janeiro 2008 Archives

Cotidiano choque vespertino

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Sentei-me na velha tábua do balanço e quase caí. Ajeitei o corpo. Fora dois velhos jogando damas e os guris do futebol, a praça estava vazia. Tinha de segurar forte as correntes enferrujadas para não tremer. O suor das mãos misturando-se com a ferrugem renderam-me asco. Limpei as mãos na desbotada calça jeans. Percebi minhas sapatilhas enfiadas na poça de lama. Quando era guria me balançava batendo os pés na lama e chegava em casa pra ouvir outro sermão da mãe; nada demais, curtia, quantas vezes... tanto tempo... Um dos balanços estava com a tábua solta num dos lados. Quem consertaria aquilo?
Ouvi um dos velhos resmungando alto, as damas perdidas. As árvores paradas não tinham folhas para gingar se houvesse vento. O puta-que-pariu! e o não-foi! soltos no ar. Os boleiros debatiam por suposta falta na entrada da grande área. Não tinha coragem de levantar e fugir dali. Daquele distante espelho de solidão nublada. Aquela gangorra parada e vazia, inútil, as tintas descascadas em cores de filme preto-e-branco. E ali, onde o capim malcuidado acabava, era só areia marrom. Retângulos tortos e pisoteados da amarelinha que ninguém jogava naquela hora do dia já fatigado.
Queria balançar alto, girar a gangorra com força, invadir o futebol, embaralhar as peças do jogo de damas. Pular sapata imaginando as casas e números por detrás das pegadas infantes. Lançar-me ao abismo gelado no escorregador azul escuro. Mas tudo era paralisia, repressão do impulso, medo e desespero. Tudo era lembrança do cano de pistola apontado para a cabeça a duas quadras dali.

Nasce um anfitrião

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Vigiem as portas. Cerrem as janelas. Sufoquem a chama das velas e tirem os sapatos. Que o trem de seus pensamentos pise no freio de emergência. Interrompam o rolar dos dados, escancarem os olhos. As vozes calaram no corredor e o que ouço é o chicotear de ondas na carne fria das pedras. O vento assobiando em mi menor a massagear o verde vaivém nos galhos. As sombras de mistério espreitando encostadas no musgo das paredes de fora. Por favor, joguem correntes grossas no esqueleto em movimento das engrenagens. Troquem mais uma vez todos os segredos dos cofres, alterem as senhas. Um exército de silêncio grosso e pegajoso marcha rumo a nossos corpos tensos. O medo avança imperecível nas avenidas e becos de minhas veias, numa trajetória circular de correnteza jorrando em peso adocicado. No breu sem fim da caverna craniana minha, late em ecos ricocheteantes a saudade de uma dança volátil entre morcegos e borboletas e bolhas de sabão e claves de sol desenhadas no ar. Os inimigos chegaram e batem na porta, como se fôssemos abrir, como se não pudessem derrubá-la num leve sopro. Evaporou a validade das pastilhas de cura e o suco de mescal acabou anteontem depois da chuva. Desisto. Podem entrar, finjam que a casa é sua...

Suzanne Bloch, Eu e o Lavrador de Café

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A linha do baixo de Here comes your man não me sai da mufa e esse calor dá uma preguiça desgraçada. Mesmo assim tou com um desejo grávido de beber café forte com açúcar mascavo e uma pitada de canela. E assim vou — apalpando a escuridão de um Dois Mil e Oito em germe pulsante, na tentativa de acordar, afogado em remela seca e anseios desordenados. Contas de mamãe viajante a pagar, uns livros pra ler e vai ver o que mais... Acabei de lavar uma louça básica e as telas furtadas do MASP em dezembro último foram, agora há pouco, recuperadas: Picasso e seu Retrato de Suzanne Bloch, e Portinari e O Lavrador de Café. Sorte do museu paulista que não tinha segurado as obras. E um dos meus grandes projetos egocêntricos para o ano corrente é Sair da Adolescência. Outro projeto é seguir escrevinhando neste Blog com fundo preto, este semanário superelástico — playground de um entediado. Cambiando a conversa, ontem revi O Jantar dos Malas (Le Dîner de Cons, 1998), uma comédia bem das leves dirigida pelo Francis Veber, o mesmo cabra que fez O Closet (Le Placard, 2001). Originalmente, uma peça teatral escrita pelo próprio Francis Veber, a história do Le dîner de cons foi encaixotada num filme muito engraçado. Pra quem ainda não viu, indico: assista. Pra quem já viu, juro que não te convido pra jantar. Então tá, vamusimbora que já tão pegando...