fevereiro 2009 Archives

(lembrança de um sonho antigo)

Está se procurando alguma coisa.

Faz escuro, suficiente para os quase-tropeços de costume. Pequenos objetos dispostos pelo chão (quase uma bagunça ordenada, simulacro de desordem) dificultam a passagem. O quarto tem o tamanho exato para caber na memória -- se fosse maior, perderíamos algum detalhe entre outras lembranças; se menor, misturaríamos com outros quartos já vistos ou a imagem sumiria no meio de tantas outras iguais. Algumas das quatro paredes são levemente inclinadas, ameaçando em silêncio e provocando vertigem. Qualquer coisa está certa demais, como que calculada lá dentro.

Está se procurando alguma coisa.

Não se escuta nada. A janela é fechada e não deixa entrar noite nem dia. A densidade do ar existe para engolir qualquer som: a ameaça de uma palavra escapulindo da boca, um passo mal-dado, um respiro mais fundo; tudo mergulha e deixa de existir tão rápido que é quase como se não tivesse sido ouvido. O pó acontece em cima da escrivaninha marrom. Todas as coisas têm presença.

Está se procurando alguma coisa.

A procura é árdua no início, porque a coisa não tem nome. Engano achar que por isso não tenha forma: conta com todas as propriedades características do que é existente. Altura, largura, profundidade; cor, cheiro, textura; peso, massa, densidade. Mesmo que sejam atributos ainda desconhecidos, só a afirmação de sua existência já dá ao procurador segurança suficiente para continuar procurando. A contínua procura é sem motivo ou precisão.

Está se procurando alguma coisa.

A insistência não precisa de justificativa. O objeto não precisa de singularidade. A busca não precisa de classificação.

viagem, espera

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um texto atravessado por doze horas no trem, de cracóvia a berlim.

não sei em que ponto obscuro da europa me encontro agora. é meia-noite e o trem está em silêncio, entrecortado pela respiração de quem dorme mais fundo e pelos solavancos de costume. queria saber dizer tudo o que tenho sentido nesses dias de viagem, pontuar com palavras essas vivências ainda tão misturadas, carentes de significado ou direção, brutas em mim, quase agressivas. tenho muita vontade de contar tudo para alguém, e ao mesmo tempo queria desfrutar melhor esse momento, em que as lembranças criam-se tumultuadas, atropelando-se, e por isso ainda não conformadas em recipientes cuidadosamente escolhidos. o trem atravessa lento (às vezes me parece como me embalando para um sono que não tenho), estaciona de vez em quando e depois com um tranco volta a andar -- tudo isso me soa arbitrário, e eu não faço ideia de onde estou. queria aproveitar esse momento, fazer qualquer coisa com ele, incorporá-lo. queria agarrar tudo isso com todas as unhas, poder reter na memória todos os instantes, os detalhes, a cor da parede do vagão, a temperatura, essa luz difusa, minha mãe mal dormindo ao meu lado. o tempo se amontoa agora como sobre prateleiras, transborda, quase cai: uma vertigem insólita pensar que faz dezesseis dias que saí de casa, e que em mais dois estarei voltando para lá. um tempo sem forma, ou oscilando entre infinitas possibilidades de formas diferentes; tempo do qual preciso constantemente me lembrar e me esquecer, quase como num exercício rítmico -- essas coisas de viagem. qualquer acento da infância volta para mim quando viajo: sinto-me mais possível, a pele absorve mais o ar; há muito tempo eu não me sentia tanto onde estou, essa existência aguda na cama desconfortável do trem. minha desorientação se justifica tranquila (aqui ela tem tanto sentido, motivo), tenho menos receio em olhar com olhos virgens para tudo e para todos; viajar me autoriza a agir de um modo que em casa permanece sempre um pouco deslocado, mal visto até por mim mesma e sufocado pelo hábito. aqui, tenho direito e quase o dever de me surpreender, o que para mim não exige o mínimo esforço -- a surpresa vem naturalmente, participa espontânea das minhas reações, é o ponto de fuga de todos os lugares que visito.

queria descobrir onde estou (embora não saber tempere tudo com um mistério saboroso, tipicamente europeu: o mundo se abre em vastas possibilidades, e sinto-me aventureira a ponto de querer descobri-las).

despedir-se

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A conversão coisa-lembrança se dá em poucos instantes, no momento em que o existente passa a ser existido.

Depois disso, tudo o que resta é o buraco.

de fato, quando a neve tingiu com precisão todos os hidrantes e o meio-fio de todas as esquinas, soube imediatamente que é o cantar do meu português vocálico que soa estranho nessa cidade (a estrangeira sou eu, não eles). o frio é intrínseco, parece vir mais de dentro do que de fora -- tive a impressão insólita de que a quantidade de roupas que eu usava estava apenas retendo o meu frio interno, e que por isso eu estaria mais aquecida sem elas. todos por aqui são poloneses e falam polonês (as conversas criam possibilidades inimagináveis de combinações entre consoantes), e isso é mais surpreendente do que eu achava que seria: sinto-me num mundo completamente alheio ao meu, e no entanto há uma proximidade tímida no ar, um reconhecimento não sei de quê.

todas, absolutamente todas as histórias são dignas de serem contadas. e, no momento em que as escuto, elas se tornam imediatamente parte de meu repertório pessoal, e por isso parte da minha história.

notícia de berlim

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caixinha de fósforos em alemão é strichhölzer. posso provar, e tenho como testemunha inquestionável o velhinho dono da tabacaria da estação rosenthaler platz.

aos que ficam

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eu estava descuidando de todos os meus quintais: fazia um novo, mas me esquecia de regar as flores e elas logo murchavam abatidas. eu achava -- isso talvez ainda ache -- que não levava mais jeito pra coisa de manter um blog; hora ou outra eu riscava um fósforo, mas a chama não durava um segundo, apagava antes de chegar na metade do palito. eu não tinha juntado migalhas o suficiente, por isso achei que não ia mais encontrar o caminho de volta.

daí: me vem, num repente, uma surpresa: um convite:
vem pro verbeat! - ele disse.
tão simpático e tão acolhedor que eu amoleci imediatamente as estruturas rígidas que me impediam de adaptar-me a um blog.

e aqui estou eu de novo, na enésima tentativa de regularizar os meus escritos -- mas dessa vez fui recebida por uma vizinhança inteira, acolhida por todo um condomínio! não me resta, senão, exclamar.

e lembrar, também: que não prometo nada para essa caixinha. ainda estou de mudança, não desencaixotei meus pertences, as coisas todas espalhadas por aí, uma bagunça. mas não acho que o tempo vai trazer organização: aqui, bagunça é sempre sinal de que existo e de que -- sim -- continuo existindo.

agradeço (com a graça do que é de graça, engraçado e gracioso) pelo convite.

e começo, num susto: não poderia haver melhor (ou pior) momento para eu começar um blog: estou indo, amanhã à tarde, para berlim e, em seguida, para varsóvia, cracóvia e auschwitz. e isso ainda é tão distante e tão próximo, tão imenso e tão absurdo, que as próximas coisas que escreverei serão fruto do estranhamento de estar em países gelados e distantes, fora de tudo o que conheço, com línguas duras e guturais.

é preciso perder-me e reencontrar-me para começar a falar.
(e respiro -- uf -- e eu respiro.)


caixinha de fósforos

caixinha de fósforos




v e r b e a t b l o g s

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