Resumo de um caso remoto

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Não sei onde foi parar. Se na Califórnia ou em Búzios, Nova Zelândia ou Canela. Não vejo faz tempo demais a magrinha quase loira e, segundo um amigo, muito elegante. Foi parceira de muitas (trabalhos e vadiagens), andou por aí sem rumo ao meu lado, amiga mesmo, bem leve e divertida e sem frescuras inúteis. Gente muito boa e bonita e pra cima, como era perfeito ressuscitar tempo morto ao lado dela. Nós fumávamos um ou dois escutando Mutantes no Gol branco que fora do meu tio camarada e marinheiro. Rindo de nadas cósmicos e universos rarefeitos. Chorando sem lágrima de notícias diárias e da História Terráquea. Eu não sabia então que deveria ter agarrado aqueles instantes com mãos e braços e pernas e unhas e lábios e dentes. E também foram noites ébrias por bares espalhados pela cidade, eu e ela entre outros camaradas em conversas fúteis tão engraçadas e canções eletrônicas e beijos lambuzados em outras bocas erradas. Aqueles olhos verdes e roupas coloridas, um casaco marrom que agora não esqueço, as pernas finas. E por que, me pergunto, por que fui tão cretino e desligado? Sem notar nada quando ela tirava um sarro meio sério da minha cara por causa da outra loira que insistia em sentar ao meu lado nas aulas de português? Por que não li os sinais nas entrelinhas fundas e verdes daquele par de olhos? Ou por que não me avisaram os amigos, colegas, transeuntes, deus, o diabo ou um garçom paraguaio? Mas não, não há motivos, só existe o que houve. Eu, que além de esquisito, sempre fui de falar absurdos e besteiras infames e crueldades de brinquedo sem calcular os possíveis resultados trágicos. E foi numa dessas frases levianas e estúpidas que, ainda rindo, sofri a chicotada escaldante dum olhar inédito da minha amiga. Um olhar estranho e duro que me intrigou desconcertado. Depois desse dia, ela começou a me evitar, a fugir de mim. Se eu entrava, saía, e se eu fosse atrás, esvanecia nas multidões de carne ou de concreto que nos rodeavam. Me deixando deprimido e desbussolado. Sentindo no osso a idiotice doída da maldita ignorância que me assolou aqueles tempos. E foi somente naquela ausência fria que descobri tudo que me habitava dormente e que acabou jorrando explodido na minha cara de otário. Então fiquei sabendo que ela tinha voado pro sudeste, pra morar com a família ou algo assim, e afundei meus cacos numa fossa ridícula. Anos depois, a encontrei num bar de Porto Alegre. Eu já estava indo embora. Abracei forte aquele corpo magro e gostoso. Uns beijos no rosto e umas conversas sorridentes rolaram. Ela disse lembrar de mim sempre que escutava Os Mutantes. E aquilo enfraqueceu meus joelhos: eu tinha ouvido Baby na versão em inglês naquela mesma tarde, mas não recordo agora se mencionei o fato. E pior, ela chegara de Floripa no dia anterior. Eu ia viajar pra mesma cidade dali a algumas horas. Coincidências que só serviram pra confundir os miolos debilitados da criatura patética que ainda devo ser. Fui embora, nada aconteceu. Não pedi telefone ou perguntei onde estava morando. Não me pergunte a razão, não sei ou não lembro. Nada mais. Viajei até Floripa e passei dias perfeitos e melancólicos olhando pro mar do Morro das Pedras. Voltei pra Porto Alegre e mais outros anos voaram. Nunca mais a vi ou soube algo dela. Mas nota-se que ainda penso nos caminhos bifurcados, nas paisagens diferentes e em tudo, tudo que não aconteceu...

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(testando.............)

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  • por Tiago Thomé

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