dezembro 2009 Archives

La mosca

| [0]

Julio Cortázar

Te tendré que matar de nuevo.
Te maté tantas veces, en Casablanca, en Lima,
en Cristianía,
en Montparnasse, en una estancia del partido de Lobos,
en el burdel, en la cocina, sobre un peine,
en la oficina, en esta almohada
te tendré que matar de nuevo,
yo, con mi única vida.

nina

| [2]

Sem a Nina, parece que o mundo ruiu um pouco. Tudo continua, mas a cor das coisas está um tom abaixo, como se elas chamassem mudas. Saber que a Nina estava aqui sempre me encheu de uma saudade tranquila; muito mais velha e muito mais sábia do que todos nós, a Nina era a nossa gata e a sua presença ecoava e ainda ecoa por todos os cantos da casa. Perdê-la é como cavar um poço muito fundo. Agora o mundo parece um pouco mais cansado. A Nina tinha patinhas sempre muito brancas e o seu silêncio às vezes era indeciso e por isso interrompido por miados mínimos, insistentes. A Nina se escondia por entre as roupas do armário e afiava as unhas no tapete da sala. Lambia-se minuciosamente e uma ou duas vezes também me lambeu, sua língua áspera nos meus dedos. Ela nos conhecia e mesmo muito doente os seus olhos dilatados no escuro nos reconheciam. Lembro muito de como ela subia em cima da televisão e nos assistia assistindo, aconchegada pelo calor da máquina e o quarto fechado. A Nina calculava com precisão cada salto que dava: passava algum tempo olhando para cima e para baixo, medindo distâncias, e só saltava com a certeza de onde iria cair. Ela conquistou o território da casa e a cada um de nós, no seu silêncio quente e doce de gata. Suas cores e a atenção com que percebia os movimentos, o alerta nas orelhas quando o carro fazia a curva na rua de baixo. Sem a Nina, parece que o mundo ruiu um pouco. Tudo chama um pouco por ela, com a mesma quietude que ela sempre teve. Tudo lamenta.

nina2.jpg

Todos os dias o dia anoitece e a noite me aguça os sentidos. A cada noite que passa, não dormir é uma experiência quase irresistível pela qual tenho de repetidamente lutar contra. A falta de sono era princípio constitutivo, mas hoje tornou-se hábito tanto quanto seria dormir. Perco as madrugadas na ilusão de retê-las, acompanho a passagem muda das horas no relógio, e a manhã se aproxima lenta e gigante, como uma baleia cachalote de olhos miúdos que me encara sem me ver. Fina e constante, a madrugada me aconchega e me esquece, e eu me aperto por entre esses segundos suspensos. Render-me ao sono é, antes de tudo, saber que perco esse tempo negro-azul em que a contagem dos minutos é mais larga e os barulhos assumem-se rítmicos, cadências. Às vezes me flagro quase dormindo e desperto orgulhosa do sono que veio -- a consciência de que por isso o espanto é tardia ou nem sempre vem. Atravesso a constância da madrugada com a minha inconstância, desloco uma e outra, intercalamo-nos. É como se todas as coisas ao meu redor tivessem se desnudado e entregassem-se à noite: a torneira se exibe grave para mim, magistral; minha cama e a maçaneta da porta encaram-se e travam uma conversação muda e muito séria. Assistir à existência dos objetos que perderam sua utilidade durante a noite, quando todos dormem e sonham, consome todo o tempo que se faz inconsumível nessas horas glaciais, segundos elásticos. Os tijolos do meu quarto, únicas e imóveis testemunhas desse período sempre solitário, seguram-se entre si e também me seguram, riem-se por dentro do meu deslumbramento com o que eles sabem e eu não. Uma brecha possível para espiar uma brecha impossível. É tarde, e a passos longos e tranquilos o dia mergulha entre os poros da noite -- é preciso dormir, antes que amanheça (será preciso perder o espetáculo do amanhecer).

Água, sempre.
Trocar refinados por integrais.


caixinha de fósforos

caixinha de fósforos




v e r b e a t b l o g s

Locations of visitors to this page