lembranças sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Ainda o mesmo homem cego de um olho e carregando um saco plástico azul no final da Vital Brasil. Desde os onze anos o vejo ali com a mesma expressão de constante espera. Cerca os pontos dos dois lados da rua, quase nunca está sentado. Não olha diretamente para nada, os cabelos rareando. Não sei que mistério tem naquele saco pendurado em sua mão direita. O olho cego, muito branco e muito aberto, parece independente do homem e é de uma malícia aguda, me faz lembrar um filme dos anos quarenta do qual já não sei o nome. Ontem o vi de dentro do ônibus e é sempre um susto duro saber que ele continua ali e que ainda o encontro. Travamos um conhecimento mutuamente ignorante. Acho que ele é também o sujeito dos meus pesadelos, o personagem real que mais me mete medo.
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