como reflexão e conclusão à leitura deste post do O Primo, logo depois desse do Brigatti, e até esquinando nesse do Cardoso, me presto à seguinte conclusão pública:
eu não quero saber o que você me indica. o que você viu, ouviu, provou e gostou. cultura, mas provavelmente outras coisas também. produtos.
isso de uma maneira geral, claro, apontando pra um "você" misturado à turba de coelhos sorridentes, branquinhos, multiplicando-se ad eternum. é evidente que a opinião dos eleitos (amigos de gosto parecido/semi-estranhos inteligentes e razoáveis - cada um tem os seus) segue sendo uma das melhores maneiras de se filtrar o jigo do troio. principalmente em tempos de jornalismo cultural lobbista e asséptico. mas também está bastante claro que o hype, junto do senso comum, atinge níveis inimagináveis, e insuportáveis, de gritaria, esparro e ruído na sociedade em rede - onde não basta, simplesmente, parar de ouvir rádio FM ou ler jornalão/revistinha descolex.
por isso, não me diga o que você gostou. eu quero saber é do que você NÃO gostou. não aceito elogio sem machadada junto. se não tiver viés crítico, é melhor não dizer nada do que alimentar a BESTA.
ninguém faz outra coisa a não ser falar de tal filme há três meses? não vou ver. tal banda é o que há de mais incrível nos últimos anos e já vendeu x milhões de cópias? não ouço, tô fora. faço questão de não fazer parte disso. de não saber e não ventilar mais do mesmo. "ah, mas tem que conhecer pra poder criticar etc". desde quando? se tem gente aos borbotões elogiando sem ter consciência crítica, ou sem nem ter visto ou ouvido de qualquer modo o objeto em questão, porque eu não posso virar as costas pra o que eu sei que não me acrescenta nada - ao contrário, me rouba tempo, vida, paciência e pila?
Brigatti chama isso de ditadura do "legal, né?". é feio criticar, botar dedo na cara, até mesmo dizer quando é uma porcaria e não vale o hype artificial. aquela banda que recria o rock agora, de novo? "ah, mas é legal". tal filme com 200 milhas em marketing? "ah, é legal, deixa de ser pentelho" etc. legal? pergunta por quê, pra quem, e espera pra ver se tem mais de duas frases de justificativa. e se transbordam um PIR¹.
sabe, é preciso gostar menos das coisas. sério. se uma massa representativa na população do planeta levanta um polegar, desconfia. se levantar os dois polegares, melhor cortar as mãos antes de ser cooptado. não pode estar certo. claro - quem quiser pode viver na segurança do mundo pasteurizado, do louvor ao médio, daquele sentimento de pertencer social em cada comentário inócuo de disco, livro, novela, filme. como quem fala do tempo ou de doença. cada um faz o que lhe apraz.
mas a própria existência ganha meio mílimetro de profundidade a cada vez que se exerce a crítica. feroz, sem concessões fáceis. negar três vezes. esquecer tudo que se sabe a respeito do objeto e olhar a cena de fora; apontar o que surgir de ridículo, de acéfalo, de mal intencionado. sem constrangimento. a crítica não isola - é libertadora.
[sim, a liberdade, por sua vez, caminha com o isolamento. mas isso é outro papo.]
a massa acrítica engole e digere aquela que é crítica. reagir é chato, e muitas vezes é ser o chato. mas é isso, ou é raspar a cabeça, subir numa torre e metralhar transeuntes. o oposto da massa crítica é a misantropia, e se tudo continuar desse jeito, vou ser Urtigão, me fechar num fim de mundo e usar a garrucha contra qualquer um que se aproximar do meu portão.
_______________________________________
¹ no interior do RS, singular de "pires" é pir.
imagens: the original illustrated catalog of ACME products