No qual, mui demoradamente, comento cada uma das faixas presentes na minha mixtape que participa do já tradicional "Liveblogging para vencer".
O título da dita: "Mar de papel y plata de monedas, iré a Santiago". Trecho de uma frase escrita por Federico García Lorca quando referia-se à cidade de Santiago de Cuba, berço de muitos ritmos da Ilha, terra-natal de vários dos "participantes" da seleção - uma síntese bem acabada do que penso que seja a América Latina.
Lacho [Maria Bethânia & Omara Portuondo]
A união é proveitosa. Uma das maiores vozes da música brasileira se encontra com a dama da música cubana e constroem um disco onde os sotaques se misturam - Maria Bethânia interpreta canções cubanas, Omara Portuondo se aventura por clássicos da MPB. O respeito é mútuo, mas é a brasileira que rende homenagem à cubana. Esta faixa, um acalanto, a primeira do disco, faz o convite e mostra o poder da voz dessa senhora (contemporânea de outros mestres) e dos tambores da onipresente herança africana.
Sálvese quién pueda [Juana Molina]
Moça argentina, mais velha que sua voz sugere (posto que nascida em 1962). É um salto geográfico, mas permanece acalanto. A letra, suave, cutuca feridas e é mordaz entre os muitos barulhinhos. Uma música para flutuar.
Bruca Maniguá [Ibrahín Ferrer]
Um dos mestres da música cubana, parceiro de Omara Portuondo no consagrado Buena Vista Social Club. Essa música me faz sentir o calor da Havana dos anos 1940, o chão de madeira, a guajira vestindo uma saia de tecido leve. Invariavelmente, aos primeiros acordes, fecho os olhos e danço o bolero que ela insinua - embalado pelos metais e o som do tres cubano. Até o momento em que a música aumenta, cresce e o baile está formado.
Bulería [Estrella Morente]
Interpretando uma música da cigana andaluza conhecida como La Perla de Cádiz, esta senhorita, Estrella Morente, filha de Henrique Morente, um mestre do flamenco, traz consigo toda a carga emocional que a música cigana fez florescer no sul da Espanha. Entre palmas e a guitarra, o canto vindo das entranhas e o suor no rosto. ¿Vale?
Hermano dame tu mano [Mercedes Sosa]
São três músicas de Mercedes Sosa nesta mixtape. Os companheiros hão de compreender quanto as composições desta senhora me tocam. Nesta pérola, a convocação de todos os latinos que se levantam contra o que, nos séculos todos, tem oprimido esses povos que, no mais das vezes, aceitam as intervenções externas - aviltantes -, sem mais enfrentamentos. Para que "el dolor se quede a fuera", que venha a revolução - especialmente no nosso entendimento enquanto povos irmãos.
Adiós Nonino [Astor Piazzolla]
Este senhor, contemporâneo de Carlos Gardel (o argentino mais uruguaio da história e vice-versa), pega a herança do Tango e a desmistifica, trazendo novas contribuições para o estilo que ou enfurecem os mais tradicionalistas ou elevam espíritos menos herméticos mundo a fora. O disco onde está esta composição, "Libertango", de 1974, talvez seja a obra-prima deste compositor.
Canción desesperada [Orquestra Típica Fernández Fierro]
Os espetáculos de tango em Buenos Aires viraram atração turística e muito da atmosfera dos cabarés onde as duplas se apresentam são lugares recriados justamente com esse fim. Esta orquestra tira o tango de dentro dos pontos turísticos e traz de volta a essência tangueira. Toda a tradição, outrora remodelada por Astor Piazzolla, renasce com toda força - arrastando, inclusive e mui felizmente, multidões de jovens para casas menos badaladas e mais verídicas.
Midgard 1 [Movus] / Yui [Childs]
As duas músicas que seguem representam, talvez, a tentativa de surpresa da mixtape. São duas bandas de post rock vindas do México. Movus, da cidade de Guadalajara, e Childs, de Ensenada, acabam convidando a um outro olhar sobre a música hispânica porque, obviamente, fogem do estereótipo aguardado. Ainda mais quando falamos em México, de onde o que se espera nunca vai além dos mariachis-bigodón ou da música rancheira típica. (Desnecessário dizer que entre esses dois estilos tradicionais há, também, grandes peças.) As duas músicas exalam paisagens de sonho, sem perder a profundidade sonora que se espera desse tipo de música tão caro a este que humildemente vos escreve.
Notas [Gotan Project]
O nome do grupo é uma brincadeira com a palavra tango, chamada "vesre" ou "lunfardo" pelos portenhos, na qual a ordem das sílabas é trocada e surgem novas idéias. São três músicos - um suíço, um francês e um argentino e seu bandoneón - baseados em Paris que souberam reinventar mais uma vez o tango misturando-o a formas eletrônicas de música. Nesta faixa, contam com a presença de Juan Carlos Cáceres que vai narrando o surgimento do tango.
Sudaka Louge [Novalima]
Uma surpresa vinda diretamente de Lima. Sempre aprendi na escola que a imigração de escravos africanos para as colônias espanholas nas Américas tinha sido muito pouca ou quase nenhuma. Eis que me chega do Peru, o antigo vice-reinado mais importante da colônia, um grupo que faz essa mistura entre ritmos latinos (chocalhos e metais) com a herança negra peruana. A música afro-peruana (ora veja!) em formato redondinho pra ouvidos gringos.
Luna tucumana [Mercedes Sosa]
Ela nasceu em San Miguel de Tucumán, a cidade argentina onde foi assinada a independência do país frente à Espanha. É uma das maiores cidades de lá, na região noroeste, região nos contrafortes dos Andes, dos chacos e pampas - de gente pobre e muita história. Carregando todo esse peso nas costas, não tinha como suas músicas serem leves. Ela é um dos expoentes do movimento Nueva Canción, que nos anos 1960 e 1970 juntou ritmos folclóricos latino-americanos e contestação política.
¿Y tú qué has hecho? [Buena Vista Social Club]
Canção interpretada pelo grupo de músicos cubanos revivido nos anos 1990 pelo produtor Ry Cooder. O mesmo grupo que projetou Omara Portuondo e Ibrahín Ferrer (já mencionados), além de Compay Segundo, Rubén González, Elíades Ochoa, Barbarito Torres... Estes senhores reuniam-se em clube de Havana, na década de 1940, e ajudaram na consolidação de ritmos cubanos como o bolero, a guajira e o son. A poesia dessa música é linda, aliada às vozes poderosas de estos señores cria um momento musical impressionante.
Duerme, negrito [Mercedes Sosa]
Uma canção de ninar na voz de La Negra. Obviamente, não escapam as críticas sociais. Mas é uma música muito querida a mim - meu avô a cantarolava mientras preparava seu café.
Volutas de humo [Kevin Johansen]
Para finalizar, uma declamação de um poema de Salvador Angel Molinari que, penso, cairá como uma luva aos ouvidos dos companheiros de vitórias. Recomendo a leitura da letra enquanto escutam. Kevin Johansen nasceu no Alasca, mas foi de Buenos Aires que tirou boa parte da inspiração para compor grandes canções, em discos ótimos e viciantes (como comprovam minhas tabelas na last.fm). Este poema está na disco "City Zen", de 2002.
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Vale, além disso tudo, dar uma passada no recém-nascido ~fineas, meu tumblr, onde colocarei alguns (dois) vídeos que se encaixam propriamente com esta musicada toda.