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sigo calado. e as portas que pareciam se abrir, quando vistas de dentro, permanecem fechadas. não falo, não me entendo, me procuro muito mais do que um breve encontro e o que está, por enquanto, não aplaca. são, são horas muito tardes. está errado. o que devia acontecer -- sono e repouso e compreensão pra ser compreendido -- nunca. nunca e por quê? no hay, yo creo, pero no hay.

é a antítese. é o dissabor. mas não é lento e reclamando. isso de estar acordado. mais: a obrigação de dormir. ter que dormir é a antítese de dormir.

ponho os óculos e penso no Hemingway que está entreaberto na pia do banheiro. leituras que vou fazê-las mancas. talvez falta de talento pra Hemingway ou Camus. é preciso aceitar que não saberei aprender a ler. como não sei (ou saberei) escrever. é um me enganar mais do qualquer coisa.

jamais tocarei um violão. aceito isso. mas insisto no Ernesto.

vou chegar atrasado: 'é o thiago', o thiago pode. penso sobre mim ~ o que os outros enxergam. isso não é comportamento de um adulto. Adulto. é só o que eu vejo: um moleque grande. como assim eu tenho que dar respostas e saber? eu não sei. nem sou.
mas tem esse impulso de sentar na frente do teclado, pensando em Hemingway, e escrever. pretensão.

eu iria pra Uganda. iria pra Uganda ler Hemingway pra prisioneiros do maior presídio em Kampala. não ter talento, nesse caso, pouco significa, porque eu apenas leria, ressoaria, "Adeus às armas" -- não seria preciso dar explicações.

explicações me matam um pouco a cada giro.

é estúpido. ficava feliz porque há alguns anos me descobri sendo eu mesmo, sem máscaras nem tentativas. apenas era. doidivanas. pareciam gostar. agarravam minhas mangas, grudavam em minhas calças, meus cabelos eram compridos e eu queria pular por corredores brancos de chão encerado. as famas.

aperta que sai. um vulcão que explode, uma espinha. claxon.

Se você não fuma, eu vou entender o seu asco. Vou entender que você sinta pena de mim por eu estar me matando lentamente, cometendo o suicídio a cada cigarro tragado. É um direito seu pensar em mim como uma pessoa rasteira, enganada pelo falso charme do cigarro, iludida pelas campanhas publicitárias que me prometem (ou prometiam) o Mundo de Marlboro, mal informada e ignorante dos malefícios que essas "quatro mil e setecentas substâncias tóxicas" levam a minh'alma a cada novo maço.

Eu entendo e respeito.

O que eu não entendo, sinceramente, é alguém em sã consciência, ciente dos fatos, inteligente a ponto de escapar da vileza que é a influência do cigarro nas vidas humanas, compactuar com essa lei fascista, baixada goela abaixo da população, criada pelo Governo do Estado de São Paulo.

Fumar é um hábito que pode ser muito desagradável a quem não o cultiva. Compreendo isso vivamente. Exatamente por isso, evito fumar perto de pessoas que não fumam. Eu diria "é um fumar consciente", se isso não soasse tão estúpido. O que acontece é: sejamos polidos; quem não fuma, prefere não fumar por tabela também. Desse modo, acendo meu cigarro em lugares que pouco incomodam outras pessoas. E penso que esse comportamento se repete com a maioria dos fumantes -- especialmente porque fumar pode determinar, até mesmo, se você é apto ou não para trabalhar nesta ou naquela empresa. Há relatos de professores que não foram contratados unicamente porque fumavam. De uma estupidez sem tamanho.

Essa lei do governo José Serra tem vários pontos discutíveis. O pior deles talvez seja a criação de um estado de denuncismo, onde os frequentadores dos lugares em que agora fica proibido o livre-fumar podem delatar o dono do estabelecimento e os fumantes que desrespeitaram a proibição. A vigilância fica a cargo do cidadão comum que, imbuído da nobre missão de erradicar esse problema, transforma-se em policial de seus iguais. Tudo isso legitimado pelas letras da lei. E ninguém parece notar esse absurdo.

E a imbecilidade não termina aí. As propagandas do Governo do Estado tentando angariar apoio à sua lei primam pela falta de lógica -- são uma rasteira no bom senso. Como essa, que vi piscando no topo do site Último Segundo, do IG.


Então, agora, os fumantes somos responsáveis por sujar o ar de todo um estado. Ignoram-se as causas concretas de tal fato para que fique provada a necessidade de esta lei ser apoiada pela maioria da população. População muito preocupada com a qualidade do ar que respira, certamente, enquanto vai até a padaria da esquina de carro. São oitocentos carros novos por dia somente na cidade de São Paulo e os fumantes, esses nojentos, somos os reais culpados pelos níveis altíssimos de poluição atmosférica.

Eu nunca compreendi porque as ações contra o fumo sempre foram mais "incisivas" (para usar um termo mais brando) do que as investidas contra todos os outros tipos de drogas. É socialmente aceitável um porre por semana, incluídos os eventuais riscos a outras vidas (se a pessoa resolver dirigir para casa, por exemplo), mas é abominável a ideia de alguém se matar (e matar a outros!) acendendo um cigarro.

E, veja, não se trata aqui de uma comparação tosca entre o melhor entre o pior. Fumar faz mal -- ninguém sabe melhor disso do que quem fuma. Se você não fuma, ótimo. A vida vai dar um jeito de te matar de outra forma, mas, felicite-se!, você não é mais um dos muitos iludidos e seus maços de cigarro. Agora, eu, que fumo, não posso ser impedido de querer fumar um cigarro enquanto tomo minha cerveja no fim de semana. Especialmente se eu faço isso tomando o máximo de cuidado para evitar o seu transtorno, amigo não-fumante. Se você resolve que a melhor saída é me denunciar ao poder público, multar o estabelecimento, você está concordando com a ideia de que algumas liberdades podem (e talvez devam) ser suprimidas em nome de um bem comum. Vê o perigo? Vê porque essa é, de fato, uma lei fascista?

Você, não-fumante, um policial à paisana, um cidadão convertido em fiscal do Estado, zelando pelo bem-estar "da maioria", passa a escrutinar as vidas alheias, coibindo certos atos que atentam contra a "qualidade de vida" da população. Você, não-fumante, me proíbe certo ato de liberdade -- e todos ficam muito felizes; afinal, todos temos o ar limpo, os bares sem fumaça e sem esse cheiro nojento. Agora pensa: eu, fumante, posso encontrar novas (ou antigas) formas de proibir certos atos de liberdade caros a você, da mesma forma legitimado pelo Estado. Esqueça o cigarro; use outro símbolo. E daí, como ficamos?

Ao mesmo tempo, Kaique lê admirado o mapa da divisão estadual dos Estados Unidos. E me afirma, categoricamente, que Saint Louis é feia.

"Como você sabe?", foi a minha resposta. É possível que tenha sido essa a minha resposta? Que espécie de professor deve responder assim para um aluno que me afirma, categoricamente, que Saint Louis é feia?

Torna-se absolutamente irrelevante o que eu possa achar sobre Saint Louis. Ou como o aluno construiu a sua verdade.

Saint Louis deve ser mesmo muito feia.

Você nunca vai me ver correndo pelado por aí, porque não é isso que eu faço. O que eu faço, na verdade, não é a mesma coisa. Ficar ali, tudo, é complicado demais, então desisto e não.

Agora, você pode me ver olhando um elefante. Olhar um elefante, almoçando, é algo que faço com algum cotidiano. Não sem um motivo. Pra te dizer o motivo, você precisa pedir. Sair contando segredos assim, sem querências, é coisa de gente que não sabe diferenciar uma boa música de um litro d'água. E não quero conversar com quem deixa de beber música.

Ficar sentado vendo o elefante ali, mascando suas folhas, evoca. E--voca. Sabe do que eu falo. Acontece algo no meio do caminho e o elefante é um planeta, de repente. Faz um chiado, como pavio, e explode em poeira -- nessa hora, é um planeta.

Mas não vou te dizer que corro pelado só pra ver sua cara de satisfação. Sua cara, satisfeita, é medonha. Um sorriso torto de qualquer coisa. Prefiro você sério e sisudo. Sise. Se.

Malaquias. Era o nome do primeiro pássaro que comi. Houve um segundo de dor e, depois, provar as pernas tenras de Malaquias me satisfez. Não com o sorriso de satisfação das pessoas de Cuiabá (cujo humor pouco varia nos dias em que os termômetros, feitos de banana, passam dos 40 pontos que não cicatrizam e).

Falho na tentativa. Fumando um cigarro. Porque.

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thiago gonçalves

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