(lembrança de um sonho antigo)
Está se procurando alguma coisa.
Faz escuro, suficiente para os quase-tropeços de costume. Pequenos objetos dispostos pelo chão (quase uma bagunça ordenada, simulacro de desordem) dificultam a passagem. O quarto tem o tamanho exato para caber na memória -- se fosse maior, perderíamos algum detalhe entre outras lembranças; se menor, misturaríamos com outros quartos já vistos ou a imagem sumiria no meio de tantas outras iguais. Algumas das quatro paredes são levemente inclinadas, ameaçando em silêncio e provocando vertigem. Qualquer coisa está certa demais, como que calculada lá dentro.
Está se procurando alguma coisa.
Não se escuta nada. A janela é fechada e não deixa entrar noite nem dia. A densidade do ar existe para engolir qualquer som: a ameaça de uma palavra escapulindo da boca, um passo mal-dado, um respiro mais fundo; tudo mergulha e deixa de existir tão rápido que é quase como se não tivesse sido ouvido. O pó acontece em cima da escrivaninha marrom. Todas as coisas têm presença.
Está se procurando alguma coisa.
A procura é árdua no início, porque a coisa não tem nome. Engano achar que por isso não tenha forma: conta com todas as propriedades características do que é existente. Altura, largura, profundidade; cor, cheiro, textura; peso, massa, densidade. Mesmo que sejam atributos ainda desconhecidos, só a afirmação de sua existência já dá ao procurador segurança suficiente para continuar procurando. A contínua procura é sem motivo ou precisão.
Está se procurando alguma coisa.
A insistência não precisa de justificativa. O objeto não precisa de singularidade. A busca não precisa de classificação.