Hoje, dia 30 de outubro, é aniversário do episódio no qual a peça radiofônica "Guerra dos Mundos", baseada na obra de H.G. Wells, foi ao ar nos EUA, levando pânico aos ouvintes, que acreditaram que a Terra estava mesmo sendo invadida por marcianos. Deixando de lado o ótimo trabalho dramático de Howard Koch, Paul Stewart (autores) e Orson Welles (diretor e ator), fico pensando no que levou tanto desespero às pessoas em 1938, e se hoje, época em que as pessoas são teoricamente muito mais informadas e instruídas, o efeito de um evento assim seria diferente.
É necessária então uma reflexão sobre o ser humano e sobre a nossa sociedade. Três fatos recentes, aparentemente desconectados entre si, me deram algumas respostas. Primeiro, a declaração do governador do Rio, amparada depois pela opinião de um economista da FGV, de que o aborto legal poderia reduzir a criminalidade [link desativado]. Não vou entrar no mérito da legalização ou não do aborto; é assunto que demanda argumentos que não cabem neste post. O que chama atenção no caso é a tentativa de criar uma aparentemente fácil e rápida relação causal que explique um fato social. Famílias desestruturadas influenciam o aumento dos índices de criminalidade? Pode ser. Mas o que é uma "família desestruturada"? Mães adolescentes que tiveram uma gravidez indesejada necessariamente formarão famílias incapazes de cuidar dos seus? Famílias "estruturadas" (o modelo burguês-classe-média) formam com certeza menos criminosos? As declarações do governador e do economista demonstram total desconhecimento do que se passa na periferia. Jovens pobres recorrem ao aborto, seja ele legalizado ou não, tornando essa uma questão de saúde pública. Eu mesmo já vi o caso de uma menina que se perfurou com uma agulha de tricô, tentando perder a criança. Ou seja, elas não deixam de fazer porque é ilegal. Mas há também o outro lado. Será que eles sabem que um filho é visto por muitas adolescentes pobres como um "passaporte" para o reconhecimento como adulta e mulher? Será que eles sabem que elas optam por engravidar dos namorados (ou não), desafiando as famílias, apenas para obter o status de mãe?
Encarar de frente todas as variáveis econômicas, psicológicas e sociais envolvidas no problema de segurança? Compreender melhor o fenômeno para então agir? Claro que não, afinal já podemos explicar tudo pelo fato de pobres terem muitos filhos, tadinhas, porque a lei não as deixa interromper a gravidez.
Outro fato? Uma "enquete" em post do Sedentário e Hiperativo, sobre uma peça de publicidade italiana contra a discriminação sexual. Mais do que o possível sensacionalismo da imagem que ilustra esse post, o que irrita a maior parte das pessoas é a afirmação de que "orientação sexual não é escolha". Não se sabe, por mais que existam teorias a respeito, se há um componente genético na homossexualidade, mas sabemos, isso sim, que não há uma escolha consciente possível, por parte do indivíduo, quanto ao seu objeto de desejo. Eu não optei por gostar de meninas. Um dia descobri que elas me deixavam muito interessado e assim foi. Por que você, hétero, acreditaria que aos homossexuais foi dado um poder de escolha que você não teve? Na verdade, retirar de quem é diferente de você a responsabilidade da escolha por ser assim retira também o seu "sagrado" direito de culpá-lo por ser diferente e, ainda pior, joga sobre você a possibilidade de também se tornar um diferente, um "anormal". Óbvio que eles devem ter escolha, têm que ter!
Por último, uma reportagem que vi outro dia na TV, durante a madrugada, naquele canal dos bispos. Uma matéria até bem feita sobre os grupos violentos de jovens que andam atacando pessoas no centro de São Paulo, seguida da enquete "Qual a razão de existirem gangues de jovens violentos?". As opções eram mais ou menos essas:
- problemas sociais, como a desigualdade e a falta de oportunidades e educação.
- a ideologia presente nos grupos.
- má índole.
"Má índole" estava com quase 100% dos votos. É claro que o componente religioso é importante. Boa parte dos espectadores compartilha do que "pensa" a igreja, e ela precisa, até por uma questão de sobrevivência, dizer que o "mal" está em alguém. É necessário ter um demônio para onde apontar o dedo, mesmo que isso contradiga tantas vezes o ideal cristão do perdão. Mas há também o conforto de dizer "eles são assim pela índole, não há o que possamos fazer mesmo, e não temos responsabilidade (olha ela aqui de novo) alguma em termos de sociedade ou família; nem como cidadãos, e nem como pais. Nada disso pode acontecer com nossos filhos, porque eles têm boa índole". Mais uma vez, a culpa está sempre no outro, limitada a ele.
O resumo da Ópera é que, ainda que sejamos hoje, no início do século XXI, muito mais informados que no início do século passado, temos o mesmo medo paranóico daquilo que não conhecemos, de quem é diferente. Mas é medo só do desconhecido? Não. Aqueles que abandonavam seus carros desesperados na noite de 30 de outubro de 1938 temiam o fato de que os tais marcianos fossem tão belicosos e cruéis quanto são os seres humanos. O medo maior é de encontrar no outro tudo aquilo que temos em nós, que é parte da nossa humanidade, mas que não queremos que seja.
Se as rádios, os blogs, o twitter e sei lá mais o que começarem a falar que estamos sendo invadidos por gangues de jovens punks, gays e frutos de gestações indesejadas, vai ter gente pulando no Rio Tietê para se salvar. De certa forma, os marcianos somos nozes, sempre. O meu medo? É de que isso nunca mude...
* Originalmente publicado no dia 31/10/07, e ainda atual.
** Dados os eventos recentes, se tivermos invasoras de micro-vestido a população começa uma guerra, sem medo...