outubro 2009 Archives

hábitos

| [1]

Ontem, soube que no ano que vem mudarei radicalmente os meus hábitos. Por isso, os hábitos atuais aos poucos ganham outra cor e sentido: tornaram-se efêmeros e então carregados de uma vivacidade que eu nunca tinha notado. Acordar, andar de ônibus, o meio-fio sujo da rua, conversas triviais pelo celular, a janta -- tudo agora guarda consigo o potencial de virar lembrança. Enquanto ainda reais e palpáveis, meus hábitos atuais ganharam o peso daquilo que já se faz saudade.

Sobre viajar, mudar de hábitos e mudar-se, encontrei dois trechos que quero guardar como bússolas:

Digressão sobre o sentido do tempo
A montanha mágica, Thomas Mann

"No fundo constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a adaptação - por mais laboriosa que seja - e a mudança de hábitos à qual as pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado anterior. Intercala-se tal processo como uma espécie de interrupção ou entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de 'reestabelecimento', quer dizer, para exercitar, renovar e revolucionar o organismo que corria perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na desarticulada monotonia da existência rotineira. Mas, qual é a origem desse langor, dessa tibieza, nos casos de continuidade por demais extensa e ininterrupta de uma rotina? Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e espiritual, que causam as exigências da vida - para eles, o simples descanso bastaria como remédio reconstituinte -, do que de algo psíquico: é a consciência do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão estreitos de parentesco e afinidade à própria sensação de vida, que não se pode debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também. Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos errôneos. Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo 'fazem passar' o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem 'tediosos' o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato de os anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa - esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação do tempo, e com isso, a renovação da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo. Isto se aplica a uns seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se 'aclimata', começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão. E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital -, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse de um sonho de uma noite."

--

Nomes de terras: a terra
À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust

"Em Paris, num dia em que me achava muito mal, Swann me dissera: 'Você deveria ir a essas maravilhosas ilhas da Oceania. Veria como não voltava'. A mim me deu vontade de responder: 'Mas então já não verei a sua filha e viverei rodeado de coisas e gentes que ela nunca viu!' E contudo a razão me dizia: 'E que te importa, se por isso não padecerás? Quando Swann diz que não voltarás, quer dizer que não hás de querer voltar, e, se não queres voltar, é porque lá te sentes feliz'. Pois a razão sabia que o hábito se encarrega igualmente de nos tornar amáveis os companheiros que a princípio nos desagradavam, de dar outra forma aos rostos, de que nos seja simpático um timbre de voz, de modificar os pendores do coração. Está visto que a tessitura dessas novas amizades com pessoas e lugares diversos consiste no esquecimento de outros sítios e gentes; mas precisamente me dizia o raciocínio que poderia considerar sem terror a perspectiva de uma vida em que não existissem umas tantas criaturas de quem já não me lembraria; e essa promessa de esquecimento que oferecia a meu coração à guisa de consolo servia, pelo contrário, para desesperar-me loucamente. E não é que nosso coração não caia também, uma vez consumada a separação, sob os analgésicos efeitos do hábito; mas, até que assim aconteça, continua sofrendo. E esse medo a um futuro em que já não nos seja dado ver e falar aos entes queridos, cujo convívio constitui hoje a nossa mais íntima alegria, ainda aumenta em vez de dissipar-se quando pensamos que, à dor de tal separação, virá juntar-se outra coisa que atualmente nos parece mais terrível ainda: é que não a sentiremos como uma dor, e nos deixará indiferentes; pois então o nosso eu ter-a mudado e esqueceremos não só o encanto de nossos pais, de nossa amada, de nossos amigos, mas também o afeto que lhes tínhamos; e esse afeto, que hoje constitui parte importantíssima de nosso coração, se desenraizará tão perfeitamente que poderemos folgar com uma vida que agora, só de a imaginar, nos horroriza; será, pois, uma verdadeira morte de nós mesmos, morte após a qual virá uma ressurreição, mas já de um ser diferente e que não pode inspirar afeto a essas partes do antigo eu condenadas à morte. E elas - até as piores, como o nosso apego às dimensões e à atmosfera de um quarto - são as que se assustam e sobressaltam, com rebeldia que deve interpretar-se como um modo secreto, parcial, tangível e seguro da resistência à morte, da longa resistência desesperada e cotidiana à morte fragmentária e sucessiva, tal como se insinua em toda a duração de nossa vida, arrancando pedaços de nós mesmos a cada momento e fazendo com que na carne morta se multipliquem células novas."


caixinha de fósforos

caixinha de fósforos




v e r b e a t b l o g s

Locations of visitors to this page