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o único prédio em que se nota algum silêncio e pessoas dormindo aqui em volta tem o nome duvidoso de Edifício Stella Luiza. parece ser um conjunto antigo, porque chama-se "edifício", mas tem apenas três andares, além do térreo -- com uma porta simples, que dá direto para a calçada. os prédios dessa região de São Paulo são antigos, em sua maioria. subindo essa mesma rua (vindo da Pedroso de Moraes) existe um portal onde se lê -- ironicamente -- "Vila Sossego": uma rua com muitas casas pequenas (como antigamente predominavam por toda cidade) que dá de cara com uma das vias mais movimentadas e caóticas em muitos quilômetros.

nos outros prédios, muito mais altos do que o mirrado Stella Luiza, algumas janelas acesas. poucas. as torres parecem enfeites de Natal com defeito. aqui e ali se notam sombras e reflexos de uma televisão ou um computador ligados. enquanto olhava, não vi pessoas.

a rua (e suas travessas) estão silenciosas. na medida do possível. ainda resquício do ano novo. é uma cidade ainda acordando pra loucura que lhe significa.

não vejo pessoas mas as adivinho resultados de tudo o que lhes faz (e fez) rir e chorar, ao longo da vida. exatamente como eu. ainda há pouco chorando ao lembrar de uma das minhas histórias revivi a sensação que me acompanhou durante muitos meses após o acontecido; me sentia a pessoa mais triste do planeta, único ser humano a carregar sobre os ombros toda a dor da vida. tive que rir da minha ingênua pretensão.

I'll tell you all my secrets, but I lie about my past.


São Paulo é um lugar especial pra quem deseja seus horizontes ampliados, suas ilusões rasgadas, seus delírios concretizados. é um lugar duro e rude. não te convida, não te afaga.

(

às quatro e quinze da manhã, pessoas que acordaram muito tempo antes estão zumbis nos ônibus que sobem -- um atrás do outro -- esta mesma rua. em qualquer dia. sob qualquer condição essas pessoas têm que estar onde quer que seja antes de eu mesmo pensar em me levantar.

)


é óbvio, hoje:

nunca fui nem serei diferente de quem está acordado, na torre ao lado, assistindo à televisão, a um filme, vendo pornografia na internet, chorando. há o mesmo em todos, algo que nos identifica, que nos torna parte de uma mesma história sarcástica e irônica.

(

pense em quem mora na Vila Sossego e a ironia, não só da cidade, te dá um tapa.

)


ano que começa com apenas uma opção: EPIC.

por enquanto,

let me fall out of the window with confetti in my hair
deal out Jacks or Better on a blanket by the stairs
I'll tell you all my secrets, but I lie about my past
and send off to bed for evermore


a quem já cantou essa canção comigo, bêbados pelas ruas de uma cidade qualquer; a quem já ouviu essa canção comigo numa noite qualquer; a quem amaldiçoou a vida comigo ouvindo essa canção; àqueles em quem tropeçarei, ao longo da vida, ao som dessa canção: happy fucking new year.

a Cidade ela é o espaço das diferenças. e da expressão dessas diferenças. tanto quando o diferente está na quantidade de dinheiro (e aí são casas com 30 cômodos e barracos de compensado), como quando a diferença são formas de compreensão da sociedade completamente opostas.


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o que define a Cidade é o e. não é um espaço de ou. estamos ali, todos juntos e se alguém resolve expressar sua condição, sua (in)diferença, seus anseios, todos vemos. expressar-se, na Cidade, é necessário. o desconforto, quando causado, é benéfico.

isso jamais será vandalismo. a não ser que queiramos uma cidade asséptica, não-humana, esvaziada daquilo que lhe dá vida. uma Cidade sem pessoas, não é uma Cidade. e pessoas sentem; precisam expressar o que sentem. pintam pequenos postes com feições de deuses africanos. o por quê? que se invente o porquê.


é vida. é o pulso da Cidade. é arte porque é necessário.

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thiago gonçalves

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