Há coisa de 10 anos atrás, a Worldengine não existiria. Pelo menos não com a proposta atual, um imenso projeto colaborativo envolvendo 20 músicos ao redor do mundo produzindo uma verdadeira, legítima world music (se o Grammy não estereotipasse esse gênero com qualquer coisa feita a base de percussão, claro). E tudo por conta, ironicamente, de uma imensa dificuldade de entrosamento musical.
Começou com a dupla Valmor Pedretti Jr. e Cristiana Camboim, em meados de 2002, tentando montar uma banda. Não uma banda qualquer, mas um grupo que transcendesse os bares e fosse pautada pelo profissionalismo extremo.
_ As dificuldade começaram aí. Não achávamos ninguém interessados em levar o negócio a sério _ comenta Valmor, acrescentando que mesmo os encontros para ensaios eram infrutíferos. _ Chegar todo mundo num lugar, plugar os instrumentos e começar a criar também não funcionava.
Nesse ínterim, entre trocas de formações e ensaios frustrados, Valmor e Cristiana mostraram-se agentes de seu tempo. Um tempo onde "projeto musical" é sinônimo de "banda" e as fronteiras são delimitadas tão somente pela cara-de-pau.
_ E isso nós temos de sobra _ brinca Cristiana.
E cara-de-pau foi só do que precisaram. Frequentando o fórum do site oficial do baterista do Dream Theater, Mike Portnoy, o gaúcho conheceu instrumentistas que dividiam com ele mais do que a paixão pela banda de prog metal norte-americana. Um deles foi o alemão Paul Schreier, também baterista e que logo se tornaria a primeira peça desse motor.
_ Montei uma demo mostrando mais ou menos o que eu queria, o clima da faixa e tal, mas deixando claro que era para ele fazer do jeito dele _ explica Valmor, que recebeu, além do arquivo digital contendo o áudio, um vídeo de Paul tocando o instrumento.
Era o que a dupla precisava para correr atrás, no próprio fórum e em sites especializados, de mais gente interessada em fazer parte não de uma banda, mas de um projeto altamente profissional e de vanguarda, compromissado unicamente com música de qualidade.
Utilizando o mesmo expediente, ao longo dos anos Valmor e Cristiana foram juntando dezenas de instrumentistas de todas as partes do globo, fazendo com o Worldengine o que Josh Homme e Zakk Wylde fazem com seus Queens of the Stone Age e Black Label Society respectivamente.
Como os seus co-irmãos estrangeiros, o projeto da dupla não possui uma fórmula pronta e vai sendo montado de acordo com os participantes. Embora siga uma identidade definida.
_ Nosso único limite era nossas preferências, o que acabou pendendo para o rock progressivo _ salienta Cristiana.
Mas nada de toneladas de teclados e solos soporíferos. Estão lá os teclados e os solos, claro, porém diluídos numa atmosfera etérea e sombria, vagando entre o metal melódico e gelado do ártico e o folk com violões de aço. A primeira faixa, 12th, com participação de Andrio Maquenzi, da gaúcha Superguidis, nos vocais, e disponibilizada no MySpace e no canal do YouTube do grupo, dá uma ideia da proposta musical do Worldengine.
_ Mas tudo pode acontecer daqui por diante. Mesmo as músicas prontas hoje estão bem diferentes do que eram no início, foram evoluindo com o tempo _ pondera Valmor.
O acesso a bons equipamentos, portanto, tornou-se fundamental. Dos programas caseiros onde fez as primeiras mixagens, em casa, o projeto agora é lapidado no Lado B, estúdio onde Valmor trabalha. Com a ajuda de Thiago Grün, as faixas soam tão límpidas que nem parecem ter sido criadas através da costura de arquivos de som enviados de milhares de quilômetros.
_ É exatamente o som que queríamos ouvir há 10 anos atrás _ comemora Valmor.
O próximo passo será juntar todo o material para lançar um disco físico. A arte da capa e o primeiro vídeo oficial eles já possuem, e da mesma forma que conseguiram todo o resto: na base da colaboração.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno do dia 13.01.10
Romances publicados pela metade (ou nem isso). Manuscritos desprezados pelos autores e que, mesmo assim, ganham as prateleiras das livrarias. Costuras de fragmentos recuperados que vêm a público postumamente. De tempos em tempos, o mercado literário - incluindo aí os herdeiros de escritores - se vale de tais expedientes e reacende a antiga polêmica a respeito de sua validade.
Um dos casos mais antigos e célebres é o de Franz Kafka (1883 - 1924). Antes de morrer, o escritor teria pedido ao seu melhor amigo, Max Brod, que destruísse originais que ele não considerava à altura de sua obra (só A Metamorfose, Um Médico Rural e Na Colônia Penal já haviam sido publicados). Por motivos até hoje não muito claros, Brod salvou da fogueira clássicos como O Processo e O Castelo.
Para preservar a memória de um grande escritor através de seus escritos, o editor Ivan Pinheiro Machado, da L&PM, afirma, convicto, que, sim, publicaria o que quer que fosse. Mesmo contra a vontade de seu criador.
- Autor não tem vontade, ele é uma pessoa pública. E quando ele transcende a simples condição de escritor, é uma obrigação publicar sua obra - diz Ivan, abalizado pelo trabalho com pelo menos duas obras que se encaixam no primeiro parágrafo.
Uma delas foi Súplicas Atendidas, de Truman Capote, o autor de Bonequinha de Luxo. O livro, um compêndio de histórias que escancarava o mundinho do jet set nova-iorquino, foi encomendado pela Random House no final dos anos 1960. O problema é que Capote morreu em 1984 tendo escrito apenas três capítulos _ dois, inclusive, publicados na revista Esquire quase uma década antes.
Como havia pago um gordo adiantamento, a editora americana juntou tudo num único livro e o lançou em 1987. No Brasil, Súplicas Atendidas só saiu em 2009, acompanhado da necessária introdução de seu editor americano Joseph M. Fox, explicando que é um romance inacabado _ mas nem por isso menos incendiário.
Caso diferente de As Muralhas de Jericó, confiado pessoalmente a Ivan por Josué Guimarães (1921 - 1986). Espécie de diário da viagem do autor gaúcho à União Soviética e à China na década de 1950, foi lançado 15 anos depois de sua morte, em parceria com o Instituto Estadual do Livro e o Acervo Literário Josué Guimarães.
- Há uma diferença entre lucrar em cima de qualquer coisa que um escritor tenha feito e disponibilizar para estudiosos, para interessados na história do autor - relativiza Ivan, usando como contraponto o incompleto terceiro volume de A Ferro e Fogo, do mesmo Josué: - Não publicaria porque não faria sentido, é muito fragmentado, mas está lá no acervo para consulta.
Ter acesso ao material bruto de um escritor pode significar muito para estudiosos ou mesmo curiosos. Maria da Glória Bordini, coordenadora do acervo de Erico Verissimo e professora do programa de pós-graduação em Letras da UFRGS, acredita que o contato com o processo de criação - como no caso de O Original de Laura (Alfaguara Brasil, 304 páginas, R$ 47,92), de Vladimir Nabokov (1899 - 1977), que permite conferir desde a maneira como ele escrevia e até sua caligrafia - valida a publicação de uma obra inacabada.
- É uma maneira até de desmitificar o autor, muitas vezes não lido por ser considerado complexo ou difícil demais. Quando ele é apresentado dessa maneira crua, dá para ver que o autor trabalha muito, que nada surge de pura inspiração - defende Maria da Glória.
Mas há ressalvas. Uma delas é que, no caso de uma reunião de fragmentos, o melhor destino não é uma livraria, mas uma biblioteca de estudos. Pode ser esse o caminho, por exemplo, da ficção A Hora do Sétimo Anjo, que Erico Verissimo deixou em forma de rascunho e que, na opinião de Maria da Glória, serve mais para trabalhos acadêmicos do que para o leitor em geral.
Mesma opinião tem o doutor em Literatura pela USP Flávio Loureiro Chaves, justamente o organizador do segundo volume de Solo de Clarineta. A obra, lançada em 1976, trouxe uma nova coleção de memórias de Erico (1905 - 1975) - que morreu antes de concluí-la. Segundo Loureiro Chaves, foram selecionadas páginas em redação final e que contemplavam a vivência internacional do escritor.
- É um documento fundamental para esclarecer essa faceta da personalidade do Erico, que é um autor muito ligado ao Rio Grande do Sul. Esse volume mostra que ele rompeu essas fronteiras - pontua Loureiro Chaves.
De fora ficaram cerca de 150 páginas manuscritas, que não atendiam ao padrão de qualidade exigido pelo organizador. O que não aconteceria se o responsável fosse o escritor Moacyr Scliar, para quem todo manuscrito deve ser publicado:
- Os manuscritos estão cada dia mais raros por conta da informatização. Então, os que existem devem, sim, ser levados a público.
E sentencia, o imortal:
- Eu particularmente daria liberdade para fazerem o que bem entendessem. Até porque, os mortos não falam.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno de 09.01.2010
Em 1992, Art Spiegelman trocava as trevas do underground dos quadrinhos pela sombra que sua obra-prima, Maus, começava a projetar sobre ele ao vencer o Prêmio Pulitzer. Feito inédito para um quadrinista, a (merecida) distinção ao mesmo tempo jogava luz sobre aquele judeu de meia-idade, filho de sobreviventes do campo de concentração nazista de Auschwitz e que tinha muitas histórias para contar. Parte delas está reunida em Breakdowns - Retrato do Artista Quando Jovem %@*!.
O compêndio cobre o período de 1972 a 1977, considerado pelo próprio Spiegelman, hoje como 61 anos, como um tempo de experimentação quando ele, na falta de horrores melhores para descrever, resolveu falar da própria vida. É quando se dá, por exemplo, a gênese de Maus, inicialmente uma história de três páginas em que o pai conta o terror da ocupação nazista na sua Polônia natal, na forma de uma inocente parábola para dormir - em que judeus são retratados como ratos, e nazistas, como gatos. O quadrinista sueco radicado nos EUA demoraria quase 10 anos para estender a narrativa e transformá-la no best-seller que o consagraria.
Lançado inicialmente em 1978, Breakdowns sai em formato de luxo com uma introdução autobiográfica que por si só valeria o investimento. Nela, Spiegelman conta um pouco de sua solitária infância em Nova York (avesso a esportes e louco por gibis, o que ele queria?), o despertar da paixão pela arte (leia-se a então transgressora MAD e revistinhas de ficção e terror), a difícil relação com o pai (que mais tarde lhe entregaria, de uma forma ou de outra, o Pulitzer de bandeja...) e a formação de um gigantesco complexo de culpa que o levaria a uma de suas criações mais emblemáticas e tristes.
Prisioneiro do Planeta Inferno recria, em traços grossos e duros, o impacto do suicídio da mãe num Art Spiegelman de 20 anos que acabara de voltar de uma temporada numa instituição psiquiátrica. A tragédia, junto com o Holocausto judeu, definiria o leitmotiv de sua obra.
Abalado, tudo o que faz a partir disso, especialmente em Breakdowns, é desnudar-se diante dos leitores, numa espécie de autoanálise pública ("Fazer arte é mais barato", afirma, em tom de deboche, com relação à terapia). É possível, então, distinguir não só as diversas escolas que influenciaram o desenho de Spiegelman (de Picasso aos expressionistas alemães, passando pelo amigo Robert Crumb), mas também seus mentores intelectuais (os parceiros Woody Gelman e Justin Green em especial), as incursões pela psicodelia movidas a muito LSD e o tratamento, nem sempre ortodoxo, dado ao sexo.
Breakdowns, seu antes e depois, são mais do que um retrato do artista quando jovem. São o flagrante de toda uma vida. Uma vida em quadrinhos.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno da Zero Hora de 23.12.2009
É noite de rock no Dr. Jekyll. Enquanto a primeira banda mutila seus instrumentos, em frente ao palco Gabi Lima se destaca em meio ao pequeno público com uma Nikon D40 nas mãos. Fotografia está entre suas paixões, mas não foi isso que a tirou de casa numa noite úmida de primavera porto-alegrense e a abalou até o decano bar da Cidade Baixa. A razão foi a mesma que a empurrou para fora de outra casa, fez fixar residência na Capital e, no meio da festa, tentou me convencer a comprar seu primeiro disco _ mesmo eu o tendo baixado, de graça e há muito tempo, em seu site oficial.
_ Mas esse aqui está com qualidade melhor. Vai, seis pilas, olha que impressão legal a da capa _ ela insiste, agora assumindo a identidade de Gru.
E aqui cabem algumas explicações. Gabi Lima é a porção civil de Gru, compositora, cantora e multiinstrumentista. A primeira acaba de chegar de Pelotas, onde viveu os últimos 27 anos, para morar com o namorado em Porto Alegre. Trouxe pouco mais que o violão, laptop, Ipod, quatro barras de chocolate Milka de meio quilo cada e o livro Alucinações Musicais, de Oliver Sacks.
A segunda é dona de uma voz rasgada, da escola de Cássia Eller e PJ Harvey, canta num inglês perfeito, gravou sozinha (somente garganta, violão e dor de cotovelo) o disco de covers Loneliness Keeps Company, em 2005. Nele, entrega as referências que usaria para construir, quatro anos depois, Kitchen Door, seu primeiro trabalho autoral _ e que, naquela noite, tentou me vender.
Óbvio, Gabi trouxe Gru para vencer em Porto Alegre. Depois que Pelotas ficou pequena, a Capital foi um movimento natural, onde espera encontrar terreno fértil para seu pop diferenciado. Veio em busca de contatos também, apesar de já conhecer figuras chaves da cena underground da cidade, ser apadrinhada pelos mineiros do Pato Fu (John Ulhoa produziu uma das faixas de Kitchen Door e a banda toda fez backing vocals) e estar pronta para se lançar nacionalmente pelo selo Senhor F Virtual, do prestigioso capo indie Fernando Rosa.
Nenhuma pressa, ela garante, enquanto trabalha num estúdio de gravações produzindo trilhas para jingles publicitários. Quer mostrar toda a potência de Kitchen Door, e para tanto precisa de uma banda de apoio _ por isso, também procura por parcerias musicais. Se conseguir espaço apenas para voz e violão, tudo bem, ela volta ao pocket show "Gabi vai tocar" que a fez conhecida em Pelotas.
_ Mas aí é uma apresentação mais de covers, no estilo do meu primeiro disco _ comenta, lembrando com carinho dos Wilco, Sublime, Elvis Costello e R.E.M. presentes em Loneliness.
Alguns números do "Gabi vai tocar" podem ser assistidos no YouTube. Entre músicas "sérias", Gabi faz versões impagáveis de Crazy in Love, de Beyoncé, e Womanizer, de Britney Spears. Estranho? Inadequado?
_ Tento equalizar diversão com o que gosto. O importante é soar bem _ sentencia, sem ligar para uma eventual patrulha ideológica.
E como uma patrulha pegaria alguém que se identifica com os irmãos Hanson até fisicamente? Que canta Tom Waits com tanta vontade mesmo sendo abstemia? Que não tem pudor em compor um cancioneiro pop tão perfeito que caberia em qualquer propaganda moderninha de telefonia celular? Que escreve sobre todo tipo de amargura juvenil tendo uma máquina de algodão doce e coleção de latas de refrigerante em casa? Gabi responde:
_ Isso é um problema, sabe? Essa coisa de ter que fazer música assim ou assado, de precisar cantar em português, de ter essa ou aquela influência.
A música de Gru reflete a mulher do seu tempo que é Gabi. Adolescente classe média nos anos 90, ela é parte da geração que substitui a TV aberta pelo cabo, descobriu na incipiente internet uma janela para o mundo e nunca deu bola para o rádio. Por isso a naturalidade em escrever e cantar em inglês, as referências importadas (literalmente), a identificação com o Do It Yourself expressa desde tocar todos os instrumentos até montar o próprio site para divulgação.
Além de, claro, vender seu peixe com a certeza de que vale cada centavo investido. Como tentou fazer comigo naquela noite de quarta-feira. E quase conseguiu, não tivesse oferecido de bom grado, antes que eu abrisse a carteira, a cópia que havia levado para a festa. Sorte minha.
Kitchen Door (2009)
1. Saturday Morning Hope
2. The Same as Being
3. Pick up the Pieces
4. California (I´m Outta Here, Bitch)
5. Losing You
6. All This Time
7. Drugs
8. Maybe Today
Loneliness Keeps Company (2005)
1. 3rd Planet (Modest Mouse)
2. Frying Pan (Victoria Williams)
3. Almost Beating (Bill Janovitz)
4. Radio King (Golden Smog)
5. Sunken Treasure (Wilco)
6. New Realization (Sublime)
7. Bedlam (Elvis Costello)
8. This Cold (John Frusciante)
9. Saudade (Pato Fu)
10. Hope (R.E.M.)
Baixe os discos completos + faixas bônus aqui.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno de 07.12.2009.
ATENÇÃO: esse é um post pago.
Eu paguei por ele.
Paguei exatos R$ 8,90. Preço de banca da primeira edição da Billboard, publicação norte-americana que ganhou versão brasileira no mês passado. Demorei para escrever a respeito porque simplesmente não conseguia passar da metade. Agora, na madrugada de 1 de dezembro, reuni forças para ir um pouco além.
Devia uma resenha a respeito da publicação sobretudo para uma amiga, que me perguntou _ diante da locomotiva desgovernada de críticas em mesa de bar _ qual revista de música eu recomendaria para ela. Respondi que nenhuma. Se quer ver, ouvir ou ler sobre música, esqueça as bancas de jornais, desligue rádio e TV e ligue o computador. O resto é consequência.
Mas sobre a revista da Billboard. Que começa errada pela capa, com Roberto Carlos. "Flagrado" em sua pose padrão, o cantor sorri para a chamada que indica uma matéria sobre bastidores de sua turnê. E aí já dá pra sacar muita coisa. Qual turnê? De 77? Pouco importa! Que tipo de reportagem sobre os bastidores de uma turnê de Roberto Carlos poderia trazer alguma informação nova? O que catzo pode ter mudado que valha uma matéria de capa se nem a roupa e maneira de segurar o microfone o sujeito modificou ao longo de toda a sua carreira?
Bom, de repente, nas mãos de um repórter diferenciado, talvez dê para extrair alguma coisa. E quem é o autor da supracitada? Pedro Alexandre Sanches. Que na minha opinião, faz um jornalismo musical bem chapa-branca e é, vejam só, autor de um livro sobre Roberto Carlos _ era sobre a Jovem Guarda, mas não sejamos inocentes. A linha fina:
"Os bastidores da turnê que emociona meio milhão de brasileiros: como Roberto Carlos superou mitos, manias e medos para chegar aos 50 anos de carreira como o maior ídolo popular do país".
Quer dizer, não vai ser dessa vez que veremos a perna mecânica do maior censor do Brasil. O quem vem em seguida é uma esperada babação de ovo de Sanches. Depoimentos emociados de amigos, fãs, novos e velhos companheiros de trabalho, aquele blá-blá-blá que, se for inventado, passa despercebido de tão... nada. E NADA define bem as oitos páginas da reportagem.
Embora seja preciso destacar um momento capitular: uma página de retranca intitulada "Para Servir Sempre" cuja linha fina é "Seja um taxista ou uma advogada, Roberto Carlos sabe exatamente como cativar o fã". E qual a diferença de um taxista para uma advogada em 2009? Em 77 ela até existia, mas em 2009? Que tipo de exemplo é esse? Entendi que devia ser para mostrar o quanto é plural o séquito do rei e como ele é benevolente, mas não fui adiante.
Fico sem saber o real motivo da publicação de uma matéria como essa. Duas propagandas internas de página inteira e uma contracapa, sobre os shows de Roberto Carlos, indicariam alguma coisa?
Mas voltando para seguir adiante. Seção UPFRONT, que deve ser para colocar qualquer coisa que não seja uma reportagem de uma página. Então tem desde ping-pongs aleatórios com Victor Chaves, da dupla sertaneja Victor & Leo, e o nadador Cesar Cielo; números aleatórios sobre o rapper Jay-Z; notas aleatórias sobre o mercado fonográfico; até um perfil aleatório do vocalista do NX Zero, dizendo que já foi vegetariano, mas que agora ama batata.
ENTREVISTA DO MÊS com Paul McCartney. Vale o mesmo raciocínio aplicado para a matéria sobre a turnê de Roberto Carlos.
Cinco páginas sobre a história da Billboard. Passo.
PONTO DE VISTA, deve ser uma coluna, de autoria de Marcelo Braga diretor de rádio FM moderninha, falando sobre a relação música x tecnologia. Leio na diagonal e ele explana a respeito de como os jovens de hoje em dia... e eu pisco para não dormir.
Três páginas sobre os 30 anos do movimento punk, pelo Silvio Essinger. Gosto dele, mas o texto é mais um artigo construído com jargões, lugares e ideias comuns a respeito do movimento do que o provocador título "Do Caos ao Fresno" sugere.
Quatro páginas sobre como o Kiss _ aka Gene Simmons _ sabe ganhar dinheiro. Vale o mesmo raciocínio aplicado para a matéria sobre a turnê de Roberto Carlos. Embora essa valha pela legenda de uma foto que registra Simmons mostrando um caixão do Kiss. Diz o texto: "Ele (Gene Simmons), Paul Stanley e Ace Frehley (ao fundo) apresentam um caixão...".O problema é que não são os outros dois sujeitos lá, e sim um display promocional de papelão. Tudo bem os caras serem músicos de talento bidimensional, mas...
Seção DISTRAÇÃO. Tags: filmes, games, HQs, etc. Ou seja, duas páginas de textos aleatórios sobre qualquer coisa.
Seção MÚSICA. Não se engane, é só outra seção de textos aleatórios, só que temático. E as outras não eram? Ah, veja bem... Na capa da seção, legenda engraçadinha para o disco novo do Alice In Chains. Segue com perguntas para Ney Matogrosso, resenhas elogiosas para Jerry Lee Lewis, João Donato, Leonard Cohen e Charles Aznavour _ geriatria pegando forte pelos lados da Billboard...
Resenhas de CDs e DVDs. Essa é sempre a pior parte. Achei que nunca veria pior que as da Mosh, mas me enganei. Vou citar uma, apenas uma, para mostrar o que aguarda o sujeito que decidir desembolsar R$ 8,90 pela publicação.
Artista: Charlie Brown Jr. Disco: Camisa 10 (Joga Bola Até na Chuva). O que diz Carlos Messias, o resenhista: Camisa 10 traz a típica miscigenação musical do Charlie Brown em versão anabolizada.
Sem mais.
Fecha com oito páginas de listas, gênese da Billboard. Penso que se ela publicasse somente esses dados, pode ser _ PODE SER _ que interessasse a jornalista em início de carreira, do tipo que se fia em listas e acredita que números podem salvar uma pauta ruim.
Não podem. Assim como nem toda boa vontade e profissionalismo de uma equipe ou a desmesurada inoncência do público consumidor mundo poderiam fazer a Billboard valer R$ 8,90. Ela é a porta-voz das gravadoras e, consequentemente, do mainstream. Seu objetivo é ajudar a massificar o que de mais óbvio, chato, anacrônico, desprezível e anódino existe no meio musical.
Não demora, ela diminui o formato, como fez a Rolling Stone. Depois, o número de páginas. Daí para a tiragem e acaba.
Vai tarde, Billboard.
Se o Led Zeppelin não ressuscitar e vier para Porto Alegre dentro de 60 dias, ou o AC/DC, por milagre, não fizer por aqui uma parada entre São Paulo e Buenos Aires neste fim de mês, a Capital terá em 28 de janeiro de 2010 seu próximo grande show de rock pesado. Ainda esta semana, a Opinião Produtora deve confirmar o boato que há quase um mês dá como certa a segunda vinda do Metallica à capital gaúcha.
Portanto, admiradores de uma das maiores, mais famosas, milionárias e polêmicas bandas de metal do mundo, deixem a data reservada - quinta-feira, às 20h, no Estádio do São José, já internacionalmente conhecido como Zequinha Stadium - e comecem a juntar os (muitos) trocados, claro.
Atualmente finalizando a segunda perna norte-americana da World Magnetic Tour, que se encerra em 12 de dezembro na Califórnia, com a maioria dos shows esgotados, o Metallica segue como uma bem azeitada máquina de fazer números. Ao que tudo indica, as críticas nem tão positivas a respeito de seu disco da virada do século, St. Anger (2003), o aniversário de 10 anos da rusga que fechou o Napster e revoltou fãs e a vexatória guerra de egos escancarada no documentário Some Kind of Monster parecem ter ficado para trás.
Em que se pese a fidelidade canina de seus seguidores, James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Robert Trujillo parecem ter feito por merecer os louros depois de Death Magnetic. Disco mais recente e motivo do giro mundial que dura mais de um ano, o álbum lançado em setembro de 2008 conseguiu recolocar o Metallica entre os artistas campeões de vendagem e fez de sua atual excursão uma das mais lucrativas da temporada, ao lado de nomes como U2, Madonna, Bruce Springsteen e AC/DC.
Depois de passar pela Europa e contemplar também o México este ano, a banda desce no começo de 2010 para a América do Sul, onde tem shows agendados para janeiro no Peru e março na Costa Rica, Panamá, Colômbia e Venezuela, todos confirmados em seu site oficial. Na mesma seção, a banda avisa: "Sendo espertos como são, sem dúvida devem ter notado alguns buracos na agenda... por favor, continuem checando pelas próximas semanas para mais anúncios".
Outro indício da passagem do Metallica pelo Brasil em 2010 seria um show - igualmente confirmado extra-oficialmente - que o grupo teria acertado para o Festival de Verão de Salvador, na Bahia, também em janeiro. Por aqui, a Opinião Produtora alega motivos contratuais para segurar a divulgação dos valores dos ingressos e pontos de venda - embora o restante do serviço seja de domínio público há tempos.
A data oficial da publicação, segundo a produtora, ficou para esta sexta-feira, dia 20. Até lá, só Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones, ou o AC/DC, podem estragar a festa do Metallica.
Matéria publicada no Segundo Caderno de segunda-feira, 16.11
UPDATE 19.11
Confirmado. Metallica em Porto Alegre no dia 28 de janeiro, às 21h30min, no Estádio do Zequinha. Servio de ingresso e tudo mais no Blog do Remix.
Porto Alegre ressoa numa outra frequência. Pelos bares, casas de shows e festas em geral, é possível notar que os outrora onipresentes terninhos estão dando lugar a despojados jeans e camisetas. Em vez de acordes redondos e melodiosos, o que se ouve são estalidos graves e todo tipo de distorção. Resumindo, sai Manchester e entra Seattle.
É como se, numa equação que foi sendo resolvida ao longo da última década, os 90 e todas as suas referências sonoras se transformassem nos novos 60 - principal influência musical para o rock produzido no Estado recentemente e que tem na Cachorro Grande seu principal produto de exportação.
Mas não se trata, a princípio, de uma cena. Sequer é uma novidade. Algumas bandas, como Viana Moog e ProzaK, têm quase 10 anos de bons serviços prestados ao underground rocker gaúcho. E mesmo as que estão debutando agora - caso da Loomer - são formadas por músicos que vieram amadurecendo nas sombras.
E todos concordam que não é de graça - embora se espantem com o retorno que têm recebido na forma de audição e download de músicas, convites para shows e público cativo.
- Não esperávamos nada quando montamos o nosso MySpace, mas em poucas semanas já tínhamos centenas de acessos - afirma Bruno Daitx, da ProzaK.
Stefano Fell, que integra dois dos principais projetos dessa onda, a Loomer e a Trasmission, é um dos seus maiores entusiastas. E fala com a propriedade de quem passou por bandas alternativas de Porto Alegre desde os anos 90, como a cultuada Dead Fingers:
- Não fazemos barulho por nada, esse é um trabalho que vem sendo desenvolvido há tempos, e que agora parece ter encontrado um público receptivo.
Público esse que foi sendo educado quase à revelia, em casas noturnas onde essa mesma turma discotecava músicas próprias e das bandas que os influenciavam. Aos poucos, clássicos ou faixas moderninhas confirmadas das pistas foram substituídas por representantes do rock sônico, antipop, de pegada ruidosa e pouco agradável a tímpanos sensíveis.
Nessa módica investida, a aposta era no som de Velvet Underground, Sonic Youth, Nirvana, Dinosaur Jr., Pixies, Queens of the Stone Age, My Bloody Valentine, entre outros, acostumando ouvidos indies ao curto-circuito que estava sendo preparado: uma aparentemente inevitável retomada dos anos 90.
Se vão tocar no rádio, compor line up de festival, ter clipe rodando na TV, encher a mala de prêmios e fazer fama e fortuna é impossível prever. Nem é por isso que eles estão nessa. Eles estão apontando direções, mostrando que é possível ir além do que está estabelecido, do que já foi testado, aprovado e copiado a exaustão.
Em comum, o sombrio, o peso, a distorção, espécie de resgate da arte de fazer barulho, empilhando camadas de riffs, contidos ou desesperados, em inglês ou português.
Iuri Freiberger, músico e produtor gaúcho radicado em Recife, sentencia:
- Acho que Seattle vem tímida, mas trará o novo pôr do sol que precisamos, aquele do fim do mundo, mesmo, lá dos cantos do Pacífico, onde o dia acaba.
QUEM NAVEGA A DISTORÇÃO
Transmission e a arte do preenchimento
A capa do primeiro EP da Transmission diz mais sobre as intenções da banda do que qualquer lista de influências ou pré-definição para balaio de loja de CD poderiam. Guardando as seis faixas gravadas entre 2004 e 2005, em tons de azul e preto, está um circuito eletrônico, o mesmo tipo encontrado nos pedais de efeitos que o grupo utiliza para criar a atmosfera ideal para as canções carregadas de eletricidade que compõem seu repertório.
A ideia parece ser não deixar qualquer espaço vazio, recheando cada lacuna com o máximo de agudos e graves possíveis da linha de ataque formada pelas vozes e guitarras alternadas de Stefano Fell e Giana Cognato e o baixo de Carol Pinedo. Fazendo a pista para as cordas, uma bateria reta comandada por Letícia Rodrigues. E nem sempre é proposital:
- Cada um ouve muita coisa, e muita coisa diferente. E quando a gente se junta, não existe um caminho pronto. Tem faixas, por exemplo, que demoram meses para sair - explica Stefano, sobre parte do processo criativo do grupo.
Mas não é necessário mais do que alguns minutos acompanhando um show ou um ensaio da Transmission para perceber que existe, sim, uma trilha definida. E é a da construção de melodias através de camadas de ruídos - sejam puros ou modificados - cuidadosamente escolhidos. Nada à toa, de improviso, descartável ou pela metade. Esta, outra característica do processo de criação do quarteto: o refinamento.
Depois de um hiato de dois anos, o grupo está em estúdio gravando faixas inéditas que deverão formar o primeiro disco, previsto para o final do ano.
Juntando ruído
Loomer é o nome de uma canção da banda My Bloody Valentine, uma das precursoras do shoegaze - subgênero conhecido pelos músicos que tocam olhando para os próprios pés, introspectivos. Mas é somente nas performances estáticas que a banda Loomer se assemelha aos irlandeses, fechando mesmo com a usina de ruídos brancos criada pelo Velvet Underground e aperfeiçoada por Sonic Youth e Dinosaur Jr.
De início um despretensioso trio, formado pelos guitarristas Stefano Fell e Richard La Rosa com o baterista Guilherme F. para extravasar agressividade e criatividade, a Loomer parecia esperar por Liege Milk. A baixista trouxe riffs pesados e consistentes que, somados ao gosto pela distorção e velocidade de sempre, deram o verniz final a sua sonoridade.
Entre os tijolos da parede construída pela sobreposição de acordes dissonantes e andamentos criados ao sabor da eletricidade, vocais masculinos e femininos sussurram a beleza da solitude num mundo dominado pela reverberação.
Mind Drops, primeiro EP do quarteto lançado este ano, é um clássico instantâneo.
Poesia e destruição
A Viana Moog não é uma banda. É uma covardia. Tem alguns dos músicos mais inspirados que o Estado produziu em anos e um legítimo boêmio performático - como não se via desde Edu K dos tempos do DeFalla - nos vocais. A trajetória, iniciada em 1998, é compreendida em dois discos: o EP Boemia Adolescente Após os 30, de 2002, e o disco homônimo de 2007. A diferença se nota na produção das guitarras de Cris e Luciano, no baixo de Junior e na bateria de Felipe Oliveira (hoje substituído por Marcos Rubenich), que não economizam em sujeira e (boa) prentensão.
O que não mudou foram as letras (versículos?) do vocalista Everton Cidade. Em poucas linhas, traduzem a angústia química de uma geração sem referencial poético. Até agora.
Mistura fina
Bruno Daitx cresceu vidrado nas performances de Kurt Cobain. A podreira sincera e honesta do som de Seattle acabou sedimentando a base do que seria a ProzaK, quando o então garoto chamou os amigos Adilson Tessari e André Gules para gravar o primeiro disco, Reciclando Almas.
Misturando ainda elementos de britpop, o trio produziu faixas que são tanto um convite à pista mais quente do mundo quanto à reflexão no mais gélido quarto escuro.
Mas brigas internas dividiram a banda no segundo disco, que contava ainda com Brisa, irmão de Bruno. De volta, o grupo prepara um novo trabalho que se pretende solar como The Used e sombrio como Tom Waits.
Matéria publicada no Segundo Caderno de segunda-feira, 09.11
Abaixo, texto do músico e produtor gaúcho Iuri Freiberger _ hoje radicado em Recife _ sobre a cena porto-alegrense e umas cositas mais.
Seattle nos salvará
Fim de década, começo de outro ciclo de revival, dessas vez 90, grunge, Manchester, rave e afins.
Acho que a cultura de Porto Alegre caiu numa piada ensimesmada, acreditando que em geral tudo o que sai daí é melhor que dos outros lugares, ao mesmo tempo que paga pau pra tudo que vem de fora.
Se alguém daí concorre ao VMB, seu ego será tão maior que mal consegue passar pelo viaduto quando voltar de São Paulo. E, engraçado, nem 100 pessoas a mais irão no próximo show, acho que estarão mais interessadas em Victor & Leo, que vi colocando 40 mil pessoas a cantar no Planeta Atlântida desse ano.
Por outro lado, essa cultura brasileira de que qualquer artista mais ou menos que a mídia ou internet aponte como o grande da hora seja mais legal do que os que pegam o mesmo ônibus todo dia com a gente, faz com que a referência se torne mais importante do que o que temos a dizer.
Isso é da cultura longe demais das capitais, uma supervalorização do que parece inatingível, superior e vale mais do que o vizinho que canta sobre sua vida cotidiana local. Ninguém sabe quem é Nei Lisboa país afora (uma lástima!), mas todo mundo vai ver o Moska quando a Opus leva pro Bourbon, pagando os níqueis suados do mês, porque ele é bonitão e tem o programa no Canal Brasil. Isso sem contar nos gringos que vêm sobreviver por aqui _ vide Living Colour.
Além, é claro, de não se poder sair dos ciclos evidentes de décadas. Anos 90 na cabeça, grunge revisitado depois do que aprendeu ao longo dos 20 anos passados. O novo Pearl Jam usou seus sais pra reanimar. Sonic Youth e Faith No More são as bandas da hora, lado a lado com os emos em fim de carreira que vem pro país pra ganhar alguma grana ainda.
O sessentismo seguiu essa regra. Finalmente, depois de tanto sobreviver passando por 40 anos, dois ciclos exauriram a piada. Talvez Manchester ainda nos dê alguns caminhos, como parece o que o Cachorro Grande apontou, mas acho que as bandas locais nem entendem isso, nunca entenderam. Ficam reincidindo na hiper valorização de quem fez alguma história recente de "sucesso", mas que ainda se baseia na próxima volta dos Beatles.
Rock band rock gaúcho, em cartucho pro Telejogo. Afinal, vintage é mais legal!
Em geral, acho que sempre aquilo que é mais fácil e tem mais costume no cancioneiro de cada região é mais reproduzido. Alguém imitou Radiohead? Mas no sul tivemos nossos Ramones, nossos Weezer, nosso Oasis, nosso Guided by Voices, nosso Nirvana-Sonic Youth. Não preciso dizer quem, tenho certeza que tu já identificou.
O problema é que muitos ainda acreditam na ponte Salgado Filho - Heathrow, e ainda querem ver seus ternos molhados na temperatura gangorra da cidade. Fico impressionado que só vejo os gaúchos querendo se mudar pra Londres, a matriz do que é a capital com o melhor pôr-do-sol do mundo! Será que o mundo é só isso?
Acho que Seattle vem tímida, mas trará o novo pôr-do-sol que precisamos, aquele do fim do mundo mesmo, lá dos cantos do pacífico, onde o dia acaba. Ode a 2010, ode ao BigMuff!
Que venha a NOVA ERA FUZZ no rock que ouvimos na festa de sábado do nosso vizinho.
Quem foi para o Pepsi On Stage na noite de terça-feira foi sabendo tratar-se de um funeral. E o palco decorado com cortinas de cetim vermelho, banda vestida formalmente e abertura em tom lúgubre, com o tema do filme Midnight Cowboy, não deixavam dúvidas. Sem qualquer possibilidade de sobrevida após a fim da turnê Second Coming, o Faith No More veio decidido a dar exatamente o que as 3,5 mil pessoas que foram ao seu encontro esperavam: tudo.
E tudo foi o que tiveram, com tintas de nostalgia tão brilhantes quanto o paletó que Mike Patton utilizou durante uma canção e meia, tempo necessário para provar que estava absolutamente em forma. A começar pela voz, ainda capaz de comandar da rascante From Out of Nowhere à jazzística Evidence com a mesma destreza.
Em pé, deitado, sentado ou rolando sobre o palco, gritando palavrões em português com e sem o auxílio de um megafone - sim, ele também manteve intacto seu quociente de insanidade -, o vocalista comandava uma banda afinada e com completo domínio do repertório. Nem a sofrível acústica da casa impediu, por exemplo, que as fabulosas notas graves do baixo de Billy Gould ressoassem diretamente no peito da plateia, especialmente em Land of Sunshine e Midlife Crisis.
Ambas, retiradas do cultuado Angel Dust (1992), foram cantadas como se ainda ontem figurassem nas 10 mais de uma FM popular. Passados quase 20 anos de sua explosão mundial (com The Real Thing, de 1989), outro disco base do espetáculo), o FNM dava a impressão de estar tão vivo e sólido como nunca. Parece irônico, no entanto, pensar que é justamente o respeitável e vigoroso repertório de hits um dos indícios mais fortes da iminente pá de cal.
Quem ajudou a encher metade do Pepsi On Stage - um feito para bandas adultas nos últimos tempos, ressalte-se - estava lá não por conta de um propagado revival dos anos 90, mas para matar a saudade ou reverenciar um elo importante da música pop moderna. Um elo da última geração de bandas que precisavam de toda uma carreira para se consolidar, e não uma ou duas faixas jogadas em um site. Um elo perdido.
Resenha publicada no Segundo Caderno de quinta-feira, 05.11.
Abaixo, trechos do show:
Eu não sei bem por que essa música tava no meu celular, mas tava. Devia ser porque era uma época em que eu baixava muita coletânea. Então a sala de embarque ficou muito maior do que é, a claridade do dia me cegou junto com as luzes de mercúrio do teto e a poltrona nunca foi tão dura quando tocou The Sonnet, do Verve.
Eu não conseguia entender muito o que o Richard Ashcroft cantava, mas a melodia era tão foda, mas tão foda, aquele crescendo de guirarra e bateria se encaixava tão bem, que eu já nem fazia questão de esconder que chorava. Tirei os óculos escuros e mandei olhos afora toda a água salgada que meu corpo conseguia produzir naquele momento.
No meio da surdez dos tímpanos, espremidos pelo choro, distingui o refrão, que dizia "Yes, there's love if you want it". Caralho, que puta mentira! Que mentira mais filhadaputa! Eu queria que existisse amor, só que ali, naquele aeroporto, era justamente onde eu estava sepultando o que eu achava que ele era. Cada vez que uma aeromoça chamava para embarque eu chorava mais e mais e me perguntava como esse filhodaputa desse inglês de merda podia dizer que bastava eu querer para que o amor existisse. Como, me diz? Olha onde eu estou, sem vergonha alguma de chorar em público, empapando a camiseta de lágrimas e baba, gente já me oferecendo água, e tu vem, num arquivo compactado vagabundo, me dizer que é só eu querer?
Mas aí eu flagrei a segunda parte. "Don't sound like no sonnet". Sim, o amor existe se você quiser. Mas não soa como um soneto. Senti soluçar menos. Bem menos. Até parar. Nada de soneto. Soneto me remetia Vinícius de Moraes. Soneto do Amor Perfeito. Amor perfeito o cu, quem quer saber de amor perfeito enquanto tateia cegueta pelo corredor do avião depois de ter perdido as lentes de contato de tanto chorar? Se foder, ô poetinha. Enfia essa retórica solar e carioca onde tu quiser. O amor não é um soneto, não é. Poder ser uma criação medieval, pode ser uma convenção, Roma escrito ao contrário, rima pra dor, o diabo. Mas não é um soneto. Muito menos perfeito. Tava lá o Richard Ashcroft me dando a real, porra.
Ele existe. Mas não é um soneto. Não pode ser enquadrado numa métrica. Não cabe numa folha de papel ou pergaminho. O fio dum cane exige muito mais do que isso. E eu fui ouvindo The Sonnet a viagem inteira. E continuei ouvindo enquanto desfazia as malas. E só parei quando apaguei o arquivo para colocar Love is Noise. É, o amor é um barulho, um ruído, é essa tristeza, esse blues que a gente vai cantar de novo e de novo e de novo.
Manja tudo de amor esse Ashcroft.
Leia ouvindo. Tanto faz. Ler ou ouvir. Ler e ouvir.
Ou não.
- Thomas. Thomas. Thomas! Thomas, caralho, tá ouvindo?
- Merda, qué que foi? Puta dor de cabeça, apaga essa merda de luz, bicho.
- Tu foi convocado, cara, acorda. Tem que se apresentar pros cabeças. Anda, cara!
- Puta que pariu, puta que pariu!
- Não adianta xingar, agora já era. Tu mesmo assinou a ficha.
- Porra, nêgo bebe e faz tatuagem, dá a bunda, dorme na casinha do cachorro, mas eu boto meu nome numa porra duma guia me voluntariando pra ir pro espaço. Que merda, bicho, que merda!
- Fui, mermão. Na volta a gente conversa.
- Humpft.
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- Major Thomas?
- Sim senhor, senhor! Mas pode chamar de Tom. Só não conta pro Jerry, hihihi...
- Como?
- Nada, senhor. Desculpe-me, foi uma piada. Não acontecerá de novo.
- O senhor está em condições de voar, Major Tom? É uma missão simples, de reconhecimento e pesquisa no espaço, como bem deve saber já que assinou a guia de voluntariado.
- Sim senhor, senhor.
- Dispensado, então. Pode ir para o foguete. E que o amor de deus esteja contigo.
- Senhor, sim senhor!
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- Major Tom! Major Tom! Aqui é o controle terrestre! Tá ouvindo, diabo?
- Tô, seus putos, não precisam gritar nessa merda de comunicador. Qué qui é?
- Ótimo. Como estão as coisas aí?
- Dã! Adivinha? Escuro. Qual vai ser a próxima pergunta? Se rola de plantar feijões sem gravidade?
- Beleza. Ó, a galera aqui apostou 100 pilas que tu não tem culhão pra dar um rolê pra fora.
- Rá! Se fuderam, porque eu acabei de abrir a escotilha e já tô flutuando, livre e leve feito o dinheiro do contribuinte na mão desse putedo que comanda a agência espacial. Podem me pagar em bourbon, claro.
- Descreve então as condições de temperatura e pressão, seu puto, pra gente poder encerrar logo a parada por aqui.
- ...
- Tu ouviu, Major Tom? Major Tom, tu tá ouvindo? Responde, caralho! Mas que viado...
- Estranho, mas de repente uma pá de coisa começou a fazer sentido. É tudo tão distante e... infinito. Tá tudo tão diferente aqui, sentado na minha cápsula...
- Isso, bichona, agora senta na alavanca de ejeção pra ver o que é bom, hahahahaha.
- Aê, acho que eu não volto mais, não. Vou dar linha por aqui mesmo. Melhor, vou cortar a linha, hehehe.
- Oh sim, claro, se atira em direção ao lado escuro da lua pra ver se tem uma civilização ancestral por lá. Já fez as medições que pedi, bicho?
- Eu não vou voltar, controle. A Terra é azul e não tem nada que eu possa fazer, sacou? Nada. Ela é redonda, azul, azul pra caralho, totalmente azul, ceis devia ver isso daqui. É tão... barbaridade...
- Pára, véi, qué isso. Entra logo de volta pra nave e rebobina de volta, vai. Ó, a gente tá indo pro boteco do Cabana, beleza?
- Muito afudê tudo isso, cêis tinham que ver, cêis tinham que tá aqui...
- Mano, larga mão que o tempo de oxigênio tá acabando, tu vai ficar sem ar aí, porra!
- ...
- Major Tom? Major Tom? Thomas, seu fiudumaputa, responde!
- Fala pra minha mulher que eu amo ela. Ela sabe, mas é sempre bom lembrar. E isso vale pra vocêis também, seus lazarento, pra tirá os zóio dela.
- Ninguém quer a sua mulher, bicho, volta logo pra merda da nave e começa o procedimento de retorno. Major Tom, isso é uma ordem.
- Qué isso, brou, que ordem o quê. Aqui não tem dessas coisas, não. Nem a gravidade dá as cartas nesse buraco, bicho. Sou só eu e todo esse imenso vazio que me diz mais do que toda a minha vida jamais poderia dizer.
- Beleza, tá filosofando, que lindo. Sabe por que? É a falta de oxigênio afetando a porra do teu cérebro, cara. Não tem nada aí, qualé a tua, ô meu?
- ...
- Major Tom? Major Tom, pode me ouvir? Major Tom, essa é uma ordem oficial de retorno. Major Tom?
- Valeu a força aí, galera. Mas eu tô ralando peito, falou? Ajustei o retorno da nave, deve cair bem em cima do bar do Cabana, hahahahaha. É sério, melhor não aparecerem por lá...
- Major Tom, entre na nave, corrija a rota e volte para o comando. Isso é tudo.
- Sim isso é tudo. Mesmo.
No último final de semana rolou o MorroStock, festival que reuniu dezenas de bandas de todo o Rio Grande do Sul, meia dúzia de outros Estados e uma da Argentina. O lance todo ocorreu no Bar do Morro, em Sapiranga, cidadezinha no interior do RS há coisa de 1h30 de Porto Alegre.
O evento, em seu terceiro ano, merecia, pela minha análise, uma cobertura decente. Então propus para o jornal que me enviasse para lá, de mala, cuia e barraca, durante os quatro dias do festival. Faria uma cobertura online full time mais um rescaldo para a edição impressa.
E os caras toparam.
Eis, organizados em ordem cronológica, os textos publicados no blog do Remix da tarde de sexta-feira até a noite de terça-feira. Dá um pulo lá, que tem mais fotos e coisa e tal.
Sexta-feira, 09 de outubro de 2009
MorroStock OU a vida até parece uma festa
Então vamos começar com uma poesia:
Vocês querem rock?
Pergunta o tradicional lema
Se estão no MorroStock
Ora, isso não vai ser problema
Entre o cinza do céu
E o colorido do acampamento
Só não rola o Créu
O que seria um contrasenso
Veio gente de todo lugar
Explorar o campo aberto
Querem dançar até o dia clarear
Quem sabe um café da manhã com pão de queijo e Rei Alberto
A noite escura e fria
Impressiona os citadinos
Ah, mas que se dane, cara mia
Apenas me esquente enquanto batem os sinos
Barraca embaixo de pé de amora
Pareceu uma boa ideia
Só espero que agora
Não chova sapo ou moréia
E no primeiro dia criou-se o metal
Não foi sacrifício algum interromper o meu xis bacon para...
DESCULPEM, PRECISO FAZER UM APARTE:
Três coisas que é preciso saber sobre o MorroStock:
- Bebida gelada
- Comida boa
- Preços justos
OK, DE VOLTA
... assistir a Gory, banda de metal extremo de São Leopoldo que abriu os trabalhos do MorroStock esta noite. O quinteto foi responsável também por dar início a noite mais barulhenta _ mas nem por isso menos melodiosa e agradável _ do festival.
Em seguida, de Venâncio Aires, o Melancias Indigestas botou pra quebrar, puxando um pouco mais para o hardcore anos 80. Cantando em português, puxaram a primeira roda de pogo da noite. O que diria Andressa Soares de um nome desses é um mistério que nunca descobriremos...
Antes deles, MauroLauroPaulo, o Homem-Banda, fez as vezes de mestre de cerimônias apresentando oficialmente o evento. E não fez feio, improvisando com pratos, apito, tambores e sopros espalhados pelo corpo.
E MauroLauroPaulo, assim como os vilões de filmes de terror (comparação péssima, mas perfeita), voltará por essas bandas em breve.Rock contra o frio
Pode parecer campanha de arrecadação de agasalho, e é quase isso mesmo.
A meia-hora do dia virar, esse repórter aqui já colocou as duas calças que trouxe, mais o cachecol que sem querer foi parar na mala _ e que o salvará de uma inevitável dor de garganta _ e ainda duas jaquetas. Por baixo de tudo, duas camisetas e dois pares de meia.
Sim, faz frio por aqui. E nem é preciso ver a respiração sublimando, o açude que divide a área de camping coberto de neblina ou o orvalho que começa a aparecer na grama.
Isso explica o guarda-roupas da Bjork?
Sábado, 10 de outubro de 2009
Imóvel funcional
Pela plateia que se aglomerava no gargarejo, Os Replicantes eram uma das atrações mais esperadas da noite de sexta-feira. A postura e figurino da vocalista Julia Barth não podem ser subestimados, evidentemente, mas é preciso admitir que existe mais personalidade por trás de um vocal rasgado do que em shorts na mesma situação.A banda subiu ao palco por volta da 1h30 decidida a ganhar, tocando talvez seu maior hit, Surfista Calhorda. A plateia respondeu a altura, abrindo a maior roda de pogo da noite que, como um buraco negro, sugou até este repórter. A apresentação teve ainda Hippie-Punk-Rajneesh e Festa Punk.
Com
tanto punk, algo estalou nas minhas combalidas costas. Escrevendo da
cozinha do Bar do Morro, inebriado pelo aroma do yakissoba que o chef
Alan Chaves preparou durante a noite, notei que a base do repertório
d´Os Replicantes é quase toda fundamentada em Sheena is a Punk Rocker,
dos Ramones.
Talvez tenha alguma coisa a ver com os azulejos ou a falta de janelas, que aprimoram a acústica. Não prometo investigar, mas vai que...
Fechando em grande estilo
O Hibria fez um dos grandes shows da noite. Recém-chegados de uma vitoriosa turnê pelo Japão, subiram ao palco do MorroStock para divulgar seu último disco, Skull Collector, ganhador de resenhas positivas em revistas especializadas em terras dominadas pelo metal.Em Sapiranga, o grupo mostrou entrosamento, velocidade e precisão. Fizeram um show conciso, correto, mas sem deixar de empolgar. A animação da plateia contagiou até o vocalista, que aproveitou para filmar os cabelos que esvoaçavam a sua frente.
Não demora, estarão entre os grandes do metal brasileiro fazendo ainda mais bonito pelo planeta.
Sobrevivendo a primeira noite - lições
São pouco mais de 7h de sábado. A última banda de sexta-feira, Unidos Pelo Ódio, acabou de deixar o palco. O nome do grupo e a sensação que eu e a parte sonâmbula do acampamento estamos sentido possuem uma estranha sincronia. Diria cômica, se não beirasse o histérico.E, olha, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia muito bem estar me lamentando profundamente, mas ao invés disso vou tentar prevenir os próximos peregrinos que por ventura embarcarem numa como essa:
1 - Não tente dormir enquanto as bandas estiverem tocando. Não importa se você está com sono. Você não dorme quando está com sono, e sim quando simplesmente não aguenta mais ficar em pé ou manter os olhos ou os reflexos funcionando ou, para a sua sorte, tudo isso junto. Então você desaba e é isso.
2 - Sua barraca é sua fortaleza. Como senhor dela, é seu dever protegê-la. Por isso, atenção:
2.1 - Alguma coisa arranhando as paredes dela pode ser espantada com uma movimentação mais consistente; se insistir, um chute resolve.
2.2 - Alguma coisa tentando abrir a sua barraca pode ser espantada com um grunido do tipo "onde deixei meu rifle?"
2.3 - Coisas caem sobre a sua barraca. Se for se incomodar toda vez que um coquinho seco atingir a lona, volte ao item número 1.
2.4 - Onde cabe um, normalmente cabem dois. Mas coloque sua integridade física e psicológica acima de qualquer instinto ou carência ou momento de doideira. Repartir é legal, mas com inteligência.
3 - Ninguém vai se importar se você tomar uma saideira às 6h30min. É um direito conquistado, aproveite. E muitas vezes, é o que falta para despencar nos braços de Morfeu.
4 - Sempre vai ter alguém dedilhando Legião Urbana ou Raul Seixas por perto. Se isso estiver te incomodando, por favor, volte ao primeiro item.
5 - Por mais que os banheiros estejam identificados como masculinos e femininos, depois de uma certa hora isso é apenas uma imposição gráfica ditada por uma mentalidade anacrônica que visa tolhir a sua liberdade de escolha. Opte sempre pelo mais limpo e seja feliz.
6 - Você tem o direito de dormir. E os outros, de ficar acordados. E um festival de rock é um dos poucos casos em que não vence a maioria, e sim quem tem o equipamento de som mais potente. Acostume-se a isso.
7 - Ir dormir com uma imagem como essa compensa absolutamente tudo:

A cara do MorroStock
Os amigos Fillipi Bittencourt, Audrey Wallace, Jessica Rodrigues e Rosalia da Rocha representam bem uma das faces do MorroStock. Vieram de Porto Alegre e Canos num Fusca, trazendo uma sombrinha com as cores do arco-íris e uma canga com cogumelos púrpuras. Pararam nos anos 70 e adoram isso.
Mas o quarteto não pertence apenas ao festival de Sapiranga _ apesar de virem desde o primeiro. Durante o ano, se mobilizam para tentar a ir a todos os encontros do gênero que acontecem no Rio Grande do Sul e arredores. E um dos seus preferidos, o Psicodália, que ocorre durante o período de Carnaval em São Murtinho, Audrey e Jessica pretendem se casar.
No
MorroStock lamentam apenas a ausência d´Os The Dharma Lovers e Pata de
Elefante. E sugerem Tangos & Tragédias para a próxima edição.
_ Tem tudo a ver, é teatro, música, comédia e muito bem feito _ afirma Rosalia, que na manhã de hoje desfilara pelo acampamento, voltando do banho, com uma toalha negra enrolada na cabeça.
No mais, ficarão até terça-feira, um dia depois do fim do festival _ a exemplo do que fizeram no ano passado, é bom ressaltar. Em 2008, foram os últimos a deixar o pé do Morro Ferrabraz. Ninguém duvida que farão o mesmo agora.
São Leopoldo no mapa
O Remix sempre foi fã de São Leopoldo. Uma banda que pari uma banda do quilate da Sargento Malagueta, não pode ser colocada em segundo plano. Pois eis que, vinda da mesma São Leo, nós topamos com o BiwalQ, responsável pela abertura da noite deste sábado, a segunda do MorroStock.Por ser a banda de abertura, tocando pouco depois das 18h30min, foram poucos os que puderam ter suas cabeças explodidas quando Bruno Giordano (bateria), Rodrigo Schimitti (baixo) e Matheus Guimarães (guitarra e vocal) subiram ao palco para botar groove no metal.
Eu mesmo sou suspeito para falar, perdi a primeira música enquanto acompanhava as primeiras partidas do Rock Band. Só quando ouvi um pedal de wah-wah atravessando uma bateria quebrando pelos cantos que eu percebi o erro que havia cometido. Corri para o palco e me juntei a meia-dúzia de fãs do power trio. Quem perdeu pode começar a chorar agora e não parar de soluçar até assistir os guris ao vivo.
Não é exagero, principalmente por se tratar de uma apresentação ao vivo, orgânica, sem nenhum truque de estúdio. O que Schimitti faz com o baixo _ amarrado no peito e tocando como se fosse um piano! _ é uma obscenidade de deixar Isaac Hayes corado no túmulo. Um trio de branquelos tocando feito negrões, é isso que o BiwalQ parece. Até meter um riff de death metal e mostrar que estão além de qualquer rótulo de cor ou estilo.
É fusion peso-pesado, só isso. E isso é muito, muito mais do que se poderia esperar de guris autoditadas que acabaram de se descobrir músico.
Sem sair do groove, só que mais dançante, vieram em seguida os conterrâneos do O Carabala. Sim, outra banda com nome de gosto duvidoso, mas uma usina de fusão atômica musical, talvez menos experimental que o BiwalQ e mais pop, só que sem perder o vigor. Sem querer dar certo, se é que vocês me entendem.
E daqui a pouco tem ninguém menos que a Sargento Malagueta e...
Domingo, 11 de outubro de 2009
Someday I'll be Saturday Night
- Quem? Quem botou um título de música do Bon Jovi pra falar da noite de ontem? Quem? Tu é fã do pirilampo de New Jersey, é? Eu sabia. Aposto que gostou de ver o Kurt Cobain cantando as músicas dele no Guitar Hero 5, maculando a memória do último grande gênio/mártir do rock, seu.. seu.. seu... fã de Bon Jovi!- Mas é só um título prum post! Precisava de alguma coisa que tivésse sábado no nome, e aí lembrei dessa música.
- Lembrou porque fica ouvindo. Deve ter a discografia inteira do cara no teu IPod, vai, confessa.
- Mas nem IPod eu tenho! O que conheço é de ex-namoradas com gosto musical duvidoso e do cacete que tomei ontem tentando acertar You Give Love a Bad Name no Rock Band, depois do show do The Raves. Sacumé, pra dar uma aliviada, os guris de Pelotas sentam muito o braço. E fizeram ainda uma versão para Bohemian Rhapsody que, juro, fez neguinho acender isqueiro e ficar com os olhos úmidos.
- Ah, foi descansar o ouvidinho, foi? Mas só podia mesmo ser fã de Bon Jovi, o mancebo...
- É, mas nem era necessário, pra falar a verdade. Depois veio o Zé Trindade. Tá ligado no Zé Trindade? Um trio de músicos mineiro e tal. Eles misturam instrumentos tipo harmônica, viola e flauta transversal pra dar um toque regional no rock deles, mas não me convenceu muito, não. Sei lá, caipiragem fake... Bom, pelo menos os caras honraram as Gerais e distribuíram cachaça pra galera. Mineira gente boa, essa...
- E tu tomou? Tomou cachaça? Tomou nada, pegou foi um Toddynho, hahahahaha!
- Bah, Toddynho eu fui tomar era quase 7h30, quando o L.A.B. (foto abaixo) recém havia descido do palco. Eu pensei que a escolha tinha sido errada, botar a gurizada de Novo Hamburgo pra tocar sintetizadores depois da pauleira orgânica do Walverdes, não me parecia muito esperto. Mas os caras seguraram a bronca e literalmente amanhaceram o MorroStock. A mesa de programação ali era quase um coadjuvante, o que o L.A.B. faz é muito, muito mais humano que as máquinas que aprenderam a dominar.
- O Walverdes tocou? E tu ficou pra...
- Eu acordei só pra isso, cara. Tava tirando um cochilo depois da fanfarronice da Bandinha Di Da Dó quando ouvi o Mini chamando pro gargarejo. Acordei com alguma coisa estranha colada no cabelo, mas fui assim mesmo. Só notei que tava congelando quando os caras encerraram quase explodindo as caixas, saudando os primeiros raios de sol. Ninguém ficou parado, ninguém. Não teve cansaço, não teve trago, não teve doideira, não teve mau humor que resistisse. Até os caras do AMP enlouqueceram. Tá ligado o AMP?- Deve ser tipo Bon Jovi, pra tu ter acompanhado...
- Só se o vulgo do sr. John Francis Bongiovi adquiriu duas verrugas no rosto, canta com a voz do demônio e mudou o nome para Lemmy Kilmister. Os pernambucanos são hardrock, meu velho. Não economizam em nada no que remete a volume e distorção. Se tivesse uns 10 anos a menos, estaria malhando a cabeça nas vigas de sustentação da tenda, mas nesses tempos eu me contentei foi em balançar a perna, menear a cabeça e lembrar porque tinha acabado de confundir um tiozinho qualquer com o Carlos Gerbase.
- Tu fez o quê?
- É, cheguei prum tiozinho que era a cara do Gerbase e disse: "Ei, professor Gerbase, veio tocar com a sua antiga banda?". Ele respondeu: "Professor Gerbase? Meu nome é Renato!" e saiu correndo. Correndo mesmo, nem olhou pra trás. Nem tive tempo de me desculpar pra...
- Mas como tocar com a antiga banda dele? Os Replicantes não tocaram na sexta?
- Sim. Mas eu ainda tava lembrando disso ontem _ ou hoje, que seja.
- Acho que tu precisa dormir.
- Hum, pode ser. Mas tu também não tá lá muito bem, Courtney Love.
- Courtney Love? Tá me estranhando rapá? Que levar uma bifa, quer?
- Pô, foi mal, acho que tô sob efeito da falta de sono. Preciso escovar os dentes também, barbaridade...
- Ih, mermão, é o típico papinho de fã de Bon Jovi esse. Nem vou dar mais trela pra ti. Ó, te larguei, beleza?
- Tá. Té mais, Courtney.
- É Cássia Eller! Cássia Eller, porra!
- Tá, tá, foi mal. Eita...
Água morro abaixo
E a água cai inapelavemente em Sapiranga. No MorroStock, as tendas do palco servem de refúgio para quem decidiu ficar mesmo com o tempo fechando desde o final da manhã _ garantindo, assim, o quórum para o debate sobre os coletivos de música independente, que ocorre por ali.
Só para registro, o BIL (Bandas Independentes Locais), de Canoas, um dos maiores e mais articulados coletivos da região de Porto Alegre, tem um sujeito chamado Paulista. Quem tem o meu rosto quando de perfil e o meu timbre de voz.
Certo, hora de começar a tomar água. Só água.
UPTADE 20H15
Isso, idiota. Pede pra tomar água. Se antes a chuva era constante, mas leve, pouco mais que uma garoa, agora cai como a fúria de um deus que acabou de ser sacaneado pelos humanos. Acontecia muito na Grécia antiga e no Oriente Médio, mas parece que é primeira vez que rola em Sapiranga. Essa coisa de emputecer um deus e tal, e ele se vingar depois alagando o mundo, manja?
Por enquanto, os bravos convivas que resistem embaixo das tendas já sentem a lama chegar aos seus pés. Prevejo, para breve, criaturas emergindo da fusão de substâncias espalhadas pelo cenário, algo entre mutações radioativas e bonecas animadas articuladas de desenhos animados do anos 90.
Pinga ni mim poderia ser um hino, mas a galera parece preferir o seco. Como se isso fosse atualmente uma opção, e não uma consequência de algum deus furioso que...
UPDATE 22H51
Claro
que continua a chover caudalosamente sobre o Morro Ferrabráz e
cercanias. E claro que isso não impede que o MorroStock continue como
se o sol da meia-noite rachasse os eucaliptos do lugar -- se esse sol
produzisse a lama que fez a alegria de uma turma que entregou-se de vez
ao espírito Woodstockiano presente no festival e se jogou de corpo, alma e
roupas nas poças de lama formadas em frente e ao redor do palco. Tudo
durante o show do Taxi Drive, que mandou covers matadores de Jimi
Hendrix (Red House) e Muddy Waters (Hoochie Coochie Man). Ainda sob a
regência da equação água + lama = diversão, os Gullivers e o Valentinos
perpertuaram o britpop que tantas alegrias continua a dar à cena rocker
porto-alegrense e parece resistir ao avanço do tempo.
Quem quis manter os pés secos refugiou-se dentro do próprio Bar do Morro, onde o Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense mandava seus standarts do velho blues caipira. Houve quem preferisse dedilhar Legião Urbana numa rodinha improvisada, mas aí já é outra história...
Segunda-feira, 12 de outubro de 2009
This is the end...
Sim, compañeros, último dia. E se minha conexão deixar, consigo atualizar vocês ainda sobre a noite de ontem. Em imagens _ poucas, mas limpinhas e significativas _ um pouco do que foi o tempestuoso terceiro dia do MorroStock.

Foto do meu All Star? Na lama? Mas ele tá tão limpinho...

Conjunto Bluegrass Portol-Alegrense & Respeitável Plateia

Barro? Lama medicinal, meu caro...
Mas teve mais. Teve o Suco Elétrico que valeria uma espiada nem que fosse pelas galochas estilosas _ e providenciais _ da vocalista. Espia só:

É preciso destacar ainda o Reberva Trio, excelente conjunto de surf music que, até pelo tempo, não poderia ter casado melhor com o festival. O próprio Suco Elétrico fez jus à psicodelia que o nome remete e caprichou em distorções e efeitos para apresentar as canções do seu primeiro disco.
A
noite foi além, mas da minha barraca, por conta de um equipamento de prospectar petróleo que trabalhava na minha cabeça em forma de
enxaqueca, fiquei mesmo foi na companhia das grossas gotas de chuva que
caíam, sabor amora, sobre o meu teto.
Mesmo com uma toalha enrolada na caixa craniana, consegui distinguir as belas performances dos mestre Plato Divorak e Frank Jorge, seguido dos discípulos da Pública. Coisa fina, tipo meu colchonete. Não queiram saber como estão as minhas costas, não queiram.
Bom mesmo foi acordar e ver que chuva havia dado uma trégua. Abaixo, um snapshot das 9h:

Agora
imaginem isso com um sol em plena potência. É como está agora. Peço
para imaginarem porque não tenho mais baterias para a câmera
fotográfica. Coloquei-as na geladeira, para ver se recarregam. Se
rolar, faço novos registros. Se não, coloco elas no meu guaraná e deu.
E aqui, a matéria que saiu hoje, 14/10, no Segundo Caderno.
Jonas tem personalidade. Nove anos de análise fizeram crêr que era tudo que lhe faltava. Comprou roupas, calçados, cortou o cabelo, fez tatuagem, refez a prateleira de CDs, trocou as cortinas. Agora era ele mesmo. Alguém que tinha escolhido ser. Tinha mais do que personalidade, acreditava Jonas. Tinha uma identidade. Era alguém. Alguém muito mais especial que todas as pessoas ao seu redor, que simplesmente existiam. Ele acreditava muito nisso. Tanto que nem notou o olhar de desprezo misturado com sarcasmo que lançou sobre Clóvis, que escorado estava no outro lado do minúsculo bar, cerveja esquentando numa das mãos, tentando da mesma forma que Jonas equalizar o som que a banda fazia estourar em velhos e encardidos amplificadores. Mas Clóvis sacou. Sacou também que não precisava mais da garrafa com um fundo de líquido choco e morno. Lançou a long neck sobre Jonas, que a recebeu entre os dentes _ que só não se espatifaram totalmente por causa do aparelho dentário recém colocado. Mas houve sangue.
- Eu te trai. Só vim pra dizer isso.
- Como se eu nunca tivesse desconfiado.
- Agora tem certeza. E não foi só uma vez, não. Foram várias.
- Ãh. Tá. Que mais?
- Te trai em bares. Restaurantes. Boates. Clubes sociais. Em carros, motéis, hotéis e becos. Em casa também.
- Escuta...
- Mas te traí principalmente na minha cabeça. Te diria que desde o segundo dia que oficializamos alguma coisa. É, desde o segundo dia eu tive outra na minha cabeça. O tempo todo. Cada momento.
- Mas que...
- Era outra durante as refeições. Uma terceira quando estávamos atirados nus nos sofá assistindo alguma comédia romântica vagabunda. No supermercado eu tinha uma especial, sempre a mesma. Estranho, né? Mas no sexo eu sempre fui promíscuo. Rolou com alguns caras algumas vezes e cheguei a tatear sua vagina querendo encontrar um pau ali.
- Aaaah, que horror...
- Não, nada a ver com ser gay ou não. Era apenas para não estar com você, entende? E quando te apresentei para os meus pais, tive que me policiar para lembrar do teu nome, já que na minha cabeça era outra pessoa totalmente diferente que eu queria ver estourando aquela champanhe antes do peru.
- Puta merda...
- É. Chegou num ponto que eu quase acreditei nisso, sabe? Que você não era você, e sim uma outra.
- E qual delas?
- Não sei, qualquer uma, contanto que não fosse você. Até hoje isso me intriga, cinco anos juntos e...
- E você veio aqui só pra...
- Sim. Achei que devia jogar limpo contigo.
- Sinceramente, não precisava. Nem sei o que dizer, eu...
- Não precisa dizer nada, não, tranquilo. Não te ouvia naquela época e acho não quero começar agora. Nem te conheço, na real, então...
- Não sei, talvez se você me conhecesse de verdade, poderia até gostar, não acha?
- Ah, não, isso seria algo totalmente absurdo. A verdade é definitiva, acaba com qualquer outra possibilidade. Prefiro manter as portas abertas, enfim...
- E você? Foi sempre você?
- Me diga você.
- Não lembro, eu...
- Pois é.
Sugestão de áudio: Everlong - Foo Figthers OU The Great Gig in the Sky - Pink Floyd
Comecei pelos meus feeds no Reader. Deletei um monte deles que vinham acumulando angustia há nem sei quanto tempo. Minto, antes fiz uma limpa no Orkut e foram-se dezenas de nomes que nunca me disseram nada. Depois, um pente fino no Twitter e me dei conta que não enchia mais nem uma mão de avatares. Continuei e não sobrou muita gente no MSN _ o bicho até abre mais rápido agora, que coisa. Abri a agenda do Gmail e essa foi mais fácil: deu até pra decorar o e-mail de todo mundo que sobreviveu, de tão pouca gente.
Mas não me dei por satisfeito, sei lá, já estava com a mão na massa, então fui apagando arquivos pessoais. Gigas de músicas e filmes, consumidos ou não, agora tanto fazia. Lixo. Fotos. Traduções. Textos legais e outros nem tanto. Tentativas de posts. Rascunhos de pautas. Uma ou outra matéria. Lixeira, lixeira, lixeira. E esvaziei a lixeira.
Aí fui juntando toda a papelada de casa. Textos impressos de sites, cadernos de culturas, revistas, jornais estrangeiros, a maior parte juntando pó exatamente no mesmo lugar onde haviam sido depositados. Pouco ou nada li daquilo. Como meus feeds, era apenas para me certificar de que tinha acesso àquela informação. Precisar, mesmo, nunca precisei. Nem fez falta. Por isso não doeu nada enfiar tudo em sacolas de supermercado e colocar no pé da porta. Fiz o mesmo com um bom número de CDs e DVDs _ novamente músicas, filmes e séries sob quaisquer condições.
Roupas eu deixei como estava, mas me livrei de cuecas e meias velhas, dois bonés e um chapéu putrefato, tudo acomodado no mesmo saco plástico onde foram despejadas a pouca comida que estragava na geladeira, restos de sabonete e shampoo e vários jogos piratas de videogame. Esse fardo levou ainda fotos e um quadro.
Coloquei tudo pra fora, encostado na mureta que serve de lixeira. Agora não era mais problema meu. Pelo menos aquilo teria uma destinação adequada, diferente dos contatos do meu celular, que ninguém _ nem eu _ faz ideia de para onde foram parar praticamente todos os números que apaguei. Alguns deles me lembravam coisas ruins, outros coisas boas, e isso tudo às vezes me pesava.
Destrui, pois, essas lembranças todas, numa auto lavagem cerebral. Gente que me jogava pra baixo, gente que me apoiava, gente que apenas existia, no fim foram pra mesma cavidade etérea do meu inconsciente privado. Junto, fiz questão de colocar sonhos, ideais, paranoias, noção, desejos, educação, medos, traumas e toda minha esperança. Nem ela ficou. Nem ela.
Texto mui e livremente inspirado neste ducaralhíssimo post de bcardoso.
Frigideiras são o melhor amigo do homem. Do homem no incrível e perigoso limiar de sua existência, eu digo, do tipo que fugiu do útero habitacional materno sem aprender absolutamente nada sobre culinarices e ainda não foi domesticado por um par de lábios verticais cuja dona seja versada na nobre arte da saudosa Dona Ofélia. Para este notório neo neandertal noctívago, só lhe resta a frigideira. E essa nunca há de faltar.
Aparentemente simples, essa nobilíssima e engenhosa chapa de metal é capaz de proezas gastronômicas inimagináveis. Não existe, entre a Fossa das Marianas e o Monte Everest, qualquer aparelho digestivo humano da supracitada subespécie capaz de resistir aos sabores produzidos sobre o estalar teflon ou alumínio.
E não é preciso manual específico. A frigideira, utensílio dos fortes de caráter e estômago, prima pela versatilidade. Com a exceção dos escargots, qualquer prato pode _ e, arrisco, deve _ ser preparado numa frigideira. Dos flambados mais sofisticados para impressionar cocotas desavisadas às frituras que salvam a larica. Tá lá a redonda, só de butuca.
Há ainda vantagens de ordem higiênica. Numa mesma talagada de óleo, ela frita, por dias _ quiçá semana! _ toda sorte de diabruras anti-dietéticas sem jamais arrefecer em crocância ou sabor. Tubérculos, peixes, carnes, massas recheadas ou não, frutas e legumes. É escafandrisar e fazer subir pro beiço _ escorrido o devido excesso, claro.
Uma boa frigideira também abraça a fina arte dos molhos. Basta uma tampa, que, como todo filho de Orgrim Doomhammer sabe, existe tanto quanto cabeça de bacalhau, orelha de freira e Juiz do Supremo Tribunal Federal bom de piada. No caso de negativa, improvisa-se com outra frigideira ou forra-se o fogão com papel alumínio e tá valendo. Molho preparado, é só encher de água e cozinhar _ ou fritar, se você for mais corajoso/experimentado _ o macarrão.
Mas é o ovo e suas variantes que impreterivelmente dominarão a parada. Estrelado. Mexido. Frito. De gema mole ou dura. Com descuidadas lascas de casca. É o ovo o monarca supremo, razão de existir de uma frigideira _ e, por um tempo, dos médicos do coração, quando o bicho era o culpado de todo tipo de malefício ao pobre músculo do amor, hoje redimido e capa de revista semanal.
Chegou um ponto em que imaginei que nada mais faltava para ser preparado na minha honesta Tramontina Starflon Napoli de 24 cm de diâmetro. Foi quando fiz o café mais estranho do mundo.









