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o único prédio em que se nota algum silêncio e pessoas dormindo aqui em volta tem o nome duvidoso de Edifício Stella Luiza. parece ser um conjunto antigo, porque chama-se "edifício", mas tem apenas três andares, além do térreo -- com uma porta simples, que dá direto para a calçada. os prédios dessa região de São Paulo são antigos, em sua maioria. subindo essa mesma rua (vindo da Pedroso de Moraes) existe um portal onde se lê -- ironicamente -- "Vila Sossego": uma rua com muitas casas pequenas (como antigamente predominavam por toda cidade) que dá de cara com uma das vias mais movimentadas e caóticas em muitos quilômetros.
nos outros prédios, muito mais altos do que o mirrado Stella Luiza, algumas janelas acesas. poucas. as torres parecem enfeites de Natal com defeito. aqui e ali se notam sombras e reflexos de uma televisão ou um computador ligados. enquanto olhava, não vi pessoas.
a rua (e suas travessas) estão silenciosas. na medida do possível. ainda resquício do ano novo. é uma cidade ainda acordando pra loucura que lhe significa.
não vejo pessoas mas as adivinho resultados de tudo o que lhes faz (e fez) rir e chorar, ao longo da vida. exatamente como eu. ainda há pouco chorando ao lembrar de uma das minhas histórias revivi a sensação que me acompanhou durante muitos meses após o acontecido; me sentia a pessoa mais triste do planeta, único ser humano a carregar sobre os ombros toda a dor da vida. tive que rir da minha ingênua pretensão.
I'll tell you all my secrets, but I lie about my past.
São Paulo é um lugar especial pra quem deseja seus horizontes ampliados, suas ilusões rasgadas, seus delírios concretizados. é um lugar duro e rude. não te convida, não te afaga.
(às quatro e quinze da manhã, pessoas que acordaram muito tempo antes estão zumbis nos ônibus que sobem -- um atrás do outro -- esta mesma rua. em qualquer dia. sob qualquer condição essas pessoas têm que estar onde quer que seja antes de eu mesmo pensar em me levantar.
)
é óbvio, hoje:
nunca fui nem serei diferente de quem está acordado, na torre ao lado, assistindo à televisão, a um filme, vendo pornografia na internet, chorando. há o mesmo em todos, algo que nos identifica, que nos torna parte de uma mesma história sarcástica e irônica.
(pense em quem mora na Vila Sossego e a ironia, não só da cidade, te dá um tapa.
)
ano que começa com apenas uma opção: EPIC.
por enquanto,
let me fall out of the window with confetti in my hair
deal out Jacks or Better on a blanket by the stairs
I'll tell you all my secrets, but I lie about my past
and send off to bed for evermore
a quem já cantou essa canção comigo, bêbados pelas ruas de uma cidade qualquer; a quem já ouviu essa canção comigo numa noite qualquer; a quem amaldiçoou a vida comigo ouvindo essa canção; àqueles em quem tropeçarei, ao longo da vida, ao som dessa canção: happy fucking new year.
Vou muito pelo que sinto. Não preparo e não planejo. Dá muito errado - numa proporção quase indecente. Mas errar - não saber para onde, nesse sentido -, me dá a chance de surpresas e certas descobertas ao acaso. Frutos do caos e da sensibilidade do mundo, alheios à retidão, à força bruta. Erro.
"[...] uma célebre resposta de Sarah Bernhardt quando uma jovem atriz comunicou, orgulhosa, não ter medo de errar: 'Não se aflija, querida, isso vem com o talento'".
Eu não diria apenas 'talento'. Diria 'talento para a vida'.
Enquanto eu fumava, recomeçou a pingar. Uma chuva bem-vinda. Há quem dissesse, uma chuva que atrapalhou o momento, as últimas tragadas. Não. As últimas tragadas, essas, antes do sono, sempre me levam a uma revisão do dia, um recontar de tudo o que houve e, quase sempre, à tentativa inútil - tanto quanto compreensível - de corrigir o que não saiu a contento. Mas nessas últimas tragadas, hoje, choveu. E eu me resignei. Brindei à chuva, ao mundo, à vida, aos amigos e aos pequenos erros.
Eu não seria quem sou se não tivesse aprendido a respeitar minhas falhas, se não soubesse que elas são a real expressão da minha (particular e intransferível) tentativa de vida - que não são poucas e não são inválidas.
Erro, portanto. E durmo com a chuva tamborilando em minha janela de madeira. Porque há vida.
In 1583 the entrada of Antonio de Espejo stopped at the spring when Jumano Indians guided the Spaniards up the Toyah valley. Dr. John S. Ford passed through the Toyah valley in 1849 and noted productive land along its banks. Madera Valley, near the reservoir, was farmed by prehistoric Indians and Hispanic settlers. After Fort Davis was reoccupied by the army at the end of the Civil War a lucrative market opened for the grains, vegetables, and cattle of these farmers, who irrigated their fields from San Solomon Springs. In 1909 the Toyah Valley Irrigation Company was organized to supervise water use of the area. By 1915 Reeves County Water Improvement District No. 1 had acquired the water rights and built Balmorhea Lake and Dam. Construction began on the earthfill dam in 1916 and was completed in 1917.
wiki:
The median income for a household in the city was $16,071, and the median income for a family was $20,179. Males had a median income of $19,271 versus $13,958 for females. The per capita income for the city was $7,742. About 32.4% of families and 36.3% of the population were below the poverty line, including 42.0% of those under age 18 and 21.3% of those age 65 or over.
Nevertheless, in times of struggle for Truth, such as those now upon us, we remain committed to The Way of Truth; that is, the way of Satyaghaha, or active non-violent resistance as practiced by Siddhārtha Gautama, Yeshua Ben Yosef, Francis and Clair of Assisi, Mohandas Gandhi, Martin Luther King Jr. and others. It is said that, much of what we write is written to ourselves. That is certainly true here as well. By exploring for Truth we hope to some day receive Her promise to be set free. Therefore, we pray, "Thy Kingdom Come, Thy Will Be Done," and we proclaim in the enlightened Spirit of world unity, both feet firmly planted in Her Blessings: "From Every Mountainside Let Freedom Ring."
sigo calado. e as portas que pareciam se abrir, quando vistas de dentro, permanecem fechadas. não falo, não me entendo, me procuro muito mais do que um breve encontro e o que está, por enquanto, não aplaca. são, são horas muito tardes. está errado. o que devia acontecer -- sono e repouso e compreensão pra ser compreendido -- nunca. nunca e por quê? no hay, yo creo, pero no hay.
é a antítese. é o dissabor. mas não é lento e reclamando. isso de estar acordado. mais: a obrigação de dormir. ter que dormir é a antítese de dormir.
ponho os óculos e penso no Hemingway que está entreaberto na pia do banheiro. leituras que vou fazê-las mancas. talvez falta de talento pra Hemingway ou Camus. é preciso aceitar que não saberei aprender a ler. como não sei (ou saberei) escrever. é um me enganar mais do qualquer coisa.
jamais tocarei um violão. aceito isso. mas insisto no Ernesto.
vou chegar atrasado: 'é o thiago', o thiago pode. penso sobre mim ~ o que os outros enxergam. isso não é comportamento de um adulto. Adulto. é só o que eu vejo: um moleque grande. como assim eu tenho que dar respostas e saber? eu não sei. nem sou.
mas tem esse impulso de sentar na frente do teclado, pensando em Hemingway, e escrever. pretensão.
eu iria pra Uganda. iria pra Uganda ler Hemingway pra prisioneiros do maior presídio em Kampala. não ter talento, nesse caso, pouco significa, porque eu apenas leria, ressoaria, "Adeus às armas" -- não seria preciso dar explicações.
explicações me matam um pouco a cada giro.
é estúpido. ficava feliz porque há alguns anos me descobri sendo eu mesmo, sem máscaras nem tentativas. apenas era. doidivanas. pareciam gostar. agarravam minhas mangas, grudavam em minhas calças, meus cabelos eram compridos e eu queria pular por corredores brancos de chão encerado. as famas.
aperta que sai. um vulcão que explode, uma espinha. claxon.
eu passei muitos minutos, ainda agora, olhando esta foto:

ouvindo, repetidas vezes, esta música:
e foi como se muito pouca coisa sobrasse pra ser pensada, vista, entendida...
escrevi minhas primeiras frases em catalão.
Tinc molt desig d'aprendre a parlar el català. Escoltar música català crec que és un bon començament.Una vegada més, gràcies per l'avís.
Una forta abraçada,
enviadas a um menino (catalão, por suposto) que me indicou meu vício atual, a banda catalã Manel. basta uma visita ao meu profile no Last.FM que qualquer um nota quanto a banda tem me acompanhado.
e mais do que isso. me põe em contato com essa língua que eu considero uma das mais belas que já ouvi. não sei até que ponto é verdadeira a afirmação de que o português, aos ouvidos estrangeiros, é sonoro, leve, "fluido", quase uma língua cantada, mas é por acreditar nesta assertiva que afirmo: eis aí uma língua para competir com a nossa em fluidez, leveza e beleza.
quem fala catalão, não termina as palavras. e, apesar de ser uma língua aparentada ao português, não se entende muita coisa do que dizem os falantes. a construção das frases, das palavras, o jeito de dizerem, como soa, por exemplo, "Els millons professors europeus" (o nome do disco do Manel), nunca vai ser o que achamos.
pretendo aprender a falar catalão. como pretendo aprender russo (mais do que apenas saber ler o alfabeto cirílico). me pergunte por quê.
- quero não terminar palavras catalãs.
- numa volta pela Unicamp, anos atrás, entrei no prédio onde aconteciam as aulas de línguas da universidade. cada sala dedicada a uma língua, havia hebraico, inglês, espanhol, alemão, grego, latim, japonês, francês e russo. na sala do russo, num quadro de avisos, estavam pregadas duas redações escritas naquele dia, com o cirílico cursivo (que eu nunca tinha visto). achei lindo. foi ali a decisão.
tenho um livro novo do Dostoiévski, "Братья Карамазовы" ("Os irmãos Karamázov"). é ele meu autor preferido - do pouco, muito pouco, que li. "Crime e castigo" é o maior livro que conheço (e não me refiro a tamanho). o drama psicológico, denso, cruel, poderoso influenciou tanto meu modo de pensar durante um tempo que nem sei. e agora, anos, muitos anos depois, finalmente compro "Os irmãos Karamázov", que, dizem, é a obra máxima do russo.
"livro novo" não significa que paguei extorsivos R$80 por uma nova edição. o livro é uma edição de 1980 do Círculo do Livro, com capa dura e em perfeito estado de conservação - ao que parece, nunca o leram.
ao mesmo tempo, comprei um presente para uma aluna que comemorou seus 15 anos neste sábado. "Budapeste", escrito por Chico Buarque. também um exemplar semi-novo. porque livro precisa ter história.
eis a dedicatória:
Isa,Porque Budapeste é amarela, mesmo com um Danúbio (supostamente) azul lhe cruzando a alma e dividindo histórias entre Óbuda e Pest.
E porque a fantasia em prosa, transformada em poesia, faz da vida o que ela pode ser.
Não desista do húngaro. Não fuja ao respeito do Diabo. Aventure-se - e o amarelo, não-suposto, será sua chance de uma travessia possível.
Com carinho, Thiago e Bia.
com a intenção deliberada de que ela não entenda logo de cara.
posts de aniversário são sempre iguais.
mas antes que apareçam os parabéns, quero agradecer. agradecer a todos vocês, putos e amigos, comparsas, grandes irmãos, de antes e de agora - que espero seja pra sempre. agradecer por tudo e sem exageros ou hiperbolias.
foi um ano incrível ao lado de todos vocês.
obrigado. a todos.
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eu sou um cara de sorte. é um mundo inteiro que gira, um universo inteiro que canta, afinado e consequente. obrigado, você.
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de tudo, vai ficando a vontade de sempre mais. a certeza de que falhar miseravelmente é ainda um sinal de sucesso no meio em que vivo. as pessoas que importam entendem isso e compartilham comigo a vitória nos fracassos.
é com vocês que falo. é a vocês que agradeço.
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para mais: encherei a cara logo mais. que é o que sói.
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uma porra de um quarto de século.
nada.
A semana está acabando e foi assim.
Começou com o show do Radiohead e tanto choro e muita dor. Mas foi um grande show, sem a menor sombra de dúvida e não tenho mais tantos elogios a fazer - boa parte deles está aqui, o que torna qualquer nova tentativa em esforço desnecessário.
Na segunda-feira eu não trabalhei, e muita coisa aconteceu num dia só. Acordei em São Paulo e dormi em Pedreira, com muitas escalas no meio do caminho. Quando finalmente parei, a cabeça girava com tanta informação. Por exemplo, saber com alguma certeza de que até a linha amarela do metrô ficar pronta, a Chácara do Jóquei não é um lugar decente pra ir assistir a shows. É muito longe. Mesmo se você está acostumado a andar por São Paulo atravessando o mundo pra chegar aos lugares. Não vá até lá com o seu cavalo - o coitado não merece essa jornada. E a grama nem é tão verde.
Depois, trabalho. E eu sou professor - o que implica em acordar muito cedo e ir ter com muitas, mas muitas crianças. Mais do que isso, porque não é simplesmente estar lá com elas, batendo papo e contando que a linha amarela do metrô paulistano não está pronta, que o José Serra desalojou um monte de gente por causa de uma obra mal feita, que ninguém saiu culpado dessa história e que, horror!, querem que ele seja presidente do país. Não é isso. Eu tenho que ficar lá na frente deles ensinando coisas. Claro que falar sobre o metrô, falar mal do José Serra, do PSDB, das políticas públicas podres desse partido podre, do show do Radiohead, é ensinar - mas me obrigam a falar, por exemplo, sobre conceitos demográficos (população relativa, população absoluta, crescimento vegetativo e coisas tão chatas quanto). "É o que está na apostila e precisa ser dado". É o "conteúdo". E mães mandam bilhetes nas agendas dos filhos se o "conteúdo" não é cumprido à risca.
"Conteúdo" o meu ovo. Mas os caras me pagam pra isso e eu, uma puta da educação, não tenho muita opção. Ensino sobre conceitos demográficos. São uns quatrocentos alunos - e eles precisam saber do metrô, das coisas erradas do governo José Serra; não sobre taxa de natalidade, assim, crua. Se eu pudesse juntar as duas coisas e falar sobre metrô+natalidade, porra, seria fenomenal - porque aí eu teria chance de falar do show -, mas não me deixam, porque existem as apostilas e elas têm prazos e datas e. Então fica um pouco complicado.
Mas nem sempre é isso. Porque a gente precisa do caos. "A gente não quer eles quietos" aprendendo sobre as feições geomorfológicas da América. A gente quer eles andando pra lá e pra cá dentro da sala, experimentando, atrapalhando a professora na sala ao lado (que devia estar ensinando alguma coisa sobre números primos) e aprendendo - apreendendo, assim, a vida. Porque senão é sentar e esperar bater o sinal. Uma hora ele bate, mas tem uma diferença crucial entre esperar ele bater, sentado, resignado, e espera ele bater cansado, suando, depois de ter feito o moleque notar que, sim, existe uma relação direta entre a música que ele gosta de ouvir e a geografia, essa que eu tento mostrar pra ele - longe, muito longe das porcentagens e dos índices. Eu odeio índices. Se você, durante uma conversa, fala em números, eu paro de te ouvir. Sem o menor constrangimento. Acendo um cigarro e vejo a Billie Holiday sorrindo e cantando. É muito mais divertido e significa muito mais pra mim.
Devia significar mais pro mundo. Viveríamos melhor. Sem índices e com as divas do Jazz flutuando entre nossas cabeças. Cantando e sorrindo.
Eu fiz eles me contarem, em poucas linhas ("Atividade chupeta", era o nome do... exercício?), o que eles sentiam quando escutavam suas músicas preferidas. Que escrevessem livremente e me contassem o melhor possível como era escutar aquela música. Sem me dizer o nome da música, porque essas crianças andam com um gosto terrível pra músicas.
Eles escreveram e os resultados, se não excepcionais, me deram a medida das coisas que eu esperava: apesar de ouvirem músicas ruins, existe a possibilidade de um dia eles pararem por sete minutos e contemplarem a beleza que é Ella Fitzgerald sendo genial - e seus óculos fundo-de-garrafa. Está ali, escondido, mas está ali essa possibilidade. Tanto que quando a música que tocou fui eu quem escolhi, as reações foram maiores e melhores (em quantidade e em qualidade). Escrevam mais e, que lindo!, se surpreenderam ao descobrir que existe algo além e que, sim, eles podem gostar das músicas que o professor maluco escuta. Vi olhos lacrimejando (além dos meus) enquanto assistíamos ao Justin Vernon cantando à capela. Isso não tem preço - e nenhuma apostila inspira professores a agir assim.
Odeio apostilas.
Então, cansa. É massacrante, porque só dá certo em 20% das vezes. Você vai criar e na sua cabeça vai ser mágico, perfeito. Na hora, quando os outros precisam comprar sua ideia, nada vai acontecer como programado. O caos é meu amigo, companheiro de aulas, mas ele cansa, às vezes. E apesar disso, não me vejo fazendo outra coisa.
Agora fico aqui, ouvindo o disco novo do Mastodon. Amanhã não tenho hora pra acordar e essa sensação é das melhores que posso ter. Não ter horário. Porque o difícil não é acordar cedo, é ir dormir sabendo disso.
Mas o disco. Fui apresentado ao Mastodon ouvindo "Leviathan". E me surpreendi ouvindo uma banda de metal progressivo e curtindo muito. Ouvi acompanhado pelos melhores comparsas e, dizem, a chama do metal acendeu em meu peito tão dedicado ao folk e ao rock alternativo. Esse disco novo, "Crack the Skye", é diferente daquele. Me parece que tem mais guitarras e mais "gritos". A faixa seis, que dá nome ao álbum, é uma mistura estranha de coisas que costumo ouvir com esses "gritos" (que vêm entre aspas porque provavelmente têm um nome correto, que eu desconheço). Sou um "ser não-metal", mas não nego a qualidade dessa banda e que ouvindo essas faixas ganho uma força qualquer, um ânimo diferente. É bom. Diferente do primeiro que ouvi, mas bom, sem dúvida.
[São os amigos que têm dado o tom aos últimos tempos. Um tanto de referências novas e descobertas maior, muito maior do que eu.]
Foi uma grande semana.
Fecho os olhos e as imagens vão se sucedendo rapidamente, como se estivessem se arquivando em pastas respectivas. (Uma metáfora típica dos tempos.) A sensação: um túnel formado por paredes de paisagens mentais, recortes mnemônicos, flutuando. Reconheço poucas coisas e na maioria do tempo suponho se tratarem de momentos que deliberadamente escolho recordar entre tantos outros possíveis.
Esses retalhos vão se acomodando em cantos obscuros da memória, de onde não sei se sairão... Foram situações verdadeiramente importantes, mas depois que atravessam esse "túnel", transformam-se em resquícios pouco coerentes de dias passados. Sem encaixe.
As questões que se impõem são: por que é tudo tão transitório? Tudo é ou, desafortunadamente, se torna transitório em mim? Por que tão pouco realmente se fixa? Por que, inexorável e involuntariamente, esqueço?
Não importa quão grande tenha sido o que aconteceu; invariavelmente, esquecerei. E quando olhar no fundo da memória, buscando essas passagens que, no fim das contas, me fazem ser o que sou só consigo ver um grande borrão de rostos, de sons. Tudo varrido por um vento que me impede de saber quando ou como.
daí que você é um professor. um professor respeitável em duas cidades pequenas, já nos estertores da altaneira Serra da Mantiqueira, onde qualquer faísca é explosão e um piá de longe resolve terminar de vez com a sua boa fama, com seu tão carismático perfil, com sua mentira mais bem contada.
mas o cara é el_rey. não se discute. de forma que:
1) já não lembro o ano, mas não faz muito, infelizmente. chorei em pé, ao lado das bilheterias do Via Funchal, em São Paulo, quando a moça do guichê fechou a porta na minha cara, avisando que o último ingresso pro show do Coldplay tinha acabado de ser vendido. eu aprendi depois, confiem em mim.
2) já há mais alguns anos, seguindo uma tradição esdrúxula e forçado por aquilo que te torna um adolescente cheio de espinhas e nada na cabeça, embarquei no avião que levou minha turma de oitava série ao Inferno na terra: Porto Seguro. passei uma semana tocando berimbau; acredito (ou prefiro acreditar) que pra castigar os meus ouvidos e tentar irritar a todo e qualquer ser humano não-surdo que ficasse perto de mim por mais do que dois minutos.
3) ainda quando adolescente, apaixonei-me. perdidamente. por essa menina que mora(va) na rua de cima. voltávamos juntos todos os dias da escola e eu ouvia sempre tudo o que ela tinha a dizer, inclusive as reclamações sobre o namorado. alguns dias antes daquele Natal, comprei pra ela um colar de ouro, por R$55,00, o que era uma fortuna pra um moleque do primeiro colegial. dois dias depois, no Natal, lhe entreguei um urso, uma carta e meu coração. fuck me.
4) sete anos depois, já na faculdade, por acaso encontro com essa garota. passamos algumas horas conversando. pelas tantas: "às vezes tenho vergonha das coisas que fiz quando gostava de você". "você gostava de mim?" - e olhos arregalados. "ah, mas vá te foder!". faz um tempo que não converso com ela... estranho.
5) era um bar, em Belo Horizonte. um bar com um tema: jogos de tabuleiro. você senta e o garçom te traz o cardápio de bebidas e o de jogos. são muitos e nos divertimos a valer. era uma noite em que o chopp servia-se até o primeiro pazzo levantar pra ir ao banheiro. demorou "o suficiente", eu diria, até aquele rapaz levantar. depois dos chopps, margueritas. eu, por minha conta, até onde posso afirmar, bebi seis. doses cavalares - você sabe: não há miséria em Minas. sei que acordei deitado no chão do bar, abraçado à cadeira.
6) era uma tarde de sábado. uma tarde de sábado quente como só em Campinas as tardes de sábado sabem ser quentes. muitas nuvens no céu e um negrume no horizonte. o que eu poderia ter feito? ido pra casa ler um livro? sentar num boteco e tomar umas cervejas? encontrar aquela amiga? assistir um belo filme no acolhedor Cine Paradiso? não. ao invés disso tudo, disso tudo, eu aceitei ir ao jogo entre o Guarani Futebol Clube e o Avaí Futebol Clube. era a partida que decidiria o futuro do glorioso Bugre. o combalido estádio Brinco de Ouro da Princesa transbordava com os mais de 30mil bugrinos saltitantes no tobogã. onde, justamente, eu me encontrava, perguntando pra todos os santos e demônios, por que cazzo eu estava ali. na segunda seguinte, no jornal Correio Popular, a foto estampava a alegria da nação alvi-verde: uma arquibancada forrada como há muito não se via, a comoção das declarações - o Guarani passara pra segunda fase do Campeonato Brasileiro da Série B de 2005. no cantinho da foto, entre a massa verde e branca: um ponto preto. a camisa que me emprestariam não serviu. destoei. mas cantei. sei o hino até hoje.
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7) eu escuto Los Hermanos. e ainda gosto.
Se você está sentado no banco do carro, com o cigarro aceso e um policial te manda parar, é a hora de respirar fundo e lembrar que aquele cara, porque carrega uma arma e veste um uniforme, pode te prender se não for com a sua cara.
Nunca tive muita paciência com policiais. Especialmente com aqueles que acabam acreditando no papel de "agentes em nome da ordem". Uma ordem que nem sempre entendem do que se trata. São os piores, porque assumem que podem - o que bem entenderem -; e a empáfia com que o fazem me irrita profundamente.
Mas ele está ali, em pé no meio da estrada, balançando a mão direita pra cima e pra baixo, como um agente em nome da ordem - e se te considerar um usurpador dessa ordem, te põe em cana sem pensar duas vezes. Então é o caso de frear. Sem estacionar no acostamento, mesmo no meio da estrada, ele olha lentamente a placa (talvez pra se certificar de que se trata de um morador da cidade - e não encontra problemas aí), passa pela lateral do carro com sua lanterna comprida até chegar à janela.
Dou uma tragada olhando pra ele. Solto a fumaça pra cima, mas um pouco deve ter chegado em seus olhos - que piscam rapidamente. Pode ser um tique nervoso antecipando a conversa que pode ser amigável e respeitosa (da minha parte) ou o começo de um problema (pra ele).
Provavelmente não viu nada muito suspeito em mim. A não ser o fato de eu estar num carro, sozinho, perto das seis da manhã. Ainda assim, iluminou o interior do carro, a parte de baixo dos bancos traseiros, minha mão direita - que estava apoiada na alavanca de câmbio, meus pés descalços. Pediu que abrisse o porta-luvas, que iluminou por alguns segundos.
"Vamos com mais calma, meu jovem?" - disse, me olhando de lado. "Meu jovem"... Eu mereço. Respirei fundo e dei outra tragada, menor.
"Está com pressa ou é só impressão minha?" Eu não estava correndo. "Sem correr você chega no mesmo lugar e não corre o risco de deixar sua mãe preocupada". Filho da puta. Outra tragada e dessa vez, imprudente porque nervoso, soltei a fumaça exatamente na cara quadrada dele.
Se virou pra mim, com a cara de mau que só um uniforme e um revólver na cintura te deixam mentir e ia dizer qualquer coisa. Não deu tempo. Respondi à pergunta: "Não, nenhuma pressa. Apenas um pouco de sono e querendo dormir. É o que farei assim que você me liberar."
Ele não disse mais nada. Apenas se afastou um pouco e balançou a mão pra frente, me mandando ir embora. Terminei o cigarro, joguei na estrada e segui.
Ainda sorrio um pouco ao lembrar da cara dele quando arranquei com o carro.
Não gosto de policiais.
Eu não tenho R$3,40 pra um maço de Carlton. Há dez anos não passava por um período de pindaíba tão grave.
Não ter dinheiro pro cigarro em uma madrugada chuvosa é quase uma punição. Alguém está de brincadeira comigo.
Uma parte da culpa imputo ao Banco Real, que rapou minha conta pra pagar um cartão de crédito atrasado. Deve estar no contrato, naquelas letras pequenas (que existem!) e eu nunca lembro de ler. Ninguém lembra - por isso eles andam tão ricos.
Não tenho cigarros e a gasolina da moto está na reserva. O salário só aparece na sexta-feira e eu trabalho dois dias seguidos em outra cidade. Me pergunte se sei o que vai acontecer.
Em dias assim, não posso ouvir Blues. E esse é o maior problema. Como ouvir Blues sem fumar? Como?
Conteúdo colaborativamente criado. A principal colaboração aconteceu entre o ócio e minha pessoa.
Foram quatro horas fuçando no Google Maps para criar um mapa que exibe as peripécias espaciais nas quais já me meti.
São nove estados. mais de cem cidades - onde fiquei por pelo menos duas horas. Os motivos gerais das idas estão por ali. A maioria das viagens foram financiadas pelos anos de faculdade de Geografia, que me obrigavam a ir conhecer de perto tudo aquilo que ia vendo nos livros. Algumas outras feitas por conta própria - em especial, na região mais próxima à minha casa. E as demais feitas com a grande companhia de amigos.
Sem mais delongas, ei-lo:
Por tudo quanto já foi dito, por mais que os anos tenham me levado pra longe, por todos os problemas que há, por estar aí meu coração - entre tantas gente e tantas vidas, num mesmo mundo -, pela tua garoa que já tão rara, pelos teus céus de umas cores improváveis, por ser parte importante do que me significa, com grande carinho e infinita admiração, meus parabéns, São Paulo.
É, entre tantas praças, a que mais me mostra, num espelho torto, o que há de torto na minha própria imagem. Uma massa disforme, assustadora, intimidadora nos teus senões. Dos velhos sertões, antigas taperas, entre padres e degredados, com esses teus prédios e muitas luzes, é ainda a minha vila. São muitas cidades numa só.
É a minha cidade. É o lugar que escolheria pra morrer, definitivamente.

Parabéns, querida São Paulo.
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A foto veio do blog da amiga Lucia Malla, tirada por seu marido, Andre Seale. E está pequena porque não pude pegar em tamanho original. A maioria das fotos que encontrei nos Flickrs, tinham copyright. O trabalho do Andre também tem. Se eles dois quiserem, pago os direitos em boas vibrações e sorrisos; senão, danei-me.

