Hoje o lotação Menino Deus ultrapassou a praça Argentina e a Edith Piaf cantava as folhas mortas nos meus ouvidos, eu parei de contar moedas e olhei pela janela uma revoada meio triangular de pombas pairou bem perto da janela e subiu traçando um meio círculo e desapareceu por cima do viaduto e o céu nublado por trás e eu respirei fundo. Ceninha básica e cotidiana mas me fez muito bem, ainda mais com aquela trilha de fundo: a Edith, xará da minha querida vó, carregando nos erres e na melodia. E nem lembrei na hora que tinha visto ontem um pouco mais adiante (talvez da mesma janela) a fotografia de um amigo meu bonito com o sorriso de dentes perfeitos na publicidade estúpida de uma companhia telefônica mafiosa e era triste olhar aquilo. Porque tantas pernadas já passadas e os caminhos bifurcados do presente, muitos camaradas em outras praias distantes e nostalgia hedionda off the rocks. Mas então, hoje outra vez, larguei as moedas na mão do motorista e desci os degraus, acendi um careta na chama do meu bic azul. E na rua dos Andradas eu vi um pônei petista (pelo menos parecia um pônei). Um desses cabos eleitorais girava no meio do calçadão com o pônei vestido com bandeiras do Partido. Sacanagem com o pônei que não consegue ter escolha. Mas talvez seja melhor não ter que escolher. E talvez seja melhor que alguém te vista com uns panos coloridos e uns emblemas incompreensíveis costurados e te puxe pelas rédeas cidade adentro. E talvez... ah, deixa pra lá. O mundo é bom, a vida é justa e a tinta da minha caneta secou
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