Sigo numa busca interminável por aquilo que costumam chamar "world music". Me interesso absurdamente pela música feita nos lugares mais improváveis - e esse será um assunto recorrente por aqui.
Tenho algumas predileções, mas não costumo refutar nada antes de ouvir com calma. É um trabalho sem fim (e fico contente que seja assim), porque quanto mais fundo se vai, mais o abismo se alarga. As novidades nunca cessam. Há sempre uma sonoridade diferente em algum canto do mundo por ser descoberta; e quando relaxo e penso "até que enfim encontrei esse disco", no segundo seguinte descubro algo absolutamente inesperado e a empresa recomeça.
Já foi mais difícil encontrar essas músicas. Quando comecei a me interessar por elas, as redes de compartilhamento não davam conta de suprir minha curiosidade. Encontrar esses discos à venda aqui no Brasil é ainda mais difícil - especialmente porque este comércio depende de importações e, garanto, "world music" não é a etiqueta mais procurada nas lojas do ramo (mesmo nas boas lojas).
O termo vem entre aspas porque, como toda classificação, merece ressalvas. No caso, este nome vem colado a virtualmente toda música que é produzida fora dos Estados Unidos e do Reino Unido. De um modo geral, sambas brasileiros, tangos argentinos, reggaes jamaicanos, mantras tibetanos, fados portugueses, batuque africano, chançons francesas, enfim, todos esses gêneros musicais são identificados genericamente como "world music" pelos críticos americanos e britânicos. Esta classificação, como convém a todas elas, homogeneíza num grupo amorfo experiências musicais que não falam inglês e que são, obviamente, distintas entre si. Mesmo dentro do Reino Unido, as músicas cantadas nas línguas celtas são "world music".
Está em curso no mundo um movimento de resgate de ritmos tradicionais. São inúmeras as publicações (virtuais ou não) que se dedicam a mostrar ao resto do mundo exemplos do que está sendo feito. Cito aqui as que mais visito: fRoots, Mondomix, At-Tambur, National Geographic World Music... Há, também, muitos festivais que reúnem artistas das mais diferentes origens. Citaria como principais, incorrendo em erros certamente: o Festival de Sines, em Portugal, o Festival de Kaustinen, na Finlândia, o Festival Masala e o Carnaval de Culturas, ambos na Alemanha. Mas a Europa é pródiga em eventos internacionais que se dedicam à música folclórica e étnica (aqui o calendário com todos os eventos do continente e aqui, todos os que acontecem apenas na Grã-Bretanha).
Este resgate, se me permitem a digressão, tem uma finalidade muito particular, qual seja, a de barrar o processo de nivelamento de todas as culturas em função de uma única expressão artística, que eu chamaria "hegemônica". É sabido que as rádios ao redor do mundo (especialmente as FMs) contribuem sobremaneira para esta homogeneização, na medida em que entregam a todos os povos pacotes pré-fabricados que acabam obscurecendo a visão das pessoas para outras possibilidades. São muito comuns as caras de espanto (pra dizer o mínimo) quando pessoas entram em contato com músicas diferentes daquilo que estão acostumadas a ouvir. Não percebem, por comodismo ou manipulação, a importância que têm essas outras músicas na construção do modo como nos compreendemos enquanto grupo, povo ou mesm como indivíduos.
Penso que trazer relatos sobre as descobertas que fiz seja algo relevante. E, mesmo que ignorada essa digressão anterior, estar em contato com diferenças é sempre muito interessante.
Está, portanto, inaugurada esta seção no blog. Espero que acrescente de alguma forma e fomente descobertas em outros cantos.