junho 2006 Archives

Bife com Fritas

Um homem entra num restaurante. Tem cabelos grisalhos e um brinco argolado de prata no lóbulo esquerdo. Pede ao garçom um bife com fritas. 14 minutos e vinte e dois de espera e o prato chega. O homem corta um pedaço da carne com uma relativa dificuldade. Não é macia a promoção do dia. Antes que ele leve o naco à boca, seu telefone móvel começa a andar por cima da mesa reproduzindo a música tema de Peter Gunn. O homem larga o garfo e atende ao celular com um alô, imediatamente reconhecendo a voz de quem o chamou. Ouve atentamente. A expressão em seu rosto denota um assunto importante, como a morte de um bicho de muita estimação. Pede a conta e vai-se. O garçom recolhe o prato. César, o garoto que lava as louças, olha o bife e as fritas quase intocadas e lambe os grossos beiços. Porém, a orientação da casa é jogar no lixo todo e qualquer resto de comida. Não é permitido aos funcionários comerem as sobras e nem mesmo distribuí-las aos pobres famintos que perambulam pela cidade. O proprietário não deseja filas de pedintes em seu estabelecimento. “E quando não houver restos?” Perguntava, imaginando a revolta das hordas. É uma simples questão de prevenção. E um homem prevenido vale por um bifinho. Assim, as fritas e o bife vão pro lixo. Horas depois, na madrugada morna, um morador de rua, a quem seus colegas de ar livre chamam Gaspar, se aproxima da lixeira que jaz em frente ao restaurante. Ele sabe que aquela específica lixeira quase sempre reserva um substancial depósito de alimentos. Remexendo no lixo, Gaspar encontra um saco plástico contendo batatas e um bife, aquele mesmo, quase inteiro. Degusta a refeição com prazer. Saciado, afasta-se dali andando duas quadras até a marquise de uma loja de roupas femininas. Deita e, alguns minutos depois, sofre um ataque fulminante. Rápido. Está morto. Houvesse necropsia em seu corpo quando fosse recolhido, poderia acusar algum tipo de intoxicação. Mas restará a incógnita. Não se fará tal exame. Por enquanto, o corpo de Gaspar permanece inerte, sob o olhar de beco sem saída de um vira-latas negro.

Horóscopo

Nosso correspondente astrológico, Pedrinho Macapá, estagiário da Redação de EscárniOficina é altamente especializado na tradução do dialeto astral. Da profunda altura de sua erudição sobre o assunto, ele presenteia nossos supostos (2) leitores com o horóscopo do dia:

ÁRIES - 21/3 A 20/4
Hoje a lua entra em desarmonia com seu planeta Marte, o que assinala uma fase em que você não deve comprar nenhum produto Made in Paraguai, pois terá problemas.
TOURO - 21/4 A 20/5
Você está em fase de transmutação intensa. Intensifique seu senso prático, e fique fora de casa o dia todo, ou o teto poderá desabar em sua cabeça. Ah, e cuidado com as marquises.
GÊMEOS - 21/5 A 20/6
Netuno está tensionando seu signo, o que aconselha você a ficar longe dos leoninos, pois há fortes chances de que você leve porradas de alguém com juba astral.
CÂNCER - 21/6 A 21/7
Marte aconselha você a vender tudo que possui, inclusive a sua casa. Se você não tiver casa, mude para outra ponte, e reavalie seus conceitos de vida.
LEÃO - 22/7 A 22/8
Não arrisque, e de forma alguma pronuncie a letra “a” no dia de hoje. Seja humilde e fique manso, mas se um geminiano vier procurá-lo encha-o de pauladas.
VIRGEM - 23/8 A 23/9
Esqueça seu lado puritano e vá a luta. Compre dois quilos de cebola e corte tudo em pequenos pedaços, mas não chore sem motivo. Sua cara-metade, alma-gêmea, ou assemelhado estará passando pela Avenida Getúlio Vargas hoje lá pelas duas horas da tarde. Compareça.
LIBRA - 23/9 A 22/10
Não desequilibre seus lados opostos. Aja quatro vezes antes de pensar, e escute um disco do Odair José, que está na moda, para variar. Só compre na Disapel e supercazzola prematurata come se fosse antani e terapia tapioca com escapellamento a destra.
ESCORPIÃO - 23/10 A 21/11
Guarde seu veneno para outras ocasiões, é hora de se aliar a seus colegas de futebol e bater uma bolinha. Leve o Gelol que hoje você vai jogar muito bem, e os adversários vão comer seu couro.
SAGITÁRIO - 22/11 A 21/12
A Lua e Marte aconselham você a tomar Pepsi em vez de Coca. O dia está perfeito para a pesca. Se souberes ler as mensagens marítimas, pescarás o maior peixe de sua vida.
CAPRICÓRNIO - 22/12 A 20/1
Se você tem esposa(o) ou namorado(a), fique de olho, pois eles estão num forte período de safadeza. Resolva tudo na bofetada que a paz virá.
AQUÁRIO - 21/1 A 20/2
Alto astral na sua vida. Você gargalhará das mais tristes tragédias, e seu bom humor irritará algumas pessoas, porém você não deve dar a mínima atenção. É tudo inveja de coitados. Tudo zen.
PEIXES - 21/2 A 20/3
O mar, quer dizer, o dia não está pra peixes. Cuide com os sagitarianos. Deixe as emoções de lado, e não morda o anzol mesmo que a fome seja grande e a isca apetitosa. Acautele-se e aproveite, ou não. Sei lá. Vá carpir!

Homenagens Nauseabundas

O ex-deputado federal, Roberto Jefferson (PTB-RJ), recebeu ontem (dia 14) a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A mais alta comenda do Legislativo carioca foi criada em outubro de 1980 para ser entregue àqueles que mais se destacam na comunidade brasileira. Que essa criatura, que tão somente teve o mandato cassado (o que é quase uma aposentadoria temporária, e não uma punição como dizem uns), seja vista por desavisados como um herói nacional, tudo bem. Que a sua filha, a vereadora Cristiane Brasil (PTB-RJ), seja a autora do requerimento à homenagem da Câmara, estamos de acordo, é óbvio. Mas o Legislativo do Rio de Janeiro entregar medalha ao esperto, e bem articulado, Jefferson é mais uma prova da putrefata condição das instituições nacionais. Pior ainda é escrever sobre o assunto. Como diria o professor de Portuñol: “Socuerro”!!

Cueca velha apertada e cisco no olho

Rápida e suja maciez tão sedutora
Dessas vozes maquiadas estrelas alugadas
Multiplicação desordenada de infelizes vários
Acotovelando-se na carne exposta de um planeta só
Entre falta de espaço e gás carbônico
Na imensa loucura lógicas inventadas
Deseducando cérebros de camarão

Solidão hereditária esbarrando em outras solidões pré-históricas
Respirando fuligem do progresso e mofo da ordem da moral
[e do incorreto
Libertinos enrustidos, libertários reprimidos e outros tipos

Puro quase doce alucinógeno do esperar revoluções agora em
[demais amor

Idiotas reviravoltas coração frágil
Pó depois de amanhã na ditadura dos ventos
Existindo apenas resistindo

Ah como era menos pior seria muito bom ou será que será
Canta um possível coral de lápides

Preciso chegar urgente onde já estou

Moscas se lambuzam em merda
E vão pousar em pratos limpos restaurantes chiques
Meninas tatuadas gargalham
Talvez mascando chicletes
Pisando em folhetos que anunciam PARAÍSOS!
Ao mesmo tempo a terra gira
Imóvel no olhar despido

E a cidade imagina um meio
De esquecer uns planos suicidas

Tenho saudade do vento que secava meu suor infantil
Temo não mais temer as lagartixas

Talvez a solitária esposa de um banqueiro
Atravessa o balé de transeuntes apressados
Talvez uma lágrima escapa de seu olho negro

Talvez a vida continue
Mas o dia já hoje acabou.