Se você não fuma, eu vou entender o seu asco. Vou entender que você sinta pena de mim por eu estar me matando lentamente, cometendo o suicídio a cada cigarro tragado. É um direito seu pensar em mim como uma pessoa rasteira, enganada pelo falso charme do cigarro, iludida pelas campanhas publicitárias que me prometem (ou prometiam) o Mundo de Marlboro, mal informada e ignorante dos malefícios que essas "quatro mil e setecentas substâncias tóxicas" levam a minh'alma a cada novo maço.
Eu entendo e respeito.
O que eu não entendo, sinceramente, é alguém em sã consciência, ciente dos fatos, inteligente a ponto de escapar da vileza que é a influência do cigarro nas vidas humanas, compactuar com essa lei fascista, baixada goela abaixo da população, criada pelo Governo do Estado de São Paulo.
Fumar é um hábito que pode ser muito desagradável a quem não o cultiva. Compreendo isso vivamente. Exatamente por isso, evito fumar perto de pessoas que não fumam. Eu diria "é um fumar consciente", se isso não soasse tão estúpido. O que acontece é: sejamos polidos; quem não fuma, prefere não fumar por tabela também. Desse modo, acendo meu cigarro em lugares que pouco incomodam outras pessoas. E penso que esse comportamento se repete com a maioria dos fumantes -- especialmente porque fumar pode determinar, até mesmo, se você é apto ou não para trabalhar nesta ou naquela empresa. Há relatos de professores que não foram contratados unicamente porque fumavam. De uma estupidez sem tamanho.
Essa lei do governo José Serra tem vários pontos discutíveis. O pior deles talvez seja a criação de um estado de denuncismo, onde os frequentadores dos lugares em que agora fica proibido o livre-fumar podem delatar o dono do estabelecimento e os fumantes que desrespeitaram a proibição. A vigilância fica a cargo do cidadão comum que, imbuído da nobre missão de erradicar esse problema, transforma-se em policial de seus iguais. Tudo isso legitimado pelas letras da lei. E ninguém parece notar esse absurdo.
E a imbecilidade não termina aí. As propagandas do Governo do Estado tentando angariar apoio à sua lei primam pela falta de lógica -- são uma rasteira no bom senso. Como essa, que vi piscando no topo do site Último Segundo, do IG.
Então, agora, os fumantes somos responsáveis por sujar o ar de todo um estado. Ignoram-se as causas concretas de tal fato para que fique provada a necessidade de esta lei ser apoiada pela maioria da população. População muito preocupada com a qualidade do ar que respira, certamente, enquanto vai até a padaria da esquina de carro. São oitocentos carros novos por dia somente na cidade de São Paulo e os fumantes, esses nojentos, somos os reais culpados pelos níveis altíssimos de poluição atmosférica.
Eu nunca compreendi porque as ações contra o fumo sempre foram mais "incisivas" (para usar um termo mais brando) do que as investidas contra todos os outros tipos de drogas. É socialmente aceitável um porre por semana, incluídos os eventuais riscos a outras vidas (se a pessoa resolver dirigir para casa, por exemplo), mas é abominável a ideia de alguém se matar (e matar a outros!) acendendo um cigarro.
E, veja, não se trata aqui de uma comparação tosca entre o melhor entre o pior. Fumar faz mal -- ninguém sabe melhor disso do que quem fuma. Se você não fuma, ótimo. A vida vai dar um jeito de te matar de outra forma, mas, felicite-se!, você não é mais um dos muitos iludidos e seus maços de cigarro. Agora, eu, que fumo, não posso ser impedido de querer fumar um cigarro enquanto tomo minha cerveja no fim de semana. Especialmente se eu faço isso tomando o máximo de cuidado para evitar o seu transtorno, amigo não-fumante. Se você resolve que a melhor saída é me denunciar ao poder público, multar o estabelecimento, você está concordando com a ideia de que algumas liberdades podem (e talvez devam) ser suprimidas em nome de um bem comum. Vê o perigo? Vê porque essa é, de fato, uma lei fascista?
Você, não-fumante, um policial à paisana, um cidadão convertido em fiscal do Estado, zelando pelo bem-estar "da maioria", passa a escrutinar as vidas alheias, coibindo certos atos que atentam contra a "qualidade de vida" da população. Você, não-fumante, me proíbe certo ato de liberdade -- e todos ficam muito felizes; afinal, todos temos o ar limpo, os bares sem fumaça e sem esse cheiro nojento. Agora pensa: eu, fumante, posso encontrar novas (ou antigas) formas de proibir certos atos de liberdade caros a você, da mesma forma legitimado pelo Estado. Esqueça o cigarro; use outro símbolo. E daí, como ficamos?