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o álbum.

gravado em 1959, em duas sessões distintas, entre março e abril, no estúdio da Columbia Records, em Nova York.

Julian "Cannonball" Adderley no sax alto, Paul Chambers no contra-baixo, James Cobb na bateria, Bill Evans e Wynton Kelly ao piano, John Coltrane no sax tenor e Miles Davis no trompete.

cinco faixas: "So What", "Freddie Freeloader" e "Blue in Green" no lado A; "All Blues" e "Flamenco Sketches" no lado B.


entre eu e meus comparsas há muitas diferenças. nos cruzamos em muitos pontos, mas num outro cenário é pouco provável que nos tornássemos grandes amigos.

"Kind of Blue" é nosso denominador comum.

isso resume e relativiza tudo o que sobra e importa pouco.

"eu fiz uma música sobre os sons do campo magnético da terra"


é só parar a compreensão por alguns segundos. você vai até a pasta, escolhe qualquer um dos discos, põe pra tocar e de repente a música preenche os espaços vazios da imensidão que você tem -- como eu tenho -- dentro da sua cabeça.

vasculhar e fazer o amálgama de captações dos sons que estão no mundo, disponíveis, impercebidos, que se reformulam, se decompõem, são misturados e transformados: música ambient é música metamórfica. transubstância e que tem a gentileza de, quando pode, ser música-silêncio; e sim.

é caos. é som de chuva e trovões. memórias de um carnaval. é estar na vida; é saber se emocionar com o fato, com o fado, com o belo. (pingo de chuva caindo em chão seco. nesse momento.)

música de sentir cheiro é o que você vai encontrar.

tiago casagrande, dinossauro vivo, bereteante, réptil de cordas impossíveis, comparsa, foi convidado para produzir a trilha sonora do curta "Arranco", meio-apresentado no Festival de Cinema de Porto Alegre neste 2009; com data de estréia pra virada do mês, em dezembro próximo.


esse disco, "arranco", que tece fios de barulhos coesos, é o resultado. e resulta que durante mais de uma hora estive absorvido e tranquilizado, encantado com a sutileza da música do all your gardening needs. (o lançamento do álbum vem depois.)

o rio súbito que invade a imensidão do deserto depois da chuva que cai destruidora -- وادي‎ -- e desaparece tão inesperado quanto as senhoras repetem repetem repetem.

faixa a faixa são e não são.

é um lindo disco.

Balmorhea, TX.

lago Balmorhea, TX:

In 1583 the entrada of Antonio de Espejo stopped at the spring when Jumano Indians guided the Spaniards up the Toyah valley. Dr. John S. Ford passed through the Toyah valley in 1849 and noted productive land along its banks. Madera Valley, near the reservoir, was farmed by prehistoric Indians and Hispanic settlers. After Fort Davis was reoccupied by the army at the end of the Civil War a lucrative market opened for the grains, vegetables, and cattle of these farmers, who irrigated their fields from San Solomon Springs. In 1909 the Toyah Valley Irrigation Company was organized to supervise water use of the area. By 1915 Reeves County Water Improvement District No. 1 had acquired the water rights and built Balmorhea Lake and Dam. Construction began on the earthfill dam in 1916 and was completed in 1917.

wiki:

The median income for a household in the city was $16,071, and the median income for a family was $20,179. Males had a median income of $19,271 versus $13,958 for females. The per capita income for the city was $7,742. About 32.4% of families and 36.3% of the population were below the poverty line, including 42.0% of those under age 18 and 21.3% of those age 65 or over.

Balmorhea Progressive:

Nevertheless, in times of struggle for Truth, such as those now upon us, we remain committed to The Way of Truth; that is, the way of Satyaghaha, or active non-violent resistance as practiced by Siddhārtha Gautama, Yeshua Ben Yosef, Francis and Clair of Assisi, Mohandas Gandhi, Martin Luther King Jr. and others. It is said that, much of what we write is written to ourselves. That is certainly true here as well. By exploring for Truth we hope to some day receive Her promise to be set free. Therefore, we pray, "Thy Kingdom Come, Thy Will Be Done," and we proclaim in the enlightened Spirit of world unity, both feet firmly planted in Her Blessings: "From Every Mountainside Let Freedom Ring."

eu passei muitos minutos, ainda agora, olhando esta foto:

["trapped cloud", daily dose of imagery]


ouvindo, repetidas vezes, esta música:

["The Summer", Balmorhea.]


e foi como se muito pouca coisa sobrasse pra ser pensada, vista, entendida...

Eu não sei do lugar - porque eu não estava lá. Entre o que eu escrevo agora e o começo de noite do domingo, morri uma parte e renasci outra. Se tinha mais 35mil pessoas ao meu lado, se choveu ou se fez frio, se os amigos estavam ali pra ser encontrados, se a luzes ou o vento, se a lama... Não sei. Eu não estava lá.

Não sei quais foram todas as músicas. Não lembro de ter respirado por duas horas e meia. Mas chorei. Chorei porque sim e porque foi a recompensa mais incrível por mais de dez anos de espera. Uma catarse minha, em mim - num tudo ao mesmo tempo que.

Tudo doía. O corpo todo, dolorido e amortecido. Em alguns momentos tudo o que estava muito confuso e difuso (com exceção do palco) voltava a ganhar forma, porque a dor de ficar em pé, num piso irregular, insistia em me trazer de volta à Chácara do Jóquei. Mas eu não estava ali - e se a dor rasgava os músculos, a próxima música sempre trazia mais lágrimas e uma euforia contida, silenciosa, como que por respeito.

E não porque sejam deuses de um planeta distante do meu. Eram ali uns meninos, tocando instrumentos e cantando - como tantos outros. Não eram deuses. Mas um respeito pela qualidade do que era apresentado, pela comoção coletiva, pela alegria de estar em pé (por quatro horas, na mesma posição) pra ver uma de minhas bandas favoritas.


Just 'cause you feel it doesn't mean it's there.


Lembro de ter pensado bobamente num momentos dos momentos em que voltei ao chão: "E a mãe do Thom, o que ela acha disso tudo? Como é?" Bobamente.

Fui absorvido pela dor e por um torpor que poucas vezes senti. Balançava o corpo pra diminuir o incômodo e pra deixar a música entrar por todos os poros. Me "alimentando de música", seguindo uma sugestão fantástica de Renmero, que junto com a Bia e a Michele, dividiram comigo a vitória. Mais essa vitória épica.

Você não ganha de mim quando o assunto são vitórias. Nunca.




This is what you'll get when you mess with us


Foram minutos infinitos. Entre uma música e outra a ansiedade me consumia. E nos primeiros acordes, adivinhados, mais uma porrada.

Um coro de 35mil pessoas convencendo a banda a continuar cantando a música que na teoria deveria ter acabado. E eles cantavam conosco. E sorriam. Eu os vi sorrindo e cantando junto. À merda com a modéstia: fomos uma grande audiência. Um coro de 35mil vozes. Catárticas. Entoando mantras. Eles estavam felizes, sorriam - riam! - e se surpreendiam com aquilo tudo.

Mas não vi nada. Eu não estava lá. Aquilo tudo não existiu. Foi sonho, com muitas luzes e uma das melhores bandas do mundo.


Your ears are burning
Denial, denial
Your ears should be burning
Denial, denial


Não quero me achar mais.

De estar em la vieja Habana e ter que cumprir os prazos de entrega dos mantimentos para Cienfuegos, sem repouso, aparece um som qualquer vindo no alto de um daqueles prédios baixos ao lado del Malecón que te obrigam a parar por uns minutos e esquecer compromissos e o plano de fuga do conhecido do primo daquela guajira que conheceu na noite anterior. Ela te contou mas se perguntarem, nunca vi mais anti-revolucionária.

É um som macio. Batidas leves em timbales e "gum guns". Um senhor vai cantando com voz grave (e por isso mesmo, carinhosa) uma música que te cala fundo n'alma.


Lleva en su alma La Bayamesa
tristes recuerdos de tradiciones
cuando contempla sus verdes llanos
lágrimas vierte por sus pasiones.

Vai tudo ecoando: tres, timbales, alaúde cubano e vozes. É com cenho grave que passa por baixo da sacada um senhor antigo, suas calças tão puídas quanto sua testa; ouve e não compreende de pronto. La Bayamesa que conhece é cantada nas escolas e em ocasiões da aparição de El Comandante - mas aquela, mais doce, igualmente poderosa, subverte a letra ainda que remeta aos versos tão conhecidos.

As ondas acertam em cheio a amurada.

Não é fácil distinguir os sons. A rua é muito barulhenta. Mas está ali, naquela voz muito séria e compenetrada, a essência de um país todo. É com um amor incompreensível que a música é cantada. Amor pela Ilha.

~~~

De onde digo, eu, que compreender a essência da palavra liberdade passa longe da capacidade humana. Não está a meu alcance descobrir-lhe o sentido se, desafortunadamente, não a vejo com os olhos nus. Afirmo (com medo): não há liberdade senão aquela que parte de si. É uma conquista e um fardo que se constrói de dentro pra fora - sendo que suas muitas interpretações não são mais do que esboços tortos de um desenho belo demais. Não há como.

É livre quem não tem o que comer? Não. Como não é aquele que come, mas não pode pensar por si. Mas, ainda que uns tenham a garantia da possibilidade de orar a seus deuses ou escrever seus jornais, não estariam presos a outros grilhões, menos óbvios - que legitimam, porque está aí sua segurança, a mão-firme que mantém suas existências num prumo conhecido e de poucos sobressaltos? É uma questão que precisa de tratamento muito cuidadoso. Mas costumam erguer bandeiras defendendo pontos de vista que carecem reflexão.

Não está a Liberdade circunscrita a um modelo. Não é escravizando vidas em função desse modelo que a Liberdade sairá plena em suas possibilidades efetivamente libertadoras. A construção da idéia precisa partir de si. Liberdade maior e, de certo modo, verdadeira é aquela conquistada de dentro pra fora. Nascer preso a um modelo a priori não te transforma em livre, ou melhor, torna-te um liberto dentro de uma jaula.

Quando se diz que o ideal é a posição de observador, aquele que à revelia das imposições salta para longe da situação a que se vê subjugado, não pode haver percepção mais correta. Apontar a falha de outros estando mergulhado em uma situação falha (justificando-a), não pode ser completamente correto.

~~~

O som das ondas no Malecón torna a encher os ouvidos. A música já não se ouve mais. Morreram. Mas existem em pequenas pérolas. Estavam ali, o tempo todo, sem que os notassem as pessoas e suas vidas (presas-livres). Um que as percebeu trouxe à luz e sem mais logrou sucesso - que não é fácil medir. Têm qualidade e são preciosas as peças musicais. Mas vai além disso. Muito além. Porque refletem o amor por um país inteiro, algo que não entendem os que não ouviram as ondas, o tres, suas vozes e algo de um mistério que, inerente, confunde ou (tragicamente) dá certezas.

_________
Escrito porque assisti ao documentário "Buena Vista Social Club" e sou um apaixonado por esses senhores; mas, também, porque li este post do Pedro Dória - ao qual, obviamente, não pretendo corrigir ou condenar, apenas reverberar em outro sentido. Ou no mesmo. Não sei bem.

No qual, mui demoradamente, comento cada uma das faixas presentes na minha mixtape que participa do já tradicional "Liveblogging para vencer".

O título da dita: "Mar de papel y plata de monedas, iré a Santiago". Trecho de uma frase escrita por Federico García Lorca quando referia-se à cidade de Santiago de Cuba, berço de muitos ritmos da Ilha, terra-natal de vários dos "participantes" da seleção - uma síntese bem acabada do que penso que seja a América Latina.

Lacho [Maria Bethânia & Omara Portuondo]
A união é proveitosa. Uma das maiores vozes da música brasileira se encontra com a dama da música cubana e constroem um disco onde os sotaques se misturam - Maria Bethânia interpreta canções cubanas, Omara Portuondo se aventura por clássicos da MPB. O respeito é mútuo, mas é a brasileira que rende homenagem à cubana. Esta faixa, um acalanto, a primeira do disco, faz o convite e mostra o poder da voz dessa senhora (contemporânea de outros mestres) e dos tambores da onipresente herança africana.

Sálvese quién pueda [Juana Molina]
Moça argentina, mais velha que sua voz sugere (posto que nascida em 1962). É um salto geográfico, mas permanece acalanto. A letra, suave, cutuca feridas e é mordaz entre os muitos barulhinhos. Uma música para flutuar.

Bruca Maniguá [Ibrahín Ferrer]
Um dos mestres da música cubana, parceiro de Omara Portuondo no consagrado Buena Vista Social Club. Essa música me faz sentir o calor da Havana dos anos 1940, o chão de madeira, a guajira vestindo uma saia de tecido leve. Invariavelmente, aos primeiros acordes, fecho os olhos e danço o bolero que ela insinua - embalado pelos metais e o som do tres cubano. Até o momento em que a música aumenta, cresce e o baile está formado.

Bulería [Estrella Morente]
Interpretando uma música da cigana andaluza conhecida como La Perla de Cádiz, esta senhorita, Estrella Morente, filha de Henrique Morente, um mestre do flamenco, traz consigo toda a carga emocional que a música cigana fez florescer no sul da Espanha. Entre palmas e a guitarra, o canto vindo das entranhas e o suor no rosto. ¿Vale?

Hermano dame tu mano [Mercedes Sosa]
São três músicas de Mercedes Sosa nesta mixtape. Os companheiros hão de compreender quanto as composições desta senhora me tocam. Nesta pérola, a convocação de todos os latinos que se levantam contra o que, nos séculos todos, tem oprimido esses povos que, no mais das vezes, aceitam as intervenções externas - aviltantes -, sem mais enfrentamentos. Para que "el dolor se quede a fuera", que venha a revolução - especialmente no nosso entendimento enquanto povos irmãos.

Adiós Nonino [Astor Piazzolla]
Este senhor, contemporâneo de Carlos Gardel (o argentino mais uruguaio da história e vice-versa), pega a herança do Tango e a desmistifica, trazendo novas contribuições para o estilo que ou enfurecem os mais tradicionalistas ou elevam espíritos menos herméticos mundo a fora. O disco onde está esta composição, "Libertango", de 1974, talvez seja a obra-prima deste compositor.

Canción desesperada [Orquestra Típica Fernández Fierro]
Os espetáculos de tango em Buenos Aires viraram atração turística e muito da atmosfera dos cabarés onde as duplas se apresentam são lugares recriados justamente com esse fim. Esta orquestra tira o tango de dentro dos pontos turísticos e traz de volta a essência tangueira. Toda a tradição, outrora remodelada por Astor Piazzolla, renasce com toda força - arrastando, inclusive e mui felizmente, multidões de jovens para casas menos badaladas e mais verídicas.

Midgard 1 [Movus] / Yui [Childs]
As duas músicas que seguem representam, talvez, a tentativa de surpresa da mixtape. São duas bandas de post rock vindas do México. Movus, da cidade de Guadalajara, e Childs, de Ensenada, acabam convidando a um outro olhar sobre a música hispânica porque, obviamente, fogem do estereótipo aguardado. Ainda mais quando falamos em México, de onde o que se espera nunca vai além dos mariachis-bigodón ou da música rancheira típica. (Desnecessário dizer que entre esses dois estilos tradicionais há, também, grandes peças.) As duas músicas exalam paisagens de sonho, sem perder a profundidade sonora que se espera desse tipo de música tão caro a este que humildemente vos escreve.

Notas [Gotan Project]
O nome do grupo é uma brincadeira com a palavra tango, chamada "vesre" ou "lunfardo" pelos portenhos, na qual a ordem das sílabas é trocada e surgem novas idéias. São três músicos - um suíço, um francês e um argentino e seu bandoneón - baseados em Paris que souberam reinventar mais uma vez o tango misturando-o a formas eletrônicas de música. Nesta faixa, contam com a presença de Juan Carlos Cáceres que vai narrando o surgimento do tango.

Sudaka Louge [Novalima]
Uma surpresa vinda diretamente de Lima. Sempre aprendi na escola que a imigração de escravos africanos para as colônias espanholas nas Américas tinha sido muito pouca ou quase nenhuma. Eis que me chega do Peru, o antigo vice-reinado mais importante da colônia, um grupo que faz essa mistura entre ritmos latinos (chocalhos e metais) com a herança negra peruana. A música afro-peruana (ora veja!) em formato redondinho pra ouvidos gringos.

Luna tucumana [Mercedes Sosa]
Ela nasceu em San Miguel de Tucumán, a cidade argentina onde foi assinada a independência do país frente à Espanha. É uma das maiores cidades de lá, na região noroeste, região nos contrafortes dos Andes, dos chacos e pampas - de gente pobre e muita história. Carregando todo esse peso nas costas, não tinha como suas músicas serem leves. Ela é um dos expoentes do movimento Nueva Canción, que nos anos 1960 e 1970 juntou ritmos folclóricos latino-americanos e contestação política.

¿Y tú qué has hecho? [Buena Vista Social Club]
Canção interpretada pelo grupo de músicos cubanos revivido nos anos 1990 pelo produtor Ry Cooder. O mesmo grupo que projetou Omara Portuondo e Ibrahín Ferrer (já mencionados), além de Compay Segundo, Rubén González, Elíades Ochoa, Barbarito Torres... Estes senhores reuniam-se em clube de Havana, na década de 1940, e ajudaram na consolidação de ritmos cubanos como o bolero, a guajira e o son. A poesia dessa música é linda, aliada às vozes poderosas de estos señores cria um momento musical impressionante.

Duerme, negrito [Mercedes Sosa]
Uma canção de ninar na voz de La Negra. Obviamente, não escapam as críticas sociais. Mas é uma música muito querida a mim - meu avô a cantarolava mientras preparava seu café.

Volutas de humo [Kevin Johansen]
Para finalizar, uma declamação de um poema de Salvador Angel Molinari que, penso, cairá como uma luva aos ouvidos dos companheiros de vitórias. Recomendo a leitura da letra enquanto escutam. Kevin Johansen nasceu no Alasca, mas foi de Buenos Aires que tirou boa parte da inspiração para compor grandes canções, em discos ótimos e viciantes (como comprovam minhas tabelas na last.fm). Este poema está na disco "City Zen", de 2002.

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Vale, além disso tudo, dar uma passada no recém-nascido ~fineas, meu tumblr, onde colocarei alguns (dois) vídeos que se encaixam propriamente com esta musicada toda.

É um blues muito bem escrito essa ilusão a que nos impuseram chamar realidade. Se o real é palpável, acerta em cheio quem imaginá-lo um balcão vazio de uma espelunca qualquer que vai fechando - exigindo nas entrelinhas, entre um copo e outro, que você desista. O incômodo que é a realidade (e toda a sua má-vontade intrínseca) ficam pelo caminho num verso que sugere, sem explicitar, que sua única saída tem que ser um outro gole. Há nisso tudo que te empurram pela goela um tom amargo, do qual a guitarra acaba absorvendo a parte mais trágica - e a voz, vacilante, representa sem qualquer orgulho, mas com toda emoção, o belo por trás daquilo. A mesma emoção que sobreexiste a você, à sua dor, à tristeza que te acompanha: porque a realidade (e todos que estupidamente lá: dentro dela) não se importa contigo, não tem pra você nem mesmo o resto de tempo, nem o interesse falso.

Quando isso fica claro, quando o peso do copo é tão e qual o peso do corpo, muito além do peso do espírito (que se arrasta), é nesse exato e efêmero momento que as notas entram pela sua pele e o que aos outros é "apenas" música e aplausos, se transforma em seu reflexo mais tosco, mais reles, mais insignificante. De um modo tão sentido, e por isso mesmo, de certa forma tão poderoso e inevitável que o que resulta dessa morte/vida é uma Farsa coberta da razão podre dos bêbados - a "compreensão dos vapores". E, então, volta a ser música, volta a ser o grito pleno e dissonância; pela dor de antes, pela tristeza (que agora é apenas agouro), pelo compromisso com a existência - por continuar, semi-morto, a espalhar um tipo qualquer de testemunho; que uns poucos compreenderão.

de além-mar, numa ligação que me custa entender, surgida de não sei onde, mas forte - mais forte - como se desde sempre, chega um presente. presente precioso - como os que vieram num envelope verde, e estão guardados numa caixa de madeira comprada especialmente pra isso: um bottom do Portishead, folders de museus em Praga, uma carta cheia de amizade, carinho e amenidades queridas (letra leve, suave).

dessa vez, Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe, o duo norueguês Kings of Convenience, cantando "Corcovado", num português surpreendentemente sem tropeços, gravado num show em Cascais, Portugal.

um nó na garganta e saudades do que vai ser.

Tenho uma tendência a não desmerecer produções culturais de qualquer gênero. O que é fruto de um caldo social específico, precisa ser compreendido em função dessa especificidade. A volta gigantesca que minha cabeça dá para aplicar essa noção ao funk carioca, ao "pagode romântico" (e que medo dessas palavras assim juntas), ao "sertanejo universitário" e afins é digna de um prêmio. Mas é assim que funciona. Essas, bem, essas coisas não aparecem espontaneamente -- têm um sentido, um nexo, uma razão; quem sabe, em alguns casos, até uma função bastante clara dentro da realidade em que se desenvolvem... É, portanto, pouco cuidadoso ignorar esses fato e meramente desqualificá-las. É óbvio que são produções mais simples; compará-las a grandes obras é até injusto. Mas até mesmo esse aspecto pode ser devidamente compreendido se por alguns segundos pararmos para analisar a coisa toda.

Agora, tenho uma convicção muito forte que quero compartilhar aqui. Acredito piamente que se todos tivessem direito a uma "cota Radiohead" e fossem devidamente apresentados à banda, este mundo seria muito melhor do que de fato é. Uma música por dia, não mais do que isso -- e ouso dizer que as coisas seriam diferentes.

É impossível ficar impassível diante deles. No vídeo abaixo, Thom Yorke e companhia fazem uma "apresentação verde" no programa de Conan O'Brian. "Verde" porque, ao invés de os caras voarem até Nova York (e sujarem mais um pouco as coisas todas), resolveram gravar a participação diretamente de Londres. A música, "House of Cards", está no último disco, In Rainbows, lançado este ano -- e disponibilizado através da internet, inclusive para download gratuito.

Aumente o som, esqueça da vida e aproveite o som da melhor banda do mundo.

Como início desta seção do blog, seria uma injustiça sem tamanho não fazer o primeiro post falando da Kapela Ze Wsi Warszawa -- especialmente porque foi a partir desta banda que comecei a levar mais a sério minha busca pela música feita em lugares pouco prováveis. Antes deles, minha maior diversão era apenas colecionar bandas de países diferentes, sem entender muito bem o que isso significava.

Quando encontrei essas músicas -- o que não foi difícil, porque já há algum tempo a banda vem recebendo muita atenção fora da Polônia --, a primeira coisa que me impressionou, obviamente, foi a língua na qual elas são cantadas. O polonês é uma das muitas línguas eslavas faladas na Europa oriental, incrivelmente diferente aos meus ouvidos acostumado com a sonoridade das línguas românicas; parente próxima do tcheco, do eslovaco, é-me absolutamente incompreensível.

Aqui um parênteses necessário: não entender as canções, de fato, não se constitui num problema. É possível ouvi-las e apreender-lhes a mensagem sem aparentemente entender o que dizem as letras. Talvez esteja aí a mágica da coisa toda -- mas não sei ao certo. Fim do parênteses.

Tudo ficou ainda mais incrível quando descobri, com a ajuda de um aluno intercambista vindo da Polônia, que as músicas são cantadas numa variação antiga da língua. O que faz todo sentido, se procuramos entender a intenção da banda.

O nome, Kapela Ze Wsi Warszawa, significa algo como "A Banda da Vila de Varsóvia". A capital do país, apesar de não ser uma metrópole gigantesca, está longe de ser uma vila -- no entanto, o que está expresso no nome do grupo é a sua motivação: buscar nas raízes da cultura popular elementos tradicionais que, fundidos a retalhos de modernidade, recriassem a Polônia para os próprios poloneses. Numa batalha contra a cultura de massa, que impõe determinados ritmos às pessoas, esse pessoal viajou por todo o país recolhendo expressões populares em todos os cantos. Um mosaico de experiências que estavam sendo esquecidas ou, no mais das vezes, ignoradas pela imensa maioria, em função do que vão chamar de narrow-mindedness em seu manifesto criativo, induzida por um comportamento dito de manada.

Dizer, portanto, que são uma banda da "vila de Varsóvia" não peca quanto à lógica daquilo que desejam fazer, ou seja, trazer Varsóvia (e a própria Polônia, de um modo geral) de volta à sua essência, aos seus sons, à sua identidade -- tornada tão fluida em todos os cantos desse mundo nos dias que correm. É, ao fim e ao cabo, uma tentativa de resistência. Mas nada de faixas e gritos de ordem; pelo contrário, música bonita, bem executada, repleta de tambores e flautas que somadas a uma voz que varia de estridente a rouca, resulta numa apresentação incrível da alma de um país que tem uma história repleta de invasões e, conseqüentemente, de tentativas de desconstrução do sentimento polonês -- que tem gosto de batata.

Recomendo fortemente a audição do disco "Wiosna Ludu" ("Primavera dos povos"), de 2002, lançado pela gravadora Orange World.

Sigo numa busca interminável por aquilo que costumam chamar "world music". Me interesso absurdamente pela música feita nos lugares mais improváveis - e esse será um assunto recorrente por aqui.

Tenho algumas predileções, mas não costumo refutar nada antes de ouvir com calma. É um trabalho sem fim (e fico contente que seja assim), porque quanto mais fundo se vai, mais o abismo se alarga. As novidades nunca cessam. Há sempre uma sonoridade diferente em algum canto do mundo por ser descoberta; e quando relaxo e penso "até que enfim encontrei esse disco", no segundo seguinte descubro algo absolutamente inesperado e a empresa recomeça.

Já foi mais difícil encontrar essas músicas. Quando comecei a me interessar por elas, as redes de compartilhamento não davam conta de suprir minha curiosidade. Encontrar esses discos à venda aqui no Brasil é ainda mais difícil - especialmente porque este comércio depende de importações e, garanto, "world music" não é a etiqueta mais procurada nas lojas do ramo (mesmo nas boas lojas).

O termo vem entre aspas porque, como toda classificação, merece ressalvas. No caso, este nome vem colado a virtualmente toda música que é produzida fora dos Estados Unidos e do Reino Unido. De um modo geral, sambas brasileiros, tangos argentinos, reggaes jamaicanos, mantras tibetanos, fados portugueses, batuque africano, chançons francesas, enfim, todos esses gêneros musicais são identificados genericamente como "world music" pelos críticos americanos e britânicos. Esta classificação, como convém a todas elas, homogeneíza num grupo amorfo experiências musicais que não falam inglês e que são, obviamente, distintas entre si. Mesmo dentro do Reino Unido, as músicas cantadas nas línguas celtas são "world music".

Está em curso no mundo um movimento de resgate de ritmos tradicionais. São inúmeras as publicações (virtuais ou não) que se dedicam a mostrar ao resto do mundo exemplos do que está sendo feito. Cito aqui as que mais visito: fRoots, Mondomix, At-Tambur, National Geographic World Music... Há, também, muitos festivais que reúnem artistas das mais diferentes origens. Citaria como principais, incorrendo em erros certamente: o Festival de Sines, em Portugal, o Festival de Kaustinen, na Finlândia, o Festival Masala e o Carnaval de Culturas, ambos na Alemanha. Mas a Europa é pródiga em eventos internacionais que se dedicam à música folclórica e étnica (aqui o calendário com todos os eventos do continente e aqui, todos os que acontecem apenas na Grã-Bretanha).

Este resgate, se me permitem a digressão, tem uma finalidade muito particular, qual seja, a de barrar o processo de nivelamento de todas as culturas em função de uma única expressão artística, que eu chamaria "hegemônica". É sabido que as rádios ao redor do mundo (especialmente as FMs) contribuem sobremaneira para esta homogeneização, na medida em que entregam a todos os povos pacotes pré-fabricados que acabam obscurecendo a visão das pessoas para outras possibilidades. São muito comuns as caras de espanto (pra dizer o mínimo) quando pessoas entram em contato com músicas diferentes daquilo que estão acostumadas a ouvir. Não percebem, por comodismo ou manipulação, a importância que têm essas outras músicas na construção do modo como nos compreendemos enquanto grupo, povo ou mesm como indivíduos.

Penso que trazer relatos sobre as descobertas que fiz seja algo relevante. E, mesmo que ignorada essa digressão anterior, estar em contato com diferenças é sempre muito interessante.

Está, portanto, inaugurada esta seção no blog. Espero que acrescente de alguma forma e fomente descobertas em outros cantos.

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