Li com atenção o longo artigo publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de São Paulo de domingo, assinado por Marcelo Leite (jornalista que acompanho e admiro) e Claudia Collucci, sobre a homeopatia. Título e subtítulo: "A Medicina das paixões. Homeopatia: 200 anos de polêmica".
Não sou especialista, mas minha mulher e meus filhos usam a homeopatia - embora não exclusivamente. Eu mesmo utilizo, às vezes. Alguns pontos do artigo chamaram minha atenção.
Inicialmente, o artigo fala sobre o princípio básico da homeopatia, o conhecido similia similus curantur, "os iguais curam". Médicos tradicionais refutam esse princípio. Mas, penso, não é mais ou menos isso o que acontece com as vacinas? Contra a picada de cobra não usamos o soro antiofídico feito com... o veneno da cobra? As vacinas de rebanho não partem do mesmo princípio, utilizando bactérias ou vírus de doença, em doses inofensivas para o ser humano e que, ainda assim, provocam uma reação no organismo gerando anticorpos?
O médico e pesquisador alemão, ouvido na reportagem, Edzard Ernst é uma espécie de Richard Dawkins da homeopatia. Diz que a homeopatia é baseada na fé. Antes disso, dizem que os próprios médicos homeopatas vivem uma espécie de autoilusão. É parecido com o que Dawkins diz sobre cientistas que continuam afirmando suas religiões.
Depois de ser afirmada pela OMS Organização Mundial da Saúde como procedimento eficaz, adotada em vários países pelos sistemas públicos de saúde, parece estranho falar em autoilusão. Mas vamos a números: no Brasil são 15 mil médicos homeopatas (4,4% dos médicos). Imagine quantos pacientes esses médicos atendem por dia, semana, mês, ano. Se melhoras consideráveis em seus pacientes não fossem registradas continuamente não teriam todos fechado suas portas?
Antes de escolher uma médica homeopata para meus filhos, busquei referências de pessoas que tratavam com homeopatia. Foram casos de sucesso que me levaram ao especialista. E se estou com ele - no caso, ela, Dra. Márcia, de Americana (SP) - é porque temos observado sucessos contínuos nos (poucos) momentos de doença, mal-estar, etc...
Entra nessa equação - e o artigo aponta - o tal efeito placebo. É dar um remédio inócuo (sem princípios ativos) para um doente e ele apresentar melhora. A melhora, nesse caso, está baseada na aceitação do paciente, no aspecto psicológico, de que a "pílula de farinha" era, na verdade, um poderoso medicamento. Sim, o efeito placebo funciona em muitos casos, mas no caso da homeopatia como explicar melhoras em bebês, crianças de até cinco anos, que não têm exata consciência sobre o que é remédio mas apresentam melhoras significativas com a homeopatia?
A melhora e cura de bebês através da homeopatia desconstrói o efeito placebo, no meu entender.
Outro dado apontado por Marcelo Leite e Claudia Collucci é que a homeopatia movimenta cinco bilhões de reais por ano nos EUA, onde 2,5 milhões de pessoas recorrem a esse tipo de medicina. A homeopatia cresce na Alemanha e na França e está consolidada na Índia, país com 400 mil homeopatas. Esses números podem nos dar uma pista sobre os ataques que a homeopatia começa a sofrer: está conquistando uma fatia cada vez maior dos grandes laboratórios, marcas que dominam a mídia e que têm nos sistemas públicos de saúde seus maiores clientes.
Achei interessante e sensato o posicionamento, no artigo, de Rubens Dolce Filho, presidente da Associação Paulista de Medicina e professor da Unifesp que diz que a homeopatia tem suas limitações, mas não é uma fraude. Caso contrário não teria crescido tanto nos últimos 200 anos.
Meu testemunho de leigo apenas afirma que a homeopatia funciona em muitos casos. Na verdade, todas as vezes que precisamos, funcionou. Não é um medicamento que é "tiro e queda" como se diz nos comerciais de aspirina na TV. Mas tem menos impacto para o organismo e está baseado em uma relação mais verdadeira entre paciente e médico.
E vocês? O que acham?
Apdeite: No blog de Marcelo Leite tem polêmica sobre o artigo.
Apdeite 2: No twitter, a discussão se amplia. @tintureiro indica esse link, e eu concordo. Eu e o Rubens Dolce Filho, acho. Homeopatia não é para tudo.
Apdeite 3: Elton Castro fez interessante post sobre o assunto.
Apdeite 4: no twitter, @rafacventura escreveu: "como médica homeopata, agradeço sua defesa. Outro ponto incontestável é o sucesso com os animais". Não conheço a aplicação em animais, mas se der resultado mesmo, sim, é um ponto incontestável.





