Esboço duma fatia vulgar ou Pedaço de nuvem ou Vale mais um voo

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Minhas três ou sete pernas formam um borrão correndo a oito por hora na esteira rolante entre calçada e rua e minha amiga morde um pedaço de nuvem entre sonhos de um ocidente moldado pelo império cartaginês e não romano. Mas aí a gente não existiria, afirmo telepaticamente a minha amiga. Envolta em peles de cabra roxa, ela ignora meu comentário estúpido e continua sonhando com edifícios sem janela e. Há uma rarefeita névoa em cinza-claro que paira inocente estuprando a atmosfera. Minhas pernas estão cansadas, mas continuo correndo no mesmo metro quadrado. Mais um pássaro (quero-quero) espatifa-se morto no asfalto fofo. Bonifácio, meu vizinho de frente, varre o quero-quero para um dos necrotérios improvisados nos canteiros da rua. Até o fim haverá insanos engajados no vício da utilidade pública, penso. Minhas pernas fatigam totalmente e caio de costas, sou arrastado pela esteira. Um outdoor animado (atarraxado na esteira) me segue apresentando um reclame de televisão realidade onde vejo:

Carnes pedestres carcomidas
pelo ódio surdo aos gritos agonizantes
de misericórdia dos próprios ossos automutilados
em peregrinações ajoelhadas por aléias intermináveis ladeadas
por troncos de jacarandá queimados num chão de cacos vidro púrpura.
Carnes pedestres aceitando
horrores com a tolerância de uma
pedra (submissão infame) e talvez torturando
em sádicos requintes outras minorias inofensivas ou indefesas.
Carnes pedestres regurgitando
teses superembasadas a defender
inutilidades supremas e perversidades gratuitas e pseudolucrativas.

Cerro as pálpebras com força e tento recriar na imaginação um episódio antigo de um desenho animado que eu gostava tanto, mas não consigo: os desenhos correm em movimentos embaralhados na minha mente. Sento com as pernas cruzadas e percebo que a esteira está dando a volta na quadra. Sem pensar, recolho um pedregulho que vai passando (imóvel) na calçada ao meu lado e no vigor dos braços arremesso o pedregulho no outdoor. O pedregulho some para dentro do buraco que abriu na tela e a transmissão da imagem acaba num retângulo escuro que domina o miolo do outdoor. O contorno do buraco imita uma estrela gorda e assimétrica. Impávido, o orgulho me invade e eu aceito. Percebo que já dobrei a quarta esquina e agora posso ver a minha amiga crescendo aos poucos no meu âmbito visionário. Antes que ela cresça demais, dou duas cambalhotas e paro na calçada ao seu lado. Por cima das peles de cabra roxa. Minha amiga parece olhar além dos meus joelhos esfolados. Ela soluça e o pedaço de nuvem escapa na racha momentânea entre seus lábios e fica parado no ar. Um grito de quero-quero convoca nossa atenção. Do meio de seus colegas inertes no canteiro fúnebre, o quero-quero decola num voo desajeitado e some entre dois prédios no beco sem saída do outro lado da rua. Minha amiga tenta surpreender o pedaço de nuvem numa mordida rápida, mas o pedaço de nuvem desce veloz numa queda vertiginosa até o meio-fio, rola e desaparece num bueiro próximo que ignorávamos.

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  • por Tiago Thomé

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