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Já faz umas duas semanas que uma notícia não me deixa em paz, algo que eu não teria visto se a Bia não tivesse chamado minha atenção. Uma notícia que, a bem da verdade, deve ter passado batida para a maioria das pessoas, mas que há dias volta e me assombra.

Lia-se na notícia que o zoológico da Faixa de Gaza viu-se obrigado a pintar um casal de burros como se eles fossem zebras porque as crianças de Gaza queriam ver uma zebra de perto -- e porque seria caro demais trazer um animal verdadeiro pelos túneis que ligam esta região ao Egito.

Um dos meus grandes professores, um dos meus verdadeiros mestres, me ensinou uma vez que compreender o mundo passa por procurar entender a situação do outro, tentar mimetizar o que acontece ali -- e buscar uma tal "experiência compreendedora" que permita uma tentativa de analisar holisticamente o mundo (mesmo que dentro de um recorte analítico, porque não se pode fugir disso), foi o que ele disse.

Olhando o burro pintado de zebra, tentando enxergar o mundo que está ali, disponível ao dono do zoológico, por exemplo, que não vê outra alternativa a não ser pintar o burro, na intenção de ver o sorriso da criança, vislumbro o que de pior conseguimos criar, depois de tantos milênios de erros, como seres humanos. É essa síntese macabra, suja, esfregada na nossa cara, do quão injusta e perversa a humanidade pode ser.

Se eu dissesse apenas "há crianças na Faixa de Gaza", minha vida inteira não daria conta de lidar com todas as pertubações que isso me causa. Há crianças em Gaza e elas viram da janela de suas casas homens sendo mortos, homens matando, tanques e tiros e bombas e fogo e dor. São crianças perdidas, no meio do fogo cruzado de uma luta que as desumaniza antes que elas tenham condições de se enxergarem como humanas -- herdeiras de toda tradição humanística que nos diferencia de uma besta qualquer. Essas crianças na Faixa de Gaza simplesmente não têm chance alguma contra o mundo, nascem perdedoras.

E, no entanto, veem uma figura no livro escolar de uma zebra e olham para os pais pedindo para ver uma, andando e pastando, como as veem em suas imaginações. Porque, apesar de tudo, e isso é maior do que qualquer dor no mundo, apesar de tudo, mesmo em Gaza, essas crianças ainda são crianças. Essas crianças olham para a figura de uma zebra correndo pela savana africana e, no mesmo instante, ali num qualquer bairro de uma Gaza destroçada, uma zebra, a savana, três ou quatro pássaros, um elefante, outras pessoas, com suas roupas coloridas e suas peles escuras explodem no ar, aparecem e correm, gritam, fazem barulho, batem os dentes, mexem os rabos, estão por ali, cheiram, é possível tocá-las.

Mas,

Antes que a próxima bomba exploda. Antes que o Estado de Israel resolva destruir sua escola. Antes que sua mãe morra por usar um véu. Antes que seu pai, confundido, se exploda numa praça de uma cidade israelense qualquer.

Ainda assim, destituída de toda humanidade, esvaziada de suas possibilidades de criança, oca, ainda assim, o que vemos ali é uma criança.

Em Gaza não tem uma zebra. Em Gaza nunca existirá uma zebra. Perdeu-se toda e qualquer esperança de uma zebra, em Gaza. Então o dono do zoológico e os pais das crianças, numa noite quente qualquer, se encontram e decidem que o melhor para as crianças de Gaza é pintar um casal de burros; simular um casal de zebra, que a partir desse momento, deixa de ser um burro transformado em zebra e passa a simbolizar a agressão que vêm sofrendo todas as vidas que circulam, sombras, por Gaza.

Pequenas sombras -- desejando uma zebra, em todo o seu direito de criança que precisa ver a zebra do desenho abanando o rabo em frente a si. Apegadas a um fiapo de fantasia que ainda lhes é permitido, essas crianças são o símbolo do descaso do mundo diante de algo tão horrendo e sem tamanho em sua crueldade.

São crianças de Gaza que veem um casal de burros pintados de zebra e fantasiam. Elas sorriem. Veja a cara de absoluto assombro do menino de vermelho. A sombra-menino vendo a sombra-zebra fantasiando um mundo de savanas e cheiros, que ele nunca vai ver -- mas que foi, eu tenho a mais absoluta e perturbadora certeza de que foi, a melhor história que ele já contou para o avô.

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Tentar entender tudo isso e tentar passar essa minha perplexidade só aconteceu porque grandes amigos ouviram minhas pertubações e me ajudaram. Fica o agradecimento.

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Una llegenda africana intenta donar una explicació folklòrica a les ratlles d'aquest èquid:

Fa molt de temps, les zebres no tenien les ratlles blanques i negre que tenen avui en dia, sinó que eren totes blanques. Quan veien una zebra, alguns deien que es tractava d'un creuament entre un cavall de color blanc i un ase, o potser una mula. En aquell temps, la gent encara intentava domesticar els cavalls salvatges per poder cavalcar-los i lluir-los davant de tothom, car eren molt bells.

Les zebres rebien un altre nom perquè eren diferents dels cavalls i les mules. A diferència dels seus cosins, era molt difícil capturar i ensinistrar una zebra. Un dia, una zebra que encara era molt jove es perdé i, caminant, caminant, acabà dins un poblat. La gent començà a mirar-la i a xiuxiuejar, pensant en maneres de poder capturar-la.

La zebra s'espantà, i es donà compte del que li volien fer. Començà a córrer mentre la gent entrava a casa a buscar una xarxa per caçar-la. Corregué i corregué, fins que finalment li vingué una idea. Veié un pot de pintura negre i, sense pensar-s'ho dues vegades, el féu tombar; la pintura s'escampà per terra en moltes ratlles ondulades. La zebra s'hi rebolcà fins que les ratlles li quedaren pintades al cos, pensant que així quedaria lletja i la gent ja no la voldria capturar.

La gent del poble la trobà, i veié el que havia fet. Com que pensaven que ja no era bonica amb totes aquelles ratlles negres per sobre el pelatge, la deixaren anar. Aviat, totes les zebres començaren a fer el mateix perquè la gent no les molestés. Amb el pas del temps, ja no els calgué fer-ho, car començaren a néixer d'aquesta manera. Però ara les ratlles les feien belles.

Durante esta semana alunos de um segundo colegial foram convidados por seu professor de História a participar de um debate em que deveriam se opor dois grupos: um deles contrário e outro a favor das cotas raciais para o ingresso em universidades públicas brasileiras.

Me assustou o fato de que vários desses alunos vieram a mim pedir ajuda com argumentos para a discussão proposta. Porque esses adolescentes não sabiam o que fazer com a obrigação de defender algo que lhes parece errado. Me perguntaram quais seriam as posições daqueles que concordam com essa política.

O público do debate, adolescentes das classes A e B, é bastante característico nas suas ideias, nos seus preconceitos -- são fileiras cerradas na crença de que a política de cotas lhes agride, lhes é prejudicial, lhes põem em situação desfavorável na competição a que são instados durante os anos de exame vestibular.

Muitos deles, certamente, repetem irrefletidamente argumentos absorvidos. Ao léu. Inadvertidamente.

Porque é preciso um malabarismo intelectual (que caracteriza certo grau de desonestidade histórica) para não perceber como o mínimo necessário as chamadas políticas afirmativas. O objetivo de tais políticas públicas não é outro senão uma tentativa ainda muito rasa de reparação de injustiças históricas, imensas, profundas, radicalmente incrustadas em nossa sociedade. Ainda hoje, cento e vinte e um anos depois da assinatura da Lei Áurea. Sobretudo hoje quando as diferenças abismais existentes entre as pessoas, baseadas na cor de suas peles, em suas origens, em suas crenças, tornam-se mais uma vez "naturais", "comuns". Se é que um dia deixam de sê-lo.

O comércio secular de escravos negros africanos é o maior responsável pela total desorganização de, pelo menos, dois continentes inteiros -- a América e a África --, em função de interesses externos a estes lugares. (Isso para que a discussão permaneça "em nossos quintais"; ignorando todos os outros eventos de seres humanos cativos, que abundam na História.) O continente africano talvez precise de muitos séculos ainda para encontrar um ponto de equilíbrio entre a herança maldita deixada por esta prática suportada pelos "países desenvolvidos" e as necessidades prementes do presente que se impõem. Enquanto não consegue, consome-me em conflitos sociais, étnicos, movidos por interesses de ordens econômica e/ou política que, séculos depois, ainda lhe são estrangeiros.

Na América, especialmente a parcela que por séculos dedica-se a servir como "armazém" de gentes e de mercadorias aos "países desenvolvidos" (está para nascer termos mais esvaziado de sentido), a constituição de uma elite local subjugada aos "primos nobres" fez-se à custa de muitas vidas negras (e índias, por igual), trazidas d'além-mar como escravas para fazer girar a roda-viva, faminta, da expansão do capital mercantil europeu. Roda-viva que nos obriga a uma posição subalterna no jogo político internacional; não muito diferente daquela que sempre ocupamos durante nossa curta história e comandada, a punhos de ferro, por representantes modernos daquela elite consumidora de vidas.

Esses jovens são meu quinhão dessa elite. Um quinhão cercado por muros altíssimos construídos por preconceitos e entendimentos equivocados mais antigos do que qualquer memória que tragam consigo. Entendimentos que mudaram de forma, mas não de essência. Privilégios garantidos em uma sociedade antiga, "segura", do ponto de vista de uns poucos, que se mantêm, se reproduzem e cada vez mais se enterram fundo no agir das pessoas.

É fato conhecido que o sistema de cotas adotado pelo governo brasileiro deve muito com relação à nossa realidade histórica -- posto que é uma cópia mal-ajambrada do sistema norte-americano. A situação brasileira cria casos como o meu, por exemplo: neto de italianos, espanhóis, índios e negros. Com a pele mais alva do que muito europeu "puro-sangue", mas "com um pé na senzala" -- como costuma pontuar minha mãe, fazendo graça. A determinação de cotas estritamente raciais em nosso caso fica comprometida pela presunção da auto-afirmação, segundo a qual não é possível a ninguém negar minha negritude, se eu achar por bem declará-la. Num país cuja população é composta principalmente por mestiços e mulatos, a separação óbvia em raças (como acontece nos Estados Unidos ou nos países europeus) fica dificultada.

No entanto, é preciso um grau significativo de desonestidade para negar a necessidade de uma política afirmativa dessa magnitude. Ainda que não nos moldes perfeitos, a criação e aplicação dessas políticas é um passo firme e adiante na tentativa de quebra do ciclo vicioso que insiste em manter a sociedade brasileira refém de uma estrutura muitíssimo semelhante àquela imediatamente posterior à assinatura da Lei pela Princesa Isabel, em 1888. Dar a chance de mudança de condições de vida à parcela mais desfavorecida e injustiçada do país é o objetivo e, felizmente, o resultado dessa política de cotas. Sua imperfeição momentânea é passível de ajustes, queremos crer; sua existência e manutenção são, sem sombra de dúvida, uma vitória que precisa ser defendida e esclarecida à população.

Especialmente à população que constitui essa elite; tão temente por seus privilégios seculares. Elite que deveria enxergar a adoção da política de cotas como algo que extrapola os limites de seu tempo de vida, algo que extrapola mesmo suas preocupações um tanto confusas e momentâneas sobre a quantidade de vagas em cursos universitários. Na faculdade onde estudei, de um total de trezentos alunos apenas dois eram negros. No universo de alunos da Universidade Estadual de Campinas, com algo em torno de quinze mil alunos, entre graduação e pós-graduação, chutar que apenas mil sejam negros é uma estimativa muito generosa. Algo está obviamente errado.

E é um erro maior do que Unicamp, do que meus alunos deste segundo colegial, do que este texto, do que discussões acaloradas. É um erro e um problema que estão na própria base de construção deste país (e de outros, muitos outros). É preciso que se faça algo. O fato de a iniciativa partir do âmbito governamental não é nada mais do que o mínimo a se esperar de governos decentes, honestos e sensíveis à História do país que comandam. Não se trata da única ferramenta de reparação das injustiças históricas, mas é, seguramente, a mais efetiva e mais frutífera.

Este post está errado. Confundi as definições. Posseiros são os "grileiros" de terras devolutas - que falsificam os documentos que comprovam a posse dessas terras.

Falha indesculpável que Brigatti, muito camarada, me fez ver. Amanhã mesmo arrumo a confusão de conceitos com os alunos.

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Na apostila.

b. Relações de trabalho [no campo]
· Ocupante ou Posseiro: ocupante de uma propriedade sobre a qual não tem nenhum direito, explorando terras alheias sem nada pagar (em dinheiro, em produto ou em trabalho) pelo seu usufruto.

Na lousa.

6. "Posseiro": produtor rural que usa terras sem possuí-las formalmente. Cultivam terras improdutivas; que de outra forma, têm dono, mas não têm quem lhes dê uma função social real.

Porque sim.

Se você não fuma, eu vou entender o seu asco. Vou entender que você sinta pena de mim por eu estar me matando lentamente, cometendo o suicídio a cada cigarro tragado. É um direito seu pensar em mim como uma pessoa rasteira, enganada pelo falso charme do cigarro, iludida pelas campanhas publicitárias que me prometem (ou prometiam) o Mundo de Marlboro, mal informada e ignorante dos malefícios que essas "quatro mil e setecentas substâncias tóxicas" levam a minh'alma a cada novo maço.

Eu entendo e respeito.

O que eu não entendo, sinceramente, é alguém em sã consciência, ciente dos fatos, inteligente a ponto de escapar da vileza que é a influência do cigarro nas vidas humanas, compactuar com essa lei fascista, baixada goela abaixo da população, criada pelo Governo do Estado de São Paulo.

Fumar é um hábito que pode ser muito desagradável a quem não o cultiva. Compreendo isso vivamente. Exatamente por isso, evito fumar perto de pessoas que não fumam. Eu diria "é um fumar consciente", se isso não soasse tão estúpido. O que acontece é: sejamos polidos; quem não fuma, prefere não fumar por tabela também. Desse modo, acendo meu cigarro em lugares que pouco incomodam outras pessoas. E penso que esse comportamento se repete com a maioria dos fumantes -- especialmente porque fumar pode determinar, até mesmo, se você é apto ou não para trabalhar nesta ou naquela empresa. Há relatos de professores que não foram contratados unicamente porque fumavam. De uma estupidez sem tamanho.

Essa lei do governo José Serra tem vários pontos discutíveis. O pior deles talvez seja a criação de um estado de denuncismo, onde os frequentadores dos lugares em que agora fica proibido o livre-fumar podem delatar o dono do estabelecimento e os fumantes que desrespeitaram a proibição. A vigilância fica a cargo do cidadão comum que, imbuído da nobre missão de erradicar esse problema, transforma-se em policial de seus iguais. Tudo isso legitimado pelas letras da lei. E ninguém parece notar esse absurdo.

E a imbecilidade não termina aí. As propagandas do Governo do Estado tentando angariar apoio à sua lei primam pela falta de lógica -- são uma rasteira no bom senso. Como essa, que vi piscando no topo do site Último Segundo, do IG.


Então, agora, os fumantes somos responsáveis por sujar o ar de todo um estado. Ignoram-se as causas concretas de tal fato para que fique provada a necessidade de esta lei ser apoiada pela maioria da população. População muito preocupada com a qualidade do ar que respira, certamente, enquanto vai até a padaria da esquina de carro. São oitocentos carros novos por dia somente na cidade de São Paulo e os fumantes, esses nojentos, somos os reais culpados pelos níveis altíssimos de poluição atmosférica.

Eu nunca compreendi porque as ações contra o fumo sempre foram mais "incisivas" (para usar um termo mais brando) do que as investidas contra todos os outros tipos de drogas. É socialmente aceitável um porre por semana, incluídos os eventuais riscos a outras vidas (se a pessoa resolver dirigir para casa, por exemplo), mas é abominável a ideia de alguém se matar (e matar a outros!) acendendo um cigarro.

E, veja, não se trata aqui de uma comparação tosca entre o melhor entre o pior. Fumar faz mal -- ninguém sabe melhor disso do que quem fuma. Se você não fuma, ótimo. A vida vai dar um jeito de te matar de outra forma, mas, felicite-se!, você não é mais um dos muitos iludidos e seus maços de cigarro. Agora, eu, que fumo, não posso ser impedido de querer fumar um cigarro enquanto tomo minha cerveja no fim de semana. Especialmente se eu faço isso tomando o máximo de cuidado para evitar o seu transtorno, amigo não-fumante. Se você resolve que a melhor saída é me denunciar ao poder público, multar o estabelecimento, você está concordando com a ideia de que algumas liberdades podem (e talvez devam) ser suprimidas em nome de um bem comum. Vê o perigo? Vê porque essa é, de fato, uma lei fascista?

Você, não-fumante, um policial à paisana, um cidadão convertido em fiscal do Estado, zelando pelo bem-estar "da maioria", passa a escrutinar as vidas alheias, coibindo certos atos que atentam contra a "qualidade de vida" da população. Você, não-fumante, me proíbe certo ato de liberdade -- e todos ficam muito felizes; afinal, todos temos o ar limpo, os bares sem fumaça e sem esse cheiro nojento. Agora pensa: eu, fumante, posso encontrar novas (ou antigas) formas de proibir certos atos de liberdade caros a você, da mesma forma legitimado pelo Estado. Esqueça o cigarro; use outro símbolo. E daí, como ficamos?

em resposta a um e-mail na lista de discussão do Centro Acadêmico das Ciências da Terra, também conhecido como CACT-Unicamp, que falava sobre três greves acontecendo (ou acontecidas) em Campinas, São Paulo, nos últimos dias: 1) dos motoristas e cobradores de ônibus, 2) do funcionalismo público e, 3) da universidade pública.

entender esse movimento é entender o mundo. são três greves, simultâneas. nenhum diálogo entre as três. reivindicações que não ultrapassam o direito individual de consumo - quero mais dinheiro para mais compra. o que, vejam, é legítimo. há que se comprar leite e pão, há que se ir a um cinema ou tomar uma cerveja no fim de semana.

sabemos que a cidade não oferece isso a todos. não da forma como ela se organiza. ou, como é organizada por nós. no entanto, imagino, lá estão faixas, carros de som, muitos gritos e palavras de ordem, as mesmas figuras e suas bandeiras, a "força do povo" em ação.

nada menos "povo" do que isso. nada menos esclarecedor do que três greves, simultâneas, que não dialogam. tinha um senhor que dizia: o necessário, meu menino, é que todos, independente se têm uma vassoura na mão, um giz, um carimbo, vestem preto ou azul, dizem bom dia ou acordam de mau humor, todos precisam reconhecer-se como uma classe. vai ver ele tava mesmo é certo. e é o que falta.

enquanto grupos segregados, desunidos, portanto fracos, continuarem "batalhando" por seus interesses particulares e não saírem (não sairmos!) às ruas aos milhões, a coisa embolorada - que boia, como disse o Diego -, permanecerá por aí. é preciso que nos reconheçamos na mesma e desagradável situação. olhar pro cara que tá do meu lado no ônibus, na fila do banco, no PF, na greve e confirmar minha semelhança, a indissociabilidade dos meus anseios dos anseios dele.

no dia 1º de Maio, dia dos que trabalham, na França (e sempre a França, me perdoem), todas as centrais sindicais - separadas e brigando por seus interesses há anos (séculos?) - se juntaram e milhões (e isso não é uma hipérbole) marcharam por Paris. Dizem que o Sarkozy evitou deixar a cama naquele dia - um mal súbito, não houve médico que explicasse.

aqui no Brasil (sempre o Brasil, perdoem mais uma vez), eu vi, meninos, uma multidão indo pra festa da CUT e pra festa da Força. nem uma festa junta eles puderam fazer. o Paulinho não teve vergonha de aparecer. mas eu e meus escrúpulos. coisa mais em desuso. vi, também, lá em Porto Alegre, linda cidade, outra multidão indo benzer carteiras em missa com a Nossa Senhora dos Navegantes, vulgo Iemanjá - que esse sincretismo brasileiro funciona à perfeição. é lindo tudo isso.

daí que: como? como se não há reconhecimento? sozinho, não dá. fica complicado.

O direito de transmissão das emissoras de televisão são concessões públicas. Existem (não há muito o que ser feito a respeito), mas têm uma obrigação para com o público que as assiste. É preciso que cumpram quatro princípios, dispostos no artigo 221 da Constituição Federal - que trata da "função social da programação televisiva para crianças e adolescentes". São eles:

  • I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
  • II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
  • III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
  • IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Este direito, imagino, é necessário em função da influência majoritária desse meio de informação no cotidiano das pessoas. Foi preciso pensar numa forma de exigir das emissoras uma contra-partida em troca da permissão para que transmitissem, em sinal aberto, sua programação para todas as casas brasileiras.

No entanto, pensando na qualidade do que nos é oferecido por todos os canais (e aqui excetuo apenas aqueles que são geridos pelo poder público, i.e., TV Cultura, TVE, TV Brasil, etc.), cabe perguntar até que ponto os termos da lei são efetivamente cumpridos.

"Preferência a finalidades educativas", "respeito aos valores éticos e sociais", "promoção da cultura nacional" - são ideais nobilíssimos. Mas quanto disso, na prática, é produzido pelas televisões? Qual é a porcentagem da programação de uma RedeTV!, de uma Rede Globo, de uma Rede Bandeirantes, de um SBT que se dedica com esmero e respeito à "promoção da cultura nacional"? Eu não saberia citar programas nessas emissoras que são transmitidos em horário nobre e que cumprem com as determinações da Constituição.

Me incomodo demais ao assistir televisão, mesmo que por alguns minutos. É insuportável estar diante de um veículo de comunicação que faz tudo, menos comunicar. A informação, quando tem qualidade e serventia comprovada, fica relegada a programas com os horários mais inadequados (alta madrugada ou, por exemplo, a manhã dos domingos).

O programa "Pânico na TV" é a minha medida. Trata-se de uma atração de duas horas de duração, no horário mais nobre do domingo (com início às 21h00, de acordo com o site da RedeTV!). A maioria das pessoas neste país, salvo raras e louváveis exceções, está sentada na sala de casa, com a televisão ligada nessa hora. Adultos, velhos, gente que nem presta muita atenção ao que está sendo veiculado, mas, principalmente, crianças. Às nove horas da noite, de um domingo, as crianças estão acordadas - e assistindo televisão.

Este programa, que passa duas horas no ar, não mostra nada, rigorosamente nada, que minimamente instrua uma criança. Nada que lhe acrescente qualquer conteúdo de qualidade. É um par de horas jogadas no lixo - que vão para o limbo. De tudo o que elas assistem, o que sobra são comportamentos inadequados (e digo isso porque sou professor e as manhãs de segunda-feira são o retrato da influência deletéria desse programa). Brincadeiras (de gosto muito duvidoso) que, imagino, são compreendidas como ironias (de péssima cepa) pelos adultos - mas que, entre as crianças, viram uma cansativa repetição de abusos do bom-convívio. Em outras palavras, é impossível estar mais de que alguns minutos na mesma sala que uma criança que resolva levar a sério as piadas toscas que este programa leva ao ar todo domingo.

Televisões são concessões públicas, com uma contra-partida que é a de auxiliar a divulgação cultural, o debate de ideias; a informação (ainda que não em estado puro) chega até as pessoas através da televisão. Do modo como a televisão brasileira (e imagino que este seja um "fenômeno" mundial) está estruturada, o que ela faz, mais do que nunca, é emburrecer a população. Entregando-lhe certo tipo de conhecimento que não agrega em nenhum sentido. Poderia dizer até, transformando a população numa massa inerte, que apenas recebe o que lhe é entregue, sem qualquer tipo de convite à reflexão.

Não é isso o que está escrito na Lei. Não se cumpre o que está disposto na Constituição Federal e, assim mesmo, as concessões são renovadas sem qualquer rubor.

Eu lido com crianças. Crianças que serão, num futuro próximo, o próprio País. O tipo de país que temos plantado, certamente não renderá bons frutos.

Se falo, e falo, é um grito numa ilha.

É algo trágico. Que vai muito além, na sua influência, do que nos permitimos pensar. Mas algo deveria ser feito.

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Em tempo, passei cinco minutos na frente da televisão, nesta noite de domingo. Daí a motivação para o post. Além, é claro, das salas de aula que frequento durante toda a semana.

Eu preciso que esses meninos pensem - que sejam livres para pensar e que se dediquem a essa liberdade.

Não é possível que permaneçam presos a um cabedal de ideias que lhes é pretérito sem que tenham a vontade (e o hábito, adquirido) de contestar tudo o que na maior parte do tempo parece normal.

Naturalizados, certos comportamentos sociais tornam-se uma espécie perniciosa de dogma que mais emburrece do que esclarece. E a minha função dentro de uma sala de aula é trazer à luz essas normalidades e destrinchá-las.

Mas fica óbvio que cada vez mais a resistência com relação a esse exercício de liberdade vai aumentando. Talvez minha perspectiva na comparação com a geração que hoje senta nas salas de aula seja outra e derivada de um outro tipo de construção do conhecimento e do próprio entendimento do mundo - que me permite a dúvida. Talvez seja somente um problema do "público" a quem me dirijo: excessivamente "infértil", um solo rude, já viciado.

E são crianças. São adolescentes. A força para as mudanças está neles e no entanto, o que eu vejo são reproduções irrefletidas de comportamentos que não lhes pertencem. A influência da família e de certo tipo de propaganda subtrai dessas pessoas a característica inata do "cogito", da dúvida. Eles simplesmente não duvidam, não querem duvidar e em torno de si, um escudo criado por esses elementos (família + propaganda bem sucedida) transforma qualquer tentativa de discussão num ambiente estéril.

Digo isso porque durante esses dias, achei de discutir (fiquei, pelo menos, na tentativa) alguns assuntos que tornaram à moda ultimamente. Entre eles, a "questão ambiental", suscitada pela campanha da ONG SOS Mata Atlântica, "Xixi no banho".

Como toda discussão ambiental, essa campanha propõe uma solução local, pontual, para um problema que é global. Ignorando a pertinência de uma reflexão em maior escala, incita as pessoas a uma atitude perante o problema que, além de ser algo absolutamente nojento e desnecessário, não dá conta da complexidade do processo. É, no entanto, um conforto para a tal República Morumbi-Leblon-Belvedere¹ a chance de "fazer alguma coisa" sem descalçar as pantufas, no conforto de casa. A consciência pesada fica aplacada em função de uma ação individual, inócua, mas convincente (especialmente quando em conversas com quem "não faz nada"). E esse convencimento é fruto da propaganda massiva, que usa os meios mais eficientes para tanto (no caso, um site "bonitinho", com uma trilha sonora "engraçadinha" e muitas frases de efeito) que acertam em cheio a alma do cidadão de classe média que aceita urinar no chuveiro, mas não dispensa o carro, não diminui o ritmo de consumo, não se organiza em prol de atitudes "macroescalares".

Toda discussão ambiental que se baseia na famigerada "responsabilidade individual" é um erro de perspectiva monumental. Ajuda a diminuir o sentimento de culpa, cativa pela ideia de pertencimento a um grupo "ambientalmente ativo e responsável", mas na prática não significa uma mudança estrutural; mudança que precisa acontecer se a intenção (legítima, diga-se) é a melhoria da qualidade de vida e do trato com o planeta e com nossos "vizinhos".

Educação ambiental é um faca de dois gumes. Ela deve existir, sem dúvida nenhuma, mas precisa se dedicar a instruir as pessoas ao bom convívio dentro de uma comunidade. Ambiente, este conceito, não significa apenas a floresta amazônica ou o rio da cidade; significa, também, a co-existência saudável entre todos os indivíduos da sociedade. E nesse sentido, é absolutamente necessário que se entenda a importância de não jogar lixo na rua, nos rios, de usar menos o transporte individual, de exigir esta ou aquela atitude dos governantes. Como um todo. O conjunto da sociedade trabalhando em favor de uma melhoria significativa na vida de seus indivíduos. Educação ambiental não pode mascarar essas questões seriíssimas focando seus trabalhos no "adestramento" das crianças e jovens dentro da falsa percepção de que deixar de varrer o quintal com a mangueira, desligar a torneira pra escovar os dentes, fazer xixi no banheiro são soluções efetivas contra a degradação do planeta. Porque não são. São paliativos de consciência.

O planeta está sendo degradado por conta do estilo de vida que todos levamos. Se ações individuais resolvessem o problema, ótimo. Mas apenas uma mudança em grande escala (principalmente com a alteração nos níveis de consumo) pode fazer alguma diferença².

Não adianta nada eu fechar minha torneira enquanto escovo os dentes, se um produtor de soja nos latifúndios do Mato Grosso continuar usando (e poluindo) bilhões de litros de água potável todo mês para irrigar sua plantação que vai alimentar o gado europeu.

O problema é sistêmico. Não adiantam soluções lineares.

O que não significa que a atitude deva ser a de simplesmente cruzar os braços ou dar de ombros. De modo algum. Algo precisa ser feito e é bom que hajam pessoas dedicadas a isso. Apenas que suas ações precisam ser globais, não pontuais.

Os alunos, ao ouvirem isso, recusaram a reflexão. Muitas pessoas recusam. Sentem-se até ofendidas, porque, afinal de contas, "estou fazendo a minha parte". É ótimo que exista a noção do problema, mas não é bom que as tentativas de solução sejam direcionadas equivocadamente.

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¹ Expressão cunhada (até onde sei) pelo Idelber Avelar, que vem muito a calhar.
² É emblemático nesse ponto o curta/documentário produzido por Annie Leonard, chamado "The Story of Stuff". Em menos de 30 minutos, está descrito todo o processo produtivo que destrói o planeta, baseado no consumo de massa. Há uma versão em português (dublado e legendado) neste endereço.

porque hoje, numa sala de sétima série eu dei uma daquelas aulas que fazem a coisa toda valer a pena. o tema foi "transposição do rio São Francisco" e, sem me alongar no assunto, provei pra eles o tamanho dessa mentira e como existem soluções muito mais eficazes, efetivas (que levam água a quem tem sede), baratas e honestas.

no fim da aula, a classe toda: "thiago, vamos montar uma ong e ir até lá furar poços!", "porque você não se candidata e vai lá furar poços, construir cisternas, usar direito o dinheiro público!" e eu quase chorei na frente deles; mas chorei, depois, sentado numa praça em Amparo, por entender que cumpri meu papel ali.

mostrei a eles que por mais distante que essa questão possa parecer, ela está ligada diretamente a tudo o que está errado no nosso país e que isso tem, sim, influências diretas, mais do que diretas, cruciais, nas nossas vidas, aqui em São Paulo, no Rio Grande, em Minas ou em qualquer lugar. porque é isso o que falta, "só" isso: que nos percebamos, todos, num mesmo barco, à deriva, controlado por pessoas desonestas.

fiz o que o Ministro do STF, Joaquim Barbosa, fez, ao peitar Gilmar Mendes, o presidente daquele tribunal, um canalha, um câncer, um exemplo daquilo que nos leva cada vez mais ao buraco. fiz, com muito menos coragem, com muito menos poder, mas fiz. é simbólico tal e qual. e aqueles meninos todos vão pra casa e comentam com os pais, e os pais, nos trabalhos, comentam com colegas e a informação correta se espalha e pode render frutos.

e é isso. é pra isso que venho. é esse o meu papel.

não quero pôr ninguém dentro de faculdade, não pode ser esse o meu objetivo. não é. felizmente, contra todo um sistema montado pra isso, azeitado pra criar imensas massas de manobras, não é. me esfolo em aulas que quase sempre dão errado. mas hoje, naquele sétimo ano, funcionou como deve.

e eu chorei.

amanhã, daqui a pouco, quando acordar, pra ir falar a classes sobre agronegócio no Brasil, sobre urbanização, sobre shopping centers vs. praças, vai ser essa de novo a minha tentativa: trazer esses meninos, todos eles, embotados por uma realidade absurdamente alienante, para situações e fatos que alteram seu cotidiano, o cotidiano de 190 milhões de pessoas e devem, sim, ser pensados e combatidos e aplaudidos e repudiados e imitados e expurgados.

uma aula como a de hoje, reafirma a minha vocação. uma aula como a de hoje, confirma que tenho feito meu papel - pequeno, formiga, mas absolutamente necessário.

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perdoem os erros de digitação e o mau português. aos borbotões. saiu-me aos borbotões.

contém spoillers.
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"Slumdog Millionaire" não ganhou tantos Oscars à toa. Nada nesse mundo de premiações é à toa. São sempre decisões políticas, vozes de movimentações infinitamente maiores, relacionadas a tudo o que um filme aparentemente ruim representa.

A história do filme é pobre. São clichês em cima de clichês e nada ali é novo. Menino pobre que num lance de sorte muda completamente a ordem imposta e se transforma em novo rico; que além do dinheiro, fica com a moça bonita e vence, depois de infinitos perrengues os inimigos.

Mas esse menino, Jamal Malik, um favelado de Juhu, um dos muitos subúrbios decrépitos de Mumbai, um dentre milhões que tem seu destino traçado desde o berço numa sociedade estamental, um "renegado", um "chaiwallah", que passou por toda sorte de dificuldades na vida, se torna um verdadeiro exemplo de como, de acordo com certa visão de mundo, é possível fugir ao seu fado e transformar por completo sua vida.

Um exemplo de como há a grande chance de mudança reservada para cada um dentro do tipo de sociedade que cultivamos no Ocidente e que tem sido levada - como uma onda - aos povos do Oriente e da África como o modelo a ser seguido.

"Bombaim voltou a se chamar Mumbai", diz Jamal em determinado momento do filme. E antes de ser uma adequação etimológica do nome da cidade, o retorno à sua antiga forma sinaliza o período de mudança dramática pelo qual Mumbai vem passando. Antes, uma cidade industrial - também aos moldes ocidentais -, com um setor têxtil vigoroso; hoje, a maior cidade da Índia (em população e em participação no PIB do país) é chamada, como São Paulo, Cairo, Cidade do Cabo ou Xangai, de cidade global. Adquiriu tão honroso título por ter se convertido em um centro nacional dispersor dos fluxos globais - tanto materiais (e seu porto marítimo altamente movimentado prova isso), quanto imateriais, resultados da presença maciça de filiais das maiores corporações mundiais. Todas elas estão lá.

Mumbai tornou-se uma cidade riquíssima. Símbolo do sucesso econômico promovido pelas mudanças gigantescas no core do entendimento de mundo dos indianos.

Os indianos, que por sua vez, constituem uma força de trabalho de grande valor dentro dos países do chamado BRIC (invenção que inclui, além da Índia, China, Rússia e Brasil), em função de sua fome por novas tecnologias, o crescente índice de alfabetização da população e a sua principal herança colonial: a língua-franca, antes de ser o hindi (compreendido por mais de 500 milhões de pessoas pelo país), é o inglês. Fica, então, muito facilitado o processo para as empresas que resolvem montar seus escritórios na Índia. (Ou seus "call centers".)

Jamal, quando deixa de ser o slumdog (o "cão da favela") de Bombaim e passa a ser o novo millionaire de Mumbai, apenas mostra aos outros milhões de intocáveis que apesar da casta em que nasceram, a "nova Índia" lhes permite uma vida com a qual eles jamais sonhariam.

E é possível assistir ao filme de Danny Boyle sob essa perspectiva e encontrar aí a moral da história. É possível fazer piada com o número final e, imitando os atores, festejar a boa sorte de Jamal e da (lindíssima) Latika. Mas também é possível perceber que por trás das muitas estatuetas ganhas, da apresentação musical bolywoodiana em pleno templo da indústria de Hollywood, do salvo-conduto dado pelos magnatas do Cinema, pode, sim, haver uma série infinita de intenções e determinações novas dentro do cenário geopolítico mundial.

Não é a festa de exaltação de um novo modo de compreensão do mundo. Não é a mudança de foco dos produtores cinematográficos (meros títeres em mãos mais poderosas) que resolveram enxergar a pobreza com outros olhos. De jeito nenhum são as portas do Ocidente se abrindo para a tentativa de absorver a sabedoria antiga de povos antigos, como crianças conversando com velhos. É, tão-somente, trazer para o que já existe um mundo que insistia em não fazer parte desse todo. É pôr na berlinda o vigor e a pungência de um mundo (e aqui incluídos os chineses) com mais de 3/5 das almas desse planeta, ávidas por consumir a vida que os filmes, as séries, as propagandas vendem como o único caminho, o único modelo.

Antes que as hordas de favelados brasileiros, indianos, indonésios, chineses, sul-africanos, árabes, nigerianos, etc., etc., etc., se levantem contra o que os torna favelados - que sejam convencidos (passivamente) de que fazem parte do mundo, este, apresentado nos filmes de Hollywood, de Bollywood, de Nollywood, e que podem, como o Jamal ou como o Buscapé (de "Cidade de Deus") dar a volta por cima e transformar um vida destinada ao fracasso e à pobreza, em sucesso, em dinheiro, em fama, em glória. (E hajam inscrições para Big Brothers e excrecências semelhantes.)

Num mundo feito de pobres, os pobres desprezam os pobres. Não se reconhecem como tal e mutuamente desejam que desapareçam. Na primeira oportunidade de melhoria nas condições de vida, saltam o muro e começam a cuspir em quem ficou. É nefasto e perverso.

A escolha do Oscar simboliza tudo isso. "Slumdog Millionaire" não venceu à toa. É um filme ruim, mas que cumpre seu papel ao transmitir essa mensagem.

É possível assisti-lo com os olhos abismados de um "civilizado" entrando em contato com um povo rude. É o que a maioria fará. E, bom, está aí o resultado esperado, numa eficácia redundante e triste.

A sensação de impotência diante dos acontecimentos em Gaza tem me torturado nos últimos dias.

A internet e sua não-linearidade, seu completo desapego a hierarquias de todo tipo (apesar de alguns rankings inúteis e ocos), tem dado a esse massacre um tom diverso do que estamos acostumados. Já não dependemos mais dos comunicados dos diários da Velha Mídia. Através da rede - complexa e descentralizada - podemos encontrar as informações cada vez mais próximas da realidade. É um profundo golpe no modus operandi da circulação ininterrupta de informações distorcidas, falaciosas, rasas, tão caras aos meios tradicionais de "comunicação". A repetição de mentiras ou, vá lá, inverdades, meia-verdades, pelos canais que conquistaram a confiança de um público acrítico acaba tornando fantasias em fatos. Fatos discutidos nos botecos, nas casas, entre amigos - mas dentro da cabeça de cada uma dessas pessoas, especialmente.

Esse poder, com a internet, diminui gradativamente. Porém, o alcance dessa mudança depende fulcral e terminantemente da expansão da rede. A expansão do meio técnico (que dá suporte físico ao meio virtual) é atributo dos Estados, em função do interesse comum, uma vez que é nos territórios - nacionais e/ou regionais - que tais intervenções efetivamente acontecem. Ocorre que, no mais das vezes, as decisões estatais (e não apenas com relação aos meios de comunicação) estão submetidas a interesses específicos, quase sempre corporativamente estratégicos, dos grupos que, a priori, decidem quais informações serão transmitidas (ou não) ao grande público. E a esses, muito pouco interessa que a maioria das pessoas tome contato com as versões factuais dos acontecimentos. Não lhes interessa o esclarecimento, ou ainda, a mera possibilidade de esclarecimento da massa.

Falar em revolução da comunicação através da internet, portanto, é, em grande parte, inverossímil. A rede certamente trouxe maior liberdade na circulação dos fatos, ampliou as vozes, deu oportunidade de expressão a uns quantos que, a depender das mídias tradicionais, jamais seriam ouvidos. Mas para que seu potencial, por assim dizer, "revolucionário" torne-se efetivo, a expansão do meio técnico precisa tornar-se universal, democrática, irrestrita. E, hoje, infelizmente, não é o que acontece.

A expansão de redes (comunicacionais, de transporte, quais sejam) não determinam o desenvolvimento. As teorias que defendiam esse ponto de vista há muito foram desconsideradas. Porém, o que se vê nos planejamentos governamentais é sempre essa ideia. Ou seja, assim que a estrada (fibra óptica, cabo, ferrovia, eletricidade, etc., etc.) passar por aquele rincão "atrasado", o "desenvolvimento econômico" chegará e consequentemente, o "desenvolvimento humano". É uma ilusão. Que sustenta um tipo de planejamento estatal não-conforme que as necessidades do interesse comum, mas de uns poucos. Exemplos não faltam. Todos os planos plurianuais brasileiros estão sentados em cima dessas concepções equivocadas - desde os anos 50, com Juscelino Kubitschek e suas rodovias rasgando o interior do País.

Não é, no entanto, o caso de desacreditar ou desabonar o barulho das novas vozes. Há, pela internet, esforços legítimos e honestos no sentido de trazer ao público (ao maior público possível) as informações em sua forma mais verossímil. No caso do crime que vem sendo cometido pelo Estado de Israel, do genocídio, da limpeza étnica perpetrada contra o povo palestino, pontos de resistência e clareamento do debate existem, são lidos, crescem em importância, em influência e, como no caso da notícia do Jornal Nacional, começam a ser debatidos em mesas de bar, escolas, universidades...

Fico pensando, depois de escrever, que talvez esteja aí algo a ser feito: transmitir os fatos. Fazer chegar às pessoas a maior quantidade de insumos para que, individualmente, cada qual crie seu entendimento e, consequentemente, retransmita o que conquistou para outro alguém. Nessa sucessão de ressonâncias, uma consciência acaba por se formar. Não pasteurizada, não idêntica, mas, especialmente, não vazia de conteúdo, de construções mentais, de conhecimento e, principalmente, de crítica.

É utópico. Mas, o que não é? E, se não é, vale?

Vendo as notícias que vão chegando de Gaza, pelos blogs, pelos jornais, pela televisão, a inquietação que sobrevém, a sensação de não estar contribuindo, de "não poder fazer nada", fica diminuída quando escrevo essas poucas linhas, quando participo dessa corrente que pode, de fato, transformar o curso das coisas. É, até onde sei, no que prefiro acreditar. Utopicamente.

A invasão da Faixa de Gaza pelas Forças de Defesa do Estado de Israel é um crime. Um crime hediondo.

Trata-se de uma ação de limpeza étnica. Slobodan Milošević, o Açougueiro dos Bálcãs, foi preso e julgado em Haia pela mesma acusação. Quantos israelenses estarão presos quando este conflito tiver fim? Aposto que nenhum.

Sobretudo porque o lobby pró-Israel no Ocidente talvez seja a maior força política existente. Todo o poderio militar norte-americano e toda a influência da mídia competem para sustentar as ações mesquinhas e ilegais do Estado de Israel.

Com este respaldo, que legitima as ações criminosas, Israel assassina civis palestinos. Seus aparelhos bélicos, modernos, muito caros - a fina flor do que esta indústria pode entregar - acertam deliberadamente alvos aleatórios (da Universidade a prédios de apartamentos) procurando acertar membros do Hamas.

Destruir o Hamas - cuja autoridade política foi democraticamente legitimada pelos palestinos de Gaza, num pleito acompanhado pelo mundo inteiro - é o único objetivo de Israel. Para isso, pouco importam civis. Despejam bombas, explodem canhões, puxam gatilhos porque dentro do maior campo de concentração do mundo, no gueto de Gaza, todos são culpados, radicais islâmicos, homens, mulheres e crianças-bombas. Todos. E, por isso, são todos mortos. Assassinados.

O Estado de Israel é um Estado criminoso. Suas autoridades cometem, desde sua fundação, crimes contra a humanidade (na figura dos Palestinos) e deveriam ser julgadas e punidas de acordo com as leis do Direito Internacional.

Desnecessário reafirmar: trata-se aqui do Estado de Israel como entidade política; qualquer tentativa de fazer isso parecer uma cruzada contra esta ou aquela comunidade religiosa será absolutamente desconsiderada.

Enquanto durarem a invasão e os atos criminosos do Estado de Israel contra o povo palestino, este banner permanecerá no blog. Nele, lê-se, em árabe: "Somos Gaza".

Este blog e seu autor jamais concordarão com a resposta armada a qualquer conflito que possam existir entre os povos. Mas quem poderá culpar os árabes quando chegar a hora da vingança? E novamente, sofrerão as pessoas, israelenses ou palestinas.

O que acontece é que o Humano, nesses casos, se perde por muito tempo. Essa é a grande tragédia.

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  • O professor Idelber Avelar, como de hábito, vem trazendo textos e considerações de qualidade sobre a questão; com, inclusive uma tag específica sobre o assunto.
  • Pedro Dória, em alguns posts soube defender as posições israelenses com alguma galhardia, mas mesmo ali as ações do Estado de Israel têm encontrado pouca ressonância. É, no entanto, leitura recomendada, até para se tentar compreender os vários lados de questão tão complicada.
  • Os blogs In Gaza, Moments of Gaza e Gaza Talk, dando notícias direto do front.
  • Página da rede de televisão al-Jazeera com informações sobre a guerra.

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thiago gonçalves

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