Ouvi um dos velhos resmungando alto, as damas perdidas. As árvores paradas não tinham folhas para gingar se houvesse vento. O puta-que-pariu! e o não-foi! soltos no ar. Os boleiros debatiam por suposta falta na entrada da grande área. Não tinha coragem de levantar e fugir dali. Daquele distante espelho de solidão nublada. Aquela gangorra parada e vazia, inútil, as tintas descascadas em cores de filme preto-e-branco. E ali, onde o capim malcuidado acabava, era só areia marrom. Retângulos tortos e pisoteados da amarelinha que ninguém jogava naquela hora do dia já fatigado.
Queria balançar alto, girar a gangorra com força, invadir o futebol, embaralhar as peças do jogo de damas. Pular sapata imaginando as casas e números por detrás das pegadas infantes. Lançar-me ao abismo gelado no escorregador azul escuro. Mas tudo era paralisia, repressão do impulso, medo e desespero. Tudo era lembrança do cano de pistola apontado para a cabeça a duas quadras dali.