Todos os dias o dia anoitece e a noite me aguça os sentidos. A cada noite que passa, não dormir é uma experiência quase irresistível pela qual tenho de repetidamente lutar contra. A falta de sono era princípio constitutivo, mas hoje tornou-se hábito tanto quanto seria dormir. Perco as madrugadas na ilusão de retê-las, acompanho a passagem muda das horas no relógio, e a manhã se aproxima lenta e gigante, como uma baleia cachalote de olhos miúdos que me encara sem me ver. Fina e constante, a madrugada me aconchega e me esquece, e eu me aperto por entre esses segundos suspensos. Render-me ao sono é, antes de tudo, saber que perco esse tempo negro-azul em que a contagem dos minutos é mais larga e os barulhos assumem-se rítmicos, cadências. Às vezes me flagro quase dormindo e desperto orgulhosa do sono que veio -- a consciência de que por isso o espanto é tardia ou nem sempre vem. Atravesso a constância da madrugada com a minha inconstância, desloco uma e outra, intercalamo-nos. É como se todas as coisas ao meu redor tivessem se desnudado e entregassem-se à noite: a torneira se exibe grave para mim, magistral; minha cama e a maçaneta da porta encaram-se e travam uma conversação muda e muito séria. Assistir à existência dos objetos que perderam sua utilidade durante a noite, quando todos dormem e sonham, consome todo o tempo que se faz inconsumível nessas horas glaciais, segundos elásticos. Os tijolos do meu quarto, únicas e imóveis testemunhas desse período sempre solitário, seguram-se entre si e também me seguram, riem-se por dentro do meu deslumbramento com o que eles sabem e eu não. Uma brecha possível para espiar uma brecha impossível. É tarde, e a passos longos e tranquilos o dia mergulha entre os poros da noite -- é preciso dormir, antes que amanheça (será preciso perder o espetáculo do amanhecer).