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Quando sentei em frente àquela mãe num dia desses e ouvi tudo o que fui obrigado a ouvir, mais um pouco do que me encanta na profissão que tenho exercido morreu. Digo isto com um pesar sincero -- gosto do que faço e costumo colocar certa dose de paixão no que faço, mas como resistir apaixonado quando te cortam as pernas tão insensivelmente?

Tenho a impressão de que cumpro uma função importante quando me ponho em pé, em frente a uma classe, falando e falando; se empolgação iludida de profissional ainda novato, se conseqüência de uma personalidade inquieta e, necessariamente, inquietadora, não sei bem. O fato é que não procuro "apenas educar" meus alunos -- algo que me parece absolutamente castrador e impositivo; mais sobre isso, depois --, na medida em que tento, antes, fazê-los querer aprender, incitá-los. Obviamente nem sempre funciona; aliás, dá errado na imensa maioria das vezes. O que não chega a ser sempre um problema, porque às vezes é apenas o caso de notar que nem sempre se quer saber o que o professor tenta explicar.

Agora, quando percebo que a outra ponta da corda, os pais, já não compreendem a escola como um lugar dedicado ao aprendizado mas como um pequeno e colorido quartel, e mais do que isso, quando já não confiam no trabalho de professores que inadvertidamente acreditam noutra forma de encarar o papel dessa instituição, algo definitivamente morre, sem volta.

A senhora eram todos esses pais. Ela é mãe de uma pequena do 6º ano (antiga 5ª série), a filha dela não tem mais do que 11 anos. Em meio a barbaridades de toda sorte, que variaram de dúvidas em relação à minha capacidade profissional a insinuações sobre a qualidade de minha formação, ela disparou a seguinte pérola (que reproduzo com certa "liberdade poética" em função de uma memória pouco pródiga): "Minha filha precisa estar preparada para as dificuldades dos concursos públicos [no que se referia, imaginei, a coisas como vestibulares] e não acho que isso esteja sendo feito da melhor maneira aqui". Na melhor das hipóteses, considerando que, de fato, a pequena queira prestar vestibulares quando for a hora, essa hora só virá daqui a longínquos sete anos! A menina é apenas isso, uma menina -- mas sua mãe, uma professora, diga-se de passagem, ignora este fato e quer vê-la "sendo educada" para os tais concursos. A isso, com singeleza d'alma, dou o nome de adestramento -- e se essa senhora espera que eu adestre adequadamente sua filha, é melhor não fazê-lo de pé, pois vai se cansar.

Não adestro crianças, não "educo" crianças. Procuro instigá-las a aprender -- que imagino ser minha maior função enquanto seu professor. Para o resto -- o quanto couber nesta palavra --, há vida.

Mi compás político, compay -- a bússola que me leva longe, adiante, alhures; infinito mar azul (ou vermelho, não sei bem) que se abre diante de mis ojos incrédulos diante da realidade que se me apresenta.

É ao lado de Nelson Rolihlahla Mandela, de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a madre Teresa de Calcutá e de Llhamo Döndrub, o 14º Dalai Lama, que me encontro com um sorriso enigmático. Simpáticas companhias em um lugar bastante agradável dentro do compasso desta dança que felizmente não danço sozinho.

Descreditando a autoridade a mim concedida como professor (confuso: "confusor") de algumas crianças, não fazendo uso do poder que esperam que eu exerça, sigo acreditando -- e não vejo muitos motivos pra mudanças -- que enquanto uns quantos forem donos de tanto e tantos outros (tão despossuídos) estiverem subjugados a sistemas de poder que se apropriam de suas liberdades, condenando-os às misérias humanas mais vis e à barbárie em que a vida humana se transforma nesses casos extremos, há que existir quem se posicione contrário a isso. Gritando, fazendo barulho e dando trabalho.

E portanto, eis-me aqui, senhores.

Nem sempre as aulas são bem sucedidas. Seja por um motivo externo à escola ou particular, seja por interferência dos alunos que naquela manhã pouco estão interessados na geografia da África, em algumas manhãs, as aulas acontecem de jeito torto.

Às vezes saem mais ou menos como planejamos. E que alegria falar e ser ouvido, explicar e ser entendido, pretender confundir e de fato conseguir...

Ao mesmo tempo, existem assuntos mais interessantes que outros para os alunos -- e mesmo para mim. Algumas aulas me empolgam mais do que outras. A de hoje, no segundo colegial, me empolga muito: uma apresentação sintética do continente africano; desfiando um rosário de atos desumanos, o desrespeito pela própria essência da vida, os direitos mais básicos ignorados em nome do lucro e da cobiça de estrangeiros, etc., etc., e outros dramas. Vou jogando a eles nomes de países que jamais sonharam existir, vou citando ditadores e monstros, vou criando a imagem de um continente largado à própria sorte, chego a ficar sem fôlego e a cada momento, inadvertidamente, costumo ouvir suspiros de comoção e inconformismo.

Costuma ser uma aula sufocante para todos. Hoje, no entanto, não foi. Hoje mais parecia que eu ditava uma receita de bolo qualquer. Hoje não consegui ser o professor que me propus a ser quando tudo isso começou.

E ficou pior.

Numa alternativa desesperada, apelei para um argumento que sempre rende boas discussões: a globalização. Apresentei um único dado, que costuma ser um bom início: o fosso abismal da distribuição de renda nesse país tropical (que diz: 1% da população detém 15% da renda nacional, enquanto 60% das pessoas divide apenas 13%; sendo provavelmente inexato, mas indiscutivelmente impactante). Apenas para descobrir, minutos depois, que todo meu esforço (e cheguei a transpirar) resultaria em risinhos e chacotas sobre meu "radicalismo".

"Professor, você é muito comunista" -- disse um deles, com ênfase irônica no negrito.

Não tenho a menor intenção de fazer panfletagem nas minhas aulas. Longe de mim. Gosto da discussão e do debate de idéias saudáveis. E, de fato, sou "muito comunista". Mas nesse caso, hoje, saí daquela sala me sentindo um pouco incompetente. Não por não ter "convencido" os alunos, mas por não ter conseguido transmitir minha mensagem de um jeito adequado. A África continua morrendo à míngua e meus alunos daquela sala pouco se importam.

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