liñas

Thiago tem 32 dentes e uma mão que carrega muito pouca coisa - pequena e dedos gordos. Thiago na maior parte do tempo fala sozinho, não por arrogância imbecil ou vergonha, apenas por certa loucura que um dia veio e achou de ficar, compadecida da inexorável incompetência para assuntos de alta monta ou advertidamente corriqueiros - tipos exigentes de certa audiência e nauseante espetáculo. E, no entanto, dá aulas (há alguns anos), nesses casos, desejoso de quem o escute com alguma atenção e sincero interesse. Aulas confusas e bagunceiras, como um cachorro que adota comportamentos do dono. Pensando nisso, João dorme demais, enquanto ele, insone, aproveita o tempo ganho inventando mundos. Mas despretensiosamente - no sentido antigo e, de certo modo, bom dessa palavra, não como um sapato importado despretensioso ou um restaurante badalado despretensioso. Não traça planos, não tem metas, não desperdiça boas risadas. 'Travessa, no mais das vezes, relevando burocracias que ameaçam pôr freios a estar acordado quando devia estar dormindo e vice-versas. Gostaria que, falando sobre coisas apaixonantes, outros também se apaixonassem - esquecendo suas próprias criações. Não lembra, e convive bem com os sustos constantes e as alegrias que se repetem (como achar pela terceira vez em pouco tempo O estrangeiro, que, surpreendentemente ou não, fica guardado sempre no mesmo lugar). Não "corre atrás" - por experiência adquirida de que o que já passou certamente retorna (diferente). É um geógrafo, talvez o geógrafo mais preguiçoso que andou na face do planeta desde Estrabão, o ébrio; mas gosta de saber algumas coisas interessantes e fica feliz por ter aprendido outros olhares sobre o mundo. Acha que quando escreve em terceira pessoa, soa idiota - mas insiste na tentativa. Algo de estupidamente teimoso borbulha em seu fígado, além do álcool de algumas cervejas. Gosta de travessões no meio do texto - como se nota - e lê russo fluentemente, apesar de não perceber os sentidos das palavras; põe plural onde não tem, porque algumas palavras são tridimensionais; o olhar vagueia de vez em quando, para concentrar, até notar o que está acontecendo para, então, se concentrar na vaguidão dos olhos - e esquecer o que pretendia pensar antes. E, não, a barba nunca foi tingida.