Está lá no blog do Kenji:

"Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias." - Ortega y Gasset


A Psicanálise nas tramas da cidade


Bebê Hoje, dia 30 de outubro, é aniversário do episódio no qual a peça radiofônica "Guerra dos Mundos", baseada na obra de H.G. Wells, foi ao ar nos EUA, levando pânico aos ouvintes, que acreditaram que a Terra estava mesmo sendo invadida por marcianos. Deixando de lado o ótimo trabalho dramático de Howard Koch, Paul Stewart (autores) e Orson Welles (diretor e ator), fico pensando no que levou tanto desespero às pessoas em 1938, e se hoje, época em que as pessoas são teoricamente muito mais informadas e instruídas, o efeito de um evento assim seria diferente.

É necessária então uma reflexão sobre o ser humano e sobre a nossa sociedade. Três fatos recentes, aparentemente desconectados entre si, me deram algumas respostas. Primeiro, a declaração do governador do Rio, amparada depois pela opinião de um economista da FGV, de que o aborto legal poderia reduzir a criminalidade [link desativado]. Não vou entrar no mérito da legalização ou não do aborto; é assunto que demanda argumentos que não cabem neste post. O que chama atenção no caso é a tentativa de criar uma aparentemente fácil e rápida relação causal que explique um fato social. Famílias desestruturadas influenciam o aumento dos índices de criminalidade? Pode ser. Mas o que é uma "família desestruturada"? Mães adolescentes que tiveram uma gravidez indesejada necessariamente formarão famílias incapazes de cuidar dos seus? Famílias "estruturadas" (o modelo burguês-classe-média) formam com certeza menos criminosos? As declarações do governador e do economista demonstram total desconhecimento do que se passa na periferia. Jovens pobres recorrem ao aborto, seja ele legalizado ou não, tornando essa uma questão de saúde pública. Eu mesmo já vi o caso de uma menina que se perfurou com uma agulha de tricô, tentando perder a criança. Ou seja, elas não deixam de fazer porque é ilegal. Mas há também o outro lado. Será que eles sabem que um filho é visto por muitas adolescentes pobres como um "passaporte" para o reconhecimento como adulta e mulher? Será que eles sabem que elas optam por engravidar dos namorados (ou não), desafiando as famílias, apenas para obter o status de mãe?

Encarar de frente todas as variáveis econômicas, psicológicas e sociais envolvidas no problema de segurança? Compreender melhor o fenômeno para então agir? Claro que não, afinal já podemos explicar tudo pelo fato de pobres terem muitos filhos, tadinhas, porque a lei não as deixa interromper a gravidez.

Outro fato? Uma "enquete" em post do Sedentário e Hiperativo, sobre uma peça de publicidade italiana contra a discriminação sexual. Mais do que o possível sensacionalismo da imagem que ilustra esse post, o que irrita a maior parte das pessoas é a afirmação de que "orientação sexual não é escolha". Não se sabe, por mais que existam teorias a respeito, se há um componente genético na homossexualidade, mas sabemos, isso sim, que não há uma escolha consciente possível, por parte do indivíduo, quanto ao seu objeto de desejo. Eu não optei por gostar de meninas. Um dia descobri que elas me deixavam muito interessado e assim foi. Por que você, hétero, acreditaria que aos homossexuais foi dado um poder de escolha que você não teve? Na verdade, retirar de quem é diferente de você a responsabilidade da escolha por ser assim retira também o seu "sagrado" direito de culpá-lo por ser diferente e, ainda pior, joga sobre você a possibilidade de também se tornar um diferente, um "anormal". Óbvio que eles devem ter escolha, têm que ter!

Por último, uma reportagem que vi outro dia na TV, durante a madrugada, naquele canal dos bispos. Uma matéria até bem feita sobre os grupos violentos de jovens que andam atacando pessoas no centro de São Paulo, seguida da enquete "Qual a razão de existirem gangues de jovens violentos?". As opções eram mais ou menos essas:
- problemas sociais, como a desigualdade e a falta de oportunidades e educação.
- a ideologia presente nos grupos.
- má índole.

"Má índole" estava com quase 100% dos votos. É claro que o componente religioso é importante. Boa parte dos espectadores compartilha do que "pensa" a igreja, e ela precisa, até por uma questão de sobrevivência, dizer que o "mal" está em alguém. É necessário ter um demônio para onde apontar o dedo, mesmo que isso contradiga tantas vezes o ideal cristão do perdão. Mas há também o conforto de dizer "eles são assim pela índole, não há o que possamos fazer mesmo, e não temos responsabilidade (olha ela aqui de novo) alguma em termos de sociedade ou família; nem como cidadãos, e nem como pais. Nada disso pode acontecer com nossos filhos, porque eles têm boa índole". Mais uma vez, a culpa está sempre no outro, limitada a ele.

O resumo da Ópera é que, ainda que sejamos hoje, no início do século XXI, muito mais informados que no início do século passado, temos o mesmo medo paranóico daquilo que não conhecemos, de quem é diferente. Mas é medo só do desconhecido? Não. Aqueles que abandonavam seus carros desesperados na noite de 30 de outubro de 1938 temiam o fato de que os tais marcianos fossem tão belicosos e cruéis quanto são os seres humanos. O medo maior é de encontrar no outro tudo aquilo que temos em nós, que é parte da nossa humanidade, mas que não queremos que seja.

Se as rádios, os blogs, o twitter e sei lá mais o que começarem a falar que estamos sendo invadidos por gangues de jovens punks, gays e frutos de gestações indesejadas, vai ter gente pulando no Rio Tietê para se salvar. De certa forma, os marcianos somos nozes, sempre. O meu medo? É de que isso nunca mude...

* Originalmente publicado no dia 31/10/07, e ainda atual.
** Dados os eventos recentes, se tivermos invasoras de micro-vestido a população começa uma guerra, sem medo...


Fascinados pelo prestígio da interpretação de Freud feita por Lacan, os lacanianos se tornaram, sobretudo, fascinados pelo "saber" do qual eles investiram Lacan. O "sujeito da verdade" apontado pela leitura original e fecunda dos textos freudianos feita por Lacan, sujeito incorpóreo - sujeito do inconsciente - foi substituído por um "sujeito de verdade", encarnado e identificado ao sujeito da enunciação da nova leitura. Lacan se viu, portanto, confrontado com um paradoxo do qual ele não foi o único responsável: se ele proclamava o retorno a Freud e a seus textos, não percebeu que a maior parte de seus adeptos achava mais confortável aceitar como definitiva a sua interpretação, desembaraçando-se, assim, da obrigação de reinterrogá-los eles mesmos. A partir daí, criou-se um estado de indução recíproca: em lugar dos textos, seus alunos preferiram colocar a palavra de Lacan, atribuindo-lhe valor de lei. O que eles esqueceram é que ao fazê-lo, renunciavam à "singularidade", exigência fundamental do agir do analista e a única capaz de permitir-lhe experimentar-se enquanto analista. Ao reproduzirem a palavra do "Mestre", os alunos abdicaram da experiência da escuta singular, colocada à prova na dinâmica viva da análise, para se converterem em "analisados", ou seja, em testemunhas do valor da escuta do seu analista.
- Jayme Salomão, em nota introdutória ao livro "A violência da Interpretação (do pictograma ao enunciado)", de Piera Aulagnier.

Deixo este trecho aqui como uma nota que deve sempre me lembrar da necessidade de questionar todo e qualquer texto ou enunciado pré-estabelecido como verdade, mesmo que seja de um gênio como Lacan. No processo, que eu sempre seja capaz de me reinterrogar sobre as minhas verdades.


distribuição normal


Outro dia vinha para casa ouvindo "Tema de Tostão", belíssima homenagem de Milton Nascimento e Fernando Brant ao lendário camisa 9 do Cruzeiro, e fiquei triste. A tristeza é pelo fato de que não haverá outro Tostão, e não falo de jogadores tão geniais quanto ele; mas que tenham nomes assim, simples e marcantes. Não teremos mais Dadá Maravilha, ou mesmo um Fio Maravilha. Não teremos mais Didi ou Canhoteiro, muito menos Garrincha ou Pelé. Aliás, se Pelé estivesse começando a carreira por estes dias, já teria um assessor de imprensa o aconselhando a chamar-se "Edson Arantes". "Tudo bem que é nome de despachante, mas ajuda na hora de conseguir uma boa transferência", ele diria.

E tem também a feijoada. Outro dia fui com um amigo a um famoso bar paulistano para comer a tradicional feijoada de sábado, e fiquei assustado ao receber apenas uma cumbuca de feijão preto com carne seca. Fiquei indignado e perguntei ao garçom o que estava acontecendo. A resposta foi simples: "as pessoas não comem mais feijoada com tudo. Nada de pé, orelha e rabo de porco. Agora tem que ser light". A mesma coisa está acontecendo com o pastel de feira livre. É dizer "comi um delicioso pastel de queijo quando vinha para a faculdade" que a turba fica enfurecida: "que absurdo que é comer fritura logo de manhã!".

Mas a maior injustiça mesmo estão fazendo com as mulheres peludas. Ousei gritar contra este absurdo que é dizerem que a Carol Castro está peluda demais na Playboy, tomando partido da campanha do meu amigo Brigatti, e fui atingido por espátulas, depiladores e potes de cera quente. Ouvi absurdos do tipo "tenho amigos que simplesmente não topam a transa se percebem que a mulher não está muito bem depilada", isso sem falar na pergunta "mas não é ruim e anti-higiênico?". Ora, a tal da brazilian wax é coisa nova, de menos de 20 anos, e a espécie humana faz sexo a bem mais tempo, não é verdade? Anti-higiênico é a mocinha não lavar as partes íntimas, e garanto que se o sexo antes fosse ruim, não estaríamos aqui para discutir o assunto. O fato é que querem tirar do sexo o cheiro, o gosto e as texturas. É o furor higienista dos fiscais da normalidade em ação.

Tudo bem, você deve estar pensando, o que a brazilian wax tem a ver com os nomes de jogadores, com comer pastel de manhã e com a feijoada light? Sou obrigado a dizer que TUDO. A ação dos "agentes mantenedores da normalidade" [obrigado @piupass] é incisiva. Quando você menos espera já está repetindo regras como um robô, sem qualquer postura crítica, achando que tudo é "normal". Mas aí eu me volto para a Estatística, e vejo que mais próximos da normalidade estão os pontos que circundam a média e a mediana, e penso que a raiz destes termos é a mesma da palavra mediocridade.

Não é estranha essa modernidade que nos diz "seja você mesmo, sua individualidade é o que vale" mas que pune qualquer atitude, comportamento ou opinião que te afaste da média? Vamos pensar: você pode ser você mesmo quando isso leva ao egoísmo e à competitividade. Sua individualidade é "respeitada" quando serve de argumento para os homens de marketing que querem explorar nichos de mercado, mas na realidade você deve se submeter a regras e códigos de conduta que tentam padronizar até mesmo o tesão e os fetiches?

Na verdade, faz todo o sentido. O sexo, as relações, as sensações, até mesmo a subjetividade de cada um de nós, tudo é produto. Ora, se os aspectos mais íntimos de nossa vida podem se tornar produtos; estão passíveis então de padronização e controle de qualidade. Simples assim.

A imagem dos jogadores, o horário pré-determinado para comer pastel e o controle sobre o que deve ir na feijoada são sintomas da mesma doença. Cuidar da saúde é importante, é obvio que comer frituras toda manhã não faz muito bem, mas cada um tem o direito de agir segundo as próprias regras, desde que não prejudique terceiros. Eu devo saber os limites da minha saúde e do meu bem estar. É paradoxal, para não dizer patético, este mundo onde você deve fazer valer sua individualidade apenas quando convém aos outros, sem se expor.

O mesmo cara que não transa se a mulher não estiver perfeitamente depilada é o que não come a feijoada com rabo ou o delicioso pastel do início da feira [sem metáforas com rabos e pastéis aqui, por favor!]. Provavelmente o nome dele é Edson Arantes, e ele trabalhará durante trinta anos no mesmo cubículo em uma repartição pública, depois vai morrer, sem que ninguém se lembre dele.

* a imagem da curva normal é do blog netodays - reflexões.

** originalmente publicado em 01/09/2008


superman_batman.jpg Quadrinhos num blog que fala de psicologia? Pois é. Conversava hoje com o Chico Fireman sobre a tal da arte seqüencial e sobre cinema, e sobre a maravilha que é a graphic novel X-Men: Deus Ama, O Homem Mata. Fiquei pensando no quanto este tipo de leitura foi importante para minha formação, ainda que muitos digam (não sem razão) que quadrinhos podem ser alienantes. E é engraçado também perceber que adoro os personagens da Marvel, mas que sempre acabo comprando apenas revistas da DC Comics.

Mas voltando ao papo com o Chico Fireman, chegamos à conclusão fácil de que Superman - O filme (1978) é a melhor adaptação dos quadrinhos para o cinema, mesmo passados mais de trinta anos. Os motivos são muitos, Marlon Brando e o fantástico Mario Puzo entre eles, mas acredito que a questão se resume ao fato de que o bom e velho escoteiro de cuecas vermelhas é, diferente do que costumam dizer por aí, um grande personagem. Acho até que o Alan Moore chegou a dizer que o Superman era muito mais rico e complexo, muito mais interessante de se trabalhar, do que o Batman. Eu não poderia concordar mais, principalmente depois que me meti a ser escritor.

Aí me lembro do quanto Superman pode ser odiado, enquanto o Batman parece ter se tornado um queridinho dos geeks. É comum ouvir, por exemplo, que o Superman é um personagem ruim por ser poderoso demais, que não dá para escrever boas histórias para um semi-Deus que pode tudo. Pois é exatamente o contrário! A complexidade psicológica de um personagem que "pode tudo" e suas possibilidades são ilimitadas. Aposto que qualquer bom roteirista sabe disso. Mas o que faz com que nos identifiquemos com um ou com outro?

Pensando em minha própria experiência, faço uma generalização. Meu primeiro contato com as histórias do Morcego foi o arco As Muitas Mortes de Batman, e fiquei fascinado. Ora, o adolescente é aquele que ainda não é. Está preso numa espécie de limbo entre a infância e a idade adulta, esperando por um status que só lhe será conferido quando "estiver preparado". É a dificuldade de depender da mesada dos pais (se é que ela existe) e a angústia de corresponder a todas as expectativas, sem falar na insegurança dos primeiros contatos com as meninas. Natural que Bruce Wayne seja um modelo tão interessante. A imagem do garoto cheio de espinhas que passa o dia lendo Batman e ouvindo Iron Maiden, não é estranha a muitos de nós. Para este garoto, Batman é aquele que, além de ser um playboy desejado por mulheres lindíssimas, é um homem que conseguiu tudo pelo próprio esforço, apesar das adversidades. É o maior detetive do mundo e o cara que tem os gadgets mais legais. É claro que ele é o maior!

Mas aí o garoto cresce e percebe que não será este homem que sonhou. As utopias dão lugar à necessidade de se reconstruir e se reinventar a cada dia, para sobreviver. Há um mundo de responsabilidades e nostalgia ao qual estamos presos. Neste contexto, nos identificamos com um homem que tem os pecados do mundo nas costas, ainda que seja super poderoso. No fundo, somos todos rapazes simples criados na imensidão do Kansas, precisando salvar a humanidade diariamente, e o planeta Krypton é a nossa juventude, a vida da qual fomos apartados. Esse extraterrestre de roupa azul está mais próximo de cada um de nós do que qualquer outro personagem. Os dilemas éticos e morais de um semi-Deus são os mesmos de todos os homens (e os gregos já sabiam disso).

Na verdade, a despeito de todas as identificações e projeções, e do ideal de homem que construímos e que nunca vamos atingir, percebo que somos tão próximos do Superman por um motivo muito simples: tudo que queremos é saber voar, e ter uma Lois Lane para amar também seria bom.

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Revista A PESTE - Capa
Data: 30 de junho de 2009 (3ª feira) das 19:30 às 22:00 horas

Local: TUCA (Teatro da Universidade Católica), R. Monte Alegre 1024, auditório superior (Perdizes, São Paulo - SP)

ENTRADA FRANCA


A PESTE: Revista de Psicanálise e Sociedade é um periódico científico semestral temático, com o objetivo de publicar investigações/ desenvolvimentos teóricos, relatos de pesquisas, debates, entrevistas e resenhas que contenham análises, críticas e reflexões sobre temas, fatos e questões sociais, a partir do referencial psicanalítico. Publica também artigos voltados à interlocução entre a Psicanálise e outros campos do saber, como a Filosofia e as Ciências Sociais, igualmente dedicados ao pensamento sobre a sociedade e a cultura.

A PESTE: Revista de Psicanálise e Sociedade é uma publicação do Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUCSP (instituição responsável), em parceria com o Laboratório de Estudos em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise - LATESFIP/USP -, vinculado ao Departamento de Filosofia e ao Instituto de Psicologia da USP (instituição parceira).

Abaixo, os artigos desta primeira edição:

Revista A PESTE - Artigos
Eu vou!

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A recente ação da polícia na Cidade Universitária é um assunto que definitivamente me afeta. Ali passei muitos anos da minha vida estudantil, ali fiz alguns de meus melhores amigos, ali tive alguns de meus melhores momentos, ali aprendi o que era fazer parte de uma Universidade e a ter o enorme prazer de conviver com pessoas absolutamente diferentes de mim. Hoje, mesmo afastado da USP e fazendo parte de uma instituição bem diferente, ainda sinto o coração bater mais forte quando penso nela, quando ando por lá.

Vejam bem, eu tenho opiniões pessoais claras a respeito do ensino superior público, do movimento estudantil e sindical "partidário" e por aí vai, coisas que provavelmente escreverei neste espaço um dia. Mas também tenho mais que uma opinião, um sentimento, sobre violência e opressão. E vou dizer: os fatos recentes e, principalmente, a repercussão entre aqueles que apóiam a ação policial, me desorganizaram. É tanto a dizer, tanto a gritar, que nem sei por onde começar. Eu já disse muito do que penso no Twitter, li bons posts de amigos a respeito, e estava preparando um texto, mas aí encontrei a Mariana, via Olivia, e ela resume muito bem o que estou sentindo:

Você pode não concordar com as pautas dos grevistas, as táticas utilizadas, os dois-ou-três que jogaram tijolos, os três-ou-quatro que "provocaram", quem parou-o-trânsito-e-te-fez-chegar-atrasado-no-trabalho, os rumos do movimento estudantil, e a representatividade das assembléias.


Chame de baderneiros, comunóides folgados, gente que não quer estudar e não dá valor à vaga que tem, massa de manobra de partidos esquerdistas radicais, depredadores de patrimônio público, contraventores da constituição, ou qualquer outro jargão do gênero.


Apesar d'eu discordar diametralmente, é um direito teu pensar assim. Direito, percebe?! De se expressar, de reivindicar, de chamar atenção pro que tu acha importante, de exigir que haja a possibilidade de debate, ou de simplesmente ficar revoltadinho porque os gritos de "alguéns" pelo que acham importante atrapalharam teu dia-a-dia e tua aulinha no ICB.


Mas apoiar tal ato ditadorial? Achar que vale tudo para preservar a "ordem"? Que é válido utilizar sprays de pimenta e bombas de efeito moral como instrumentos políticos?

É cuspir em cima de toda forma de liberdade que existe - ou que deveria existir. Não é "apenas" um crime, não é só porque faz todos aqueles que um dia já lutaram e/ou morreram pelo direito de se manifestar se revirarem nos caixões - ou cemitérios clandestinos.


É você, ser humano (?), achar que tudo bem um outro ser humano APANHAR e ser PERSEGUIDO porque ele defende algo com o qual você não concorda e de alguma forma fez com que você se sentisse prejudicado. APANHAR e ser PERSEGUIDO. Daí pra ser assassinado/torturado porque discorda é um passo. Pequeno, eu diria.

Leia mais do desabafo dela: Cansei eu!


Estou preso em casa, sozinho e derrubado pela gripe, numa estranhamente ensolarada tarde de um Dia de Finados*. Dizem que este é o dia de pensarmos em nossos mortos, e eu tenho muitos. Em pouco mais de 30 anos de vida (bem pouco), já nem sei dizer quantas pessoas importantes desapareceram de minha vida para encontrar outra, provavelmente mais interessante.

O estranho é que não cheguei a conhecer de verdade uma delas: o meu tio Jair. Estava outro dia ouvindo música, o disco Ella & Louis, e minha mãe veio dizer que meu tio adorava esse disco; e que ele passava longas tardes de sábado reunido com amigos na casa de meus pais, que ele pedia emprestada para essas reuniões, ouvindo esse e tantos outros discos de Jazz e Rock. Irmão mais novo de meu pai, dizem que meu tio era pessoa extrovertida, de humor rápido e ferino, sempre pronto para uma brincadeira. Tinha cabelos compridos - falam também que era bastante vaidoso - e fazia sucesso com as mulheres; era romântico e galanteador. Certamente eu poderia ter aprendido muito com ele, mas meu tio Jair morreu afogado ainda nos anos 70.

Dele não tenho fotos nem escritos. De suas coisas restou apenas um compacto de vinil da banda The Hollies, com sua assinatura e a data de 1974, que hoje é meu. Passei boa parte da infância e adolescência ouvindo esse compacto e pensando sobre meu tio, em como ele seria, no que ele pensava e em como ele lidava com a vida...

Fico imaginando então um hipotético sobrinho para o qual eu deixaria um single, ou quem sabe um iPod com algumas faixas em mp3. Uma música presente seria Creep, do Radiohead. Até vejo o menino narigudo de olhos claros perguntando sobre como era o tio Doni, e minha irmã respondendo que eu era um weirdo, que tinha abandonado as faculdades de Administração e Engenharia para passar a vida escrevendo. Ela ia falar da minha paixão pela Psicologia e de como eu passava dias com livros de títulos esquisitos, e autores mais ainda, nas mãos. Ia falar também sobre como eu adorava ouvir músicas que ninguém mais gostava e de como eu era viciado em tentar ouvir bandas novas - e esquecidas em menos de uma semana - antes de todo mundo. Vai dizer que, apesar de muito vaidoso, eu não sabia me vestir lá muito bem, que adorava usar óculos (me sentia misterioso e atraente) e que deixava a barba por fazer para ficar com cara de malvado. E, ao ser perguntada sobre meus relacionamentos, ela diria que, apesar da cara de bravo e do temperamento difícil, as mulheres gostavam muito de meu humor meio palhaço e nonsense, mas que mesmo assim eu era uma pessoa muito solitária, um cara que parecia sempre desconfortável com o mundo.

O engraçado nisso tudo é que Creep, minha música-legado, dialoga com o legado de meu tio. Quando Thom Yorke compôs esse hino a alguém que ama demais mas que nunca se sente bom o bastante, usou como base a melodia e os arranjos de The Air That I Breathe, último grande sucesso dos Hollies. Tanto que Albert Hammond e Mike Hazlewood, compositores de The Air That I Breathe, foram creditados como co-autores de Creep, quando esta foi lançada. Veja, abaixo, a música dos Hollies:


The Air That I Breathe - The Hollies

E a compare com o hino do Radiohead:


Creep - Radiohead

Mais importante do que notar as similaridades entre as melodias dessas músicas (aposto que você está dizendo "caramba, é mesmo!"), é perceber as diferenças nas maneiras dessas bandas cantarem o amor, em 1974 e em 1993. Mais do que uma diferença entre as histórias contadas, algo me diz que Yorke canta toda uma geração que encara o "estar apaixonado" de um jeito mais sombrio, com muito mais medo e estranhamento. Fico imaginando então como é que a geração de meu sobrinho vai encarar esse bicho chamado amor, e que músicas serão a trilha sonora das suas relações...

* Originalmente publicado no dia 02 de novembro de 2007.


Estarei hoje no programa Roda Viva [TV Cultura - SP] acompanhando a entrevista do Senador Álvaro Dias [PSDB/PR]. O assunto é a CPI da Petrobrás.Você pode acompanhar o programa ao vivo pela web, 18h30min, no endereço http://www.iptvcultura.com.br/rodaviva/index.html e minhas impressões via Twitter, no endereço http://twitter.com/doni. A gravação vai ao ar ainda hoje, 22 horas. Acompanhe também a discussão nos perfis @eduguin e ivo_herzog. A tag é #rodaviva.

Marcos Donizetti

  • Paulistano. São-paulino. Escritor e futuro psicanalista. Fã de Leminski, de Ali, dos Beatniks e do Super-Homem (aquele do Nietzsche também).
  • Imagem do Header: Untitled-Summer rain, obra de Gregory Crewdson.
  • mande um e-mail

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