sete belo

Beijo ela ou não beijo?

Posso sentir a respiração. Ela tá do meu lado, deve estar virada para mim, talvez de olho fechado. Beijo? Mas que merda, nem tenho coragem de mover meu rosto na direção dela. Será que não é pra eu dizer alguma coisa?

A luz podia voltar, né?

E se eu colocar a minha mão na perna dela? Se ela reclamar, digo que foi sem querer; se não falar nada, é porque é pra eu beijar mesmo. Mas e se ela gemer? Aí é certo que ela quer. Só que se ela quiser muito, a expectativa deve ser grande e...

E se ela não gostar do meu beijo? E se eu decepcionar?

Que viagem. Imagina que a guria vai gemer.

Eu também, pô, devia ter treinado mais. Vi a mana dando beijo no box do chuveiro dia desses. Achei meio nojento. E de mais a mais eu já tenho experiência, já fiquei com a Bruna e com a Fê. A maioria da turma só ficou com a Bruna.

Se bem que também não é coisa de homem ficar nesse vai-não-vai, né? Eu sou homem ou refrigerante? É isso, azar, vou virar e dar um beijo nela, vou deixar ela sem fôlego, vou deixar ela apaixonada por mim. Ai. Um, dois e...

Dooooois...
Dois e meio.
Um, dois.
Um, dois e -


***


-- Foi só um selinho.
-- Mas foi legal?
-- Sei lá, foi rápido, foi... só um selinho.
-- E porque não continuou, burra?
-- A luz voltou bem na hora! Aí a gente abriu o olho e tava lá, um de frente pro outro, de boca colada, sei lá, acho que ele tava até com a mão na minha coxa...
-- Ficou com vergonha? Ah, Elisa...
-- Fiquei, pô, fiquei, sei lá!
-- Mas gostou ou não gostou?
-- Acho que gostei... tipo, eu sonhei com ele, sabe? Essa noite.
-- Sonhou com beijo?
-- Arrã. De língua e tudo.
-- Bah. Beijo de língua é tri bom.
-- Cala a boca, tu nunca deu beijo de língua.
-- Tá, e aí? Se fosse ruim ninguém fazia, né?
-- Que gosto será que tem?
-- Vai saber... gosto de língua...
-- Ui! Sei lá, gosto de língua deve ser estranho!
-- É, né? Mas deve ser tri bom. Ah, Elisa, tu vai ter que me contar!
--- Tá, tá... Será que ele vai querer ficar comigo de novo?
-- Sei não... Ele pode pensar que tu não gosta de beijo de língua.
-- Mas como é que ele pode saber? Ele não me perguntou! Ele não tentou, pô!
-- De repente ele ficou esperando que tu botasse a língua na boca dele...
-- Pois era só o que me faltava! Se ele tá achando que eu sou que nem a Bruna, que fica ensinando beijo pra tudo que é guri na casinha da árvore, tá muito enganado! Eu não sou assim.
-- Ai, que ódio daquela guria! Até o Michel ela agarrou.
-- Até o Michel! Nem sabia que mórmon beijava.
-- Ó, ele tá vindo!
-- Onde?
-- Ali, ó, perto do bar! Colocando umas balas no bolso, tá vendo? Ai, eu vou no banheiro!
-- Pô, não me deixa sozinha! Vai parecer que eu tô esperando ele!
-- Ai, Elisa, não viaja!
-- Fica aí, droga! Se ele chegar aqui no banco, aí tu sai!


***


E ela tá ali mesmo. Bem onde os guris disseram.

Vou ou não vou? Que saco. Pior que eles continuam ali atrás me espiando. Se eu não for, vou ouvir flauta o resto da vida.

E aquela amiga grudada nela, sempre? Saco. Ou não - numa dessas até facilita. É mais fácil de puxar papo... Mas periga essa amiga ficar me analisando... ou pior, elas vão ficar cochichando sobre mim! Ih, já tão cochichando. Demorei pra ir. Ei! Não! Espera! Ah, a amiga foi embora...

Bem que podia faltar luz. Umas nuvens de chuva, bem pretas, tapando o sol...

O que é que eu vou dizer pra ela? "Oi Elisa tá estudando pras provas?" Ela vai achar que eu só penso em estudar... "Oi como cê tá bonita hoje!" Ela vai rir na minha cara. Se ela rir eu desapareço de vergonha! Pior, e se ela for embora quando eu chegar? E é melhor eu tentar pontuar as frases.

Os guris não saem dali, merda!

E se eu conseguir beijar ela de novo? Será que eu dou beijo de língua? Com todo mundo olhando? E se passar uma freira bem na hora? Bah, vou levar bronca da orientadora no SOE! Vou ter de levar bilhete pra casa, meu pai vai ter que assinar! "Seu Geraldo, o Luciano tava de agarramento no recreio"... Ei! Isso pode ser legal! Tô vendo o pai me dando tapinha nas costas, contando pra todos os colegas do trabalho que o filho dele já começou a aprontar...

Eu tô viajando. Ela nem me olha! Nem me viu aqui! Decerto nem lembra mais quem eu sou! A gente nem é da mesma turma, numa dessas até já ficou com outro guri! Ah, não vou lá não, vou acabar fazendo papel de idiota. Que é o que eu estou fazendo agora, inclusive.

Que merda. Que merda. Porquê que eu tenho que lembrar do Vô José nessas horas? Ele é que sempre me perguntava, "Tu é homem ou coca-cola?"

Um, dois e.


***


-- Morango.
-- Como assim, morango?
-- Sei lá, oras, morango. Acho que foi por causa da bala que ele tava comendo.
-- E aí, e aí, é... bom?
-- É estranho. Mas... morango.





3 ago 2003

junino, soy contra? // bereteio

piá

vocês até podem me fantasiar, mas não significa que eu vá me divertir.
(carnaval também acontecia. consegui evitar registros fotográficos.)


índole.


não gostava da roupa típica, me sentia ridículo. e pior ainda quando vinham me fazer bigode com rolha. ficava parado a contragosto, me sentindo besta. porque diabos tenho que seguir o código -- ou mesmo estar lá? ainda não quebrava tudo, mas me negava a participar. como aquela vez em que a professora da segunda série embestou que o cartão de dia das mães tinha que ter um beijo a batom na capa, não importando que houvesse meninos na turma e que eles teriam que fazer o mesmo que as meninas. não teve protesto que as impedisse e minha única forma de resistir foi não fechar os lábios jamais, deixando uma mancha de saliva borrada em cor no papel e indo até o banheiro de boca escancarada até limpar aquela goma nojenta.


colégio de FREIRA, claro. tudo muito pedagógico.


~.~


o que me leva a Jayme Caetano Braun, e se hoje me cai bem a bombacha, é porque, já crescido, escolhi louvar avô e avó Severo, Alegrete e Bagé:


Porque na rinha da vida
Já me bastava um empate!
Pois cheguei no arremate
Batido, sem bico e torto ..
E só me resta o conforto
Como a ti, galo de rinha
Que se alguém
dobrar-me a espinha
Há de ser depois de morto!

Galo de Rinha


~.~


e relacionado/não relacionado, bereteio, pertinente:



A mimosa curvatura
Desse teu corpo moreno
É o pago em ponto pequeno
Feito com arte divina,
E o teu colo que se empina
Quando suspiras com ânsia
São dois cerros na distância
Cobertos pela neblina.

China


~.~


das identidades.

a pangloss

"-- Je suis toujours de mon premier sentiment, répondit Pangloss;
car enfin je suis philosophe; il ne me convient pas de me dédire."

Voltaire, Candide, ou l'Optimisme




se tudo que pode haver
          há em seu melhor
se o que dói está vivo
se em tudo há virtude
          ainda que sem alívio


se o que resta é expirar


se em breve se ajeita,
se é no andor da carruagem
se basta --
          escolher esquinas
          e contemplação


se há traçado


então não é solidão, é só o vento sul
então não é tristeza, é só uma inverdade mal mastigada
não é melancolia, é que essa roupa não fica bem
saudade?
          soluço, música que gruda na cabeça


se determinado


então nem é existência
          remete a pilha de polaroids
nem é poesia -- parece mais escrita na areia
não passa de simulacro
          então deve ser cinema


se aprisionado em destino


os momentos de onirismo,
          que fiquem
calcificados como anéis
nos nós
          dos dedos


mas se há dúvida, duvida


se nisso tudo
interferir
          vontade
melhor com alarde
até desespero


se palpitação liquefaz certeza


viver no pior dos mundos
          -- tempo em tempo --
é melhor que morar na mediandade
e aguardar
          da morte um exagero


18/05/09

sol, café (= bom)

dino flare

window/tree

café

aygn update _ couleur: soustractive

também publicado aqui


capa

contracapa

clique aqui para baixar (ou ouça no seu browser)




esse é o primeiro no par de EPs programados para este ano. começou "some colors", hesitou em "margot tenenbaum" e acomodou-se em "couleur: soustractive". mantive a questão das cores, mas -- - -- em muitos momentos não consigo fugir do dark ambient. (margot é uma questão de culto, mesmo.) donde acabou tornando-se ainda sobre tonalidades, mas não objetivo, demonstrativo; mais para questionador. não abrindo uma palheta sonora para que o ouvido (e a sugestão) trabalhassem alguma sinestesia, mas orbitando sobre a captura da cor.

recentemente comecei a usar também guitarra, além do computador. instalei uma interface Fast Track Pro (e o instrumento mais barato que achei, mais uns plugins vst freeware para efeitos). em algumas faixas desse EP já inseri alguns loops. (eye water (overcast) é claramente inspirada em Labradford). ainda não sei o quanto isso deve interferir nos próximos trabalhos. depende do quanto eu continuar ouvindo Aidan Baker e Marsen Jules.

ainda sobre referências, acho até curioso que sigam as mesmas desde o princípio, embora o resultado nunca saia o planejado. miro Colleen e Loscil, acerto em Marumari e Cex. ainda assim não consigo comparar diretamente o aygn com qualquer outro projeto -- e eu acho isso necessário, antes de bom ou ruim.


de resto, espero que vocês ouçam! gostar é outro papo (e grande alegria). e todo feedback é o essencial combustível. depois de ouvir, doe três minutos para bereteando arroba gmail.com. ou via last.fm / trama virtual / myspace.


o/

a essa altura, a maioria dos leitores do berê já está sabendo da polêmica envolvendo o blog da Petrobras.


caso não, segue uma pergunta inocente, como introdução, à vestibular:

1. Dado que Jornal de Grande Circulação envia perguntas para Grande Empresa com o intuito de realizar uma reportagem, assinale a alternativa que se apresenta mais correta.

a) Grande Empresa pode divulgar essas perguntas da forma e no tempo que quiser.
b) Grande Empresa pode divulgar essas perguntas -- e mesmo as respostas -- da forma e no tempo que quiser.
c) Grande Empresa só pode divulgar as perguntas após a publicação da peça jornalística.
d) Grandes Corporações de Qualquer Espécie devem ser combatidas.
e) O jornalismo morreu.


~.~


1: a Petrobras criou um blog, e nele divulgou perguntas que lhe foram enviadas por jornalistas do Estadão, O Globo e Folha de SP antes da veiculação das notícias. (letra B)
2: a atitude provocou imensa repúdia destes veículos, da Associação Nacional de Jornais, da ABRAJI e de muitos profissionais do jornalismo. (letra C)
3: a grande maioria das opiniões "leigas" discorda frontalmente dos queixosos, e recebe a iniciativa positivamente -- julgando que quanto mais informação houver, melhor aparelhados estamos. (também tem os que não tão nem aí pra isso, mas vibraram por revanchismo contra a "imprensa-golpista-de-direita-que-é-vista-como-governista-pela-oposição" etc. mas não precisamos desse viés.)


~.~


pergunto por e-mail ao amigo Brigatti, jornalista, o que ele pensa sobre o episódio.


Estamos diante de um fato inédito. O comum é jornalista vazar informação que conseguiu com alguma fonte. Agora, fonte vazar informação que concedeu a jornalista é algo totalmente novo. Eu diria até surreal.


A Petrobrás, via blog Fatos e Dados, afirma que as informações que passou para os jornalistas do O Globo e Folha de S. Paulo são públicas. Tá certo. Só que os caras tiveram que formular as perguntas certas para obter o que queriam, e isso é mérito deles. O que blog fez ao publicar as respostas enviadas para os repórteres, foi tão somente prejudicar a matéria deles entregando o que estavam fazendo para a concorrência.

É como na história do Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Só tinha acesso à caverna onde estava guardados os tesouros quem soubesse a palavra mágica. E os caras d'O Globo e Folha tinham essa palavra mágica. Tinham o know how, a manha, a expertise de extrair a informações que lhes era mais útil. O tesouro, então, é deles. Não se pode, depois que os caras conseguiram, tornar pública sem mais nem menos a palavra mágica!

O que vejo, portanto, é pura e simples sacanagem. Alguém que queria que a matéria deles fizesse água. E conseguiu, pelo visto.


~.~


outro amigo, Sergio Leo, escreveu assim em seu blog:


(...) Fazer essa divulgação antes que a matéria seja publicada é trair o pacto de confiança que levou o repórter a revelar, antecipadamente, as informações que tinha, ao acusado, e só a ele.


Se o jornalista sabe que tem uma apuração importante, e que a revelação de suas informações ao denunciado fará com que ele vaze esses dados antes mesmo que o jornal possa publicá-los, na tentativa de esvaziá-los, de reduzir o impacto do furo, ele vai relutar em fazer essa checagem. Apurar com o acusado passa a ser o mesmo que divulgar a matéria antes que ela possa ser feita. Abrir a pauta para todo mundo.

É o que a Petrobras parece estar pretendendo. Mostra aos jornalistas que toda tentativa de checar uma informação exclusiva com a emrpesa converterá essa informação imediatamente em comoditty informativa, dado comum, coletiva de imprensa. Pergunta-se, como sempre se fez, sob compromisso de sigilo, à assesoria de imprensa, e lá se vai o furo.


~.~


checar furo com assessoria de imprensa? sempre achei que jornalismo investigativo ou reportagem recheada, bem-feita, dependesse mais do insight do jornalista e de conversas ao pé do ouvido do que informações solicitadas via assessoria -- que, a rigor, deveria dar a mesma informação pra todo mundo. ainda mais em caso de empresa pública.

mas isso é só o meu achismo.


~.~


a nota da ANJ não ajuda muito -- se nada -- no debate.


Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.


perdão, ANJ. mas eu nunca ouvi falar que fonte tem obrigação de confidencialidade com o jornalista. só o contrário -- que a inviolabilidade do sigilo da fonte é um dos pilares da imprensa livre. pelo jeito, não estou errado; Pedro Doria (que teme que a atitude da Petrobras possa acarretar no enfraquecimento do papel do jornalismo na democracia) abre assim seu post sobre o assunto:


Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.


então quebrou-se um "acordo de cavalheiros?"

copio Leandro Demori:


(...) Jornalistas, aliás, quando acham que o furo vale a pena, fritam a fonte no George Foreman Grill - não deveriam se espantar, portanto, quando a brasa pega fogo do outro lado.


Isso se aplica também na parte sobre "entregar os furos ou informações exclusivas" obtidas pelos jornalistas ao divulgar as perguntas. Pode ser uma tremenda implosão no relacionamento, mas continua sendo do jogo. Além do mais, me espanto em saber que tem gente por aí entregando "furo" em perguntas via e-mail.


e nessa mesma linha, o ponto de vista de Alex Castro é definitivo:


Sérgio Leo lamenta que a atitude da Petrobras pode quebrar uma certa relação de confiança ou um acordo tácito, que ela tem com a imprensa. Ele usa a palavra "compromisso".


Oras, pois é justamente isso que estou celebrando.

Como representante do público-(e)leitor, não confio nem na mídia e muito menos na assessoria de imprensa de qualquer empresa. Igualmente, não acho que um tem que confiar no outro. Pelo contrário, para a sociedade, é melhor que não confiem e tenhamos acesso ao discurso de ambos.

A Petrobras não tem nada que confiar na imprensa. A imprensa não tem nada que confiar na Petrobras. Não devem haver acordos tácitos ou relações sigilosas entre a mídia e a Petrobras. As relações entre eles devem ser públicas e transparentes.

Daí a celebração.

E, não, eu não acho que a imprensa é toda canalha, ou que ela tem que acabar, ou que a Petrobras é santa, etc, nada disso. Eu apenas quero poder ouvir todo mundo. Antes, eu só ouvia a imprensa. Agora, eu também ouço a Petrobras. Antes, pra saber da Petrobras, eu precisava ler a Folha ou o Globo. Hoje, posso ir direto à Petrobras.

Daí a celebração.


~.~


o blog da Petrobras lida com informação e com a imprensa. publica correções ao veiculado na grande mídia -- inclusive as cartas que envia pedindo reparação. não significa verdade, mas ao menos é a versão da fonte por completo, sem edição. é um blog corporativo, instrumento usado por um Setor de Comunicação, e não se espere que seja desabonador ou "isento". nada disso, no entanto, diminui a responsabilidade e o compromisso que uma empresa tem ao divulgar seus dados -- seja "sob sigilo até publicado" ou abertamente.

mas "chapa-branca" ou não, a verdade é que a maior estatal brasileira encontrou não uma nova ferramenta, mas uma nova forma de lidar com a informação. não é "fazer um blog", mas adotar a linguagem e a agilidade deste canal não-mediado para comunicar-se com seus públicos -- dar uma atenção que a blogosfera pode (e parece disposta a) absorver, e posicionar-se institucionalmente frente à imprensa.

nesse caminho, rompeu um tabu. entendeu que era seu direito publicar toda e qualquer informação -- incluindo os questionamentos dos jornalistas. com a justificativa de que aumenta a transparência e o arsenal do público para realizar uma leitura crítica das notícias. teve como motivação a tese do Brigatti, tem como fim o panorama descrito pelo Sergio? tem razão os jornalistas de sentirem-se prejudicados, para além do orgulho próprio, neste evento?

é o de menos. se a iniciativa da Petrobras mostrar-se firme a longo prazo, e popularizar-se, o que temos é um momento de quebra de paradigma. não o da possibilidade da prévia divulgação de perguntas -- esse eu nem sabia que existia; mas o da reordenação de pesos entre fonte e jornalista no processo informacional. "transparência" é uma palavra que já foi castigada pelos cínicos, mas é exatamente disso que se trata. e é nessa direção que precisamos ir.

a novidade vai exigir dos jornalistas (mais) uma adaptação de conduta; mas se a finalidade da imprensa é levar informação, o bom jornalista seguirá encontrarando caminhos para fazer bem seu trabalho. sinceramente me parece muito barulho por nada, mas respeito; ao que parece caiu um mito. e sem sobreaviso, sentiram-se enganados, é justo que estejam com o orgulho ferido. mas, no plano da prática, que adaptem-se.


apesar do sarcasmo e do exagero, mais ou menos como testemunha Jones Rossi, da Nova Corja:


Então, aproveitando este espírito de transparência suprema, comemoro a nova era estabelecida pela assessoria da Petrobras, que jamais teve a intenção de acossar jornalistas e estragar a apuração prévia. Afinal, se você é jornalista, trabalha sério e consegue informações exclusivas, por que não torná-las públicas via blog da Petrobras, para toda a concorrência ver? Esse negócio de sigilo é tão pré-twitter, tão pré-iPhone apps. Vamos evoluir, gente.


~.~


vale ressalva: a publicação das perguntas no blog da Petrobras não significa o "fim da imprensa manipuladora". nem o uso da notícia com fins políticos. não é panacéia para o mal da desinformação, assim como não vai causar a implosão do jornalismo como o conhecemos.

é só uma nova jogada.


~.~


para que não se enquadre em "jornalistas" apenas contendores, temos os exemplos de Luis Nassif e Luis Carlos Azenha, que louvaram a atitude. o primeiro comemora o "fim da era das perguntas em off", e Azenha vai mais além, elencando 10 respostas para a pergunta "Por que os jornais investem contra o blog da Petrobras?" A primeira delas é "Porque perdem o "monopólio da informação" e, com isso, autoridade sobre o público".


~.~


não há em nenhum dos eventos diminuição alguma ao Jornalismo. se a Petrobras usa um canal "informal" para veicular o que lhe interessa, tanto mais precisaremos de boa apuração jornalística para confrontar e cruzar dados. se essa apuração vai dar-se em um processo totalmente transparente no lado da fonte, não me parece que o público -- que afinal de contas é o único que interessa nessa história -- saia perdendo em qualquer aspecto.


MAIS INFORMAÇÃO = BOM;
qualquer tentativa de controle da informação = fracasso instantâneo ou iminente.


~.~


¹ saiba mais:
Petrobras Fatos e Dados
O blog da Petrobras e o desespero da mídia, Biscoito Fino e a Massa
Por que jornalistas experientes fingem não ver que a Petrobras age errado?, Sitio do Sergio Leo
A Petrobras e a Imprensa Golpista, Pedro Doria
Petrobras acossa jornalistas por causa de CPI, Nova Corja
A Petrobras Entendeu a Internet, Liberal Libertário Libertino
Agora o blog da Petrobras, Leandro Demori
Para jornalistas, no dos outros é refresco - Marcelo Träsel
Petrobras entra na blogosfera e enfrenta oposição de grandes jornais, Observatório da Imprensa
O Globo se supera e diz que perguntas são propriedade do jornalista, Túlio Vianna
Blog da Petrobrás: crítica à mídia ou manobra política tática?, Jorge Rocha
A Luz do Sol, Leandro Fortes
O blog da Petrobras, Claudio Abramo


~.~


update, 10/06:

o blog da Petrobras anunciou uma alteração em sua prática de publicar as perguntas antes da reportagem:


Perguntas dos jornalistas e respectivas respostas da Companhia continuarão a ser publicadas no blog e, a partir de hoje, por volta das 0:00h do dia da publicação da matéria, data que normalmente é informada pelo jornalista.


ainda não vi reações, além de uns poucos tweets; a maioria deles lamentando a mudança. @mvsmotta diz que foi vitória da grande mídia, por exemplo. particularmente não vejo grande mudança; acho que o ponto é justamente publicar antes. nesse caso, acordar um horário é uma concessão, mas com qual efeito prático? o importante é publicar antecipadamente. e ainda mais importante, o jornalista agora sabe que vai ter suas perguntas divulgadas. isso é o que deixa todos mais atentos e com melhor equilíbrio.

mesmo que um título do Estadão -- "Petrobras recua e blog só vai publicar o que sair na imprensa" -- cometa uma distorção grosseira. usar o verbo "recuar" ao invés dos mais IMPARCIAIS (a/c depto. de marketing) "ajusta" ou "altera" só lhe serve como pachorra; já dizer que a Petrobras vai "divulgar apenas o que sai nos jornais" é simplesmente inverdade. e má redação, uma vez que a frase, literalmente, transforma o blog num redundante espelho do próprio jornal. o G1, por exemplo, se saiu muito melhor.

já que estamos nas minúcias, "0:00h" não existe, blog da petrobras. só 0h.


e me parece que chegamos num ponto muito específico, em que podemos ficar discutindo "então quando a Petrobras vai divulgar perguntas de uma matéria que não saiu", ou quando um jornal reclamar que a estatal "vazou (sic) de novo" se a reportagem não for veiculada na data prevista, "e que garantias temos de que vá cumprir o que agora diz" etc. e tudo isso é bobagem. continua valendo o susto, a iniciativa de somar informação e, até, proteger o próprio jornalismo de si mesmo.

eu sou uma pessoa que lê pouco. dentro desse escopo, as chances de pegar nas mãos e devotar meu tempo a uma autora cuja credencial é ter sido adaptada como minissérie de tevê é nula.

ou seja, pra falar sobre leticia wierzchowski nesse blog, só ela fazendo algo realmente estúpido, como processar sem razão um amigo blogueiro, ou algo assim.

Milton Ribeiro fez um post, quase quatro meses atrás, criticando alguns lugares-comuns e o uso do espanhol em "A Casa das Sete Mulheres" e em uma coluna de Zero Hora.

reação: processo por danos morais e ofensa à honra. a inicial do processo retrata Milton como misógino e racista, e se apoia na (extinta) lei de imprensa, para pedir indenização pecuniária. não a retirada do post, ou um direito de resposta; só GRANA.

e será que leticia wierzchowski precisa desse dinheiro pra sobreviver? dificilmente. sendo o advogado dela o mesmo que tirou a biografia de Roberto Carlos das ruas, fica claro que a mensagem é: NÃO CRITICAR. censura. pode ter sido um ato isolado, mas que funciona no mesmo diapasão: a internet é o caldeirão do demônio, onde todos podem dizer o que pensarem - o que pensarem! - e deixar suas nefastas opiniões à vista do público.

típico comportamento de quem tenta ESCONDER alguma coisa. que atenta contra a liberdade de expressão. afinal, pelo próprio processo, não há correção a ser feita no que Milton disse.


estranhamente, ainda não se sabe de ação semelhante movida à (excelente) Aplauso, revista local que publicou uma crítica 600x vezes mais demolidora. você pode ler neste tapa de luvas post do Biscoito Fino e a Massa: Leticia Wierzchowski: A Casa das Sete Leticias, por Marcelo Backes. não apenas tem pontos em comum com o que disse o Milton; vai além. só faltou fazer trocadilho com o sobrenome. (eu até achei desnecessário, mas convenhamos; se apelido fosse motivo pra entrar na justiça, todo mundo ia processar sua turma da quarta série.)


talvez se leticia wierzchowski fizesse alguma ideia do que são os blogs, e ofendida com o comentário de alguém que leu o que ela escreveu, poderia ter entrado em contato. feito um comentário dando seu ponto de vista, ou pedido para mexer no texto. mas não; prefere uma ação judicial, e mesmo que eu não entenda nada de direito, bicho, o pessoal tá rindo da petição.

(o que só deixa o caso mais preocupante; por não pedir reparação do autor (ou seja, seu texto não está errado), pode gerar jurisprudência para que ações semelhantes ocorram e sejam acolhidas. e isso significa ADEUS crítica. ainda mais, digo.)


aí você se pergunta "onde essas pessoas querem chegar", pra não ter resposta alguma; porque não estão indo a lugar algum, apenas perdidas, mordendo o próprio esquálido rabo.

enquanto leticia wierzchowski processa blogueiros por lhe apontarem o dedo -- e com razão, já que, novamente, o processo não pede qualquer reparação --, bereteando é solidário e nota com alegria que, dos primeiros 10 resultados do google para a busca de seu nome, três já sejam relativos a este processo ridículo.


você pode ler a história com detalhes nos posts do Milton. Leticia Wierzchowski processa este blog (I), Leticia Wierzchowski processa este blog (II) - O conteúdo da inicial escrita pelo advogado de Roberto Carlos e da RBS.

1.

um post de Leandro Fortes (obrigado, Idelber) diz o que eu vinha pensando, e me leva a escrever em caixa alta: BAH, ESQUEÇAM O TERCEIRO MANDATO DO LULA. parte da grande imprensa mantém a pauta com cansativa insistência; a oposição, enquanto condena, pode votar a favor do projeto - só pra se sair com "eu disse que ele era o Hugo Chávez! maldito tirano comunista!". essa seria a plataforma fácil para a campanha de 2010. anticristo, facínora, regina duarte em chamas etc.

pessoalmente não acredito que Lula cairá na armadilha. pode descansar; sem forçar a barra, pode correr o risco (de ser aclamado?) em 2014; pode até ter outros planos. mas parece que entende, melhor que alguns deputados da base governista, que a possibilidade constitucional de manter um mesmo governante por 12 anos no poder NÃO é salutar à democracia. o exemplo chavista (não apenas) é claro e foi amplamente criticado - com razão.

espero que Lula siga o que está fazendo: negar sistematicamente a possibilidade de concorrer a um terceiro mandato, e cumprir a palavra -- porque dela e em seu carisma estão aprovação e apoio.


2.

a reforma política caiu. mas somente a ideia de propor o VOTO EM LISTA é de uma agressão por si só. quem gosta, pode hoje votar na legenda; pronto? retornar ao voto indireto é um retrocesso que agride o sistema democrático, que nos esforçamos para tornar parcamente representativo.

não precisamos de ainda mais caciquismo, ok?
OK.


3.

surgiu uma nova campanha na internet -- uma das 128 campanhas/manifestos/petições que saem por dia (e viva a democratização da comunicação, há muito trabalho a fazer etc). propõe: nas próximas eleições, não reeleja ninguém.

bonito, né? dia desses eu falava sobre o consumo de psicopatologias como formação de identidade, e esse caso não é nem um pouco diferente. essa proposta, como disse o camarada Daniel Lopes, "é preguiça travestida de ativismo".

a questão é bastante simples: INFORME-SE e COBRE. em algum momento cristalizou-se a ideia de que basta votar, e cumprimos nosso papel; longe disso. deputados "se lixam" porque podem posar de intocáveis. contam com a falta de memória, interesse e responsabilidade continuada do eleitor. mas se você tiver uma posição formada -- e mantida e vigilante -- na hora de votar, irá reeleger, ou não, um candidato baseado em dados. que estão cada vez mais acessíveis.

porém tal acompanhamento exige compromisso -- algo que campanhas como essa apenas fingem distribuir. na verdade não passam de comodismo raso, tal qual tivemos o flatulento "cansei" de pouco tempo atrás (que hoje simplesmente desapareceu).

há algum tempo, uma expressão comum era "punk de butique". essa campanha é o próprio, e de polainas. não surpreende; hoje em dia fake é lindo (não percam os comentários) e parece que basta um .gif para ter uma atitude política.

lamento.


4.

contra o terceiro mandato do Lula não há muito o que fazer, senão esperar bom senso (ou até artimanha; que seja) do próprio. mas contra voto em lista (vai voltar) e campanha espúrea, a boa e velha INFORMAÇÃO segue o melhor remédio. pesquise, use seu blog, multiplique links, contrarie um taxista, CONVERSE sobre isso.

...parece chato? pense que você é um personagem de The Sims e sua barrinha de "informação", "política" e "inteligência" crescem com seu esforço. (já que ainda não temos indicadores visuais de desempenho.) entenda o fato, crie sua opinião, confronte-a com seus amigos. é isso que vale. em diversos níveis.


longe deste blog querer doutrinar. bereteando sabe que sua pequena audiência de amigos é qualificada. (longe deste blog apelar praquele artifício barato dos "sete leitores".) mas sempre se corre o risco de significar alguma coisa pra alguém na hora certa. um em cem mil vale, seu google.


5.

não é de hoje, existem alguns portos seguros para informação política na internet; leituras baseadas -- e lincando para -- fatos, adicionados a argumentos. você pode até discordar da posição do autor, mas não pode deixar de ler biscoito fino e a massa, o hermenauta, a nova corja e sergio leo.

peregrinação






Peregrination suggests both an itinerant movement and the asceticism and rigor of a monastic order. According to Lyotard, ideas are like clouds, both light and indefinable in form; the moment one thinks one has began to grasp them, one finds that they have changed. Hence, a peregrination is a wandering among the clouds of ideas and a commitment to respect the ways in which they are constantly eluding our complete understanding. encyclopedia of postmodernism










_________________________________
01 william castleman, rise of the milky way
02 ori gersht, rear window
03 blake gordon, cloud projections
04 david pratt, ambition
05 david maisel, oblivion
06 não consegui localizar o autor Carl Kleiner (valeu, Pablo!)
07 an te liu, cloud
08 victor e. taylor, encyclopedia of postmodernism
09 martha tenney/CAS
10 coreburn
11 pip wilson
12 frankz
13 tony prior/CAS
14 chapter three, rainbow sky
15 d'arcy norman
16 ettubrute, glowing cities under a nighttime sky

thanks today and tomorrowbaumai

a pergunta do NYT (em 2003) foi:

"o que você acha que está reservado para o futuro da ciência?"

John Maeda, do MIT, autor de The Laws of Simplicity, respondeu assim:



["Em meio a toda a atenção dada às ciências e como elas podem levar à cura de todas as doenças e problemas diários da humanidade, creio que a maior revolução será a compreensão de que as artes -- convencionalmente consideradas "inúteis" -- serão reconhecidas como a maior razão pelo qual tentamos viver mais, ou com mais prosperidade. A arte é a ciência de apreciar a vida." tradução livre]



eu não poderia concordar mais.


a ciência, aparelhada pela tecnologia, progride vertiginosamente. conhecemos mais partículas sub-atômicas do que se poderia fantasiar quando batizaram o indivisível atomos grego. sequenciamos genomas como quem opera uma calculadora de camelô. fizemos mais avanços sobre o universo do que deveria ser permitido a uma mente humana conceber. fatiamos esse cérebro em mil pedacinhos para descobrir minúsculas áreas responsáveis por ações e sentidos, e contamos sinapses e medimos eletricidade.

ainda assim, a neurociência ainda não foi capaz de chegar perto de descobrir o que forma a consciência. onde está o dispositivo que transpõe a atividade químico-elétrica em um fluxo coordenado de ações. como se organiza, cientificamente, o interlocutor da arte.

estamos caminhando para o pós-humano; criando robôs e/ou usando parte deles em nosso corpo. da mesma forma, emulamos neurotransmissores, enzimas e hormônios em laboratório. mas não avançamos na compreensão lógica da mente. para uma visão reducionista, isso não faz diferença; a "existência" não passa de estratagema, fantasia, caleidoscópio cerebral. o problema dessa abordagem é bem descrito por Jonah Lehrer no ensaio "The Future of Science... Is Art?", da revista Seed:


Conhecemos a sinapse, mas não nos conhecemos. A lógica do reducionismo implica que nossa autoconsciência é apenas uma ilusão elaborada, um epifenômeno gerado por algum tremor elétrico no córtex frontal. (...) Seu cérebro contém 100 bilhões de células elétricas, mas nenhuma delas é você, ou se importa com você. Na verdade, você nem mesmo existe. A mente não passa de uma realimentação infinita de matéria, reduzível pelas calejadas leis da física.


O problema com este método é que ele nega o próprio mistério que tenta resolver. (...) O paradoxo da neurociência é que seu incrível progresso expôs as limitações de seu paradigma, já que o reducionismo fracassou em esclarecer nossa mente. Muito das nossas experiências continuam fora de seu alcance."
tradução livre. leia mais


o texto de Lehrer aborda a questão por um outro viés: o de como a ciência precisa da arte para poder evoluir. da importância do pensamento metafórico estar próximo à ciência -- para que possam surgir novos insights, novas concepções que levem a novas teorias. de abordagem totalmente diferente das existentes. arte na ciência para alavancar mudanças de paradigmas onde não houve sucesso - apenas complexificou-se o entorno da questão.

já na frase de Maeda, há ambiguidade. tanto pode a ciência prestar mais atenção à arte, sua função existencial, quanto passar a um segundo plano -- onde a velocidade e o poder da ciência sejam fato consumado e a arte passe a ocupar os principais esforços nas tentativas de proporcionar uma jornada mais plena aos humanos.

sempre cabe lembrar: ambas as possibilidades encontram lastro na sociologia. o caminho estéril da pós-modernidade é um fato, mas não uma sentença. o vazio e a solidão inexorável do indivíduo são um traço cada vez mais presente; é possível imaginar que, com tempo, haja menos combate e mais construção. se a sociedade fica rasa e muito veloz, a importância da arte só cresce: a partir dela é possível atingir profundidade, questionamento e entendimento da própria condição. tarefa onde escritores, pintores e cineastas tem saído-se muito melhor do que físicos ou geneticistas.


a arte é uma nascente vital da modernidade líquida. é possível que seja mais? talvez a frase-título do post possa conter menos licença poética do que parece à primeira vista.


o ponto de encontro de arte e ciência é o momento em que a razão ficará confortável para entender a consciência e seus sentimentos -- sem tanger espiritualidade ou psicanálise. hoje conhecemos a máquina orgânica que somos, mas não sabemos porque estamos discutindo tudo isso o tempo todo. e trata-se de assunto delicado, porque assim como a finitude do universo, "mistérios para a ciência" também é uma concepção perturbadora. e estamos todos tentando apreciar a vida, certo?

talvez surja de uma nova grande teoria. ou quem sabe apenas uma questão de tempo a essa mesma linha de trabalho. invariavelmente, a arte é o que continua, e continuará, alimentando o que as células não são capazes de nutrir.



v e r b e a t  b l o g s

all your gardening needs

últimos bookmarks

leituras compartilhadas

verbeatblogs.org

blog 'n' roll