Durante esta semana alunos de um segundo colegial foram convidados por seu professor de História a participar de um debate em que deveriam se opor dois grupos: um deles contrário e outro a favor das cotas raciais para o ingresso em universidades públicas brasileiras.
Me assustou o fato de que vários desses alunos vieram a mim pedir ajuda com argumentos para a discussão proposta. Porque esses adolescentes não sabiam o que fazer com a obrigação de defender algo que lhes parece errado. Me perguntaram quais seriam as posições daqueles que concordam com essa política.
O público do debate, adolescentes das classes A e B, é bastante característico nas suas ideias, nos seus preconceitos -- são fileiras cerradas na crença de que a política de cotas lhes agride, lhes é prejudicial, lhes põem em situação desfavorável na competição a que são instados durante os anos de exame vestibular.
Muitos deles, certamente, repetem irrefletidamente argumentos absorvidos. Ao léu. Inadvertidamente.
Porque é preciso um malabarismo intelectual (que caracteriza certo grau de desonestidade histórica) para não perceber como o mínimo necessário as chamadas políticas afirmativas. O objetivo de tais políticas públicas não é outro senão uma tentativa ainda muito rasa de reparação de injustiças históricas, imensas, profundas, radicalmente incrustadas em nossa sociedade. Ainda hoje, cento e vinte e um anos depois da assinatura da Lei Áurea. Sobretudo hoje quando as diferenças abismais existentes entre as pessoas, baseadas na cor de suas peles, em suas origens, em suas crenças, tornam-se mais uma vez "naturais", "comuns". Se é que um dia deixam de sê-lo.
O comércio secular de escravos negros africanos é o maior responsável pela total desorganização de, pelo menos, dois continentes inteiros -- a América e a África --, em função de interesses externos a estes lugares. (Isso para que a discussão permaneça "em nossos quintais"; ignorando todos os outros eventos de seres humanos cativos, que abundam na História.) O continente africano talvez precise de muitos séculos ainda para encontrar um ponto de equilíbrio entre a herança maldita deixada por esta prática suportada pelos "países desenvolvidos" e as necessidades prementes do presente que se impõem. Enquanto não consegue, consome-me em conflitos sociais, étnicos, movidos por interesses de ordens econômica e/ou política que, séculos depois, ainda lhe são estrangeiros.
Na América, especialmente a parcela que por séculos dedica-se a servir como "armazém" de gentes e de mercadorias aos "países desenvolvidos" (está para nascer termos mais esvaziado de sentido), a constituição de uma elite local subjugada aos "primos nobres" fez-se à custa de muitas vidas negras (e índias, por igual), trazidas d'além-mar como escravas para fazer girar a roda-viva, faminta, da expansão do capital mercantil europeu. Roda-viva que nos obriga a uma posição subalterna no jogo político internacional; não muito diferente daquela que sempre ocupamos durante nossa curta história e comandada, a punhos de ferro, por representantes modernos daquela elite consumidora de vidas.
Esses jovens são meu quinhão dessa elite. Um quinhão cercado por muros altíssimos construídos por preconceitos e entendimentos equivocados mais antigos do que qualquer memória que tragam consigo. Entendimentos que mudaram de forma, mas não de essência. Privilégios garantidos em uma sociedade antiga, "segura", do ponto de vista de uns poucos, que se mantêm, se reproduzem e cada vez mais se enterram fundo no agir das pessoas.
É fato conhecido que o sistema de cotas adotado pelo governo brasileiro deve muito com relação à nossa realidade histórica -- posto que é uma cópia mal-ajambrada do sistema norte-americano. A situação brasileira cria casos como o meu, por exemplo: neto de italianos, espanhóis, índios e negros. Com a pele mais alva do que muito europeu "puro-sangue", mas "com um pé na senzala" -- como costuma pontuar minha mãe, fazendo graça. A determinação de cotas estritamente raciais em nosso caso fica comprometida pela presunção da auto-afirmação, segundo a qual não é possível a ninguém negar minha negritude, se eu achar por bem declará-la. Num país cuja população é composta principalmente por mestiços e mulatos, a separação óbvia em raças (como acontece nos Estados Unidos ou nos países europeus) fica dificultada.
No entanto, é preciso um grau significativo de desonestidade para negar a necessidade de uma política afirmativa dessa magnitude. Ainda que não nos moldes perfeitos, a criação e aplicação dessas políticas é um passo firme e adiante na tentativa de quebra do ciclo vicioso que insiste em manter a sociedade brasileira refém de uma estrutura muitíssimo semelhante àquela imediatamente posterior à assinatura da Lei pela Princesa Isabel, em 1888. Dar a chance de mudança de condições de vida à parcela mais desfavorecida e injustiçada do país é o objetivo e, felizmente, o resultado dessa política de cotas. Sua imperfeição momentânea é passível de ajustes, queremos crer; sua existência e manutenção são, sem sombra de dúvida, uma vitória que precisa ser defendida e esclarecida à população.
Especialmente à população que constitui essa elite; tão temente por seus privilégios seculares. Elite que deveria enxergar a adoção da política de cotas como algo que extrapola os limites de seu tempo de vida, algo que extrapola mesmo suas preocupações um tanto confusas e momentâneas sobre a quantidade de vagas em cursos universitários. Na faculdade onde estudei, de um total de trezentos alunos apenas dois eram negros. No universo de alunos da Universidade Estadual de Campinas, com algo em torno de quinze mil alunos, entre graduação e pós-graduação, chutar que apenas mil sejam negros é uma estimativa muito generosa. Algo está obviamente errado.
E é um erro maior do que Unicamp, do que meus alunos deste segundo colegial, do que este texto, do que discussões acaloradas. É um erro e um problema que estão na própria base de construção deste país (e de outros, muitos outros). É preciso que se faça algo. O fato de a iniciativa partir do âmbito governamental não é nada mais do que o mínimo a se esperar de governos decentes, honestos e sensíveis à História do país que comandam. Não se trata da única ferramenta de reparação das injustiças históricas, mas é, seguramente, a mais efetiva e mais frutífera.

