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de além-mar, numa ligação que me custa entender, surgida de não sei onde, mas forte - mais forte - como se desde sempre, chega um presente. presente precioso - como os que vieram num envelope verde, e estão guardados numa caixa de madeira comprada especialmente pra isso: um bottom do Portishead, folders de museus em Praga, uma carta cheia de amizade, carinho e amenidades queridas (letra leve, suave).

dessa vez, Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe, o duo norueguês Kings of Convenience, cantando "Corcovado", num português surpreendentemente sem tropeços, gravado num show em Cascais, Portugal.

um nó na garganta e saudades do que vai ser.

Ao mesmo tempo em que olho pro lado e a porta fechada me faz sentir uma vontade estranha de sair no frio e ir fumar um cigarro a que me proíbo a perna tremendo e os lábios rachados pelo tempo seco acabam criando certa atmosfera de ir ficando. A cabeça dói - mas há dias como impossibilidades e o que antes era enxaqueca e olhos caídos se transforma em susto de poder. Hoje posso.

Dedos gelados.

Dias de descanso invariavelmente me obrigam a dormir só quando o sol desponta e pássaros cantam espantando a madrugada. Enquanto espero os barulhinhos da aurora, leio. E penso. Prevejo - sem querer, tempos de maior conturbâncias. As previsões se enganam e tudo o que espero fatalmente não acontece; de onde percebo, cabisbaixo, querendo fumar, que estar atento cansa e, de mais a mais, sendo desavisado e inconstante as cores que enfeitam o mundo de um jeito quase falso ficam ainda mais absurdas.

Clichêsco.

Noites de inverno atravessadas remetem ao fim do ano. Um fim de ano diferente - talvez o primeiro, verdadeiramente o primeiro. Não será solitário. Era destruidor ver risos e beijos quando espocavam os fogos, e a alguns dedos uma senhora de vestido preto, cor forte dos lábios, os olhos quase fechados, um hálito gelado: tentativa de boas-vindas. Era mentira. Não tinha ninguém - nem em tentativas desespero. Mas agora tremo e já vislumbro menos solidão no fim que será recomeço.

Preciso de um emprego na cidade grande - a maior -, que me sustente e seja feliz. É um pedido. Tremo.

Entre sorrisos e beijos desconcertantes a trilha segue torta. Me pergunto se algum dia foi certa. Dou de ombros e volutas de humo. A quem importa?

~.~.~

É um pouco o ofício de um demônio qualquer me fazer acreditar por alguns segundos na possibilidade de encontrar, num fim de tarde intranqüilo, uma cena como essa.

Os cabelos desgrenhados, a roupa sem qualquer propósito, os olhos transbordando bálsamo, a boca num meio-sorriso... E o corpo que, num jogo de não-se-mostrar, convida ao clichê da contemplação.

Não há outra saída a não ser fica ali, olhando, exagerando, em hipérboles circulares; o mundo todo não importaria.

É obra de um demônio. Aposto que ele ri escarninho sempre que caio de alturas absurdas depois de imaginar tudo o que uma tarde fria, este sofá e uma intenção inconseqüente poderiam significar.

O disco? A voz é mais grave do que eu esperava e apenas entreouvida. Eu não consigo ficar indiferente ao fato de que é ela mesma quem canta - e, portanto, tenho opiniões confusas sobre tudo. Além disso, é Tom Waits - e por "culpa" de um exu, já não posso mais passar sem. É o primeiro. Esperemos. Admirados.

fazer aniversário é como uma chuva de luvas. é uma corrida de pelicanos. é uma fatia muito grossa de queijo derretendo na frigideira.

é parecido com a sensação de um "eu te amo". um frio que te desce na espinha sem sentido. imagina um dos pelicanos acertando seu estômago e você vai chegar aonde eu quero.

mas se é o caso de ser mais específico, diria que eu nunca fui um bom aniversariante. no ano passado (e no anterior), acordei e tinha me esquecido que dia era. quando cheguei perto e vi sorrisos brotando nos rostos, lembrei.

tudo é mais intenso agora. ao mesmo tempo que nunca fui tão comedido em minhas reações. (são inevitáveis essas pequenas autofagias.) nunca senti tanto sono, também. durmo mais do que sempre dormi -- e tenho, a partir de hoje, 24 anos.

(aposto no pelicano de bico roxo. se quer saber.)

é uma madrugada fria, tem muitas nuvens no céu, mas elas não escondem a Lua. estou ouvindo Balmorhea, me devem uma versão rouca de "Sweetie", do Josh Rouse, e abraços pela manhã -- digo isso pra me lembrar daqui a alguns meses, quando reler isso me acostumando aos meus 24 anos recém-conquistados.

é parecido mas diferente. é meu ano novo.

devo estar enganado, mas acho que estava invadindo uma casa. penso que com algum sucesso, já que lembro de ouvir a sirene e, de repente, as janelas explodirem; fui carregado pelos braços pra fora e uma luz muito forte só me deixava entrever o azul tosco das viaturas. gritavam comigo. muitas vozes e um burburinho de rádios indecifrável.

parece que sentado no banco de trás do carro -- que corria muito -- via relances de rostos assustados. não me conheciam, mas estavam familiarizados com o barulho das viaturas: o ronco propositalmente alto dos motores, o apito agudo e os gritos pedindo passagem que os soldados cuspiam, pendurados nas janelas. o motorista do carro onde eu estava falava ininterruptamente comigo algumas frases soltas e muitos insultos -- parecia muito alterado, muito satisfeito.

não sei porque invadira a casa. disso não me lembro. houve uma explicação no sonho, um começo, mas o dia inteiro se encarregou de deixar somente uma lembrança pálida. conversava com alguém, alguns momentos de dúvida e, logo em seguida, estávamos na casa a ser aberta.

chegamos ao prédio que um dos guardas disse se chamar "Quartel do DOI". era uma construção quadrangular de dois andares, com uma grande área aberta no centro. em cada andar, muitas celas -- ou quartos --, dispostos com as janelas para a tal área aberta. lembro de ter pensado: "podia ser pior, ainda bem que tenho diploma". um segundo depois, não era mais esse prédio. era um lugar subterrâneo, escuro, frio, barulhos de gotas caindo... paredes altíssimas. e eu (ou aquele que supus ser), sentado num canto, abraçando os joelhos.

não demorou muito, ouvi as grades se abrindo e eram quatro homens. usavam coturnos sujos. dois deles seguravam cassetetes, um terceiro empurrava uma espécie de carrinho de compras e o último, na minha direita, trazia fios e um grande alicate. ao me cercarem, os dois que empunhavam cassetetes me levantaram e arrancaram minha camiseta. o que levava o carrinho deu uma risada e disse algo em uma língua que não reconheci -- que soou próximo ao meu ouvido, apesar de ele estar do outro lado da sala (ou cela, não sei bem).

no segundo em que o dono dos fios se aproximava, rindo muito e gritando, um barulho qualquer me despertou.

olhei pro lado, esperando o choque (imagino que era isso que pretendiam), mas só vi o relógio marcando "07:02". ainda tinha mais quarenta minutos de sono. preferi levantar e beber algum café.

e agora não sei se quero deitar de novo.

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