Missiva dos traumas dissimulados

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Caro Doutor,

Relato a seguir caso de amigo meu que solicita considerações de ordem profissional: Até os sete, oito anos, ele foi um piá quase normal. Gritava, corria, brincava despreocupado sem dar muita atenção aos arredores, aos outros, enfim, ao mundo exterior e suas exigências e expectativas. Foi então que algo aconteceu (ignoramos o fato) e meu amigo fechou-se ensimesmado num suave, fingido e convincente autismo. Talvez, começasse ali a perceber a contundente resistência de quase todas as manifestações alienígenas que o cercavam em relação a seus desejos, crenças íntimas, valores abstratos, ideias e ilusões peculiares. Era demais raro encontrar demonstrações equivalentes a seu pensamento e sensibilidade. Por outras e essas trancou sua persona aparente e antes gorda de imprudência num acanhamento ordinariamente considerado como débil. Não deixou de observar, contudo, estudar até, o sublime e repugnante caos que se tramava (proposital ou acidentário) ao seu redor. Ao contrário, óbvio, gastava tempo maior em miradas meticulosas. Sem esquecer é claro de por eternidades ligeiras desligar-se em automergulhos egotistas. Talvez construísse remorsos gigantes por tanta inércia contemplativa, mas o caso é que não creditava muita serventia a incontáveis manifestações verbais ou ativas. Até os 14 anos meu amigo sobreviveu encaramujado. Então cansou de tanta masturbação interna e decidiu retornar aos poucos ao pragmatismo de atividades normais e verborreias vulgares. De certa forma, diz ele, sentiu-se obrigado a isso. E tentou então percorrer seus trajetos e atalhos com independência, muitas vezes não conseguindo fugir aos empurros de ventos influentes e abjetos. Conta o meu amigo que até hoje, aos 29 anos, continua a debater-se entre incoerentes impulsos e dúvidas e medos e ousadias estéreis e os hálitos repelentes de bichos à espreita. E afirma também sentir um banzo vertiginoso das viscosas paredes do casulo. Mais ou menos isso.

E então, Doutor, alguma luz? Mínima que seja? Algum tarja-preta com sabor de framboesa pra receitar?

Desde já,
Muito grato,

J. G.
09/07/09 - São Lourenço do Sul

PS: Hummm, deixa pra lá...

R.S.V.P!!!!

R.S.V.P!!!!

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  • por Tiago Thomé

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