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Durante esta semana alunos de um segundo colegial foram convidados por seu professor de História a participar de um debate em que deveriam se opor dois grupos: um deles contrário e outro a favor das cotas raciais para o ingresso em universidades públicas brasileiras.

Me assustou o fato de que vários desses alunos vieram a mim pedir ajuda com argumentos para a discussão proposta. Porque esses adolescentes não sabiam o que fazer com a obrigação de defender algo que lhes parece errado. Me perguntaram quais seriam as posições daqueles que concordam com essa política.

O público do debate, adolescentes das classes A e B, é bastante característico nas suas ideias, nos seus preconceitos -- são fileiras cerradas na crença de que a política de cotas lhes agride, lhes é prejudicial, lhes põem em situação desfavorável na competição a que são instados durante os anos de exame vestibular.

Muitos deles, certamente, repetem irrefletidamente argumentos absorvidos. Ao léu. Inadvertidamente.

Porque é preciso um malabarismo intelectual (que caracteriza certo grau de desonestidade histórica) para não perceber como o mínimo necessário as chamadas políticas afirmativas. O objetivo de tais políticas públicas não é outro senão uma tentativa ainda muito rasa de reparação de injustiças históricas, imensas, profundas, radicalmente incrustadas em nossa sociedade. Ainda hoje, cento e vinte e um anos depois da assinatura da Lei Áurea. Sobretudo hoje quando as diferenças abismais existentes entre as pessoas, baseadas na cor de suas peles, em suas origens, em suas crenças, tornam-se mais uma vez "naturais", "comuns". Se é que um dia deixam de sê-lo.

O comércio secular de escravos negros africanos é o maior responsável pela total desorganização de, pelo menos, dois continentes inteiros -- a América e a África --, em função de interesses externos a estes lugares. (Isso para que a discussão permaneça "em nossos quintais"; ignorando todos os outros eventos de seres humanos cativos, que abundam na História.) O continente africano talvez precise de muitos séculos ainda para encontrar um ponto de equilíbrio entre a herança maldita deixada por esta prática suportada pelos "países desenvolvidos" e as necessidades prementes do presente que se impõem. Enquanto não consegue, consome-me em conflitos sociais, étnicos, movidos por interesses de ordens econômica e/ou política que, séculos depois, ainda lhe são estrangeiros.

Na América, especialmente a parcela que por séculos dedica-se a servir como "armazém" de gentes e de mercadorias aos "países desenvolvidos" (está para nascer termos mais esvaziado de sentido), a constituição de uma elite local subjugada aos "primos nobres" fez-se à custa de muitas vidas negras (e índias, por igual), trazidas d'além-mar como escravas para fazer girar a roda-viva, faminta, da expansão do capital mercantil europeu. Roda-viva que nos obriga a uma posição subalterna no jogo político internacional; não muito diferente daquela que sempre ocupamos durante nossa curta história e comandada, a punhos de ferro, por representantes modernos daquela elite consumidora de vidas.

Esses jovens são meu quinhão dessa elite. Um quinhão cercado por muros altíssimos construídos por preconceitos e entendimentos equivocados mais antigos do que qualquer memória que tragam consigo. Entendimentos que mudaram de forma, mas não de essência. Privilégios garantidos em uma sociedade antiga, "segura", do ponto de vista de uns poucos, que se mantêm, se reproduzem e cada vez mais se enterram fundo no agir das pessoas.

É fato conhecido que o sistema de cotas adotado pelo governo brasileiro deve muito com relação à nossa realidade histórica -- posto que é uma cópia mal-ajambrada do sistema norte-americano. A situação brasileira cria casos como o meu, por exemplo: neto de italianos, espanhóis, índios e negros. Com a pele mais alva do que muito europeu "puro-sangue", mas "com um pé na senzala" -- como costuma pontuar minha mãe, fazendo graça. A determinação de cotas estritamente raciais em nosso caso fica comprometida pela presunção da auto-afirmação, segundo a qual não é possível a ninguém negar minha negritude, se eu achar por bem declará-la. Num país cuja população é composta principalmente por mestiços e mulatos, a separação óbvia em raças (como acontece nos Estados Unidos ou nos países europeus) fica dificultada.

No entanto, é preciso um grau significativo de desonestidade para negar a necessidade de uma política afirmativa dessa magnitude. Ainda que não nos moldes perfeitos, a criação e aplicação dessas políticas é um passo firme e adiante na tentativa de quebra do ciclo vicioso que insiste em manter a sociedade brasileira refém de uma estrutura muitíssimo semelhante àquela imediatamente posterior à assinatura da Lei pela Princesa Isabel, em 1888. Dar a chance de mudança de condições de vida à parcela mais desfavorecida e injustiçada do país é o objetivo e, felizmente, o resultado dessa política de cotas. Sua imperfeição momentânea é passível de ajustes, queremos crer; sua existência e manutenção são, sem sombra de dúvida, uma vitória que precisa ser defendida e esclarecida à população.

Especialmente à população que constitui essa elite; tão temente por seus privilégios seculares. Elite que deveria enxergar a adoção da política de cotas como algo que extrapola os limites de seu tempo de vida, algo que extrapola mesmo suas preocupações um tanto confusas e momentâneas sobre a quantidade de vagas em cursos universitários. Na faculdade onde estudei, de um total de trezentos alunos apenas dois eram negros. No universo de alunos da Universidade Estadual de Campinas, com algo em torno de quinze mil alunos, entre graduação e pós-graduação, chutar que apenas mil sejam negros é uma estimativa muito generosa. Algo está obviamente errado.

E é um erro maior do que Unicamp, do que meus alunos deste segundo colegial, do que este texto, do que discussões acaloradas. É um erro e um problema que estão na própria base de construção deste país (e de outros, muitos outros). É preciso que se faça algo. O fato de a iniciativa partir do âmbito governamental não é nada mais do que o mínimo a se esperar de governos decentes, honestos e sensíveis à História do país que comandam. Não se trata da única ferramenta de reparação das injustiças históricas, mas é, seguramente, a mais efetiva e mais frutífera.

Este post está errado. Confundi as definições. Posseiros são os "grileiros" de terras devolutas - que falsificam os documentos que comprovam a posse dessas terras.

Falha indesculpável que Brigatti, muito camarada, me fez ver. Amanhã mesmo arrumo a confusão de conceitos com os alunos.

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Na apostila.

b. Relações de trabalho [no campo]
· Ocupante ou Posseiro: ocupante de uma propriedade sobre a qual não tem nenhum direito, explorando terras alheias sem nada pagar (em dinheiro, em produto ou em trabalho) pelo seu usufruto.

Na lousa.

6. "Posseiro": produtor rural que usa terras sem possuí-las formalmente. Cultivam terras improdutivas; que de outra forma, têm dono, mas não têm quem lhes dê uma função social real.

Porque sim.

Não é uma questão de "deixar" -- é o ato, certa segurança nisso, alguma convicção, respeito a um espírito e uma utopia libertária, de "não proibir".

E nesse ponto, cada qual decide o que melhor pode fazer, não me cabe definir em que corda as pessoas vão se enforcar.

Mas tudo isso MORRE quando os outros agentes são alunos.

Linhas tortas escritas a lápis no caderno que sempre me acompanha em algum momento no fim do semestre passado. A caixa alta, inclusive, apesar de minha letra ser sempre maiúscula.

Mostram um pouco o espírito que me regia naqueles dias. Estava cansado e desiludido com minha profissão e, sinceramente, com meu papel. Desanimado por não ser compreendido. Não sei proibir. Não gosto da expectativa que têm os pais, as coordenações, os próprios alunos, por vezes, de que eu seja um esteio autoritário em pé feito dois de paus na frente da sala.

Hoje entrei nas salas novamente, quatorze dias depois do prazo estipulado antes da histeria coletiva em torno da "pandemia" de gripe suína (ou gripe A, ou H1N1, como queiram). Encontrei nos corredores da escola frascos com álcool em gel. Não encontrei muitos alunos, proibidos pelos pais temerosos de reencontrar seus colegas e amigos. Não vi ninguém de máscara -- e suspirei aliviado. A paranoia estava ali, estampada nas piadas, nas brincadeiras, nos olhares furtivos a cada espirro ou tosse mais sentida. O medo irracional encontra terreno fértil entre as crianças. Muito imaginativas. Especialmente se é estimulado.

Na primeira aula, às sete da manhã, numa sala de oitavo ano (uma sétima série, minha sala predileta entre todas), achei por bem conversar com eles sobre tudo isso. Foi o que fiz. Mas em nenhum momento endossando o medo. Dei a eles fatos, números e expus a eles uma visão diferente do que todos ouviram nas férias. Enquanto falava, e enchia a lousa com rabiscos e desenhos de vírus, fui interrompido pelo esposo da diretora, um médico renomado da cidade; que, obviamente, veio aos pequenos apresentar as preocupações da escola com relação às "medidas de segurança" sugeridas pelos órgãos de saúde pública. Via nos olhos das crianças a dúvida: ouvimos o médico e suas recomendações de não nos abraçarmos, de não dividirmos canudos e lanches, ou ficamos com o Thiagão, sem medo, entendendo de onde vem essa histeria toda?

Ficaram comigo. Mas muito educados, ouviram o médico e responderam em coro a suas perguntas retóricas.

Porque, veja, naquela escola (mas em todas elas), se não sou eu (e tantos outros) a dar a cara a tapa, dizendo às crianças o que de fato acontece, ninguém mais fará. E é preciso fazer. É preciso dizer às pessoas algo além do que elas ouvem ingenuamente todos os dias quando ligam a TV ou entram na internet. É um tipo qualquer de subversividade. Remar contra e tentar fazer daqueles meninos e meninas duzentos zumbis a menos.

É óbvio que falho miseravelmente quando entro em outra sala e me desanimo de expôr a eles a mesma trova de antes. Ignoro suas preocupações e suas dúvidas, pra logo em seguida abrir a (maldita) apostila e destilar o conteúdo que preciso destilar. Professores são humanos. E mesmo onde não havia atmosfera receptiva, insisti em falar; e fui ouvido por poucos. Enquanto falava, era interrompido por alunos que não se interessavam pelo que ouviam, que pediam pra ir ao banheiro ou, nada discretamente, tiravam seus celulares das mochilas e trocavam mensagens diversas. Nesse momento, num retorno, escrevi:

Espero sensibilizar robôs insensíveis. Da mesma forma que reagem passivamente à morte pela fome de semelhantes, ignoram os motivos do que lhes atinge por todos os lados.

Passivamente. Bovinamente.

E esta talvez seja a lembrança que agora, nesta madrugada, me tira o sono. Foi nesta mesma sala em que escrevi o primeiro texto. Me sinto responsável pelo desrespeito deles, pelo desinteresse deles, pela falta de consciência daqueles adolescentes que se impressionam com um novo aparelho eletrônico qualquer, mas pouco sentem o mundo que lhes devora, parte por parte, dia a dia. É estúpido e inútil, mas estou aqui, me consumindo.

Em duas horas, estarei novamente em pé, diante dele, e não quero dar chance ao sentimento que criou o primeiro texto. Preciso firmemente renovar em mim o que me move: certo sentimento libertário. É não-proibir, coisa alguma, a ninguém. E inclusive, tentar.

Essa profissão é um inferno. Uma eterna escolha entre o que é fácil e o que é (parece, ao menos) certo.

não gosto muito que peguem em mim. não precisa tocar, especialmente se não somos próximos; acho desnecessário. não é "nojo" ou qualquer coisa estúpida desse tipo -- só me sinto pouco confortável.

mas aí tem essa menina, na quinta série, que não entende as indiretas. todo dia quando chego na sala, lá está ela: os braços esticados, as mãos postas na altura dos meus ombros. a cada sílaba, um toque. me irrita. é provável que meus olhares pra ela não sejam os mais cândidos.

ela segue não entendendo. perdi a paciência um dia e desviei o corpo. ela fez cara de susto, mas continuou no próximo movimento a pôr as mãos em mim. por conta disso, foi nascendo um tipo qualquer de indisposição minha com relação à menina.

mas.

na última quarta-feira, entrega de notas. corrigia as provas com os olhares atentos sobre mim e chamando cada um pra conversar. chegou a vez da menina, que roía (todas) as unhas. ficou abaixo da média -- um ponto abaixo da média.

ela voltou pra carteira e quando sentou tinha uma cachoeira lhe escapando pelos olhos e soluçava de balançar o corpo. chamei de volta e perguntei. "meu pai e minha mãe vão me bater porque eu vou ficar com nota vermelha no boletim" -- entre muitas fungadas.

ela não estava mentindo. a gente sabe quando estão mentindo. "a gente", digo, professores; mas todo mundo sabe.

num movimento contínuo, tirei a prova da mão dela, mudei um errado pra um certo. a nota subiu um ponto. de vermelha foi pra azul. (é vazio.)

porque ninguém apanha por minha causa. ainda mais por causa de nota que eu tenha dado. (que não significa porra alguma.)

ganhei um sorriso. e um beijo na bochecha de uma amiga dela.

Ao mesmo tempo, Kaique lê admirado o mapa da divisão estadual dos Estados Unidos. E me afirma, categoricamente, que Saint Louis é feia.

"Como você sabe?", foi a minha resposta. É possível que tenha sido essa a minha resposta? Que espécie de professor deve responder assim para um aluno que me afirma, categoricamente, que Saint Louis é feia?

Torna-se absolutamente irrelevante o que eu possa achar sobre Saint Louis. Ou como o aluno construiu a sua verdade.

Saint Louis deve ser mesmo muito feia.

O direito de transmissão das emissoras de televisão são concessões públicas. Existem (não há muito o que ser feito a respeito), mas têm uma obrigação para com o público que as assiste. É preciso que cumpram quatro princípios, dispostos no artigo 221 da Constituição Federal - que trata da "função social da programação televisiva para crianças e adolescentes". São eles:

  • I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
  • II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
  • III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
  • IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Este direito, imagino, é necessário em função da influência majoritária desse meio de informação no cotidiano das pessoas. Foi preciso pensar numa forma de exigir das emissoras uma contra-partida em troca da permissão para que transmitissem, em sinal aberto, sua programação para todas as casas brasileiras.

No entanto, pensando na qualidade do que nos é oferecido por todos os canais (e aqui excetuo apenas aqueles que são geridos pelo poder público, i.e., TV Cultura, TVE, TV Brasil, etc.), cabe perguntar até que ponto os termos da lei são efetivamente cumpridos.

"Preferência a finalidades educativas", "respeito aos valores éticos e sociais", "promoção da cultura nacional" - são ideais nobilíssimos. Mas quanto disso, na prática, é produzido pelas televisões? Qual é a porcentagem da programação de uma RedeTV!, de uma Rede Globo, de uma Rede Bandeirantes, de um SBT que se dedica com esmero e respeito à "promoção da cultura nacional"? Eu não saberia citar programas nessas emissoras que são transmitidos em horário nobre e que cumprem com as determinações da Constituição.

Me incomodo demais ao assistir televisão, mesmo que por alguns minutos. É insuportável estar diante de um veículo de comunicação que faz tudo, menos comunicar. A informação, quando tem qualidade e serventia comprovada, fica relegada a programas com os horários mais inadequados (alta madrugada ou, por exemplo, a manhã dos domingos).

O programa "Pânico na TV" é a minha medida. Trata-se de uma atração de duas horas de duração, no horário mais nobre do domingo (com início às 21h00, de acordo com o site da RedeTV!). A maioria das pessoas neste país, salvo raras e louváveis exceções, está sentada na sala de casa, com a televisão ligada nessa hora. Adultos, velhos, gente que nem presta muita atenção ao que está sendo veiculado, mas, principalmente, crianças. Às nove horas da noite, de um domingo, as crianças estão acordadas - e assistindo televisão.

Este programa, que passa duas horas no ar, não mostra nada, rigorosamente nada, que minimamente instrua uma criança. Nada que lhe acrescente qualquer conteúdo de qualidade. É um par de horas jogadas no lixo - que vão para o limbo. De tudo o que elas assistem, o que sobra são comportamentos inadequados (e digo isso porque sou professor e as manhãs de segunda-feira são o retrato da influência deletéria desse programa). Brincadeiras (de gosto muito duvidoso) que, imagino, são compreendidas como ironias (de péssima cepa) pelos adultos - mas que, entre as crianças, viram uma cansativa repetição de abusos do bom-convívio. Em outras palavras, é impossível estar mais de que alguns minutos na mesma sala que uma criança que resolva levar a sério as piadas toscas que este programa leva ao ar todo domingo.

Televisões são concessões públicas, com uma contra-partida que é a de auxiliar a divulgação cultural, o debate de ideias; a informação (ainda que não em estado puro) chega até as pessoas através da televisão. Do modo como a televisão brasileira (e imagino que este seja um "fenômeno" mundial) está estruturada, o que ela faz, mais do que nunca, é emburrecer a população. Entregando-lhe certo tipo de conhecimento que não agrega em nenhum sentido. Poderia dizer até, transformando a população numa massa inerte, que apenas recebe o que lhe é entregue, sem qualquer tipo de convite à reflexão.

Não é isso o que está escrito na Lei. Não se cumpre o que está disposto na Constituição Federal e, assim mesmo, as concessões são renovadas sem qualquer rubor.

Eu lido com crianças. Crianças que serão, num futuro próximo, o próprio País. O tipo de país que temos plantado, certamente não renderá bons frutos.

Se falo, e falo, é um grito numa ilha.

É algo trágico. Que vai muito além, na sua influência, do que nos permitimos pensar. Mas algo deveria ser feito.

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Em tempo, passei cinco minutos na frente da televisão, nesta noite de domingo. Daí a motivação para o post. Além, é claro, das salas de aula que frequento durante toda a semana.

Eu preciso que esses meninos pensem - que sejam livres para pensar e que se dediquem a essa liberdade.

Não é possível que permaneçam presos a um cabedal de ideias que lhes é pretérito sem que tenham a vontade (e o hábito, adquirido) de contestar tudo o que na maior parte do tempo parece normal.

Naturalizados, certos comportamentos sociais tornam-se uma espécie perniciosa de dogma que mais emburrece do que esclarece. E a minha função dentro de uma sala de aula é trazer à luz essas normalidades e destrinchá-las.

Mas fica óbvio que cada vez mais a resistência com relação a esse exercício de liberdade vai aumentando. Talvez minha perspectiva na comparação com a geração que hoje senta nas salas de aula seja outra e derivada de um outro tipo de construção do conhecimento e do próprio entendimento do mundo - que me permite a dúvida. Talvez seja somente um problema do "público" a quem me dirijo: excessivamente "infértil", um solo rude, já viciado.

E são crianças. São adolescentes. A força para as mudanças está neles e no entanto, o que eu vejo são reproduções irrefletidas de comportamentos que não lhes pertencem. A influência da família e de certo tipo de propaganda subtrai dessas pessoas a característica inata do "cogito", da dúvida. Eles simplesmente não duvidam, não querem duvidar e em torno de si, um escudo criado por esses elementos (família + propaganda bem sucedida) transforma qualquer tentativa de discussão num ambiente estéril.

Digo isso porque durante esses dias, achei de discutir (fiquei, pelo menos, na tentativa) alguns assuntos que tornaram à moda ultimamente. Entre eles, a "questão ambiental", suscitada pela campanha da ONG SOS Mata Atlântica, "Xixi no banho".

Como toda discussão ambiental, essa campanha propõe uma solução local, pontual, para um problema que é global. Ignorando a pertinência de uma reflexão em maior escala, incita as pessoas a uma atitude perante o problema que, além de ser algo absolutamente nojento e desnecessário, não dá conta da complexidade do processo. É, no entanto, um conforto para a tal República Morumbi-Leblon-Belvedere¹ a chance de "fazer alguma coisa" sem descalçar as pantufas, no conforto de casa. A consciência pesada fica aplacada em função de uma ação individual, inócua, mas convincente (especialmente quando em conversas com quem "não faz nada"). E esse convencimento é fruto da propaganda massiva, que usa os meios mais eficientes para tanto (no caso, um site "bonitinho", com uma trilha sonora "engraçadinha" e muitas frases de efeito) que acertam em cheio a alma do cidadão de classe média que aceita urinar no chuveiro, mas não dispensa o carro, não diminui o ritmo de consumo, não se organiza em prol de atitudes "macroescalares".

Toda discussão ambiental que se baseia na famigerada "responsabilidade individual" é um erro de perspectiva monumental. Ajuda a diminuir o sentimento de culpa, cativa pela ideia de pertencimento a um grupo "ambientalmente ativo e responsável", mas na prática não significa uma mudança estrutural; mudança que precisa acontecer se a intenção (legítima, diga-se) é a melhoria da qualidade de vida e do trato com o planeta e com nossos "vizinhos".

Educação ambiental é um faca de dois gumes. Ela deve existir, sem dúvida nenhuma, mas precisa se dedicar a instruir as pessoas ao bom convívio dentro de uma comunidade. Ambiente, este conceito, não significa apenas a floresta amazônica ou o rio da cidade; significa, também, a co-existência saudável entre todos os indivíduos da sociedade. E nesse sentido, é absolutamente necessário que se entenda a importância de não jogar lixo na rua, nos rios, de usar menos o transporte individual, de exigir esta ou aquela atitude dos governantes. Como um todo. O conjunto da sociedade trabalhando em favor de uma melhoria significativa na vida de seus indivíduos. Educação ambiental não pode mascarar essas questões seriíssimas focando seus trabalhos no "adestramento" das crianças e jovens dentro da falsa percepção de que deixar de varrer o quintal com a mangueira, desligar a torneira pra escovar os dentes, fazer xixi no banheiro são soluções efetivas contra a degradação do planeta. Porque não são. São paliativos de consciência.

O planeta está sendo degradado por conta do estilo de vida que todos levamos. Se ações individuais resolvessem o problema, ótimo. Mas apenas uma mudança em grande escala (principalmente com a alteração nos níveis de consumo) pode fazer alguma diferença².

Não adianta nada eu fechar minha torneira enquanto escovo os dentes, se um produtor de soja nos latifúndios do Mato Grosso continuar usando (e poluindo) bilhões de litros de água potável todo mês para irrigar sua plantação que vai alimentar o gado europeu.

O problema é sistêmico. Não adiantam soluções lineares.

O que não significa que a atitude deva ser a de simplesmente cruzar os braços ou dar de ombros. De modo algum. Algo precisa ser feito e é bom que hajam pessoas dedicadas a isso. Apenas que suas ações precisam ser globais, não pontuais.

Os alunos, ao ouvirem isso, recusaram a reflexão. Muitas pessoas recusam. Sentem-se até ofendidas, porque, afinal de contas, "estou fazendo a minha parte". É ótimo que exista a noção do problema, mas não é bom que as tentativas de solução sejam direcionadas equivocadamente.

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¹ Expressão cunhada (até onde sei) pelo Idelber Avelar, que vem muito a calhar.
² É emblemático nesse ponto o curta/documentário produzido por Annie Leonard, chamado "The Story of Stuff". Em menos de 30 minutos, está descrito todo o processo produtivo que destrói o planeta, baseado no consumo de massa. Há uma versão em português (dublado e legendado) neste endereço.

porque hoje, numa sala de sétima série eu dei uma daquelas aulas que fazem a coisa toda valer a pena. o tema foi "transposição do rio São Francisco" e, sem me alongar no assunto, provei pra eles o tamanho dessa mentira e como existem soluções muito mais eficazes, efetivas (que levam água a quem tem sede), baratas e honestas.

no fim da aula, a classe toda: "thiago, vamos montar uma ong e ir até lá furar poços!", "porque você não se candidata e vai lá furar poços, construir cisternas, usar direito o dinheiro público!" e eu quase chorei na frente deles; mas chorei, depois, sentado numa praça em Amparo, por entender que cumpri meu papel ali.

mostrei a eles que por mais distante que essa questão possa parecer, ela está ligada diretamente a tudo o que está errado no nosso país e que isso tem, sim, influências diretas, mais do que diretas, cruciais, nas nossas vidas, aqui em São Paulo, no Rio Grande, em Minas ou em qualquer lugar. porque é isso o que falta, "só" isso: que nos percebamos, todos, num mesmo barco, à deriva, controlado por pessoas desonestas.

fiz o que o Ministro do STF, Joaquim Barbosa, fez, ao peitar Gilmar Mendes, o presidente daquele tribunal, um canalha, um câncer, um exemplo daquilo que nos leva cada vez mais ao buraco. fiz, com muito menos coragem, com muito menos poder, mas fiz. é simbólico tal e qual. e aqueles meninos todos vão pra casa e comentam com os pais, e os pais, nos trabalhos, comentam com colegas e a informação correta se espalha e pode render frutos.

e é isso. é pra isso que venho. é esse o meu papel.

não quero pôr ninguém dentro de faculdade, não pode ser esse o meu objetivo. não é. felizmente, contra todo um sistema montado pra isso, azeitado pra criar imensas massas de manobras, não é. me esfolo em aulas que quase sempre dão errado. mas hoje, naquele sétimo ano, funcionou como deve.

e eu chorei.

amanhã, daqui a pouco, quando acordar, pra ir falar a classes sobre agronegócio no Brasil, sobre urbanização, sobre shopping centers vs. praças, vai ser essa de novo a minha tentativa: trazer esses meninos, todos eles, embotados por uma realidade absurdamente alienante, para situações e fatos que alteram seu cotidiano, o cotidiano de 190 milhões de pessoas e devem, sim, ser pensados e combatidos e aplaudidos e repudiados e imitados e expurgados.

uma aula como a de hoje, reafirma a minha vocação. uma aula como a de hoje, confirma que tenho feito meu papel - pequeno, formiga, mas absolutamente necessário.

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perdoem os erros de digitação e o mau português. aos borbotões. saiu-me aos borbotões.

A semana está acabando e foi assim.

Começou com o show do Radiohead e tanto choro e muita dor. Mas foi um grande show, sem a menor sombra de dúvida e não tenho mais tantos elogios a fazer - boa parte deles está aqui, o que torna qualquer nova tentativa em esforço desnecessário.

Na segunda-feira eu não trabalhei, e muita coisa aconteceu num dia só. Acordei em São Paulo e dormi em Pedreira, com muitas escalas no meio do caminho. Quando finalmente parei, a cabeça girava com tanta informação. Por exemplo, saber com alguma certeza de que até a linha amarela do metrô ficar pronta, a Chácara do Jóquei não é um lugar decente pra ir assistir a shows. É muito longe. Mesmo se você está acostumado a andar por São Paulo atravessando o mundo pra chegar aos lugares. Não vá até lá com o seu cavalo - o coitado não merece essa jornada. E a grama nem é tão verde.

Depois, trabalho. E eu sou professor - o que implica em acordar muito cedo e ir ter com muitas, mas muitas crianças. Mais do que isso, porque não é simplesmente estar lá com elas, batendo papo e contando que a linha amarela do metrô paulistano não está pronta, que o José Serra desalojou um monte de gente por causa de uma obra mal feita, que ninguém saiu culpado dessa história e que, horror!, querem que ele seja presidente do país. Não é isso. Eu tenho que ficar lá na frente deles ensinando coisas. Claro que falar sobre o metrô, falar mal do José Serra, do PSDB, das políticas públicas podres desse partido podre, do show do Radiohead, é ensinar - mas me obrigam a falar, por exemplo, sobre conceitos demográficos (população relativa, população absoluta, crescimento vegetativo e coisas tão chatas quanto). "É o que está na apostila e precisa ser dado". É o "conteúdo". E mães mandam bilhetes nas agendas dos filhos se o "conteúdo" não é cumprido à risca.

"Conteúdo" o meu ovo. Mas os caras me pagam pra isso e eu, uma puta da educação, não tenho muita opção. Ensino sobre conceitos demográficos. São uns quatrocentos alunos - e eles precisam saber do metrô, das coisas erradas do governo José Serra; não sobre taxa de natalidade, assim, crua. Se eu pudesse juntar as duas coisas e falar sobre metrô+natalidade, porra, seria fenomenal - porque aí eu teria chance de falar do show -, mas não me deixam, porque existem as apostilas e elas têm prazos e datas e. Então fica um pouco complicado.

Mas nem sempre é isso. Porque a gente precisa do caos. "A gente não quer eles quietos" aprendendo sobre as feições geomorfológicas da América. A gente quer eles andando pra lá e pra cá dentro da sala, experimentando, atrapalhando a professora na sala ao lado (que devia estar ensinando alguma coisa sobre números primos) e aprendendo - apreendendo, assim, a vida. Porque senão é sentar e esperar bater o sinal. Uma hora ele bate, mas tem uma diferença crucial entre esperar ele bater, sentado, resignado, e espera ele bater cansado, suando, depois de ter feito o moleque notar que, sim, existe uma relação direta entre a música que ele gosta de ouvir e a geografia, essa que eu tento mostrar pra ele - longe, muito longe das porcentagens e dos índices. Eu odeio índices. Se você, durante uma conversa, fala em números, eu paro de te ouvir. Sem o menor constrangimento. Acendo um cigarro e vejo a Billie Holiday sorrindo e cantando. É muito mais divertido e significa muito mais pra mim.

Devia significar mais pro mundo. Viveríamos melhor. Sem índices e com as divas do Jazz flutuando entre nossas cabeças. Cantando e sorrindo.

Eu fiz eles me contarem, em poucas linhas ("Atividade chupeta", era o nome do... exercício?), o que eles sentiam quando escutavam suas músicas preferidas. Que escrevessem livremente e me contassem o melhor possível como era escutar aquela música. Sem me dizer o nome da música, porque essas crianças andam com um gosto terrível pra músicas.

Eles escreveram e os resultados, se não excepcionais, me deram a medida das coisas que eu esperava: apesar de ouvirem músicas ruins, existe a possibilidade de um dia eles pararem por sete minutos e contemplarem a beleza que é Ella Fitzgerald sendo genial - e seus óculos fundo-de-garrafa. Está ali, escondido, mas está ali essa possibilidade. Tanto que quando a música que tocou fui eu quem escolhi, as reações foram maiores e melhores (em quantidade e em qualidade). Escrevam mais e, que lindo!, se surpreenderam ao descobrir que existe algo além e que, sim, eles podem gostar das músicas que o professor maluco escuta. Vi olhos lacrimejando (além dos meus) enquanto assistíamos ao Justin Vernon cantando à capela. Isso não tem preço - e nenhuma apostila inspira professores a agir assim.

Odeio apostilas.

Então, cansa. É massacrante, porque só dá certo em 20% das vezes. Você vai criar e na sua cabeça vai ser mágico, perfeito. Na hora, quando os outros precisam comprar sua ideia, nada vai acontecer como programado. O caos é meu amigo, companheiro de aulas, mas ele cansa, às vezes. E apesar disso, não me vejo fazendo outra coisa.

Agora fico aqui, ouvindo o disco novo do Mastodon. Amanhã não tenho hora pra acordar e essa sensação é das melhores que posso ter. Não ter horário. Porque o difícil não é acordar cedo, é ir dormir sabendo disso.

Mas o disco. Fui apresentado ao Mastodon ouvindo "Leviathan". E me surpreendi ouvindo uma banda de metal progressivo e curtindo muito. Ouvi acompanhado pelos melhores comparsas e, dizem, a chama do metal acendeu em meu peito tão dedicado ao folk e ao rock alternativo. Esse disco novo, "Crack the Skye", é diferente daquele. Me parece que tem mais guitarras e mais "gritos". A faixa seis, que dá nome ao álbum, é uma mistura estranha de coisas que costumo ouvir com esses "gritos" (que vêm entre aspas porque provavelmente têm um nome correto, que eu desconheço). Sou um "ser não-metal", mas não nego a qualidade dessa banda e que ouvindo essas faixas ganho uma força qualquer, um ânimo diferente. É bom. Diferente do primeiro que ouvi, mas bom, sem dúvida.

[São os amigos que têm dado o tom aos últimos tempos. Um tanto de referências novas e descobertas maior, muito maior do que eu.]

Foi uma grande semana.

Férias acabando e mais um ano pela frente. Desde que comecei a trabalhar em escolas -- ou, "com Educação" -- meus anos nunca mais foram os mesmos, não há rotina. Eu não tenho a menor ideia do que está pra acontecer nem sei exatamente o que esperar. Além disso, foram quase dois meses de férias (e ainda terei mais um, em julho) -- quais outros profissionais podem se dar a esse luxo?

Nem tudo são flores, é claro. Trabalhar com Educação exige paixão, exige que a pessoa esteja preparada pra aceitar que numa sala com trinta alunos, dois (quando muito) realmente escolherão ouvir e tentar absorver o que ela diz. Não é fácil, especialmente se as expectativas são altas. E minhas expectativas são sempre altas. Com todos.

Imagino que professores das disciplinas Exatas não sintam com tanta ênfase esse peso. Se a molecada sabe calcular a área do triângulo ou decorou a fórmula do Movimento Uniformemente Variado, ótimo; se não, vão se dar mal na prova -- suas notas refletirão isso e serão argumentos sérios e firmes pra críticas ao sistema e ao pouco interesse dos pequenos. É um chute, me parece que é essa a relação a que esse time de professores se apega. Agora, no caso dos professores das disciplinas Humanas, em alguns casos, o buraco é mais embaixo.

Durante os anos de faculdade (mas não determinado por eles, certamente) o entendimento de qual venha a ser o papel de um professor (ou como querem ultimamente, de um "educador") vai muito além do que simplesmente ser ali na frente um megafone que repete conteúdos de livros, apostilas, o que seja. O contato que temos, nós outros, professores de disciplinas Humanas, com as mais diversas formas de compreensão da sociedade, constantemente postos em contato com seus problemas e dilemas, exige uma postura diante de tudo. Essa postura diante das questões humanas (seja qual for) reflete diretamente em nosso comportamento diante das classes e na relação com o trabalho feito ali.

São generalizações.

Quando, então, me posto diante da meninada e começo o ano letivo, trago na mochila, além de caderno e livros, um sem-fim de opções. Opções ideológicas, sobretudo. Porque lecionar é um trabalho de paixão -- movido por convicções ideológicas. Se não é, penso, não presta.

É perigoso dizer isso. Perigoso porque pode dar a impressão de que o que um professor "engajado" faz nas salas de aula é criar um pequeno mas fervoroso exército, moldado segundo suas convicções, disposto a qualquer coisa. Mas não é verdade. A motivação ideológica vai além das escolhas de como tratar determinados assuntos, vai além do pendor político de cada um; não é disso que se trata. A motivação é, acima de tudo, o que te empurra pra fora da cama todas as manhãs, porque de trinta, salvam-se dois. Não é a criação de exércitos. É a necessidade de insistir.

O modelo educacional está falido. É um fato que muitos insistem em não enxergar -- especialmente os mais velhos na profissão. É difícil mudar antigos hábitos. Mas não funciona mais. Funcionava pouco na minha época de aluno e, hoje em dia, muito menos. Os alunos não tem qualquer interesse pela escola. E não porque sejam delinquentes em potencial (como já ouvi aqui e ali), mas porque essa instituição -- criada no já distante século 19 -- não responde mais às necessidades dessa geração. Dessa, de duas antes dessa, e de todas as que virão depois. É preciso uma revisão completa, irrestrita, gigantesca -- e virtualmente impossível -- para que as coisas comecem a entrar em algum eixo de novo.

No final do ano passado conheci essa mãe. O filho dela, meu aluno, pula de escola em escola desde que começou a frequentá-las. Nunca se adaptou a nenhuma delas e sempre foi visto (muito em função de como as coisas estão estruturadas) como um "aluno problema". Se um dia te disserem que seu filho é um "aluno problema", esteja preparado pra mesma situação. "Alunos problemas" não são "problemas" pra Escola -- são encaminhados, tratados como doentes, visitam psicólogos, terapeutas, analistas...

Esse menino chegou em 2007 como um cachorro assustado pelos espancamentos frequentes: assustado, calado, macambuzio, pelos cantos. Dormiu em todas as minhas aulas. No fim do ano, muito provavelmente por pedido da mãe, foi aprovado e chegou ao primeiro colegial diferente. Começou a namorar uma amiga da classe e, por assim dizer, desabrochou. Continuou tirando notas baixas e dormindo em algumas aulas, mas falava, interagia, enfim, começou a se sentir acolhido.

Acontece que o método de avaliação que adotamos exige notas, que somam pontos, que numa relação das mais subjetivas que já experimentei na vida, me dizem "objetivamente" quanto daquilo tudo que eu tentei ensinar ele aprendeu. Pelas notas, ele não tinha aprendido muita coisa. Então a mãe veio conversar com os professores. E disse o que eu já sabia: não importa quantas vezes o filho dela seja reprovado, ele jamais vai "acordar", "se interessar", "se conscientizar" (ou qualquer eufemismo desses que "educadores" adoram).

O filho dela e tantos outros filhos pelo mundo não se enquadram no esquema atual dessa instituição que tantos defendem com unhas e dentes. As notas dele (ruins ou boas) não significam absolutamente nada -- em nenhuma análise, menos na que levamos em conta, na que me diz "objetivamente" que um 4,8 de conhecimento é pior do que um 5,0. É estúpido e cruel. É injusto e mentiroso. É uma imensa prisão, essa instituição Escola onde os pais descarregam seus filhos todas as manhãs.

Nem tudo são flores. Acordar de manhã e lembrar de tudo isso obriga a um empurrão, uma alavanca. E essa alavanca é acreditar que estar ali em pé, diante do filho dessa mãe, muito mais do que garantir a ele um histórico escolar ilibado dentro dessa merda de meritocracia em que vivemos, vai lhe dar ferramentas, vai lhe explodir a cabeça, vai lhe apresentar um mundo para além dessa lama toda. Se não for isso, não dá -- é simplesmente impossível.

Eu sou um professor. Hoje dá pra dizer isso sem muito medo. Me tornei um professor e sou uma pessoa apaixonada por isso. Se antes havia dúvidas, hoje elas cresceram e são outra coisa -- ainda interrogações e medos, mas outras coisas.

Na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, tudo recomeça. Sem a menor suspeita do que está por vir, me declaro feliz com tudo. Feliz mas consciente de tudo quanto está orbitando minhas aulas. Não são só aulas, "shows geográficos"; ao menos não quero que sejam (apenas) isso. É uma consciência pesada, que tem a reboque responsabilidades tão grandes e tão destruidoras que não tenho a menor ideia de como ainda estou inteiro. Inteiro? Não, em partes, desconexas. Uma confusão de mim.

Sobre o meu aluno: ele foi reprovado. Estará novamente no primeiro colegial, sem namorada ou amigos. Foi reprovado pelos votos dos professores de Exatas, que não acreditaram no que a mãe disse (ou simplesmente não ouviram).

subverter as ordens nas cabeças dos pequenos (que nem tão pequenos), acaba chegando num ponto em que se polarizam opiniões: uns te odeiam, outros te adoram. pais, normalmente, te odeiam. mas se não é pelo que se acredita, vai ser pelo quê? então, segue a banda e de vez em quando, numa noite dessas, uma classe te escolhe como patrono e te pede um discurso, palavras bonitas e lágrimas. a idéia é subverter.

e nesse caso, nesse caso especificamente, muita emoção e a dor de pensar em como será o ano que vem - sem eles.

daí:

Boa noite senhoras, senhores. Cara Diretora, colegas Professores, Coordenadora, Funcionários, Pais e meus queridos Alunos.

É estranho estar aqui em frente a todos vocês vestido assim, entre tanta pompa e tanta circunstância, porque o que mais se viu nesses dois anos de convivência foi a amizade sincera, construída a base de muita liberdade. Estar dentro desta roupa, em meio a tantas valsas e despedidas, de forma alguma nos representa.

Foi com surpresa, com agradável surpresa, que recebi o convite para ser patrono desta turma. Num tempo tão curto, incapaz de permitir que conhecesse verdadeiramente a todos, não podia esperar tamanha honraria - à qual, agora, perante todos vocês, agradeço profunda e alegremente.

É preciso que se diga, nesses meses, certamente aprendi muito mais com vocês sobre a arte de ensinar (com muitos erros e alguns acertos pelo meio do caminho) do que vocês sobre a nobre e antiga Ciência Geográfica. E não por incompetência de ambos os lados, mas simplesmente porque há vida e há chance pra tudo - dependendo apenas das opções entre caminhos que fazemos.

A vida vai seguir, nem todos escolherão os mesmos caminhos, mas há aquilo que permanece. Dessas permanências, as que mais importam são as memórias dos dias bons, das histórias contadas; as dúvidas (que apenas crescem, nunca diminuem), as boas intenções, a boa sorte - e especialmente, o desejo de que, acima de tudo, permaneça a amizade. Mais ainda, a imagem de um amigo; que não poderia estar mais feliz por ser esta noite uma realidade tão especial.

Não temam os erros. Estejam sempre dispostos para o mundo. Procurem se lembrar, de quando em vez, de que no mais das vezes vale muito mais a persistência contra a insistência de as coisas serem difíceis.

Os melhores e mais verdadeiros votos, meus amigos, de uma vida plena de risos e graça, com ainda mais dúvidas, menos dores, muitos amores e uma ou outra mesa de bar, onde as histórias vão se cruzar e se completar - criando esses lindos e preciosos momentos que constroem a nossa história juntos.

Muito obrigado, a todos vocês.

Estar numa sala de aula congrega uma quantidade imensa de responsabilidades e compromissos. Saber que o trabalho realizado pode (porque, infelizmente, é apenas uma possibilidade) vir a render frutos que nem de longe eram esperados, nos dá - a nós, professores - uma tarefa real e sensível, sem medida de importância e relevância, dentro do quadro da sociedade. Ainda mais hoje, e sobretudo hoje, quando as interferências/influências tornaram-se tão absurdamente poderosas a ponto de o simples fato de saber reconhecê-las aparentemente configurar-se num ato propriamente revolucionário*.

Ao notar essa fundamental e crítica função social dos professores, estando dentro do sistema, surgem novas e ainda mais cruciais escolhas a serem feitas; que podem ser resumidas a: 1) tratar de ignorar a tal função (note-se que por opção consciente) ou 2) deixar (conscientemente, por certo) a cabeça explodir - e, portanto, estar engajado, não-livre (mas liberto), fluindo e flanando sobre o mar de silêncios, anuências e acomodações.

(Eu ainda não sei aonde vai me levar essa cabeça que jaz em pedaços.)

Optar pelo mais difícil significa entender (e defender esse entendimento) que o trabalho a ser desenvolvido vai muito, mas muito além daquilo que, por força de lei, me vejo obrigado a ensinar aos pequenos. Passa por admitir-se um lavrador de sonhos, de chances - em última instância, para desespero de alguns, de mentes. Um serviço verdadeiramente abnegado, feito de lágrimas e ideologias; numa ordem incerta, que porá à prova as últimas em função das primeiras.

Repetir incessantemente ladainhas sem fim, cantilenas, esperando pelo melhor, ou seja, que dentro do imenso grupo, sempre tão heterogêneo (e por isso, justamente, microcosmo do todo), surjam algumas reações, ou poeticamente, algumas pérolas a partir dos grãos semeados. Poucas, mas multiplicadoras em seu élan intrinsecamente revolucionário, como se disse.

É esse o "trabalho de formiga" a que se referem os professores cujas cabeças já explodiram. Trata-se do fruto dessa insistência, parte imperceptível do todo, mas infinito nas suas miúdas significâncias - certamente relevantes - para a formação da totalidade.

Ignorar não facilita, como é óbvio pensar. Isso porque apenas transforma esse compromisso numa assombração recorrente. Não há inocentes no processo; nem inocência tampouco.

As dúvidas são sempre e tantas. Saber decidir solitariamente se a insistência merece ainda e mais uma vez ganhar corpo constitui-se, a meu ver, neste ponto da minha experiência, como o maior desafio dentro dessa profissão. Uma profissão que não é como as outras, posto que trabalhar com Educação obriga ao contato diário com o Humano. Supõe a (des)construção do cabedal prático, teórico, moral - cultural, em última instância -, que será em grande parte definidor, durante os anos passados nas salas de aula, do tipo (e dizendo assim fica mesmo muito ruim) de pessoa que conduziremos para dentro da sociedade.

A partir do momento em que essa função social fundamental do professor é ignorada ou, como vem acontecendo repetidas vezes, subvertida em função de certas determinações, digamos, de cunho mercadológico, o conjunto da sociedade passa a perder significativamente. Nas manobras comandadas por grupos perseguindo seus interesses (nem sempre em sintonia com as necessidades da maioria), o entendimento dessa antiga e nobre atividade vai se perdendo em meio a "refuncionalizações"; que por sua vez, criam "tipos" de pessoas (e de sociedades, conseqüentemente) bastante alquebradas, bastante mudas, bastante úteis ao ciclo a que pertencem - sem saber que pertencem, sem querer saber, sem nada.

Somos, enfim, um exército de enganados.
__________
* Revolução essa que diz respeito a mudanças individuais de entendimento e compreensão do Mundo e daquilo que o compõe, sem necessariamente significar a imposição, com base na força, dessas novas concepções aos outros ou, ainda, a todo conjunto da sociedade.

"Aula de guerrilha" é um conceito estranho (que nem sei até que ponto já foi usado), ainda mais vivendo tempos em que as ações de guerrilha têm sido utilizadas de maneira tão irresponsável apenas como mais uma forma de impulso ao consumo desvairado. No entanto, tenho a impressão de que foi o que se passou nesta manhã numa classe.

As crianças, de um modo geral, andam anestesiadas por tamanha onda de informação e virtualidade. Os problemas que minimamente afligiam gerações anteriores hoje sequer chegam a ser mencionados em conversas de intervalo. Não se interessam por abrir seus horizontes ou tocar com alguma profundidade em certos temas que repelem entre zombarias e troças.

Em nenhum outro estrato social a indiferença em relação ao outro (algo que me perturba muito) é tão facilmente perceptível. O individualismo sugerido e, certamente, suscitado pelo mundo (pós-)moderno acerta em cheio as cabecinhas na maior parte do tempo acríticas - que, sem maiores dificuldade, interiorizam certos comportamentos que no mais das vezes nem sabem direito de onde vêm e/ou quais são seus "motores" ou intencionalidades finais.

A aula, nascida numa noite insone de devaneios e visões confusas, compôs-se de três partes:


  • Introdução silenciosa [ou Assistindo ao curta-metragem "Ilha das Flores" (1989)];

  • Instrução à desarmonia [ou Incitação ao barulho e à confusão];

  • Percepção dos contrastes [ou Indefinição de moldes].

A primeira parte consistiu, basicamente, na permanência quieta em sala para assistir aos pouco mais de treze minutos do curta-metragem mais famoso deste lado do Atlântico. Quem, desde 1989, deixou de ver "Ilha das Flores" na escola, afirmo, não pertence a esse mundo. Sou capaz de recitar falas do filme, tantas são as vezes que já o vi - como aluno ou como professor. Exclamações foram permitidas e, inclusive, encorajadas pelo não-sossego do professor, que se remexia todo na cadeira nas passagens mais trágicas. Houve alguma comoção - que permaneceu em stand-by até voltarmos à sala, aptos a dar prosseguimento.

É preciso que se diga. O desenrolar do bimestre trouxe para a ordem do dia o tema da fome. Durante algumas aulas, em que foram expostos conceitos básicos sobre agricultura (como meio de sedentarização lá nas Antigas, comercial/moderna, como fruto de exploração da terra...) houve um pulo rápido e necessário para a ligação da produção de comida (em quantidade imensa, até exagerada) com a produção da fome.

A desarmonia instaurou-se quando, num círculo, pedi que todos respondessem ao mesmo tempo as perguntas que comecei a fazer. Pedi para que não gritassem, que apenas falassem, como se conversassem comigo normalmente. O resultado: um amontoado de vozes que respondiam sem entender o que diziam a perguntas aleatórias que eu fazia, enquanto girava pelo círculo, sem interromper o movimento nem as questões (com as exceções dos momentos de riso incontroláveis). Nesse emaranhado de respostas e perguntas, criei para eles a imagem de uma mesa farta, à espera, repleta de tudo quanto eles próprios mais gostassem. Num último momento, disse a eles que, por mais que tentassem, a comida nunca podia ser alcançada. Eles tinham fome, a comida estava lá, servida e convidativa, mas inatingível. Vi rostos se contorcerem tentando pegar a batata frita.

Depois disso, levei a imaginação dos pequenos para um lixão. Pedi que descrevessem o espaço, as sensações - ainda no burburinho tremendo. Fizeram. E enquanto faziam e começavam a sentir nojo do que eles mesmos criavam, fiz entrar na cena um caminhão de lixo (cor de rosa, segundo uma das meninas) que, sem aviso, despejou ao lado deles grande quantidade de restos de comida. Aquela comida (agora lixo) podia ser alcançada e a fome era ainda maior do que antes. Eles não tinham opção. Vi com surpresa meninas e meninos tamparem os rostos desfeitos em caretas de asco com as mãos. Eles estavam fuçando o lixo em busca de comida - exatamente como os "seres humanos da Ilha das Flores", sem os porcos.

Quando abriram os olhos e se assustaram com a luz, pedi que descrevessem com cinco (ou mais) palavras o que sentiram, que escrevessem essas palavras num pedaço de papel e que dobrassem, sem que ninguém visse. Me entregaram esses papéis e eu redistribuí os "segredos" entre todos - misturando. A terceira parte, que finalizou o exercício, consistiu na leitura para todos do que estava escrito em cada um dos papéis e nas caras de espanto que se seguiam aos "Olha! Eu também coloquei isso!" ou "Como assim?".

Tentando trazê-los pra perto de um problema que aflige milhões de pessoas, me surpreendi com o resultado. Crianças que têm do bom e do melhor, desesperadas pensando no que poderiam fazer pra, no mínimo, ajudar o pessoal que sobrevive recolhendo restos de comida em lixões, enquanto (e eles sabiam disso) tanta comida é produzida no mundo - sem nunca chegar às bocas que têm fome.

Me coube o trabalho de rescaldo. Tratando de acalmá-los e pôr seus pezinhos de volta no chão. Não sem deixar com eles alguma bagagem. Intenção conquistada através de um método, talvez, pouco ortodoxo mas eficiente na sua capacidade ímpar de pô-los em contato com um lado que não costumam experimentar do mundo. Me atrevo a chamar de "aula de guerrilha" essa iniciativa, porque foi um choque, mas um "choque produtivo", frutífero - para eles e, obviamente, para mim.

_______

Se o player do Porta Curtas não funcionar, sempre podemos recorrer ao YouTube, onde o curta foi dividido em duas partes: primeira e segunda.

Os verbetes do filme na Wikipédia e na Desciclopédia (e seu humor questionável), com contabilização de exibições em alguns colégios.

Quando sentei em frente àquela mãe num dia desses e ouvi tudo o que fui obrigado a ouvir, mais um pouco do que me encanta na profissão que tenho exercido morreu. Digo isto com um pesar sincero -- gosto do que faço e costumo colocar certa dose de paixão no que faço, mas como resistir apaixonado quando te cortam as pernas tão insensivelmente?

Tenho a impressão de que cumpro uma função importante quando me ponho em pé, em frente a uma classe, falando e falando; se empolgação iludida de profissional ainda novato, se conseqüência de uma personalidade inquieta e, necessariamente, inquietadora, não sei bem. O fato é que não procuro "apenas educar" meus alunos -- algo que me parece absolutamente castrador e impositivo; mais sobre isso, depois --, na medida em que tento, antes, fazê-los querer aprender, incitá-los. Obviamente nem sempre funciona; aliás, dá errado na imensa maioria das vezes. O que não chega a ser sempre um problema, porque às vezes é apenas o caso de notar que nem sempre se quer saber o que o professor tenta explicar.

Agora, quando percebo que a outra ponta da corda, os pais, já não compreendem a escola como um lugar dedicado ao aprendizado mas como um pequeno e colorido quartel, e mais do que isso, quando já não confiam no trabalho de professores que inadvertidamente acreditam noutra forma de encarar o papel dessa instituição, algo definitivamente morre, sem volta.

A senhora eram todos esses pais. Ela é mãe de uma pequena do 6º ano (antiga 5ª série), a filha dela não tem mais do que 11 anos. Em meio a barbaridades de toda sorte, que variaram de dúvidas em relação à minha capacidade profissional a insinuações sobre a qualidade de minha formação, ela disparou a seguinte pérola (que reproduzo com certa "liberdade poética" em função de uma memória pouco pródiga): "Minha filha precisa estar preparada para as dificuldades dos concursos públicos [no que se referia, imaginei, a coisas como vestibulares] e não acho que isso esteja sendo feito da melhor maneira aqui". Na melhor das hipóteses, considerando que, de fato, a pequena queira prestar vestibulares quando for a hora, essa hora só virá daqui a longínquos sete anos! A menina é apenas isso, uma menina -- mas sua mãe, uma professora, diga-se de passagem, ignora este fato e quer vê-la "sendo educada" para os tais concursos. A isso, com singeleza d'alma, dou o nome de adestramento -- e se essa senhora espera que eu adestre adequadamente sua filha, é melhor não fazê-lo de pé, pois vai se cansar.

Não adestro crianças, não "educo" crianças. Procuro instigá-las a aprender -- que imagino ser minha maior função enquanto seu professor. Para o resto -- o quanto couber nesta palavra --, há vida.

Mi compás político, compay -- a bússola que me leva longe, adiante, alhures; infinito mar azul (ou vermelho, não sei bem) que se abre diante de mis ojos incrédulos diante da realidade que se me apresenta.

É ao lado de Nelson Rolihlahla Mandela, de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a madre Teresa de Calcutá e de Llhamo Döndrub, o 14º Dalai Lama, que me encontro com um sorriso enigmático. Simpáticas companhias em um lugar bastante agradável dentro do compasso desta dança que felizmente não danço sozinho.

Descreditando a autoridade a mim concedida como professor (confuso: "confusor") de algumas crianças, não fazendo uso do poder que esperam que eu exerça, sigo acreditando -- e não vejo muitos motivos pra mudanças -- que enquanto uns quantos forem donos de tanto e tantos outros (tão despossuídos) estiverem subjugados a sistemas de poder que se apropriam de suas liberdades, condenando-os às misérias humanas mais vis e à barbárie em que a vida humana se transforma nesses casos extremos, há que existir quem se posicione contrário a isso. Gritando, fazendo barulho e dando trabalho.

E portanto, eis-me aqui, senhores.

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