Recently in música Category

É um blues muito bem escrito essa ilusão a que nos impuseram chamar realidade. Se o real é palpável, acerta em cheio quem imaginá-lo um balcão vazio de uma espelunca qualquer que vai fechando - exigindo nas entrelinhas, entre um copo e outro, que você desista. O incômodo que é a realidade (e toda a sua má-vontade intrínseca) ficam pelo caminho num verso que sugere, sem explicitar, que sua única saída tem que ser um outro gole. Há nisso tudo que te empurram pela goela um tom amargo, do qual a guitarra acaba absorvendo a parte mais trágica - e a voz, vacilante, representa sem qualquer orgulho, mas com toda emoção, o belo por trás daquilo. A mesma emoção que sobreexiste a você, à sua dor, à tristeza que te acompanha: porque a realidade (e todos que estupidamente lá: dentro dela) não se importa contigo, não tem pra você nem mesmo o resto de tempo, nem o interesse falso.

Quando isso fica claro, quando o peso do copo é tão e qual o peso do corpo, muito além do peso do espírito (que se arrasta), é nesse exato e efêmero momento que as notas entram pela sua pele e o que aos outros é "apenas" música e aplausos, se transforma em seu reflexo mais tosco, mais reles, mais insignificante. De um modo tão sentido, e por isso mesmo, de certa forma tão poderoso e inevitável que o que resulta dessa morte/vida é uma Farsa coberta da razão podre dos bêbados - a "compreensão dos vapores". E, então, volta a ser música, volta a ser o grito pleno e dissonância; pela dor de antes, pela tristeza (que agora é apenas agouro), pelo compromisso com a existência - por continuar, semi-morto, a espalhar um tipo qualquer de testemunho; que uns poucos compreenderão.

de além-mar, numa ligação que me custa entender, surgida de não sei onde, mas forte - mais forte - como se desde sempre, chega um presente. presente precioso - como os que vieram num envelope verde, e estão guardados numa caixa de madeira comprada especialmente pra isso: um bottom do Portishead, folders de museus em Praga, uma carta cheia de amizade, carinho e amenidades queridas (letra leve, suave).

dessa vez, Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe, o duo norueguês Kings of Convenience, cantando "Corcovado", num português surpreendentemente sem tropeços, gravado num show em Cascais, Portugal.

um nó na garganta e saudades do que vai ser.

Tenho uma tendência a não desmerecer produções culturais de qualquer gênero. O que é fruto de um caldo social específico, precisa ser compreendido em função dessa especificidade. A volta gigantesca que minha cabeça dá para aplicar essa noção ao funk carioca, ao "pagode romântico" (e que medo dessas palavras assim juntas), ao "sertanejo universitário" e afins é digna de um prêmio. Mas é assim que funciona. Essas, bem, essas coisas não aparecem espontaneamente -- têm um sentido, um nexo, uma razão; quem sabe, em alguns casos, até uma função bastante clara dentro da realidade em que se desenvolvem... É, portanto, pouco cuidadoso ignorar esses fato e meramente desqualificá-las. É óbvio que são produções mais simples; compará-las a grandes obras é até injusto. Mas até mesmo esse aspecto pode ser devidamente compreendido se por alguns segundos pararmos para analisar a coisa toda.

Agora, tenho uma convicção muito forte que quero compartilhar aqui. Acredito piamente que se todos tivessem direito a uma "cota Radiohead" e fossem devidamente apresentados à banda, este mundo seria muito melhor do que de fato é. Uma música por dia, não mais do que isso -- e ouso dizer que as coisas seriam diferentes.

É impossível ficar impassível diante deles. No vídeo abaixo, Thom Yorke e companhia fazem uma "apresentação verde" no programa de Conan O'Brian. "Verde" porque, ao invés de os caras voarem até Nova York (e sujarem mais um pouco as coisas todas), resolveram gravar a participação diretamente de Londres. A música, "House of Cards", está no último disco, In Rainbows, lançado este ano -- e disponibilizado através da internet, inclusive para download gratuito.

Aumente o som, esqueça da vida e aproveite o som da melhor banda do mundo.

Como início desta seção do blog, seria uma injustiça sem tamanho não fazer o primeiro post falando da Kapela Ze Wsi Warszawa -- especialmente porque foi a partir desta banda que comecei a levar mais a sério minha busca pela música feita em lugares pouco prováveis. Antes deles, minha maior diversão era apenas colecionar bandas de países diferentes, sem entender muito bem o que isso significava.

Quando encontrei essas músicas -- o que não foi difícil, porque já há algum tempo a banda vem recebendo muita atenção fora da Polônia --, a primeira coisa que me impressionou, obviamente, foi a língua na qual elas são cantadas. O polonês é uma das muitas línguas eslavas faladas na Europa oriental, incrivelmente diferente aos meus ouvidos acostumado com a sonoridade das línguas românicas; parente próxima do tcheco, do eslovaco, é-me absolutamente incompreensível.

Aqui um parênteses necessário: não entender as canções, de fato, não se constitui num problema. É possível ouvi-las e apreender-lhes a mensagem sem aparentemente entender o que dizem as letras. Talvez esteja aí a mágica da coisa toda -- mas não sei ao certo. Fim do parênteses.

Tudo ficou ainda mais incrível quando descobri, com a ajuda de um aluno intercambista vindo da Polônia, que as músicas são cantadas numa variação antiga da língua. O que faz todo sentido, se procuramos entender a intenção da banda.

O nome, Kapela Ze Wsi Warszawa, significa algo como "A Banda da Vila de Varsóvia". A capital do país, apesar de não ser uma metrópole gigantesca, está longe de ser uma vila -- no entanto, o que está expresso no nome do grupo é a sua motivação: buscar nas raízes da cultura popular elementos tradicionais que, fundidos a retalhos de modernidade, recriassem a Polônia para os próprios poloneses. Numa batalha contra a cultura de massa, que impõe determinados ritmos às pessoas, esse pessoal viajou por todo o país recolhendo expressões populares em todos os cantos. Um mosaico de experiências que estavam sendo esquecidas ou, no mais das vezes, ignoradas pela imensa maioria, em função do que vão chamar de narrow-mindedness em seu manifesto criativo, induzida por um comportamento dito de manada.

Dizer, portanto, que são uma banda da "vila de Varsóvia" não peca quanto à lógica daquilo que desejam fazer, ou seja, trazer Varsóvia (e a própria Polônia, de um modo geral) de volta à sua essência, aos seus sons, à sua identidade -- tornada tão fluida em todos os cantos desse mundo nos dias que correm. É, ao fim e ao cabo, uma tentativa de resistência. Mas nada de faixas e gritos de ordem; pelo contrário, música bonita, bem executada, repleta de tambores e flautas que somadas a uma voz que varia de estridente a rouca, resulta numa apresentação incrível da alma de um país que tem uma história repleta de invasões e, conseqüentemente, de tentativas de desconstrução do sentimento polonês -- que tem gosto de batata.

Recomendo fortemente a audição do disco "Wiosna Ludu" ("Primavera dos povos"), de 2002, lançado pela gravadora Orange World.

Sigo numa busca interminável por aquilo que costumam chamar "world music". Me interesso absurdamente pela música feita nos lugares mais improváveis - e esse será um assunto recorrente por aqui.

Tenho algumas predileções, mas não costumo refutar nada antes de ouvir com calma. É um trabalho sem fim (e fico contente que seja assim), porque quanto mais fundo se vai, mais o abismo se alarga. As novidades nunca cessam. Há sempre uma sonoridade diferente em algum canto do mundo por ser descoberta; e quando relaxo e penso "até que enfim encontrei esse disco", no segundo seguinte descubro algo absolutamente inesperado e a empresa recomeça.

Já foi mais difícil encontrar essas músicas. Quando comecei a me interessar por elas, as redes de compartilhamento não davam conta de suprir minha curiosidade. Encontrar esses discos à venda aqui no Brasil é ainda mais difícil - especialmente porque este comércio depende de importações e, garanto, "world music" não é a etiqueta mais procurada nas lojas do ramo (mesmo nas boas lojas).

O termo vem entre aspas porque, como toda classificação, merece ressalvas. No caso, este nome vem colado a virtualmente toda música que é produzida fora dos Estados Unidos e do Reino Unido. De um modo geral, sambas brasileiros, tangos argentinos, reggaes jamaicanos, mantras tibetanos, fados portugueses, batuque africano, chançons francesas, enfim, todos esses gêneros musicais são identificados genericamente como "world music" pelos críticos americanos e britânicos. Esta classificação, como convém a todas elas, homogeneíza num grupo amorfo experiências musicais que não falam inglês e que são, obviamente, distintas entre si. Mesmo dentro do Reino Unido, as músicas cantadas nas línguas celtas são "world music".

Está em curso no mundo um movimento de resgate de ritmos tradicionais. São inúmeras as publicações (virtuais ou não) que se dedicam a mostrar ao resto do mundo exemplos do que está sendo feito. Cito aqui as que mais visito: fRoots, Mondomix, At-Tambur, National Geographic World Music... Há, também, muitos festivais que reúnem artistas das mais diferentes origens. Citaria como principais, incorrendo em erros certamente: o Festival de Sines, em Portugal, o Festival de Kaustinen, na Finlândia, o Festival Masala e o Carnaval de Culturas, ambos na Alemanha. Mas a Europa é pródiga em eventos internacionais que se dedicam à música folclórica e étnica (aqui o calendário com todos os eventos do continente e aqui, todos os que acontecem apenas na Grã-Bretanha).

Este resgate, se me permitem a digressão, tem uma finalidade muito particular, qual seja, a de barrar o processo de nivelamento de todas as culturas em função de uma única expressão artística, que eu chamaria "hegemônica". É sabido que as rádios ao redor do mundo (especialmente as FMs) contribuem sobremaneira para esta homogeneização, na medida em que entregam a todos os povos pacotes pré-fabricados que acabam obscurecendo a visão das pessoas para outras possibilidades. São muito comuns as caras de espanto (pra dizer o mínimo) quando pessoas entram em contato com músicas diferentes daquilo que estão acostumadas a ouvir. Não percebem, por comodismo ou manipulação, a importância que têm essas outras músicas na construção do modo como nos compreendemos enquanto grupo, povo ou mesm como indivíduos.

Penso que trazer relatos sobre as descobertas que fiz seja algo relevante. E, mesmo que ignorada essa digressão anterior, estar em contato com diferenças é sempre muito interessante.

Está, portanto, inaugurada esta seção no blog. Espero que acrescente de alguma forma e fomente descobertas em outros cantos.

Este arquivo

esta página é um arquivo de posts recentes da categoria música.

geografia é a categoria anterior.

minúsculas é a próxima categoria.

para posts novos: a página principal - ou os arquivos para outros posts.

v e r b e a t  b l o g s

comentários

  • Pablo, em habilitado: Sim, conheço esse ...
  • Fabiola, em dealin' with the devil: Menino, quanto tem...
  • Paty, em dealin' with the devil: Uau! Ficou poético...
  • fernanda cristina, em dealin' with the devil: e teve a pachorra ...
  • B.Cardoso, em dealin' with the devil: Falou e disse, cam...
  • JR, em dealin' with the devil: bebum. ...
  • thiago, em espírito olímpico?: bacana, Michel... ...
  • Michel Simões, em espírito olímpico?: Completinho? O pos...
  • thiago, em espírito olímpico?: haha, fique à vont...
  • thiago, em ilusão: seja bem-vindo, Le...
  • leituras

    www.flickr.com
    This is a Flickr badge showing public photos and videos from Thiago Gonçalves. Make your own badge here.

    twitter-ndo



    Decálogo dos Direitos dos Blogueiros

    Verbeat

    Locations of visitors to this page

    Creative Commons License
    esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

    Add to Technorati Favorites