março 2007 Archives

Vanguarda replay e a Curva

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Fui ao mesmo escuro bar
Em que outros bitolados foram antes
Sentei à mesma mesa
Falei ao mesmo garçom
Pedi o mesmo xis lombinho com ovo
Que outros deglutiram ontem
Bebi a mesma cerveja fria
Com os mesmos pensamentos vãos
Vivi os mesmos banais sentimentos
Inventei a mesma contracultura bárbara
De vanguarda furiosa que outros patentearam anteontem
Repeti os mesmos erros básicos
Cheguei ao mesmo estado ébrio
Ai! Só não mordi a mesma língua
E aí chegou Flávia de vestido preto
E a noite já não era
Nem vista de um longe míope
A mesma noite de outros
Porque era eu, porque era ela
Numa fábula diferente
No vento de riso forte
Na eterna festa de andar sem mapa
De dois castelos de genes sem par.

Baú fétido

Um garoto míope de 14 anos sobe a escada que leva ao sótão. Ao abrir a porta, percebe que o local está limpo. Tão limpo que ainda cheira a Biovax sabor morango, o detergente que limpa até pensamento. Cadeiras de plástico amontoadas umas sobre as outras descansam num canto. Há uma pequena janela redonda com um vitral colorido que, com pinceladas de luz solar, pinta rosas e verdes e azuis no assoalho brilhante. Ele olha para seu relógio Uymang, os ponteiros mais pontuais da Era Cinza, e vê que são três horas. 14 caixas de papelão este-lado-para-cima foram empilhadas na parede oposta à janela. O garoto não sabe, mas imagina que estão vazias e sua intuição está correta. No centro, ao chão, está um baú de madeira canela-merda (Nectandra cissiflora). A impressão é de que as luzes bailavam ao redor do pequeno baú numa ciranda muda. Mas não, os raios coloridos moviam-se tão lentamente que passavam por imóveis. Era tudo a sensação do rapaz, sua curiosidade, receio e quase delírio, seus movimentos em direção ao baú. Sentou-se em posição de lótus em frente ao objeto supostamente recheado de mistérios, nada, aranhas etc. Tentou abri-lo. Trancado. Puxou do bolso de sua bermuda verde, o canivete Pagda, 14 funções, que seu tio lhe presenteou com um é pra vida toda orgulhoso. Começou a bolinar o buraco da fechadura com seu inseparável companheiro de lâminas inoxidáveis e depois de dois minutos ouviu o Cléck de abertura esperado. Foi puxando a tampa. Ali dentro, diversas bugigangas. Um baralho de cartas plásticas com desenhos de Pin-ups da mitologia norueguesa. Um maço de figurinhas de célebres jogadores de Ludo da Província de Garbo. Algumas fichas de um cassino clandestino de Não-Me-Toque. Duas lupas, uma com a lente quebrada. Um labirinto de papelão para formigas e um toco de vela vermelho. No fundo, uma folha pautada de papel reciclado com uma espécie de lista manuscrita em tinta azul. Lendo, não demorou a reconhecer seu conteúdo.
— O beijo que não roubou de Fabiana no feriado de Reis,
— A surra que deixou de aplicar em Marcelo,
— A torta de maçã que não quis comer na entrada do ano,
— O catecismo do Zéfiro que teve medo de afanar na banca do Tio Patinhas...
Uma relação acurada composta por 88 atos que o garoto deixou de cometer em seus quase quinze anos de vida. Chorou, chorou muito, até que as lágrimas se recusassem a escapar de seus olhos ou simplesmente não mais existissem. Ignorante de que nos próximos 73 anos ainda deixaria de cometer um incontável número de ações variadas, mas nenhuma destas mais importantes do que aquelas.

Privilégios da quadrilha pública

E ainda nos perguntam por que temos fortes tendências anarquistas — utópicas e ingênuas (não a anarquia que os dicionários propagam, e sim a organização alternativa da sociedade sem a sombra de um DesGoverno fantasiado de democrático e, ah, vá pesquisar). Leia só:

Informações divulgadas, ontem, pela agência de notícias da Câmara Federal, expuseram que o presidente da tal casa, Arlindo Chinaglia (nada de trocadilhos redundantes por favor), pretende colocar na pauta dos deputados, votação para estender julgamento com foro privilegiado para ex-autoridades públicas. Espertos em cargos públicos já possuem o doce privilégio. Amargo pro resto de nós.
Em declaração publicada no Jornal do Comércio (RS) de hoje, Chinaglia mostrou o desenvolvimento de suas idéias como ser humano e político, afirmando: "Na época (em 2002 o Congresso discutiu o mesmo assunto, mas o STF acatou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) e derrubou a lei, que chegou a ser promulgada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) eu era de oposição e me posicionei contrário a isso porque me parece que foi uma sugestão do ex-presidente Fernando Henrique. Agora, reconheço que tenho ouvido ponderações por parte de deputados e juristas de que isso não é ruim para sociedade {[SOCORRO}]. Mas não me cabe, como presidente da Câmara, dar opinião pessoal. Não tenho muito esse direito''. Justificativa bisonha para um ato horrendo e injustificável. E a explicação para a mudança de pensamento, no mínimo, patética.
Já basta, e transborda dilacerando nossas carnes, o foro privilegiado para os cargos públicos em exercício. Qualquer comentário chega a ser ridículo.
Para não despencarmos em maniqueísmos infantis (quem dera, pudesse...), louvamos uma declaração feita, também ontem, por Arlindo Chinaglia, em debate na Ordem dos Advogados do Brasil: “Sou totalmente contra qualquer reeleição no Executivo”. Ao menos alguma coisa ele pensa que realmente presta. Foi uma vergonha que FHC e LULA tenham sido reeleitos. Com todo o poder da máquina pública por trás e a cara mais dura e deslavada que já se viu desde o rascunho das “Mil e Uma Noites”. Naquele nosso País, inventado por fantasias puras, que só existe em nossos interiores remotos ou em filmes de Bollywood, os dois digníssimos estariam respondendo judicialmente com pente-fino por tal acinte.

Enigma dos dípteros volantes

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As grandes perguntas da existência humana são:

- Quem inventou a mosquinha de banheiro?
- E quando, por quê, C O M O ? Já que nunca testemunhamos tal simpático inseto fora de um Water Closet reservado?
- E antes de existirem banheiros, onde se enfiavam esses redondos gordinhos?

Quem tiver maiores informações favor escreva para Caixa Postal 53BO99-Y. Os desocupados que mandarem trotes, brincadeiras, respostas irônicas e mentiras deslavadas serão esquartejados com faca de serrinha, e bastante afinco e esmero, por nosso serial killer de estimação; a não ser que seja afilhado, ou afins, de:
a) políticos influentes de partidos nanicos,
b) vagabundos famosos,
c) milionários metamaterialistas,
d) mulheres vesgas chamadas Adelaide, ou
e) membros do Horror Supremo Federal.

O reverso da propaganda

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Era uma vez uma empresa chamada coca-cola que num dia desses comprou uma marca popular de cerveja aqui no Brasil. E, logo, começou seu marketing cocainista pesado em cima da bebida amarela. Até aí, nada demais. O primeiro problema é que o tal líquido é ruim mesmo. E o segundo e mais grave é que a Coca estava fazendo pressão junto aos estabelecimentos comerciais de Porto Alegre (Falamos de onde vivemos) para que a sua cerveja fosse vendida com nauseabunda exclusividade. E, pior, alguns donos de bares e casas noturnas e assemelhados acabaram cedendo, pusilânimes. Nada de outras marcas, só a da COKE. Indignados, eu e o amigo ViniMania empreendemos o sítio EuOdeioKaiser.com, atualmente desativado. Diga-se que foi o Vinicius que fez todo o trabalho árduo de montar a página. Parece que a nossa atitude, e a de outros camaradas desconhecidos que devem ter botado a boca no trompete contra tal acinte, surtiu algum efeito. Poucos bares, hoje, vendem kaiser com exclusividade. Tomaram na cabeça e aprenderam empiricamente. Isso é uma espécie de prova de que nem a poderosa coca-cola pode com a manifestação pública de repúdio. Este tipo de mobilização deveria funcionar não somente nos direitos de consumidor etílico, mas também em relação a direitos ‘gratuitos’ e vitais que dizem o ser humano possuir. Quem quiser pode assistir a um modesto e tosco audiovisual, veiculado pelo YouTube, feito por nós contra o referido monopólio clicando AQUI. Mobilização já!

Post Scriptum: O baixinho da kaiser só pega aqueles corpinhos sarados porque a coca paga bem...