O monstro da casa azul

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Era manhã nublada quando abriram os portões. A mesma avenida, casas, botecos, gente, igual. Eu levava a bolsa no ombro, não tinha muito: um batom vermelho esfarelando, um espelhinho quebrado num dos cantos formando um triângulo, moedas, a carteira com identidade e CPF, o Novo Testamento de bolso, cortador de unhas, lixa, as duas chaves unidas por um barbante e o lenço rosa. Atravessei a avenida e fingi não ouvir os assobios que pulavam das janelas gradeadas, as gurias. O velho clichê Não olhar pra trás. Desci a ladeira e segui a rua, um cusco magricela passou por mim com as orelhas altas e o olhar de quem viu muita merda. Eu na paranóia que fossem ficar me olhando na rua, falando pelas costas, mas as pessoas passavam como se eu fosse um fantasma banal. Mais um quilômetro de pernada. A duas quadras da casa do tio Olavo, reconheci um casal vizinho, passeavam o labrador, não me reconheceram. Mais um pouco e já podia ver a casa azul do outro lado da rua. O mesmo azul. Tio Olavo tinha ao menos pintado a casa de verde oliva e consertara os degraus da entrada, pude ver ao chegar.
Subi a escadinha nova e bati na porta, bati várias vezes e com força. E aí o tio Olavo surgiu da penumbra da sala segurando a maçaneta. O cabelo grisalho e revolto, a cara de sono, bocejou e deu espaço pra que eu passasse, me beijou no rosto. Te esperava só em agosto, falou. Pois é..., respondi. Trancou a porta e pediu que eu fizesse um café. Larguei a bolsa no velho sofá de couro sintético e olhei pra ele. Uns grisalhos amplificados e só. Até aquele blusão verde e calça cinza eram do meu tempo.
Na cozinha, o tio sentou na cadeira de palha e perguntou, Tudo bem contigo?, mas eu sabia a pergunta era outra. Melhor agora, respondi, riscando um fósforo, e acendi a chama no fogão. Jorrei água na chaleira e botei pra esquentar. Fiquei com medo de não te encontrar, eu disse. Coçando a barba rala, ele bocejou. Eu ainda deixo a chave no mesmo lugar, respondeu, mas o tom da voz dizia não morro tão cedo, não me querem lá.
Botei o café no coador, despejei a água fervente e sentei de frente pra ele. Um silêncio gostoso nós curtimos no véu daquele perfume forte que dominava a cozinha. Não tive saudades nem da Rita, tio, mas de ti eu senti a falta, eu disse. Entortou os lábios num olhar de reprovação carinhosa. Sobrou alguma coisa?, perguntei pra tranquilizar o tio. Claro, respondeu, bem mais da metade.
Bebemos o café em poucos goles e eu pedi licença pra tomar uma ducha. Meu quarto estava empoeirado, mas os lençóis limpos e o cobertor tinha um leve cheiro de canela. Tomei o banho que enrugou meus dedos e deitei. Dormi até as oito horas da noite, o sono atrasado da ansiosa noite passada.
Saí do quarto e senti cheiro de molho cozinhando, dois pratos e copos na mesa. Enquanto o tio terminava de cozinhar, abri as cortinas da sala e olhei pra casa azul do outro lado da rua, o mesmo azul, as duas janelas projetavam uma luz esbranquiçada. Fechei as cortinas com cuidado. Jantamos no sofá, vendo o noticiário das oito na televisão. O tio bebeu vinho, eu preferi o suco de laranja de caixinha. Vimos o capítulo de uma novela horrível, o tio gostava, e depois um filme sobre um cara que naufragava numa ilha deserta. Achei bom o filme. Lavei os pratos, talheres, copos, panela e carreguei o tio pra cama. Ele começara a roncar no segundo ano do naufrágio. Escovei os dentes e desliguei a luz da sala, sentei no sofá. Acostumei os olhos ao escuro.
Duas horas e quarenta e dois piscava o relógio da cozinha. Olhei pela fresta das cortinas, as duas janelas fechadas da casa azul, nenhuma luz. Abri a porta e saí. Atravessei a rua deserta, a umidade deformava a luz do poste a uns metros da casa. Pulei o muro de cimento enrugado e contornei a casa azul até os fundos. Uma lâmpada ficara acesa acima da porta. No chão de terra, espalhados, um triciclo baixo de ferro amarelo, uma piscina plástica redonda, um espeto enferrujado e um banquinho de madeira. A pitangueira continuava ali, no canto do muro. Tirei do bolso o barbante com as chaves e testei a primeira. Nada. Fiz a segunda chave girar duas voltas e abri a porta. Já contava com a mesma fechadura. Entrei e tirei os sapatos. A porta fechada, fiquei uns segundos parada no escuro da sala. Aos poucos, fui reconhecendo o sofá e a mesa no centro. Andei até o primeiro quarto, Rita dormia roncando como sempre, um ronco tímido. No outro quarto, tive que abrir a porta, mas ela não rangeu. Escutei as respirações descompassadas. Consegui enxergar a silhueta sobre a cama, o monstro escuro feito de dois corpos entrelaçados. Segui para a cozinha. Esperava encontrar o mesmo jogo de facas.

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  • por Tiago Thomé

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