Não temos a vocação para rábula de Mefistófeles, mas ambos reinados de Cardoso 1º e seus 400 usurpadores e Silva Sênior e seus 300 picaretas promoveram boas ações para nossa aldeia. Cada um com suas características e origens próprias — camaleões contraditórios como todo bom ser humano. Economia controlada (sic) e um tanto estável, maior distribuição (sic) de renda entre as classes de baixa ou nenhuma renda, e a velha e substanciosa ajuda aos amigos de ambos que também são filhos de Deus e Brasileiros (tá, talvez nem todos). Outra melhoria básica: Não passaram trono e coroa para seus filhos príncipes, apenas garantiram, no mercado cinza e em verbas indiretas, que seus descendentes garantissem uma nobreza aristocrática com alta e justa renda. Atos fraternos naturais que foram relativamente noticiados e causaram escândalo apenas entre rebeldes alienados e insignificantes, os famosos Otários. E o melhor: fizeram tudo, e mais um muito, democraticamente recitando belíssimas demagogias reconfortantes.
E assim, os Três Porquinhos Poderes seguem abrindo bocas alheias de espanto maravilhado com seu espetáculo dramático de terror e humor negro...
Mas e as Fadas?, pergunta a marionete com cara de transeunte.
As Fadas atendem em horário comercial após pagamento inicial de dois mil e trezentos e quarenta e oito dólares, depósito não-identificado nº 0000000777799966666-8 no Banco Linda Lovelace. Tenha em mãos cópia autenticada de comprovante de renda acima de R$ 28 mil e quatrocentos.
dezembro 2007 Archives
Tudo começou há muito tempo atrás — Era uma vez um rapaz idiota e desavisado, perdido numa vídeo-locadora de Porto Alegre. Bocejando, agarrou a fita VHS de Três é Demais (Rushmore, 1998, 93min) e decidiu levar para conferir, uma básica flechada nas trevas. Que surpresa teve o idiota: um dos filmes mais divertidos que vira nos últimos tempos, aliás, fazia anos não enxergava no horizonte comédia contemporânea que o agradasse. Chegou a contagiar-se pelos dois protagonistas (Max Jason Schwartzman Fischer e Herman Bill Murray Bloom) vivendo uma paixão sadia pela personagem Rosemary Cross, interpretada por Olivia Williams. E a trilha sonora ainda era repleta de canções que condescendiam ao seu paladar musical.
Bom... Dias e anos passaram e Eu (obviamente, o rapaz idiota) fui ver Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001, 110min). Aí, eu já estava subjugado pela satisfação de ver os filmes desse tal Wes Anderson. Este, dos Tenenbaums, para mim o melhor, a obra-mestra do cara. A cena em que o Gene Hackman (Ave!) diz para a Anjelica Huston (Ave!) que vai morrer é impagável. O Filme, assim como o Rushmore, foi escrito em parceria com Owen Wilson (um dos irmãos mandíbula).
Depois veio A Vida Aquática de Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004, 119min) e uma leve degringolada na qualidade (nada demais, gostei também).
Eis por que sou suspeito para falar de Viagem a Darjeeling (roteirizado por Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman). Com três músicas do Kinks, boa trilha e a gostosa Where Do You Go To (My Lovely) de Peter Sarstedt, o filme tem como prólogo o curta-metragem Hotel Chevalier. Aquele com a nudez arrependida da Natalie Portman. Ah, a trilha tem também uma das melhores dos Rolling Stones — Play with fire. Que eu saiba, ao menos aqui em Porto Alegre de onde escrevo, o filme só está passando, em sessão solitária, no cinema do aeroporto. Mas vale (avisei que sou suspeito).
PostScriptum: Não comento o primeiro filme de Wes Anderson – Pura Adrenalina (Bottle Rocket,1994) porque não assisti. E tenho a leve impressão de que não se encaixa na característica assinatura visual que as outras películas do diretor projetam (chute brabo).
Essa canalha capitalista de esquina me transborda de respostas pra tudo que eu não perguntei. Vão seguindo meus passos pesados rua abaixo com dentistas a tiracolo, que gritam loas a dentifrícios soberbos. Fujo por um beco-sem-saída e fico ali aprisionado, num fim-de-tarde cinza, entre paredes musguentas de prédios altos. Confuso, vejo a porta envidraçada e suja da Loja de Lumbirmant e entro. Peço ao jovem de barbas grisalhas por um furo de escape qualquer daquele beco sombrio. Ele me mostra o gravador onírico a dois centavos e apresenta uma breve aula sobre. Olho para ele sem escutar. Atravesso a cortina de plástico vermelho no fim da loja e estou no corredor da casa de minha avó, os pés descalços nas tábuas de pinho do chão. Uma dúzia de crianças desconhecidas aparece me enchendo de porradas doloridas. E castores do tamanho de são-bernardos adultos mordem minhas pernas e mastigam, por vezes cuspindo meus pêlos que obstinam-se a grudar em suas línguas. Entro na última porta do corredor e um bicho estranho de espécie indefinida esfrega o imenso nariz molhado e pegajoso na minha pele. A náusea me invade, prefiro o linchamento infantil e os castores, saio. A chuva cai forte e estou parado numa poça rasa, pego uma de minhas alpargatas pretas e a jogo para Dornelles, parado lá embaixo no fim da escada.
Acordo, as pernas suadas, entre as reminiscências desordenadas do sonho, e o rascunho da teoria despenca desenvolto em meus devaneios. Seleciono as informações mentais (um insight leviano do instinto) e tento organizá-las. A hipótese é de que as ações diárias de um indivíduo sejam orientadas pelos sonhos através do subconsciente, que interpreta e decifra as mensagens e idéias contidas nesses sonhos e comanda as atitudes individuais, governado por essas interpretações, independente da consciência. Ao contrário de serem produtos da experiência, os sonhos seriam a causa das escolhas e atitudes pessoais de cada um. Mesmo que as ações provenham, supostamente, de pensamentos e raciocínios lógicos e minuciosos. Mesmo que os sonhos estejam para sempre perdidos num calabouço frio e remoto do esquecimento.
O alarme soa, desligo num tapa, viro de lado e volto a dormir.
