Abro e fecho os olhos, abro, fecho e abro. A não ser por essa luzinha verde piscando a escuridão é total. Também a sensação é de prazer total. Tento mexer os braços e pernas mais uma vez. Não consigo. Tirando as pálpebras e globos oculares, nada em meu corpo obedece aos meus comandos. Estou surdo, os lábios imóveis (eu acho) e remotos, não sinto língua nem dentes, parece que não tenho mais a boca. Mas ainda posso respirar e a pele continua sensível. Sei que estou parcialmente submerso num leito de gosma quente. Fecho os olhos. O espectro fosco da luzinha verde continua ali insistindo em piscar. Aquela sensação ininterrupta de prazer já é monótona e tenho vontade de bocejar. Mas essa vontade melancólica passa frustrada. Verde aceso, apagado, aceso, apagado, verde. Acordo com a sonoplastia estrondosa de uma batida de carros vinda do outro lado da janela fechada. Pulo da cama, o único móvel do quarto. Não sinto sono algum, vou correndo ao banheiro, os pés leves e rápidos. Lavo o rosto, a água está gelada, quero ficar ali pra sempre, lavando o rosto, mas não posso. Um alarme inaudível, lá - no fundo de tudo, não me deixa esquecer da hora marcada. O compromisso que não posso prorrogar. Fortuna inestimável sem valor algum. Já estou vestido num jeans predileto e numa camisa branca amarrotada, então apenas enfio os pés no mocassim preto e saio depois de beber um copo d'água. Se eu estivesse procurando os carros batidos na frente do meu portão não os veria e talvez ficasse intrigado. Mas, tentando lembrar a melodia de um swing escocês, sigo pela calçada de ardósias quentes, mãos descansando nos bolsos de trás da calça. Quase tropeço num poste que surgiu caído na esquina. O céu nubla de repente escurecendo a manhã e um vento morno começa a soprar. Sinto pingos no rosto. Sinto algo batendo no ombro e me viro, vejo apenas um vira-lata correndo em direção à minha casa. Minhas pernas enfraquecem, os joelhos cedem espatifando-se na calçada, não sinto dor alguma, fico zonzo e olho pro céu azul sem nuvens e é como se na minha cabeça eu ouvisse um pássaro assobiando aquela melodia que eu tentava lembrar. Meus ombros formigam e bruscamente cortinas verdes de quatro paredes, chão e teto vermelhos, me cercam rápidas. Desperto para a luz verde piscando à minha frente. Quando percebo que a gosma amornou, um pensamento me invade num flash negro: O homem nasce ali, vive por aí, morre lá. E assim que morre nasce de novo nos mesmos lugar, tempo e circunstâncias, vive experiências idênticas e morre na mesma praça do mesmo jeito e nasce novamente igual e assim por diante ao infinito. E isso acontece com todos os homens e bichos e legumes e estrelas e pedras. A mesma vida se repetindo num loop sem fim. E a cada existência a única coisa que pode se alterar ou não são as sensações de déjà-vu. Exaurida em mim essa conjectura ingênua e apavorante, tento começar mais uma vez a retrospectiva falha da memória de minha biografia. Mas não consigo, sinto agora o domínio do que eu temia chegando cada vez mais forte: a sensação de prazer total que me acomete começa a ficar insuportável e asquerosa. Feito um enxame superpopuloso e mudo massageando meu corpo num formidável e ardente sufoco. Fecho olhos e verde fosco pisca luz morna gosma abro rodopiando globos órbitas fecho anseio sonho dormir tento tento verde gosma pisca inútil. Não, não tenho sono.
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