Acapulco vibes overdose, ela saiu com essa e era ruim, meu deus, era ruim demais, um dó-e-sol muito além de monótono raspado nos bordões do violão e letra sussurrada numa voz enrouquecida de propósito (o que me levou a engolir meio mililitro de ternura e pena na saliva seca) ilustrando noites de uísque sem gelo, e muito pó, cigarros acendidos um no outro e anfetaminas e coitos no calor suado que um "ventilador de pesadas pás de ferro" não amansava; tudo uma nostalgia clichê de momentos que ela deve ter encenado de verdade (exceto pelo final trágico, eu tenho a impressão), não num quarto de hotel pulgueiro em Acapulco, mas noutro quartinho sujo duma casa antiga em alguma rua escondida do Partenon. Sabe aquelas tremedeiras típicas num colchão encardido e lambidas mordendo pele no bafo de álcool, dentes trincando, risadas e tossidas e pés imundos, tapas leves aqui-ali, uma lágrima involuntária, goles sobre goles, baforadas de fumaça grossa e silêncio entre algum debate trivial e tentativas desajeitadas dum exercício cansado que esqueceu o tesão em qualquer dobra do lençol? Sim, todo esse teatro exagerado sobre-over da página onze ou vinte e nove dum gibi descolorido da indústria cultural junkie rocker. Experiências requentadas autoimpostas e fantasiadas com farrapos reciclados de contracultura impostora. Uma cantilena patética no pior sentido, incrível, mas que eu já esperava. Então?, ela pergunta, o rosto branco afogado na revolta preta dos cabelos. Interessante, eu respondo sem mentir. Faz tempo eu ancoro meu bote nessas palavras dúbias que me esquivam da mentira pura e limpa. Bebo um gole do chá gelado (ruim porque aguado de gelo derretido), deixo o copo na penteadeira e puxo o Di Giorgio bege das garras pintadas de preto com lascas roídas na ponta das unhas pra deitá-lo no sofá ao lado (as cordas soando de leve uma nota ignorada) e sento na beira da cama. Firmo a mão esquerda úmida na coxa gorda, suave. Ela antecipa, num tremor dos lábios, um beijo que eu retardo, adio, e isso me arrepia duro, mas eu sigo na lenta como prefiro e quase não acredito na minha sorte (outra vez), na minha estrela que num brilho bom me massageia, joga no meu trajeto mais outro desses biótipos perfeitos, liso e carnudo e neurótico e adolescente, lotado de problemas e curvas que me olha esperando a mesma chave pruma porta óbvia e viciada que nunca leva pro destino querido. E outra vez (quase não creio) como sempre vou poder mergulhar, afundar, por hora e meia ou mais, no esquecimento de um resto sem gosto, na cadência pulsante que me aviva sem medo. Livre do depois que não existe agora, daquele acelerar caminhos inúteis ou projetos diários de tédio até voltar outra vez, na intimidade duma outra ninfeta perdida, a um símile da lentidão muda e trêmula que provoco e apanho enquanto (grudados e distantes) deitamos.
novembro 2009 Archives
É prática banal e institucionalizada montar a trilha sonora de um filme a partir duma coletânea de músicas (pop ou não) aleatórias e recortadas ao invés de compor uma trilha original. O CD com a soundtrack do filme é lançado feito uma mixtape eclética, o que deve ajudar nas vendas. E de repente é mais fácil e barato para a produção pagar direitos autorais do que encomendar uma trilha original. Sei lá. O caso é que virou mania que não sai de moda. Incontáveis cineastas fazem ou já fizeram essa salada sonora nos filmes que dirigem. Alguns roteiristas devem já pensar na música tal antes de escrever alguma cena. Wes Anderson é um diretor de cinema que usa a tática da mixtape nos filmes e, inclusive, abusa de cenas em slow motion com alguma musiquinha boa e apelativa tocando junto. Um truque ancião que, se bem-feito, é certo que funciona. O brabo é o exagero. Quentin Tarantino é outro que já vendeu muito CD soundtrack encravando uma set list bem garimpada nos filmes que executa. Em outros casos, são usadas várias músicas de um mesmo compositor na mesma película. O filme Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971), do Hal Ashby, é um que praticamente só usa músicas do Cat Stevens na trilha. A Bela Junie (La Belle Personne, 2008), dirigido pelo Christophe Honoré, também encaixa uma boa leva de sons do Nick Drake no correr da película. Enfim, exemplo não falta. O caso é o seguinte: não é que eu seja exata e completamente contra essa prática, é que na maioria das vezes isso acaba vulgarizando uma música interessante, destrói a integridade (física e metafísica) da música. Sim, muitas vezes, a música é perfeita para a cena e foi escolhida com critérios legítimos e de forma que dialoga com a cena, podendo, na melhor das hipóteses, valorizar a própria música. Não é o que costuma acontecer em imensa parte dos filmes nos quais a música é arremessada por cima dos fotogramas só pra encher a faixa de áudio. Usar um naco da música tal numa cena, só porque ela é bonitinha e vai vender CDs e porque o espectador vai reconhecer o som (ou pra exibir ecletismo musical) é sacanagem, é retalhar uma obra dentro de outra "obra". Repito, não sou contra o uso de músicas não-originais (inclusive, os exemplos acima não se encaixam exatamente na minha ira), só queria mais cuidado e respeito com alguns sons que eu curto, cacete. Um cara que faz misérias, no ótimo e perfeito sentido, com trilhas não-originais é o Kubrick. O vínculo entre imagem e som nos filmes do Stanley é sempre cavalo (normal, cinematograficamente o cara não é humano, é cavalo mesmo). Mas então... Abro aqui uma campanha, irada e modesta, em favor da trilha sonora original.