, universidades...

Fico pensando, depois de escrever, que talvez esteja aí algo a ser feito: transmitir os fatos. Fazer chegar às pessoas a maior quantidade de insumos para que, individualmente, cada qual crie seu entendimento e, consequentemente, retransmita o que conquistou para outro alguém. Nessa sucessão de ressonâncias, uma consciência acaba por se formar. Não pasteurizada, não idêntica, mas, especialmente, não vazia de conteúdo, de construções mentais, de conhecimento e, principalmente, de crítica.

É utópico. Mas, o que não é? E, se não é, vale?

Vendo as notícias que vão chegando de Gaza, pelos blogs, pelos jornais, pela televisão, a inquietação que sobrevém, a sensação de não estar contribuindo, de "não poder fazer nada", fica diminuída quando escrevo essas poucas linhas, quando participo dessa corrente que pode, de fato, transformar o curso das coisas. É, até onde sei, no que prefiro acreditar. Utopicamente.

A invasão da Faixa de Gaza pelas Forças de Defesa do Estado de Israel é um crime. Um crime hediondo.

Trata-se de uma ação de limpeza étnica. Slobodan Milošević, o Açougueiro dos Bálcãs, foi preso e julgado em Haia pela mesma acusação. Quantos israelenses estarão presos quando este conflito tiver fim? Aposto que nenhum.

Sobretudo porque o lobby pró-Israel no Ocidente talvez seja a maior força política existente. Todo o poderio militar norte-americano e toda a influência da mídia competem para sustentar as ações mesquinhas e ilegais do Estado de Israel.

Com este respaldo, que legitima as ações criminosas, Israel assassina civis palestinos. Seus aparelhos bélicos, modernos, muito caros - a fina flor do que esta indústria pode entregar - acertam deliberadamente alvos aleatórios (da Universidade a prédios de apartamentos) procurando acertar membros do Hamas.

Destruir o Hamas - cuja autoridade política foi democraticamente legitimada pelos palestinos de Gaza, num pleito acompanhado pelo mundo inteiro - é o único objetivo de Israel. Para isso, pouco importam civis. Despejam bombas, explodem canhões, puxam gatilhos porque dentro do maior campo de concentração do mundo, no gueto de Gaza, todos são culpados, radicais islâmicos, homens, mulheres e crianças-bombas. Todos. E, por isso, são todos mortos. Assassinados.

O Estado de Israel é um Estado criminoso. Suas autoridades cometem, desde sua fundação, crimes contra a humanidade (na figura dos Palestinos) e deveriam ser julgadas e punidas de acordo com as leis do Direito Internacional.

Desnecessário reafirmar: trata-se aqui do Estado de Israel como entidade política; qualquer tentativa de fazer isso parecer uma cruzada contra esta ou aquela comunidade religiosa será absolutamente desconsiderada.

Enquanto durarem a invasão e os atos criminosos do Estado de Israel contra o povo palestino, este banner permanecerá no blog. Nele, lê-se, em árabe: "Somos Gaza".

Este blog e seu autor jamais concordarão com a resposta armada a qualquer conflito que possam existir entre os povos. Mas quem poderá culpar os árabes quando chegar a hora da vingança? E novamente, sofrerão as pessoas, israelenses ou palestinas.

O que acontece é que o Humano, nesses casos, se perde por muito tempo. Essa é a grande tragédia.

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  • O professor Idelber Avelar, como de hábito, vem trazendo textos e considerações de qualidade sobre a questão; com, inclusive uma tag específica sobre o assunto.
  • Pedro Dória, em alguns posts soube defender as posições israelenses com alguma galhardia, mas mesmo ali as ações do Estado de Israel têm encontrado pouca ressonância. É, no entanto, leitura recomendada, até para se tentar compreender os vários lados de questão tão complicada.
  • Os blogs In Gaza, Moments of Gaza e Gaza Talk, dando notícias direto do front.
  • Página da rede de televisão al-Jazeera com informações sobre a guerra.

subverter as ordens nas cabeças dos pequenos (que nem tão pequenos), acaba chegando num ponto em que se polarizam opiniões: uns te odeiam, outros te adoram. pais, normalmente, te odeiam. mas se não é pelo que se acredita, vai ser pelo quê? então, segue a banda e de vez em quando, numa noite dessas, uma classe te escolhe como patrono e te pede um discurso, palavras bonitas e lágrimas. a idéia é subverter.

e nesse caso, nesse caso especificamente, muita emoção e a dor de pensar em como será o ano que vem - sem eles.

daí:

Boa noite senhoras, senhores. Cara Diretora, colegas Professores, Coordenadora, Funcionários, Pais e meus queridos Alunos.

É estranho estar aqui em frente a todos vocês vestido assim, entre tanta pompa e tanta circunstância, porque o que mais se viu nesses dois anos de convivência foi a amizade sincera, construída a base de muita liberdade. Estar dentro desta roupa, em meio a tantas valsas e despedidas, de forma alguma nos representa.

Foi com surpresa, com agradável surpresa, que recebi o convite para ser patrono desta turma. Num tempo tão curto, incapaz de permitir que conhecesse verdadeiramente a todos, não podia esperar tamanha honraria - à qual, agora, perante todos vocês, agradeço profunda e alegremente.

É preciso que se diga, nesses meses, certamente aprendi muito mais com vocês sobre a arte de ensinar (com muitos erros e alguns acertos pelo meio do caminho) do que vocês sobre a nobre e antiga Ciência Geográfica. E não por incompetência de ambos os lados, mas simplesmente porque há vida e há chance pra tudo - dependendo apenas das opções entre caminhos que fazemos.

A vida vai seguir, nem todos escolherão os mesmos caminhos, mas há aquilo que permanece. Dessas permanências, as que mais importam são as memórias dos dias bons, das histórias contadas; as dúvidas (que apenas crescem, nunca diminuem), as boas intenções, a boa sorte - e especialmente, o desejo de que, acima de tudo, permaneça a amizade. Mais ainda, a imagem de um amigo; que não poderia estar mais feliz por ser esta noite uma realidade tão especial.

Não temam os erros. Estejam sempre dispostos para o mundo. Procurem se lembrar, de quando em vez, de que no mais das vezes vale muito mais a persistência contra a insistência de as coisas serem difíceis.

Os melhores e mais verdadeiros votos, meus amigos, de uma vida plena de risos e graça, com ainda mais dúvidas, menos dores, muitos amores e uma ou outra mesa de bar, onde as histórias vão se cruzar e se completar - criando esses lindos e preciosos momentos que constroem a nossa história juntos.

Muito obrigado, a todos vocês.

Estar numa sala de aula congrega uma quantidade imensa de responsabilidades e compromissos. Saber que o trabalho realizado pode (porque, infelizmente, é apenas uma possibilidade) vir a render frutos que nem de longe eram esperados, nos dá - a nós, professores - uma tarefa real e sensível, sem medida de importância e relevância, dentro do quadro da sociedade. Ainda mais hoje, e sobretudo hoje, quando as interferências/influências tornaram-se tão absurdamente poderosas a ponto de o simples fato de saber reconhecê-las aparentemente configurar-se num ato propriamente revolucionário*.

Ao notar essa fundamental e crítica função social dos professores, estando dentro do sistema, surgem novas e ainda mais cruciais escolhas a serem feitas; que podem ser resumidas a: 1) tratar de ignorar a tal função (note-se que por opção consciente) ou 2) deixar (conscientemente, por certo) a cabeça explodir - e, portanto, estar engajado, não-livre (mas liberto), fluindo e flanando sobre o mar de silêncios, anuências e acomodações.

(Eu ainda não sei aonde vai me levar essa cabeça que jaz em pedaços.)

Optar pelo mais difícil significa entender (e defender esse entendimento) que o trabalho a ser desenvolvido vai muito, mas muito além daquilo que, por força de lei, me vejo obrigado a ensinar aos pequenos. Passa por admitir-se um lavrador de sonhos, de chances - em última instância, para desespero de alguns, de mentes. Um serviço verdadeiramente abnegado, feito de lágrimas e ideologias; numa ordem incerta, que porá à prova as últimas em função das primeiras.

Repetir incessantemente ladainhas sem fim, cantilenas, esperando pelo melhor, ou seja, que dentro do imenso grupo, sempre tão heterogêneo (e por isso, justamente, microcosmo do todo), surjam algumas reações, ou poeticamente, algumas pérolas a partir dos grãos semeados. Poucas, mas multiplicadoras em seu élan intrinsecamente revolucionário, como se disse.

É esse o "trabalho de formiga" a que se referem os professores cujas cabeças já explodiram. Trata-se do fruto dessa insistência, parte imperceptível do todo, mas infinito nas suas miúdas significâncias - certamente relevantes - para a formação da totalidade.

Ignorar não facilita, como é óbvio pensar. Isso porque apenas transforma esse compromisso numa assombração recorrente. Não há inocentes no processo; nem inocência tampouco.

As dúvidas são sempre e tantas. Saber decidir solitariamente se a insistência merece ainda e mais uma vez ganhar corpo constitui-se, a meu ver, neste ponto da minha experiência, como o maior desafio dentro dessa profissão. Uma profissão que não é como as outras, posto que trabalhar com Educação obriga ao contato diário com o Humano. Supõe a (des)construção do cabedal prático, teórico, moral - cultural, em última instância -, que será em grande parte definidor, durante os anos passados nas salas de aula, do tipo (e dizendo assim fica mesmo muito ruim) de pessoa que conduziremos para dentro da sociedade.

A partir do momento em que essa função social fundamental do professor é ignorada ou, como vem acontecendo repetidas vezes, subvertida em função de certas determinações, digamos, de cunho mercadológico, o conjunto da sociedade passa a perder significativamente. Nas manobras comandadas por grupos perseguindo seus interesses (nem sempre em sintonia com as necessidades da maioria), o entendimento dessa antiga e nobre atividade vai se perdendo em meio a "refuncionalizações"; que por sua vez, criam "tipos" de pessoas (e de sociedades, conseqüentemente) bastante alquebradas, bastante mudas, bastante úteis ao ciclo a que pertencem - sem saber que pertencem, sem querer saber, sem nada.

Somos, enfim, um exército de enganados.
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* Revolução essa que diz respeito a mudanças individuais de entendimento e compreensão do Mundo e daquilo que o compõe, sem necessariamente significar a imposição, com base na força, dessas novas concepções aos outros ou, ainda, a todo conjunto da sociedade.

"Aula de guerrilha" é um conceito estranho (que nem sei até que ponto já foi usado), ainda mais vivendo tempos em que as ações de guerrilha têm sido utilizadas de maneira tão irresponsável apenas como mais uma forma de impulso ao consumo desvairado. No entanto, tenho a impressão de que foi o que se passou nesta manhã numa classe.

As crianças, de um modo geral, andam anestesiadas por tamanha onda de informação e virtualidade. Os problemas que minimamente afligiam gerações anteriores hoje sequer chegam a ser mencionados em conversas de intervalo. Não se interessam por abrir seus horizontes ou tocar com alguma profundidade em certos temas que repelem entre zombarias e troças.

Em nenhum outro estrato social a indiferença em relação ao outro (algo que me perturba muito) é tão facilmente perceptível. O individualismo sugerido e, certamente, suscitado pelo mundo (pós-)moderno acerta em cheio as cabecinhas na maior parte do tempo acríticas - que, sem maiores dificuldade, interiorizam certos comportamentos que no mais das vezes nem sabem direito de onde vêm e/ou quais são seus "motores" ou intencionalidades finais.

A aula, nascida numa noite insone de devaneios e visões confusas, compôs-se de três partes:


  • Introdução silenciosa [ou Assistindo ao curta-metragem "Ilha das Flores" (1989)];

  • Instrução à desarmonia [ou Incitação ao barulho e à confusão];

  • Percepção dos contrastes [ou Indefinição de moldes].

A primeira parte consistiu, basicamente, na permanência quieta em sala para assistir aos pouco mais de treze minutos do curta-metragem mais famoso deste lado do Atlântico. Quem, desde 1989, deixou de ver "Ilha das Flores" na escola, afirmo, não pertence a esse mundo. Sou capaz de recitar falas do filme, tantas são as vezes que já o vi - como aluno ou como professor. Exclamações foram permitidas e, inclusive, encorajadas pelo não-sossego do professor, que se remexia todo na cadeira nas passagens mais trágicas. Houve alguma comoção - que permaneceu em stand-by até voltarmos à sala, aptos a dar prosseguimento.

É preciso que se diga. O desenrolar do bimestre trouxe para a ordem do dia o tema da fome. Durante algumas aulas, em que foram expostos conceitos básicos sobre agricultura (como meio de sedentarização lá nas Antigas, comercial/moderna, como fruto de exploração da terra...) houve um pulo rápido e necessário para a ligação da produção de comida (em quantidade imensa, até exagerada) com a produção da fome.

A desarmonia instaurou-se quando, num círculo, pedi que todos respondessem ao mesmo tempo as perguntas que comecei a fazer. Pedi para que não gritassem, que apenas falassem, como se conversassem comigo normalmente. O resultado: um amontoado de vozes que respondiam sem entender o que diziam a perguntas aleatórias que eu fazia, enquanto girava pelo círculo, sem interromper o movimento nem as questões (com as exceções dos momentos de riso incontroláveis). Nesse emaranhado de respostas e perguntas, criei para eles a imagem de uma mesa farta, à espera, repleta de tudo quanto eles próprios mais gostassem. Num último momento, disse a eles que, por mais que tentassem, a comida nunca podia ser alcançada. Eles tinham fome, a comida estava lá, servida e convidativa, mas inatingível. Vi rostos se contorcerem tentando pegar a batata frita.

Depois disso, levei a imaginação dos pequenos para um lixão. Pedi que descrevessem o espaço, as sensações - ainda no burburinho tremendo. Fizeram. E enquanto faziam e começavam a sentir nojo do que eles mesmos criavam, fiz entrar na cena um caminhão de lixo (cor de rosa, segundo uma das meninas) que, sem aviso, despejou ao lado deles grande quantidade de restos de comida. Aquela comida (agora lixo) podia ser alcançada e a fome era ainda maior do que antes. Eles não tinham opção. Vi com surpresa meninas e meninos tamparem os rostos desfeitos em caretas de asco com as mãos. Eles estavam fuçando o lixo em busca de comida - exatamente como os "seres humanos da Ilha das Flores", sem os porcos.

Quando abriram os olhos e se assustaram com a luz, pedi que descrevessem com cinco (ou mais) palavras o que sentiram, que escrevessem essas palavras num pedaço de papel e que dobrassem, sem que ninguém visse. Me entregaram esses papéis e eu redistribuí os "segredos" entre todos - misturando. A terceira parte, que finalizou o exercício, consistiu na leitura para todos do que estava escrito em cada um dos papéis e nas caras de espanto que se seguiam aos "Olha! Eu também coloquei isso!" ou "Como assim?".

Tentando trazê-los pra perto de um problema que aflige milhões de pessoas, me surpreendi com o resultado. Crianças que têm do bom e do melhor, desesperadas pensando no que poderiam fazer pra, no mínimo, ajudar o pessoal que sobrevive recolhendo restos de comida em lixões, enquanto (e eles sabiam disso) tanta comida é produzida no mundo - sem nunca chegar às bocas que têm fome.

Me coube o trabalho de rescaldo. Tratando de acalmá-los e pôr seus pezinhos de volta no chão. Não sem deixar com eles alguma bagagem. Intenção conquistada através de um método, talvez, pouco ortodoxo mas eficiente na sua capacidade ímpar de pô-los em contato com um lado que não costumam experimentar do mundo. Me atrevo a chamar de "aula de guerrilha" essa iniciativa, porque foi um choque, mas um "choque produtivo", frutífero - para eles e, obviamente, para mim.

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Se o player do Porta Curtas não funcionar, sempre podemos recorrer ao YouTube, onde o curta foi dividido em duas partes: primeira e segunda.

Os verbetes do filme na Wikipédia e na Desciclopédia (e seu humor questionável), com contabilização de exibições em alguns colégios.

No qual, mui demoradamente, comento cada uma das faixas presentes na minha mixtape que participa do já tradicional "Liveblogging para vencer".

O título da dita: "Mar de papel y plata de monedas, iré a Santiago". Trecho de uma frase escrita por Federico García Lorca quando referia-se à cidade de Santiago de Cuba, berço de muitos ritmos da Ilha, terra-natal de vários dos "participantes" da seleção - uma síntese bem acabada do que penso que seja a América Latina.

Lacho [Maria Bethânia & Omara Portuondo]
A união é proveitosa. Uma das maiores vozes da música brasileira se encontra com a dama da música cubana e constroem um disco onde os sotaques se misturam - Maria Bethânia interpreta canções cubanas, Omara Portuondo se aventura por clássicos da MPB. O respeito é mútuo, mas é a brasileira que rende homenagem à cubana. Esta faixa, um acalanto, a primeira do disco, faz o convite e mostra o poder da voz dessa senhora (contemporânea de outros mestres) e dos tambores da onipresente herança africana.

Sálvese quién pueda [Juana Molina]
Moça argentina, mais velha que sua voz sugere (posto que nascida em 1962). É um salto geográfico, mas permanece acalanto. A letra, suave, cutuca feridas e é mordaz entre os muitos barulhinhos. Uma música para flutuar.

Bruca Maniguá [Ibrahín Ferrer]
Um dos mestres da música cubana, parceiro de Omara Portuondo no consagrado Buena Vista Social Club. Essa música me faz sentir o calor da Havana dos anos 1940, o chão de madeira, a guajira vestindo uma saia de tecido leve. Invariavelmente, aos primeiros acordes, fecho os olhos e danço o bolero que ela insinua - embalado pelos metais e o som do tres cubano. Até o momento em que a música aumenta, cresce e o baile está formado.

Bulería [Estrella Morente]
Interpretando uma música da cigana andaluza conhecida como La Perla de Cádiz, esta senhorita, Estrella Morente, filha de Henrique Morente, um mestre do flamenco, traz consigo toda a carga emocional que a música cigana fez florescer no sul da Espanha. Entre palmas e a guitarra, o canto vindo das entranhas e o suor no rosto. ¿Vale?

Hermano dame tu mano [Mercedes Sosa]
São três músicas de Mercedes Sosa nesta mixtape. Os companheiros hão de compreender quanto as composições desta senhora me tocam. Nesta pérola, a convocação de todos os latinos que se levantam contra o que, nos séculos todos, tem oprimido esses povos que, no mais das vezes, aceitam as intervenções externas - aviltantes -, sem mais enfrentamentos. Para que "el dolor se quede a fuera", que venha a revolução - especialmente no nosso entendimento enquanto povos irmãos.

Adiós Nonino [Astor Piazzolla]
Este senhor, contemporâneo de Carlos Gardel (o argentino mais uruguaio da história e vice-versa), pega a herança do Tango e a desmistifica, trazendo novas contribuições para o estilo que ou enfurecem os mais tradicionalistas ou elevam espíritos menos herméticos mundo a fora. O disco onde está esta composição, "Libertango", de 1974, talvez seja a obra-prima deste compositor.

Canción desesperada [Orquestra Típica Fernández Fierro]
Os espetáculos de tango em Buenos Aires viraram atração turística e muito da atmosfera dos cabarés onde as duplas se apresentam são lugares recriados justamente com esse fim. Esta orquestra tira o tango de dentro dos pontos turísticos e traz de volta a essência tangueira. Toda a tradição, outrora remodelada por Astor Piazzolla, renasce com toda força - arrastando, inclusive e mui felizmente, multidões de jovens para casas menos badaladas e mais verídicas.

Midgard 1 [Movus] / Yui [Childs]
As duas músicas que seguem representam, talvez, a tentativa de surpresa da mixtape. São duas bandas de post rock vindas do México. Movus, da cidade de Guadalajara, e Childs, de Ensenada, acabam convidando a um outro olhar sobre a música hispânica porque, obviamente, fogem do estereótipo aguardado. Ainda mais quando falamos em México, de onde o que se espera nunca vai além dos mariachis-bigodón ou da música rancheira típica. (Desnecessário dizer que entre esses dois estilos tradicionais há, também, grandes peças.) As duas músicas exalam paisagens de sonho, sem perder a profundidade sonora que se espera desse tipo de música tão caro a este que humildemente vos escreve.

Notas [Gotan Project]
O nome do grupo é uma brincadeira com a palavra tango, chamada "vesre" ou "lunfardo" pelos portenhos, na qual a ordem das sílabas é trocada e surgem novas idéias. São três músicos - um suíço, um francês e um argentino e seu bandoneón - baseados em Paris que souberam reinventar mais uma vez o tango misturando-o a formas eletrônicas de música. Nesta faixa, contam com a presença de Juan Carlos Cáceres que vai narrando o surgimento do tango.

Sudaka Louge [Novalima]
Uma surpresa vinda diretamente de Lima. Sempre aprendi na escola que a imigração de escravos africanos para as colônias espanholas nas Américas tinha sido muito pouca ou quase nenhuma. Eis que me chega do Peru, o antigo vice-reinado mais importante da colônia, um grupo que faz essa mistura entre ritmos latinos (chocalhos e metais) com a herança negra peruana. A música afro-peruana (ora veja!) em formato redondinho pra ouvidos gringos.

Luna tucumana [Mercedes Sosa]
Ela nasceu em San Miguel de Tucumán, a cidade argentina onde foi assinada a independência do país frente à Espanha. É uma das maiores cidades de lá, na região noroeste, região nos contrafortes dos Andes, dos chacos e pampas - de gente pobre e muita história. Carregando todo esse peso nas costas, não tinha como suas músicas serem leves. Ela é um dos expoentes do movimento Nueva Canción, que nos anos 1960 e 1970 juntou ritmos folclóricos latino-americanos e contestação política.

¿Y tú qué has hecho? [Buena Vista Social Club]
Canção interpretada pelo grupo de músicos cubanos revivido nos anos 1990 pelo produtor Ry Cooder. O mesmo grupo que projetou Omara Portuondo e Ibrahín Ferrer (já mencionados), além de Compay Segundo, Rubén González, Elíades Ochoa, Barbarito Torres... Estes senhores reuniam-se em clube de Havana, na década de 1940, e ajudaram na consolidação de ritmos cubanos como o bolero, a guajira e o son. A poesia dessa música é linda, aliada às vozes poderosas de estos señores cria um momento musical impressionante.

Duerme, negrito [Mercedes Sosa]
Uma canção de ninar na voz de La Negra. Obviamente, não escapam as críticas sociais. Mas é uma música muito querida a mim - meu avô a cantarolava mientras preparava seu café.

Volutas de humo [Kevin Johansen]
Para finalizar, uma declamação de um poema de Salvador Angel Molinari que, penso, cairá como uma luva aos ouvidos dos companheiros de vitórias. Recomendo a leitura da letra enquanto escutam. Kevin Johansen nasceu no Alasca, mas foi de Buenos Aires que tirou boa parte da inspiração para compor grandes canções, em discos ótimos e viciantes (como comprovam minhas tabelas na last.fm). Este poema está na disco "City Zen", de 2002.

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Vale, além disso tudo, dar uma passada no recém-nascido ~fineas, meu tumblr, onde colocarei alguns (dois) vídeos que se encaixam propriamente com esta musicada toda.

No qual venho a público para, enfim, elucidar a única coisa que me interessa nessa Olimpíada chinesa: o nome da capital.

Se pudéssemos ler mandarim, o grupo de dialetos que regula oficialmente a língua chinesa, todos estaríamos aptos a compreender estes ideogramas e, então, o mundo seria mais feliz e os restaurantes aqui no Brasil serviriam comida chinesa verdadeira. Infelizmente, não é o caso.

Em função de nossa inépcia, senhores mui gentis desenvolveram maneiras de transliterar os sons dos ideogramas para fonemas mais próximos a nós outros, ocidentais; processo conhecido como romanização - que também se aplica a outros alfabetos e sistemas de escrita, como o cirílico (usado por muitos povos do leste europeu e do norte asiático), o árabe, o grego, etc. Trata-se de um expediente muito complexo, no qual adequações e aproximações nada sutis são exigidas.

Os caracteres chineses não representam fonemas - mas idéias. Para cada um dos 5 mil caracteres meramente "alfabetizantes" utilizados (dentre os mais de 55mil existentes), há quatro formas diferentes de serem ditos, variando o registro de sua tonalidade. Então, para proceder as aproximações meramente fonéticas, foram inventados três métodos principais. Quais sejam:

  • Wade-Giles: criado por Thomas Wade, um diplomata britânico, em 1867, posteriormente revisto e melhorado por Herbert Giles, esse método, além de indicar o som correspondente ao fonema dos caracteres chineses, também indica seu tom através de números sobrescritos ao lado das sílabas. (exemplos: 妈 = ma1, 麻 = ma2, 马 = ma3, 骂 = ma4)
  • Yale Romanization: um método criado para facilitar a compreensão do chinês (em seus diversos dialetos) pelos soldados americanos na Segunda Grande Guerra, ou seja, usa sons familiares aos ouvidos anglófonos para marcar fonemas e tons; talvez seja algo mais simples aos ouvidos dos gringos do que aos nossos, e de fato os exemplos deste artigo na Wikipédia confirmam essa impressão.
  • Hanyu Pinyin: diferentemente dos dois últimos, esse método é, de fato, uma romanização e não uma "anglicização" dos caracteres. Criado pelos próprios chineses a fim de buscar uma uniformização das transliterações, é aceito mundialmente por ser menos hermético e mais intuitivo do que os anteriores - na medida em que busca exprimir os "sons das palavras", sem se prender a nenhuma língua ocidental ou a símbolos de alfabetos fonéticos ininteligíveis. (Como exemplo, o nome da China: 中國, Zhōngguó e não, Chung¹-kuo² - como ficaria usando o Wide-Giles.)

De acordo com o que reportaram os primeiros viajantes europeus ao chegar à China (o "Império dos Chins", nome da dinastia reinante naqueles anos), o nome de sua capital soaria como "Paquim" ou "Pequim". A tradição desta aproximação em português manteve-se durante todos os séculos em que Portugal permaneceu em território chinês e até hoje, estendendo-se, inclusive, a outros topônimos, como Nanquim (Nanjin, 南京), Cantão (Guangzhou, 廣州), Xangai (Shanghai, 上海), etc.

Essa tradição, no entanto, está sendo revista - uma vez que os organismos internacionais que regulam essas questões, passaram a considerar o método Pinyin de transliteração dos caracteres chineses como o preferencial. Entidades como a Organização Internacional para Estandardização (ISO 7098:1991, 1979), a Biblioteca do Congresso Americano (cujas diretrizes encontram-se neste site), o próprio Governo chinês e o Governo de Cingapura (onde o chinês é uma das línguas oficiais).

É por isso que de alguns anos pra cá, temos visto muito mais Beijing (Běijīng) em anúncios, placas, reportagens, blogs, atlas, etc., etc. do que a antiga forma Pequim (Pei3 ching1). Foneticamente, são a mesma coisa - apenas tentativas diferentes. O sons do b e do p, na boca de um chinês, ficam muito parecidos. Tanto que criam essas confusões todas.

Agora, o ponto principal dessa questão: nenhuma das duas formas está errada. Não queira dar uma de sabidão no bar, no emprego, no blog se você não sabe. Não há, na essência, diferença nenhuma, uma vez que ambos os nomes referem-se a tentativas de transliteração dos mesmos caracteres chineses - o que há são opções por métodos diferentes para tanto. Usando o mais antigo, diz-se Pequim; usando o mais recente, diz-se Beijing.

Por fim: não, Beijing não é Pequim em inglês; não, quem diz Beijing não é um maldito vendido ao Império.

E, obviamente, não, isso realmente não importa.
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O nome da capital chinesa segue uma tradição muito comum dos países do Extremo Oriente - refere-se literalmente à função desempenhada pela cidade. Assim, Beijing (北京) significa "capital do norte", enquanto que Nanjing (南京), nome de uma das antigas capitais, significa "capital do sul" - ou ainda: como Tóquio (東京) e Đông Kinh (東京, em chinês - hoje chamada Hanói), capital do Vietnã, significam "capital do leste", e Kyoto (京都) e Seul (京城, em chinês) significam apenas e tão-somente, "capital". Repara nos caracteres, um sempre se repete: , "kyo", representa "capital".

PS: E, claro, se você não tem instalados em seu computador os arquivos que permitem ver caracteres orientais, esse post ficou cheio de quadrados inexpressivos. Vá se informar.

Não se contam muitas histórias fantásticas para crianças hoje em dia. Suponho que a realidade já há algum tempo tenha ultrapassado qualquer enredo criado em quartos escuros... As pessoas já não se impressionam com facilidade nem se incomodam verdadeiramente com situações graves. Às crianças, imagino, isso deve fazer uma falta tremenda. Vão desaprendendo a sonhar, os pequenos. O que é, certamente, uma pena.

Pensei nisso enquanto o guia falava sobre a chegada dos primeiros imigrantes europeus ao Rio Grande do Sul. Foram trinta e seis dias em navios, o desembarque em uma região inóspita, ainda por desbravar - trazidos por promessas que, como se viu, jamais foram integralmente cumpridas: nenhum colono recebeu as terras ou as ferramentas a que teriam direito, nenhum italiano ou alemão encontrou o paraíso que esperavam. E, no entanto, lá estão seus descendentes, plantando e colhendo, produzindo deliciosos vinhos, cantando e dançando como então. É uma história fantástica. Não hiperbolicamente falando, não é um elogio ou uma exaltação; é fantástica no sentido de que, hoje, fica realmente difícil encaixar nos cenários muitos, as dificuldades e agruras que supomos terem enfrentado. O fato de aquelas pessoas terem sobrevivido a isso e conseguido manter relativamente intactos certos aspectos culturais que os identificam mutuamente, é algo fora do comum, quase como se inventado - fantástico.

Se as crianças soubessem como tudo aquilo se deu, aposto que não teriam dificuldade em acreditar noutras fantasias.

A improvável beleza de vales escarpados recheados de nuvens que se enrolam entre as árvores me fez querer desistir de tudo e construir por conta própria uma casa como aquelas: teto baixo, toda em madeira, cercas?, uma chaminé - e me lembro de ter visto um ou dois cachorros nos lugares mais adequados. No caminho para Caxias do Sul, embalando um sono querido, vi uma queda d'água que em nada deve àquelas inventadas em clássicos ficcionais; com casinhas encarapitadas no alto da rocha, uma torrente d'água que caía com estrondo num vale escuro e florestado por pinheiros e outros tipos. Havia vapor e, posso garantir, cheiro de comida de nona saindo daquelas janelas.

"Portugueses nas baixadas, alemães nas encostas e italianos nas serranias", disse o guia, explicando a rede urbana gaúcha com um poder de síntese invejável. Flutuando entre eles, essa névoa estranha que encobre tudo e no segundo seguinte, vai embora, rápida e fria. É um frio diferente e confuso. Antes eu dizia que era um "frio mais molhado" e por isso, mais gelado. Agora não sei mais. Me confundi, me perdi nas minhas idéias sobre o que é frio e as alterações que o tornam mais ou menos gelado. No fim, me contentava com o vapor que saía aos montes, sem muito esforço, a qualquer hora do dia.

Estar em Gramado e "ser turista" talvez exija um pouco mais de paciência do que se imagina. Isso de "ser turista" não te deixa realmente conhecer o lugar visitado. Permanecer sobre a tutela de guias e roteiros cerceia a liberdade do conhecimento espontâneo e, de certa forma, mais desejável no encontro com o diferente. Ao invés de "turistar", viajar. Um viajante se dispõe aos atrasos, aos almoços simples, à pouca afetação. Um turista anseia por viver algo extraordinário - literalmente. Em função disso, exageram, excedem - na maior parte do tempo, comicamente - por encontrar respaldo das pessoas que estão ali para criar essa ilusão. No fim, são experiências.

Uma semana no Sul e ficam o sotaque, o cheiro do mate, a hospitalidade, a cerveja uruguaia na Rua Coberta, o aconchego, o carinho - e a certeza absoluta de uma memória absurdamente seletiva.

Conforme chegarem as fotos, escolho as melhores e coloco no flickr.

É uma foto e tem uma folha marcada no concreto. Imagino que quando foram fazer a calçada, que está em Toronto, a folha caiu inesperadamente naquela retidão toda do concreto e lá ficou, porque ou isso ou pisar no trabalho recém-terminado e ter que refazer tudo. É o resultado de uma preguiça e é atestado de que nesse mundo, o pouco que se pode, e é mesmo muito pouco, fica pequeno diante da ação de um caos extremo que nos governa.

A tentativa é prever e antecipar o caos. A idéia é conduzir nossa mente (igualmente caótica) a ações racionais, que, pré-ordenadas, encontram-se no limite entre o possível e o permitido. E, de onde?, vem uma folha que cai no concreto fresco de uma calçada em Toronto e põe tudo abaixo. Tudo, absolutamente tudo.

Da mesma forma, num exercício de raciocínio, o absurdo de construírem caminhos cimentados por onde andar. Não vou passar por ali, se há uma alternativa melhor -- sei disso. Mas a tentativa é domar esse impulso algo incontrolável. E caminhar pela grama, a partir desse momento, torna-se grave, desaconselhável - em certos casos, proíbe-se com uma placa. As alternativas - "caminhos sociais" - vão surgindo: sinuosos, "errados", ignorando a racionalidade que se impõe de alto a baixo.

A mesma racionalidade que é imposta a tudo, a todo momento - e faz convergirem nossos pensamentos essencialmente libertos de qualquer amarras a uma forma de agir, a um procedimento, a "o certo"; em detrimento de opções. E este, saiba, é um mundo de opções; e somos essencialmente livres para optar. Construir caminhos cimentados, convergentes - quanta crueldade.

De modo que, por estranho que seja, por proibido que seja, por errado e condenável, caminho pela grama.

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