agosto 2007 Archives

A safra divina

Eu comia espaguete ao lado de Aurora, regado a litros de Vin du Fou, em cadeiras de palha. O casal trapezista voava sob a lona azul e amarelo. O picadeiro era de compensado. Uma saúva solitária subia pelo verde vidro da garrafa vazia. A toalha imaginava tomates e carambolas sobre a mesa de fórmica. Dois palhaços, Zico e Binote, esperavam fumando o mesmo cigarro pelo instante certo de sua entrada ao sinal das cornetas e tambores. Um porquinho marrom escorregava embriagado numa poça de cachaça caubói ao nosso lado. Enrolei um emaranhado das linhas de massa no garfo inox e joguei tudo na boca. Mastigando, olhei para cima. Vi o pedaço de lua jorrando pelo buraco alto do toldo piramidal. Martina deu cambalhota no ar e segurou as mãos de Vândalo que vinha, cabeça pra baixo, ao seu esperado encontro. O aplauso estourou nas palmas do público. César, o chimpanzé, entrou pulando, enforcado pela borboleta de pano roxo. O picadeiro e a mesa tremeram. Aurora pausou alerta, como se escutasse a risada das oito crianças. César tirou a cartola negra e puxou de dentro um ramalhete de margaridas vermelhas. Jogou-as para uma senhora gorda na platéia e atirou uma cusparada possante nos bigodes cinza do paraguaio na primeira fila. Risadas gerais, aplausos. Cornetas e tambores gritaram, competindo espaço áudio. Aurora bebeu três goles num só de Vin du Fou e perguntou:
— Não é divina a safra de 2001?
Concordei calado e os palhaços entraram.

Abismos de fogo

Alguém aí pode nos explicar o robusto empenho do ministro da Defesa, Nelson Jobim, em aumentar o tamanho das poltronas de aeronaves? E isso em pleno pandemônio na aviação nacional? Parece perfumaria com fixador nulo; em nossa humilde opinião é o mesmo que comer terra para matar a sede. Concordamos que os assentos podem ser maiores, deveriam ser. Mas, neste momento caótico, não, por favor. Poltronas mais largas não são assunto vital, ou importante, para a Defesa Nacional. Não enquanto estivermos sentados na chaminé de um vulcão prestes a despertar. Abaixo, declarações de Nelson Jobim divulgadas no portal internético do Ministério da Defesa:

“As empresas passaram a usar aviões maiores comprimidamente”, comentou Jobim, lembrando a própria dificuldade que ele enfrenta em acomodar-se nas cadeiras. O ministro informou que está realizando estudos sobre o assunto, e defendeu o aumento do espaço entre as poltronas. “O espaço vital tem que ser condizente com o tamanho médio do brasileiro, que está crescendo”, disse Nelson Jobim.

Isso cheira a ministraria em Defesa própria, não Nacional. Seja dito que não temos ligações com Zuanazzis ANACianos. Não estamos aqui para louvar as ações positivas de tal ministério, pois tais ações não são nada mais do que o DEVER do órgão federal. O que nos cabe é opinar com o máximo de independência possível sobre o que considerarmos ridículo, podre, irrisório, e etc, nos atos do Governo. Afinal, o que são poltronas largas e confortáveis enquanto deslizamos em pistas de sabão rumo ao abismo de fogo?

Sonho caducante em Sol Menor

| 1 comentário

Meu amor é punk sem fardamento
Meu rei é liberto mendigo fantasma
Minha fada-madrinha cobra mais barato no lupanar Las Vegas
Meu hino-gemido de implosão dissonante

Paredes de ar tão pesado
Tua catedral de teto estrelado
Minha fronteira eterna linha de horizonte
Tua loja na esquina vende quimeras frescas

Meu sonho caducou no arrastar dos joelhos

Teu líder não sofre de autoridade impostora
Minha Lei é festejo no Arraial Louva-beijos

Tua melodia imolada no miasma das ruas
Salva a carne minha de eus e de outros

Meu disciplinado terror
É pura véspera de calmaria


Tua dor é desejo...