a essa altura, a maioria dos leitores do berê já está sabendo da polêmica envolvendo o blog da Petrobras.
caso não, segue uma pergunta inocente, como introdução, à vestibular:
1. Dado que Jornal de Grande Circulação envia perguntas para Grande Empresa com o intuito de realizar uma reportagem, assinale a alternativa que se apresenta mais correta.
a) Grande Empresa pode divulgar essas perguntas da forma e no tempo que quiser.
b) Grande Empresa pode divulgar essas perguntas -- e mesmo as respostas -- da forma e no tempo que quiser.
c) Grande Empresa só pode divulgar as perguntas após a publicação da peça jornalística.
d) Grandes Corporações de Qualquer Espécie devem ser combatidas.
e) O jornalismo morreu.
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1: a Petrobras criou um blog, e nele divulgou perguntas que lhe foram enviadas por jornalistas do Estadão, O Globo e Folha de SP antes da veiculação das notícias. (letra B)
2: a atitude provocou imensa repúdia destes veículos, da Associação Nacional de Jornais, da ABRAJI e de muitos profissionais do jornalismo. (letra C)
3: a grande maioria das opiniões "leigas" discorda frontalmente dos queixosos, e recebe a iniciativa positivamente -- julgando que quanto mais informação houver, melhor aparelhados estamos. (também tem os que não tão nem aí pra isso, mas vibraram por revanchismo contra a "imprensa-golpista-de-direita-que-é-vista-como-governista-pela-oposição" etc. mas não precisamos desse viés.)
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pergunto por e-mail ao amigo Brigatti, jornalista, o que ele pensa sobre o episódio.
Estamos diante de um fato inédito. O comum é jornalista vazar informação que conseguiu com alguma fonte. Agora, fonte vazar informação que concedeu a jornalista é algo totalmente novo. Eu diria até surreal.
A Petrobrás, via blog Fatos e Dados, afirma que as informações que passou para os jornalistas do O Globo e Folha de S. Paulo são públicas. Tá certo. Só que os caras tiveram que formular as perguntas certas para obter o que queriam, e isso é mérito deles. O que blog fez ao publicar as respostas enviadas para os repórteres, foi tão somente prejudicar a matéria deles entregando o que estavam fazendo para a concorrência.
É como na história do Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Só tinha acesso à caverna onde estava guardados os tesouros quem soubesse a palavra mágica. E os caras d'O Globo e Folha tinham essa palavra mágica. Tinham o know how, a manha, a expertise de extrair a informações que lhes era mais útil. O tesouro, então, é deles. Não se pode, depois que os caras conseguiram, tornar pública sem mais nem menos a palavra mágica!
O que vejo, portanto, é pura e simples sacanagem. Alguém que queria que a matéria deles fizesse água. E conseguiu, pelo visto.
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outro amigo, Sergio Leo, escreveu assim em seu blog:
(...) Fazer essa divulgação antes que a matéria seja publicada é trair o pacto de confiança que levou o repórter a revelar, antecipadamente, as informações que tinha, ao acusado, e só a ele.
Se o jornalista sabe que tem uma apuração importante, e que a revelação de suas informações ao denunciado fará com que ele vaze esses dados antes mesmo que o jornal possa publicá-los, na tentativa de esvaziá-los, de reduzir o impacto do furo, ele vai relutar em fazer essa checagem. Apurar com o acusado passa a ser o mesmo que divulgar a matéria antes que ela possa ser feita. Abrir a pauta para todo mundo.
É o que a Petrobras parece estar pretendendo. Mostra aos jornalistas que toda tentativa de checar uma informação exclusiva com a emrpesa converterá essa informação imediatamente em comoditty informativa, dado comum, coletiva de imprensa. Pergunta-se, como sempre se fez, sob compromisso de sigilo, à assesoria de imprensa, e lá se vai o furo.
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checar furo com assessoria de imprensa? sempre achei que jornalismo investigativo ou reportagem recheada, bem-feita, dependesse mais do insight do jornalista e de conversas ao pé do ouvido do que informações solicitadas via assessoria -- que, a rigor, deveria dar a mesma informação pra todo mundo. ainda mais em caso de empresa pública.
mas isso é só o meu achismo.
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a nota da ANJ não ajuda muito -- se nada -- no debate.
Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.
perdão, ANJ. mas eu nunca ouvi falar que fonte tem obrigação de confidencialidade com o jornalista. só o contrário -- que a inviolabilidade do sigilo da fonte é um dos pilares da imprensa livre. pelo jeito, não estou errado; Pedro Doria (que teme que a atitude da Petrobras possa acarretar no enfraquecimento do papel do jornalismo na democracia) abre assim seu post sobre o assunto:
Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.
então quebrou-se um "acordo de cavalheiros?"
copio Leandro Demori:
(...) Jornalistas, aliás, quando acham que o furo vale a pena, fritam a fonte no George Foreman Grill - não deveriam se espantar, portanto, quando a brasa pega fogo do outro lado.
Isso se aplica também na parte sobre "entregar os furos ou informações exclusivas" obtidas pelos jornalistas ao divulgar as perguntas. Pode ser uma tremenda implosão no relacionamento, mas continua sendo do jogo. Além do mais, me espanto em saber que tem gente por aí entregando "furo" em perguntas via e-mail.
e nessa mesma linha, o ponto de vista de Alex Castro é definitivo:
Sérgio Leo lamenta que a atitude da Petrobras pode quebrar uma certa relação de confiança ou um acordo tácito, que ela tem com a imprensa. Ele usa a palavra "compromisso".
Oras, pois é justamente isso que estou celebrando.
Como representante do público-(e)leitor, não confio nem na mídia e muito menos na assessoria de imprensa de qualquer empresa. Igualmente, não acho que um tem que confiar no outro. Pelo contrário, para a sociedade, é melhor que não confiem e tenhamos acesso ao discurso de ambos.
A Petrobras não tem nada que confiar na imprensa. A imprensa não tem nada que confiar na Petrobras. Não devem haver acordos tácitos ou relações sigilosas entre a mídia e a Petrobras. As relações entre eles devem ser públicas e transparentes.
Daí a celebração.
E, não, eu não acho que a imprensa é toda canalha, ou que ela tem que acabar, ou que a Petrobras é santa, etc, nada disso. Eu apenas quero poder ouvir todo mundo. Antes, eu só ouvia a imprensa. Agora, eu também ouço a Petrobras. Antes, pra saber da Petrobras, eu precisava ler a Folha ou o Globo. Hoje, posso ir direto à Petrobras.
Daí a celebração.
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o blog da Petrobras lida com informação e com a imprensa. publica correções ao veiculado na grande mídia -- inclusive as cartas que envia pedindo reparação. não significa verdade, mas ao menos é a versão da fonte por completo, sem edição. é um blog corporativo, instrumento usado por um Setor de Comunicação, e não se espere que seja desabonador ou "isento". nada disso, no entanto, diminui a responsabilidade e o compromisso que uma empresa tem ao divulgar seus dados -- seja "sob sigilo até publicado" ou abertamente.
mas "chapa-branca" ou não, a verdade é que a maior estatal brasileira encontrou não uma nova ferramenta, mas uma nova forma de lidar com a informação. não é "fazer um blog", mas adotar a linguagem e a agilidade deste canal não-mediado para comunicar-se com seus públicos -- dar uma atenção que a blogosfera pode (e parece disposta a) absorver, e posicionar-se institucionalmente frente à imprensa.
nesse caminho, rompeu um tabu. entendeu que era seu direito publicar toda e qualquer informação -- incluindo os questionamentos dos jornalistas. com a justificativa de que aumenta a transparência e o arsenal do público para realizar uma leitura crítica das notícias. teve como motivação a tese do Brigatti, tem como fim o panorama descrito pelo Sergio? tem razão os jornalistas de sentirem-se prejudicados, para além do orgulho próprio, neste evento?
é o de menos. se a iniciativa da Petrobras mostrar-se firme a longo prazo, e popularizar-se, o que temos é um momento de quebra de paradigma. não o da possibilidade da prévia divulgação de perguntas -- esse eu nem sabia que existia; mas o da reordenação de pesos entre fonte e jornalista no processo informacional. "transparência" é uma palavra que já foi castigada pelos cínicos, mas é exatamente disso que se trata. e é nessa direção que precisamos ir.
a novidade vai exigir dos jornalistas (mais) uma adaptação de conduta; mas se a finalidade da imprensa é levar informação, o bom jornalista seguirá encontrarando caminhos para fazer bem seu trabalho. sinceramente me parece muito barulho por nada, mas respeito; ao que parece caiu um mito. e sem sobreaviso, sentiram-se enganados, é justo que estejam com o orgulho ferido. mas, no plano da prática, que adaptem-se.
apesar do sarcasmo e do exagero, mais ou menos como testemunha Jones Rossi, da Nova Corja:
Então, aproveitando este espírito de transparência suprema, comemoro a nova era estabelecida pela assessoria da Petrobras, que jamais teve a intenção de acossar jornalistas e estragar a apuração prévia. Afinal, se você é jornalista, trabalha sério e consegue informações exclusivas, por que não torná-las públicas via blog da Petrobras, para toda a concorrência ver? Esse negócio de sigilo é tão pré-twitter, tão pré-iPhone apps. Vamos evoluir, gente.
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vale ressalva: a publicação das perguntas no blog da Petrobras não significa o "fim da imprensa manipuladora". nem o uso da notícia com fins políticos. não é panacéia para o mal da desinformação, assim como não vai causar a implosão do jornalismo como o conhecemos.
é só uma nova jogada.
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para que não se enquadre em "jornalistas" apenas contendores, temos os exemplos de Luis Nassif e Luis Carlos Azenha, que louvaram a atitude. o primeiro comemora o "fim da era das perguntas em off", e Azenha vai mais além, elencando 10 respostas para a pergunta "Por que os jornais investem contra o blog da Petrobras?" A primeira delas é "Porque perdem o "monopólio da informação" e, com isso, autoridade sobre o público".
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não há em nenhum dos eventos diminuição alguma ao Jornalismo. se a Petrobras usa um canal "informal" para veicular o que lhe interessa, tanto mais precisaremos de boa apuração jornalística para confrontar e cruzar dados. se essa apuração vai dar-se em um processo totalmente transparente no lado da fonte, não me parece que o público -- que afinal de contas é o único que interessa nessa história -- saia perdendo em qualquer aspecto.
MAIS INFORMAÇÃO = BOM;
qualquer tentativa de controle da informação = fracasso instantâneo ou iminente.
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¹ saiba mais:
• Petrobras Fatos e Dados
• O blog da Petrobras e o desespero da mídia, Biscoito Fino e a Massa
• Por que jornalistas experientes fingem não ver que a Petrobras age errado?, Sitio do Sergio Leo
• A Petrobras e a Imprensa Golpista, Pedro Doria
• Petrobras acossa jornalistas por causa de CPI, Nova Corja
• A Petrobras Entendeu a Internet, Liberal Libertário Libertino
• Agora o blog da Petrobras, Leandro Demori
• Para jornalistas, no dos outros é refresco - Marcelo Träsel
• Petrobras entra na blogosfera e enfrenta oposição de grandes jornais, Observatório da Imprensa
• O Globo se supera e diz que perguntas são propriedade do jornalista, Túlio Vianna
• Blog da Petrobrás: crítica à mídia ou manobra política tática?, Jorge Rocha
• A Luz do Sol, Leandro Fortes
• O blog da Petrobras, Claudio Abramo
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update, 10/06:
o blog da Petrobras anunciou uma alteração em sua prática de publicar as perguntas antes da reportagem:
Perguntas dos jornalistas e respectivas respostas da Companhia continuarão a ser publicadas no blog e, a partir de hoje, por volta das 0:00h do dia da publicação da matéria, data que normalmente é informada pelo jornalista.
ainda não vi reações, além de uns poucos tweets; a maioria deles lamentando a mudança. @mvsmotta diz que foi vitória da grande mídia, por exemplo. particularmente não vejo grande mudança; acho que o ponto é justamente publicar antes. nesse caso, acordar um horário é uma concessão, mas com qual efeito prático? o importante é publicar antecipadamente. e ainda mais importante, o jornalista agora sabe que vai ter suas perguntas divulgadas. isso é o que deixa todos mais atentos e com melhor equilíbrio.
mesmo que um título do Estadão -- "Petrobras recua e blog só vai publicar o que sair na imprensa" -- cometa uma distorção grosseira. usar o verbo "recuar" ao invés dos mais IMPARCIAIS (a/c depto. de marketing) "ajusta" ou "altera" só lhe serve como pachorra; já dizer que a Petrobras vai "divulgar apenas o que sai nos jornais" é simplesmente inverdade. e má redação, uma vez que a frase, literalmente, transforma o blog num redundante espelho do próprio jornal. o G1, por exemplo, se saiu muito melhor.
já que estamos nas minúcias, "0:00h" não existe, blog da petrobras. só 0h.
e me parece que chegamos num ponto muito específico, em que podemos ficar discutindo "então quando a Petrobras vai divulgar perguntas de uma matéria que não saiu", ou quando um jornal reclamar que a estatal "vazou (sic) de novo" se a reportagem não for veiculada na data prevista, "e que garantias temos de que vá cumprir o que agora diz" etc. e tudo isso é bobagem. continua valendo o susto, a iniciativa de somar informação e, até, proteger o próprio jornalismo de si mesmo.