Um garoto míope de 14 anos sobe a escada que leva ao sótão. Ao abrir a porta, percebe que o local está limpo. Tão limpo que ainda cheira a Biovax sabor morango, o detergente que limpa até pensamento. Cadeiras de plástico amontoadas umas sobre as outras descansam num canto. Há uma pequena janela redonda com um vitral colorido que, com pinceladas de luz solar, pinta rosas e verdes e azuis no assoalho brilhante. Ele olha para seu relógio Uymang, os ponteiros mais pontuais da Era Cinza, e vê que são três horas. 14 caixas de papelão este-lado-para-cima foram empilhadas na parede oposta à janela. O garoto não sabe, mas imagina que estão vazias e sua intuição está correta. No centro, ao chão, está um baú de madeira canela-merda (Nectandra cissiflora). A impressão é de que as luzes bailavam ao redor do pequeno baú numa ciranda muda. Mas não, os raios coloridos moviam-se tão lentamente que passavam por imóveis. Era tudo a sensação do rapaz, sua curiosidade, receio e quase delírio, seus movimentos em direção ao baú. Sentou-se em posição de lótus em frente ao objeto supostamente recheado de mistérios, nada, aranhas etc. Tentou abri-lo. Trancado. Puxou do bolso de sua bermuda verde, o canivete Pagda, 14 funções, que seu tio lhe presenteou com um é pra vida toda orgulhoso. Começou a bolinar o buraco da fechadura com seu inseparável companheiro de lâminas inoxidáveis e depois de dois minutos ouviu o Cléck de abertura esperado. Foi puxando a tampa. Ali dentro, diversas bugigangas. Um baralho de cartas plásticas com desenhos de Pin-ups da mitologia norueguesa. Um maço de figurinhas de célebres jogadores de Ludo da Província de Garbo. Algumas fichas de um cassino clandestino de Não-Me-Toque. Duas lupas, uma com a lente quebrada. Um labirinto de papelão para formigas e um toco de vela vermelho. No fundo, uma folha pautada de papel reciclado com uma espécie de lista manuscrita em tinta azul. Lendo, não demorou a reconhecer seu conteúdo.
— O beijo que não roubou de Fabiana no feriado de Reis,
— A surra que deixou de aplicar em Marcelo,
— A torta de maçã que não quis comer na entrada do ano,
— O catecismo do Zéfiro que teve medo de afanar na banca do Tio Patinhas...
Uma relação acurada composta por 88 atos que o garoto deixou de cometer em seus quase quinze anos de vida. Chorou, chorou muito, até que as lágrimas se recusassem a escapar de seus olhos ou simplesmente não mais existissem. Ignorante de que nos próximos 73 anos ainda deixaria de cometer um incontável número de ações variadas, mas nenhuma destas mais importantes do que aquelas.