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É um blues muito bem escrito essa ilusão a que nos impuseram chamar realidade. Se o real é palpável, acerta em cheio quem imaginá-lo um balcão vazio de uma espelunca qualquer que vai fechando - exigindo nas entrelinhas, entre um copo e outro, que você desista. O incômodo que é a realidade (e toda a sua má-vontade intrínseca) ficam pelo caminho num verso que sugere, sem explicitar, que sua única saída tem que ser um outro gole. Há nisso tudo que te empurram pela goela um tom amargo, do qual a guitarra acaba absorvendo a parte mais trágica - e a voz, vacilante, representa sem qualquer orgulho, mas com toda emoção, o belo por trás daquilo. A mesma emoção que sobreexiste a você, à sua dor, à tristeza que te acompanha: porque a realidade (e todos que estupidamente lá: dentro dela) não se importa contigo, não tem pra você nem mesmo o resto de tempo, nem o interesse falso.

Quando isso fica claro, quando o peso do copo é tão e qual o peso do corpo, muito além do peso do espírito (que se arrasta), é nesse exato e efêmero momento que as notas entram pela sua pele e o que aos outros é "apenas" música e aplausos, se transforma em seu reflexo mais tosco, mais reles, mais insignificante. De um modo tão sentido, e por isso mesmo, de certa forma tão poderoso e inevitável que o que resulta dessa morte/vida é uma Farsa coberta da razão podre dos bêbados - a "compreensão dos vapores". E, então, volta a ser música, volta a ser o grito pleno e dissonância; pela dor de antes, pela tristeza (que agora é apenas agouro), pelo compromisso com a existência - por continuar, semi-morto, a espalhar um tipo qualquer de testemunho; que uns poucos compreenderão.

No qual venho a público para, enfim, elucidar a única coisa que me interessa nessa Olimpíada chinesa: o nome da capital.

Se pudéssemos ler mandarim, o grupo de dialetos que regula oficialmente a língua chinesa, todos estaríamos aptos a compreender estes ideogramas e, então, o mundo seria mais feliz e os restaurantes aqui no Brasil serviriam comida chinesa verdadeira. Infelizmente, não é o caso.

Em função de nossa inépcia, senhores mui gentis desenvolveram maneiras de transliterar os sons dos ideogramas para fonemas mais próximos a nós outros, ocidentais; processo conhecido como romanização - que também se aplica a outros alfabetos e sistemas de escrita, como o cirílico (usado por muitos povos do leste europeu e do norte asiático), o árabe, o grego, etc. Trata-se de um expediente muito complexo, no qual adequações e aproximações nada sutis são exigidas.

Os caracteres chineses não representam fonemas - mas idéias. Para cada um dos 5 mil caracteres meramente "alfabetizantes" utilizados (dentre os mais de 55mil existentes), há quatro formas diferentes de serem ditos, variando o registro de sua tonalidade. Então, para proceder as aproximações meramente fonéticas, foram inventados três métodos principais. Quais sejam:

  • Wade-Giles: criado por Thomas Wade, um diplomata britânico, em 1867, posteriormente revisto e melhorado por Herbert Giles, esse método, além de indicar o som correspondente ao fonema dos caracteres chineses, também indica seu tom através de números sobrescritos ao lado das sílabas. (exemplos: 妈 = ma1, 麻 = ma2, 马 = ma3, 骂 = ma4)
  • Yale Romanization: um método criado para facilitar a compreensão do chinês (em seus diversos dialetos) pelos soldados americanos na Segunda Grande Guerra, ou seja, usa sons familiares aos ouvidos anglófonos para marcar fonemas e tons; talvez seja algo mais simples aos ouvidos dos gringos do que aos nossos, e de fato os exemplos deste artigo na Wikipédia confirmam essa impressão.
  • Hanyu Pinyin: diferentemente dos dois últimos, esse método é, de fato, uma romanização e não uma "anglicização" dos caracteres. Criado pelos próprios chineses a fim de buscar uma uniformização das transliterações, é aceito mundialmente por ser menos hermético e mais intuitivo do que os anteriores - na medida em que busca exprimir os "sons das palavras", sem se prender a nenhuma língua ocidental ou a símbolos de alfabetos fonéticos ininteligíveis. (Como exemplo, o nome da China: 中國, Zhōngguó e não, Chung¹-kuo² - como ficaria usando o Wide-Giles.)

De acordo com o que reportaram os primeiros viajantes europeus ao chegar à China (o "Império dos Chins", nome da dinastia reinante naqueles anos), o nome de sua capital soaria como "Paquim" ou "Pequim". A tradição desta aproximação em português manteve-se durante todos os séculos em que Portugal permaneceu em território chinês e até hoje, estendendo-se, inclusive, a outros topônimos, como Nanquim (Nanjin, 南京), Cantão (Guangzhou, 廣州), Xangai (Shanghai, 上海), etc.

Essa tradição, no entanto, está sendo revista - uma vez que os organismos internacionais que regulam essas questões, passaram a considerar o método Pinyin de transliteração dos caracteres chineses como o preferencial. Entidades como a Organização Internacional para Estandardização (ISO 7098:1991, 1979), a Biblioteca do Congresso Americano (cujas diretrizes encontram-se neste site), o próprio Governo chinês e o Governo de Cingapura (onde o chinês é uma das línguas oficiais).

É por isso que de alguns anos pra cá, temos visto muito mais Beijing (Běijīng) em anúncios, placas, reportagens, blogs, atlas, etc., etc. do que a antiga forma Pequim (Pei3 ching1). Foneticamente, são a mesma coisa - apenas tentativas diferentes. O sons do b e do p, na boca de um chinês, ficam muito parecidos. Tanto que criam essas confusões todas.

Agora, o ponto principal dessa questão: nenhuma das duas formas está errada. Não queira dar uma de sabidão no bar, no emprego, no blog se você não sabe. Não há, na essência, diferença nenhuma, uma vez que ambos os nomes referem-se a tentativas de transliteração dos mesmos caracteres chineses - o que há são opções por métodos diferentes para tanto. Usando o mais antigo, diz-se Pequim; usando o mais recente, diz-se Beijing.

Por fim: não, Beijing não é Pequim em inglês; não, quem diz Beijing não é um maldito vendido ao Império.

E, obviamente, não, isso realmente não importa.
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O nome da capital chinesa segue uma tradição muito comum dos países do Extremo Oriente - refere-se literalmente à função desempenhada pela cidade. Assim, Beijing (北京) significa "capital do norte", enquanto que Nanjing (南京), nome de uma das antigas capitais, significa "capital do sul" - ou ainda: como Tóquio (東京) e Đông Kinh (東京, em chinês - hoje chamada Hanói), capital do Vietnã, significam "capital do leste", e Kyoto (京都) e Seul (京城, em chinês) significam apenas e tão-somente, "capital". Repara nos caracteres, um sempre se repete: , "kyo", representa "capital".

PS: E, claro, se você não tem instalados em seu computador os arquivos que permitem ver caracteres orientais, esse post ficou cheio de quadrados inexpressivos. Vá se informar.

Ao mesmo tempo em que olho pro lado e a porta fechada me faz sentir uma vontade estranha de sair no frio e ir fumar um cigarro a que me proíbo a perna tremendo e os lábios rachados pelo tempo seco acabam criando certa atmosfera de ir ficando. A cabeça dói - mas há dias como impossibilidades e o que antes era enxaqueca e olhos caídos se transforma em susto de poder. Hoje posso.

Dedos gelados.

Dias de descanso invariavelmente me obrigam a dormir só quando o sol desponta e pássaros cantam espantando a madrugada. Enquanto espero os barulhinhos da aurora, leio. E penso. Prevejo - sem querer, tempos de maior conturbâncias. As previsões se enganam e tudo o que espero fatalmente não acontece; de onde percebo, cabisbaixo, querendo fumar, que estar atento cansa e, de mais a mais, sendo desavisado e inconstante as cores que enfeitam o mundo de um jeito quase falso ficam ainda mais absurdas.

Clichêsco.

Noites de inverno atravessadas remetem ao fim do ano. Um fim de ano diferente - talvez o primeiro, verdadeiramente o primeiro. Não será solitário. Era destruidor ver risos e beijos quando espocavam os fogos, e a alguns dedos uma senhora de vestido preto, cor forte dos lábios, os olhos quase fechados, um hálito gelado: tentativa de boas-vindas. Era mentira. Não tinha ninguém - nem em tentativas desespero. Mas agora tremo e já vislumbro menos solidão no fim que será recomeço.

Preciso de um emprego na cidade grande - a maior -, que me sustente e seja feliz. É um pedido. Tremo.

Entre sorrisos e beijos desconcertantes a trilha segue torta. Me pergunto se algum dia foi certa. Dou de ombros e volutas de humo. A quem importa?

Já não me lembro quando foi a última vez em que passei um fim de semana trabalhando. Há anos optei por não mais deixar meus domingos (e sábados, como não?) passarem em vão, meramente semelhantes a qualquer "dia útil" - como se fossem tragicamente inúteis os dias dedicados a relaxar, fazendo qualquer outra coisa que não trabalhar.

Foi uma escolha. Alhures há até quem opte por continuar a toada semanal durante os dias pretensamente dedicados ao descanso. Nos últimos tempos, é preciso que se diga, para alguns, certo glamour foi adicionado ao fato de, inexoravelmente, estar obrigado a permanecer trabalhando horas ininterruptas para, enfim, dar conta da quantidade de idéias, telefonemas, e-mails, prazos, clientes, genialidades... É, como se diz, "chique" estar atarefado nas horas previstas para, inclusive, a procrastinação a que me dedico tão ferozmente.

Tudo isso faz muito sentido num determinado nicho da sociedade que encontra nesse tipo de comportamento respaldo e similitudes. Funciona mais ou menos como encontrar outro amigo que também era sempre o último a ser escolhido no futebol, aquele cara que também fazia fitas K7 piratas com as músicas mais incríveis dos vinis que o primo rico trouxe da ida aos Estados Unidos, alguém que também goste de pão francês com Toddy (ok, achei poucos assim até hoje). Significa reconhecer-se no outro através de comportamentos comuns, na maioria das vezes reduzir a amplitude do mundo a apenas esse desdobramento e, de um modo bastante eficiente, fazer outros (fora desse grupo) acreditarem que bom mesmo é comer pão com Toddy ou "ser produtivo" num domingo. Poucas coisas me desanimam tanto quanto "ser produtivo", especialmente num domingo.

É compreensível (e é desnecessário dizer que generalizar implica em ignorar exceções algo óbvias) que para alguns - mesmo entre aqueles que podem escolher - seja impossível ignorar o trabalho durante os finais de semana. Mas há um ponto que precisa ser levantado. Entre aqueles que trabalham aos sábados e domingos, há quem decididamente não optou por isso. Porque, para que haja a possibilidade da escolha, é preciso que existam condições pretéritas. É possível pensar em uma herança gigantesca, que te permita flanar mundo a fora, sem qualquer preocupação mais presa ao chão - mas quantos têm esse abono histórico? No mais das vezes, o que condiciona as possibilidades de escolha é o estudo. Não o estudo oferecido às massas, deficiente e cabresto nas horas mais cruciais; mas a chance de conhecer e, em função disso, almejar conhecer ainda mais, de tomar contato com os milênios de produção intelectual, seja em bancos de escola ou devorando livros e engolindo conversas por conta própria.

Quantos dentro da sociedade em que vivemos e que construímos cotidianamente podem dizer: conheço e almejo conhecer mais? Na medida em que a imensa maioria queda-se alijada do processo, servindo apenas como burro de carga que a tudo carrega nas costas sem reclamar, temos que a Vida, esta, maiúscula, acaba sendo dividida, segregada, desconstruída, descaracterizada - num movimento que cria vidas, agora minúsculas, valorizadas diferentemente. Enquanto a uns é dada a chance de escolher, a outros, ficam os restos. Numa mirabolante reviravolta mental, passamos, inclusive (e tragicamente), a naturalizar essa situação. E aqui mora todo o perigo.

É-me completamente plausível e nem um pouco assustador o fato de que, enquanto assisto a um show em praça pública, gratuito, de um artista qualquer, uma senhora - com seus mais de 60 anos -, ou uma criança, fique perambulando entre as fileiras de expectadores, numa noite gelada de inverno, recolhendo latas de alumínio que deixei pelo chão. Torna-se natural dentro da minha perspectiva, inclusive, esperar que aquela pessoa e seu saco apareçam, porque, penso eu, melhor recolhendo latas e fazendo algum dinheiro, do que me roubando. Acostumamo-nos a uma visão absurda e torpe do mundo: na qual a pretensão individualizante acaba extinguindo a própria dimensão do humano. Vivo na crença inabalável de que o que sou e/ou o que faço, basta.

Essa naturalização do comportamento individualizante, que destrói a visão "humanizadora" do mundo, cria situações em que simplesmente ignoramos (e essa expressão é a mais exata) a existência do outro. Passamos a desconsiderar que o outro, como eu, tem suas expectativas, seus sonhos, seus medos, suas angústias... Reduzimos tudo àquilo que a mim faz alguma diferença. E aí fica fácil justificar para si mesmo pessoas vivendo em favelas, um continente inteiro à míngua como a África, um celular no bolso mais caro do que três vezes o salário mínimo de três quartos da população brasileira - a noção bastante equivocada de que meu dinheiro, comprando um serviço, compra quem me oferece o serviço.

A primeira coisa que digo a todas as classes onde entro para dar aulas é: eu não sou empregado de vocês, nem dos pais de vocês, porque pagam mensalidade nessa escola; sou, no máximo, empregado da escola, a quem presto serviços como profissional liberal, portanto, em qualquer discussão futura, não me venham com esses argumentos. (Porque em algum momento eu tenho que parecer bravo - mas isso dura quinze minutos.)

Esquecer o Humano em detrimento de certas individualidades - e com isso cometer injustiças e incoerências - está na base do que o capitalismo, na forma da globalização, acaba por destruir em todos e em cada um, aos poucos. A racionalização das relações humanas, que naturaliza crueldades e torpezas, está desfazendo nossa chance de um mundo mais feliz.
Se a escolha entre defender um mundo comunista ou um mundo capitalista residisse apenas em considerar ou não a essência humana que há no outro, saber reconhecê-la e respeitá-la a todo custo, minha escolha já estaria feita há muito tempo - e sem dúvida penderia para o lado em que ter consciência de ser não significaria me isolar nessa certeza frágil e fria.

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Este texto foi escrito a partir de inquietações fomentadas por uma conversa via Twitter com o Doni há alguns dias. Expandindo horizontes daquilo que ficou bem restrito nos poucos caracteres da microblogagem.
O Bruno também gastou ali alguns minutos para aprofundar seu ponto e, obviamente, assim que o Doni escrever seu texto, ele será linkado aqui com todo prazer.

Convido aos que aqui chegarem que visitem o site da petição pelo veto ao Projeto de cibercrimes, brilhantemente escrita por Sergio Amadeu e André Lemos e assinem a dita -- na tentativa de barrar mais uma escrescência do Legislativo nacional, parida pelo senador por Minas Gerais, Eduardo Azeredo, que, entre outras bestialidades, "cria a figura do provedor delator, criminaliza o compartilhamento de arquivos e, absurdo dos absurdos, transforma em criminoso todo aquele que obtiver 'dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização do legítimo titular'" (sugado do Biscoito Fino e a Massa).

Para mais informações sobre o caso, com muito mais propriedade e profundidade, recomendo os posts escritos por amigos blogueiros Gabriela Zago, Catatau!, Pedro Dória, o pessoal do Nova Corja e o blog do Sergio Amadeu.

A votação em plenário acontece hoje, 09 de Julho, mas é sempre tempo de fazermos algo pela manutenção e garantia dos direitos constitucionais duramente (e democraticamente) conquistados.

Até o presente momento: 7275 assinaturas.

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Como um adendo ao post anterior, que falava sobre a choradeira geral dos blogueiros de aluguel, rest my case com o "Código de conduta para blogueiros profissionais", do genial André Dahmer.

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E, pra não dizer que não falei das flores: hoje se comemora o 76º aniversário do levante paulista em luta pelo fim da ditadura de Getúlio Vargas e pela instituição de um regime verdadeiramente constitucional no País.

A revolta conhecida como Revolução Constitucionalista de 1932 foi massacrada por forças oficiais federais, entre rendições e "retiradas surpresa" de aliados. Ainda hoje é possível encontrar resquícios das antigas batalhas nas encostas da Serra da Mantiqueira, onde as tropas paulistas enfrentaram a Força Pública de Segurança de Minas Gerais. Eu mesmo tenho um cartucho guardado, encontrado numa trincheira coberta por décadas de vegetação.

É um dia para relembrar os estudantes mortos nas proximidades da Praça da República, em São Paulo, durante protesto pacífico contra a Ditadura que se impunha desde o Rio de Janeiro: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza, Antônio Camargo de Andrade e Orlando de Oliveira Alvarenga, cujas iniciais formam o acrônimo "MMDCA", o símbolo da resistência durante a Revolução.

Não se contam muitas histórias fantásticas para crianças hoje em dia. Suponho que a realidade já há algum tempo tenha ultrapassado qualquer enredo criado em quartos escuros... As pessoas já não se impressionam com facilidade nem se incomodam verdadeiramente com situações graves. Às crianças, imagino, isso deve fazer uma falta tremenda. Vão desaprendendo a sonhar, os pequenos. O que é, certamente, uma pena.

Pensei nisso enquanto o guia falava sobre a chegada dos primeiros imigrantes europeus ao Rio Grande do Sul. Foram trinta e seis dias em navios, o desembarque em uma região inóspita, ainda por desbravar - trazidos por promessas que, como se viu, jamais foram integralmente cumpridas: nenhum colono recebeu as terras ou as ferramentas a que teriam direito, nenhum italiano ou alemão encontrou o paraíso que esperavam. E, no entanto, lá estão seus descendentes, plantando e colhendo, produzindo deliciosos vinhos, cantando e dançando como então. É uma história fantástica. Não hiperbolicamente falando, não é um elogio ou uma exaltação; é fantástica no sentido de que, hoje, fica realmente difícil encaixar nos cenários muitos, as dificuldades e agruras que supomos terem enfrentado. O fato de aquelas pessoas terem sobrevivido a isso e conseguido manter relativamente intactos certos aspectos culturais que os identificam mutuamente, é algo fora do comum, quase como se inventado - fantástico.

Se as crianças soubessem como tudo aquilo se deu, aposto que não teriam dificuldade em acreditar noutras fantasias.

A improvável beleza de vales escarpados recheados de nuvens que se enrolam entre as árvores me fez querer desistir de tudo e construir por conta própria uma casa como aquelas: teto baixo, toda em madeira, cercas?, uma chaminé - e me lembro de ter visto um ou dois cachorros nos lugares mais adequados. No caminho para Caxias do Sul, embalando um sono querido, vi uma queda d'água que em nada deve àquelas inventadas em clássicos ficcionais; com casinhas encarapitadas no alto da rocha, uma torrente d'água que caía com estrondo num vale escuro e florestado por pinheiros e outros tipos. Havia vapor e, posso garantir, cheiro de comida de nona saindo daquelas janelas.

"Portugueses nas baixadas, alemães nas encostas e italianos nas serranias", disse o guia, explicando a rede urbana gaúcha com um poder de síntese invejável. Flutuando entre eles, essa névoa estranha que encobre tudo e no segundo seguinte, vai embora, rápida e fria. É um frio diferente e confuso. Antes eu dizia que era um "frio mais molhado" e por isso, mais gelado. Agora não sei mais. Me confundi, me perdi nas minhas idéias sobre o que é frio e as alterações que o tornam mais ou menos gelado. No fim, me contentava com o vapor que saía aos montes, sem muito esforço, a qualquer hora do dia.

Estar em Gramado e "ser turista" talvez exija um pouco mais de paciência do que se imagina. Isso de "ser turista" não te deixa realmente conhecer o lugar visitado. Permanecer sobre a tutela de guias e roteiros cerceia a liberdade do conhecimento espontâneo e, de certa forma, mais desejável no encontro com o diferente. Ao invés de "turistar", viajar. Um viajante se dispõe aos atrasos, aos almoços simples, à pouca afetação. Um turista anseia por viver algo extraordinário - literalmente. Em função disso, exageram, excedem - na maior parte do tempo, comicamente - por encontrar respaldo das pessoas que estão ali para criar essa ilusão. No fim, são experiências.

Uma semana no Sul e ficam o sotaque, o cheiro do mate, a hospitalidade, a cerveja uruguaia na Rua Coberta, o aconchego, o carinho - e a certeza absoluta de uma memória absurdamente seletiva.

Conforme chegarem as fotos, escolho as melhores e coloco no flickr.

É claro que com uma fotografia eu poderia mostrar a rua tal qual ela se apresentava naquele momento e, a partir disso, cada um construiria sua própria interpretação da rua. Sei que fazendo assim, a própria idéia do que vem a ser aquela rua e seus detalhes seriam muitas ruas. O que certamente seria ainda mais rico.

A facilidade que há em descrever algo pouco conhecido é o caminho curto - mas que separa - entre aquilo que é (e aqui são infinitas possibilidades) e o que posso te entregar, algo tão individual e restrito.

A rua é estreita e seu calçamento são paralelepípedos protegidos como patrimônio histórico. Onde hoje transitam carros (um por vez, desviando daqueles que estacionam), há muito pouco tempo iam e vinham apenas carroças, montarias e senhoras a pé. Os motoristas costumam não gostar do calçamento (trepidação e algo sobre vida útil do sistema de amortecimento), sem muita paciência para explicações sobre como aquelas pedras acabaram chegando ali. Enquanto passam, chacoalhando, xingam baixo as autoridades e sua inépcia. (Sem dizer "inépcia".) Há pouco movimento, desde que as reformas urbanas não desviem certa quantidade de trânsito para ali; o que têm feito com certa regularidade, acabando com a atmosfera de "calma antiga" que sempre houve.

É uma rua de poucos metros; como convém a uma pequena cidade histórica. Entre morros tão íngremes e até claustrofóbicos, eram mais indicadas as ruas pequenas e estreitas, sempre que possível em linha reta, acompanhando o traçado do rio. Há apenas uma árvore que cresce perto do fim da rua, nascida entre dois prédios e cujas flores perfumam todo o quarteirão durante alguns dias.

A um lado há uma série de pequenas casas geminadas. Diz-se que eram, séculos atrás, as residências de aluguel mais barato e que foram construídas com algum esmero por um certo húngaro, "doutor de olhos", muito conhecido em toda a região, que em função disso enriqueceu e constituiu família na cidade. Escolheu para si um terreno em frente à bonita seqüência de casinhas (hoje, lojas e um restaurante requisitado) para construir sua própria mansão: um sobrado ladeado por belos jardins, acrescida de de uma capela ao fundo (dedicada ao Menino Jesus de Praga), uma pequena fonte alinhada com o portão de entrada dos jardins e cores vivas na fachada. Contam que Dom Pedro I hospedou-se nessa casa quando, em algum momento, ela passou às mãos do Barão de Campinas - dileto freqüentador da corte.

Há um senhor que sempre se senta na calçada do casarão - com ares (adquiridos, não solicitados) de dono. Todos os dias, quando o sol abaixa atrás das montanhas, ele traz seu banco e fica ali, observando com um ar de quem aprendeu a não ter pressa ou qualquer urgência. Ao passar, é possível ouvir o som do rádio vindo de dentro da casa (emissora local, pequenas notícias, anúncios conhecidos, radialista na padaria e um café fresco).

... correr pra quê?

Nessa rua, que estaria numa foto, encontrei algum sentido. Não que viva procurando por ele, mas tropecei no fato e resolvi não ignorá-lo. Bom seria descobrir se a sensação se repete noutras pessoas, noutras vidas, com outros olhos e necessidades.

Um dia trago a foto.

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É um pouco o ofício de um demônio qualquer me fazer acreditar por alguns segundos na possibilidade de encontrar, num fim de tarde intranqüilo, uma cena como essa.

Os cabelos desgrenhados, a roupa sem qualquer propósito, os olhos transbordando bálsamo, a boca num meio-sorriso... E o corpo que, num jogo de não-se-mostrar, convida ao clichê da contemplação.

Não há outra saída a não ser fica ali, olhando, exagerando, em hipérboles circulares; o mundo todo não importaria.

É obra de um demônio. Aposto que ele ri escarninho sempre que caio de alturas absurdas depois de imaginar tudo o que uma tarde fria, este sofá e uma intenção inconseqüente poderiam significar.

O disco? A voz é mais grave do que eu esperava e apenas entreouvida. Eu não consigo ficar indiferente ao fato de que é ela mesma quem canta - e, portanto, tenho opiniões confusas sobre tudo. Além disso, é Tom Waits - e por "culpa" de um exu, já não posso mais passar sem. É o primeiro. Esperemos. Admirados.

É uma foto e tem uma folha marcada no concreto. Imagino que quando foram fazer a calçada, que está em Toronto, a folha caiu inesperadamente naquela retidão toda do concreto e lá ficou, porque ou isso ou pisar no trabalho recém-terminado e ter que refazer tudo. É o resultado de uma preguiça e é atestado de que nesse mundo, o pouco que se pode, e é mesmo muito pouco, fica pequeno diante da ação de um caos extremo que nos governa.

A tentativa é prever e antecipar o caos. A idéia é conduzir nossa mente (igualmente caótica) a ações racionais, que, pré-ordenadas, encontram-se no limite entre o possível e o permitido. E, de onde?, vem uma folha que cai no concreto fresco de uma calçada em Toronto e põe tudo abaixo. Tudo, absolutamente tudo.

Da mesma forma, num exercício de raciocínio, o absurdo de construírem caminhos cimentados por onde andar. Não vou passar por ali, se há uma alternativa melhor -- sei disso. Mas a tentativa é domar esse impulso algo incontrolável. E caminhar pela grama, a partir desse momento, torna-se grave, desaconselhável - em certos casos, proíbe-se com uma placa. As alternativas - "caminhos sociais" - vão surgindo: sinuosos, "errados", ignorando a racionalidade que se impõe de alto a baixo.

A mesma racionalidade que é imposta a tudo, a todo momento - e faz convergirem nossos pensamentos essencialmente libertos de qualquer amarras a uma forma de agir, a um procedimento, a "o certo"; em detrimento de opções. E este, saiba, é um mundo de opções; e somos essencialmente livres para optar. Construir caminhos cimentados, convergentes - quanta crueldade.

De modo que, por estranho que seja, por proibido que seja, por errado e condenável, caminho pela grama.

Mi compás político, compay -- a bússola que me leva longe, adiante, alhures; infinito mar azul (ou vermelho, não sei bem) que se abre diante de mis ojos incrédulos diante da realidade que se me apresenta.

É ao lado de Nelson Rolihlahla Mandela, de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a madre Teresa de Calcutá e de Llhamo Döndrub, o 14º Dalai Lama, que me encontro com um sorriso enigmático. Simpáticas companhias em um lugar bastante agradável dentro do compasso desta dança que felizmente não danço sozinho.

Descreditando a autoridade a mim concedida como professor (confuso: "confusor") de algumas crianças, não fazendo uso do poder que esperam que eu exerça, sigo acreditando -- e não vejo muitos motivos pra mudanças -- que enquanto uns quantos forem donos de tanto e tantos outros (tão despossuídos) estiverem subjugados a sistemas de poder que se apropriam de suas liberdades, condenando-os às misérias humanas mais vis e à barbárie em que a vida humana se transforma nesses casos extremos, há que existir quem se posicione contrário a isso. Gritando, fazendo barulho e dando trabalho.

E portanto, eis-me aqui, senhores.

Tenho uma tendência a não desmerecer produções culturais de qualquer gênero. O que é fruto de um caldo social específico, precisa ser compreendido em função dessa especificidade. A volta gigantesca que minha cabeça dá para aplicar essa noção ao funk carioca, ao "pagode romântico" (e que medo dessas palavras assim juntas), ao "sertanejo universitário" e afins é digna de um prêmio. Mas é assim que funciona. Essas, bem, essas coisas não aparecem espontaneamente -- têm um sentido, um nexo, uma razão; quem sabe, em alguns casos, até uma função bastante clara dentro da realidade em que se desenvolvem... É, portanto, pouco cuidadoso ignorar esses fato e meramente desqualificá-las. É óbvio que são produções mais simples; compará-las a grandes obras é até injusto. Mas até mesmo esse aspecto pode ser devidamente compreendido se por alguns segundos pararmos para analisar a coisa toda.

Agora, tenho uma convicção muito forte que quero compartilhar aqui. Acredito piamente que se todos tivessem direito a uma "cota Radiohead" e fossem devidamente apresentados à banda, este mundo seria muito melhor do que de fato é. Uma música por dia, não mais do que isso -- e ouso dizer que as coisas seriam diferentes.

É impossível ficar impassível diante deles. No vídeo abaixo, Thom Yorke e companhia fazem uma "apresentação verde" no programa de Conan O'Brian. "Verde" porque, ao invés de os caras voarem até Nova York (e sujarem mais um pouco as coisas todas), resolveram gravar a participação diretamente de Londres. A música, "House of Cards", está no último disco, In Rainbows, lançado este ano -- e disponibilizado através da internet, inclusive para download gratuito.

Aumente o som, esqueça da vida e aproveite o som da melhor banda do mundo.

Escrito na folha de rosto de As cidades invisíveis, de Italo Calvino.

Este livro é pra que você poupe o céu de seu levantar de rosto, de seu franzir de cenho e de seu olhar inquiridor e errante sobre as nuvens.

É pra você poupar o céu de fitar teu rosto franzido. É pra você voltar os olhos para baixo e inquirir Marco Polo e Kublai Khan. Este livro é pra que você possa descobrir (absolutamente) todas as cidades possíveis e impossíveis grafadas sobre o mundo.

Mas vá lá que, talvez, ao ler a descrição de uma ou outra cidade, você acabe, novamente, por voltar o rosto pro céu e inquirir nuvens. Talvez seja por isso que você deva ter este livro.

Um presente da Fernanda, que veio com o livro junto.

Geografias fantásticas nos relatos de Marco Polo ao imperador dos mongóis. Cidades de desejo e de memória. Porque cidade é algo apaixonante; o veneziano sabia disso, o khan descobriu prontamente. Tenho a impressão de que estudá-las exige toques sutis de poesia -- poesia do concreto, poesia de sentir. Não concebo compreender cidades sem procurar pelo que não está expresso. Já disseram sobre as intenções que moldam o espaço (os objetos ficando não necessariamente onde deveriam, mas onde querem que fiquem); vai além.

Um cruzamento de avenidas, não é apenas isso. Pra descobrir o além (e eu acredito que seja esse o grafar de que se constitui o "termo geográfico"), não basta ter olhos para o que está impresso; porque é preciso perceber o cruzamento de avenidas no entendimento da moça que está ali, na janela, observando a criança que vende balas no farol, enquanto conversa com um amigo ao telefone e lhe descreve a cena. Nesse enredo, nesse novelo -- é aí que está a geografia que eu quero, que eu acredito existir.

Numa aula rápida sobre polonês hoje aprendi como ler "Ę", "Ą" e que, pra dizer tchau, é só escrever "ćał". Numa aula rápida sobre polonês, se dermos sorte, sempre é possível entendermos um pouco mais sobre como, no fundo, somos todos parecidos. Um mesmo instinto curioso que movimenta o mundo por baixo do verniz. O polonês que me ajudou a ver isso não tinha idéia do que encontraria aqui quando saiu de Koszalin há quase um ano. Veio animado por imagens que pouco correspondiam à nossa realidade, mas que explicava o Brasil aos poloneses.

O que há de impressionante nas descobertas que faço enquanto ouço o polonês é muito parecido com o que há de incrível no que a Larissa contou hoje. A geografia criativa, uma idéia de um teórico da linguagem do cinema - que te leva a Roma, numa caminhada entre Paris e Nova York, ao invés de ao fundo do Atlântico -, é a geografia que paira na imaginação das pessoas de um jeito muito semelhante a como desde sempre. Apesar dos tempos, de tecnologias de informação, de GPS no carro, de Google Earth, de uma propaganda pesadíssima sobre a "aldeia global", a imensa maioria das pessoas mantém uma relação distante com os lugares que estão além do habitual. Poucos sabem realmente o que está "lá" - especialmente quando o "aqui" é confortável, conhecido, familiar.

Numa perspectiva que passa pelo polonês, pelo teórico do cinema, pela esquina incógnita, por atravessar barreiras, penso o "ser geógrafo" como algo ainda envolto num mistério antigo; sou aquele que existe para acabar com os "estereótipos geográficos". Aquele que te conta certas peculiaridades distantes com a intimidade de quem vive diversos cotidianos. O "grafar" ao qual me disponho não é mais o mesmo a que se dedicaram tantos outros antes de este mundo se tornar um único ecúmeno¹. Hoje já não preciso de grandes descrições de um todo amplamente conhecido - me ocupo em compreender como as partes se relacionam entre si e com esse todo.

Às outras pessoas, no entanto, a relação que permanece é com seu entorno. Quanto mais distante estiver o "lá", mais imaginação entrará no processo que cria a imagem do tal lugar. Mesmo hoje; mesmo depois de tudo - caravelas, séculos, guerras, internet -, o que o outro representa para nós é feito em grande parte da mesma imaginação que permite Roma entre Paris e Nova York. A Polônia não existe, a não ser como resultado das histórias de Koszalin que ouço, da atmosfera que algumas músicas criam, do "ćał" que pronuncio com o sotaque de um país que do ponto de vista dos poloneses, igualmente não existe por si.

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¹ 1) diz-se de ou área geográfica que é permanentemente habitada pelo homem; 2) o todo em oposição às partes; o geral, o universal.

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