Esquilos subiram por minhas pernas e um deles mais avermelhado me encarou com seus olhos verdes e amarelos, os outros, eram muitos, mordiam minha carne e eu sentia frio e aí acordei pelado, as cobertas no chão. O cheiro de creme no quarto era insuportável, vesti meu terno riscado e o sobretudo preto de meu tio Alfred, fechei a porta com dois giros na chave e desci as escadas de dois em dois degraus. A manhã fria e cheia de sol nos prédios e no chão concreto era o cenário de gente apressada e automóveis no fluxo lento da falta de rua. Paguei meu Irish coffee e meu croissant de chocolate e consegui uma cadeira perto da janela. Do outro lado da rua, um cara magro de abrigo verde e laranja e capacete cinza segurou a porta com o pé direito, esticou o corpo e pegou uma das rodas encostada na parede, os aros refletiram brilho de sol nos meus olhos, bebi mais um gole, a roda já tinha sumido pra dentro do edifício, agora o cara magro tinha dificuldade pra segurar a porta e alcançar a bicicleta manca de uma roda só, desapareceu dentro do edifício e voltou com a roda amputada e a escorou na porta, ela escorregou e ele ajeitou a borracha do pneu na madeira e saiu em dois passos agarrou o quadro verde abacate da bicicleta e entrou. Eu preciso arranjar dinheiro, pensei, não quero mais andar a pé, de ônibus ou metrô. Pedi outro Irish e pensei em Sabrina. Aquilo que ela me falou ontem era preocupante. Disse uma tia-avó sua morrera de combustão espontânea depois de um passeio na roda-gigante, eu tentei falar mas... Sabrina mudou de assunto e ficou séria, parecia chateada, me deu um beijo longo e sorriu e nos separamos. Bebi os últimos goles do café pensando na minha sorte ameaçada por algumas histórias saídas da pequena boca de Sabrina. Pensei nas peles nuas e pegajosas e no calor e na orquestra de Ray Conniff soprando Hello, Dolly! no volume três e lembrei do cheiro tonteador de creme no quarto. Na rua, ajeitei o sobretudo e as mãos nos bolsos e dobrei a esquina. Caminhei lentamente evitando a sombra dos prédios derramada no cinza da calçada. Tinha meia hora antes de me encontrar com Sabrina no Central Park West.
julho 2008 Archives
Meus dedos tremem de lembrar
O lerdo e manual giro nas lentes
Pra medir o ajuste querido
No assunto escolhido a focar
Bendito Vício
Ei, vocês aí manejando essas cordinhas que quase posso ver presas em meus dedos e que sobem até aonde não se enxerga lá muito bem lá em cima, por favor injetem overdoses cavalares de ilusão e ingenuidade na veia saliente da minha testa. Tenho de sobra já sei, já ouvi essa antes, mas quero mais, preciso mais, faço qualquer coisa, por favor, vamo lá, quebrem essa, tenho que..............................
O Mundo é um quadrado imenso e frio e já caminhei demais sem nunca chegar e meus amigos morreram de crime doença ou acidente e até velhice, tive tanto medo de miragens e alarmes falsos nos becos e avenidas que agora espero pouco e me apresento meio camicase ao resto de tudo. Acostumei aos guinchares esfoladores da engrenagem onipresente, embalam meu sono agora, durmo quase em paz. Em meus sonhos festejos delirantes orgias inacabáveis construo inconsciente sentido absurdo nos vãos sombrios da realidade nula. Perco as horas marcadas que escorregam entre os dedos abertos ao vento, fujo de nada por esporte leviano. Sigo infiel os passos de bússolas inválidas pelo tédio da inércia estúpida. Meu cavalo nunca foi meu, é posse da inata vagabundagem silvestre, imagino seu galope atrapalhado, seu trote chique cagando esverdeado em relinchares gozados e aí me deixo a sugar o oxigênio possível para o soco banal do oculto iminente. Mas isso tudo é perfume borrifado no ar, acabo de ver um conterrâneo de Nora empalado na esquina da praça, os dedos ainda mexendo. Preciso correr ao quarto vinte e dois, mas estou velho e se correr talvez me detenham à força e tenho miseráveis explicações no bolso e percebo que não espero tão pouco e tenho vergonha, só penso merda, talvez eu chegue. Faço a volta, vejo minhas pegadas de antes na terra apontarem agora para mim, como se me acusassem. Seco o suor poeirento da testa e o guinchar cadenciado machuca meu ouvido. Merda eu sei meu cavalo também morreu. Caminho.
Uma proposta do presidente da Assembléia Legislativa gaúcha, Alceu Moreira, eleva o salário da governadora Yeda Crusius de R$ 7,1 mil para R$ 17,3 mil. Pela mesma proposta, os vencimentos do vice-governador e dos secretários passam de R$ 6,1 mil para R$ 11,5 mil.
Num mundo e país e estado ideais eu até acharia justo tal aumento. Mas na aldeia real em que a gente vive, é um absurdo. Alceu Moreira justifica a proposta ao comparar o salário atual da governadora com o de outros estados. O gaúcho é um dos mais baixos do Brasil. Mas em nossa modestíssima opinião, o presidente da Assembléia deveria, mesmo não sendo sua função, lutar para o rebaixamento dos salários de governadores de outros estados que paguem mais aos seus caciques do Executivo. E se a governadora não está satisfeita pode renunciar em favor de um vencimento mais digno na iniciativa privada. Sete mil reais pra realidade nossa é ultraje bastante. E tem outra, pela legislação atual, Yeda vai sair do trono em breve e continuar recebendo estes sete mil até morrer sem precisar fazer mais nada. Esse esquema de pensão vitalícia para ex-governadores é coisa de primeiro mundo, um luxo nauseabundo.
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E eis que perdi mais um show em Porto Alegre: Echo & The Bunnymen no Opinião. E isso que o preço não tava dos piores. Já me acostumei, é uma tradição na minha história. A primeira vez que o B.B.King veio pra cá, eu não fui e pensei porra, esse nunca mais, perdi. Mas alguns anos depois, ele voltava pra mais uma apresentação em Porto Alegre. E é óbvio que eu também não fui...
Tenho uma solução utópica e estapafúrdia para a eterna crise dos presídios do País. Certo que outro imbecil já veio com essa sugestão absurda (e por isso bem plausível), mas vá lá. Existem toneladas de empresas multinacionais que invadem países de terceiro mundo (ok, corretos, emergentes) atrás de mão-de-obra barata, isso é fato. Então o negócio seria semiprivatizar os presídios (a serem construídos pelas multinacionais com suas fábricas lá dentro) em troca da mão-de-obra dos presos que vivem amontoados numa inércia que não deixa de ser onerosa pros cofres públicos (ou melhor, onerosa pro bolso do povo). Construamos presídios Nike, Reebok etc. Imaginaram que maravilha? Já que falam tanto em parcerias público-privadas atualmente, taí uma fabulosa idéia. Tá bom, fabulosa é o adjetivo correto. É que não me canso de pensar besteira.
