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    <title>ESCARNIOFICINA</title>
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    <subtitle>Filosofias iconoclastas de boteco às quatro da manhã. Mitologias do século XXXIV, reportagens esdrúxulas e relatos fantásticos. Poesia falcatrua e texto experimental. Causos e lendas de regiões improváveis e receitas de auto-ajuda para tatuíras desesperadas...</subtitle>
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    <title>O último do Tarantino</title>
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    <published>2010-01-27T04:04:32Z</published>
    <updated>2010-01-27T15:59:17Z</updated>

    <summary>Eu não sou exceção, também curto os filmes do Quentin Tarantino. O cara faz entretenimento de muito boa qualidade, o que sempre foi e ainda é e vai continuar a ser raro. Faz mais de três meses que eu assisti...</summary>
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        <![CDATA[<p>Eu não sou exceção, também curto os filmes do Quentin Tarantino. O cara faz entretenimento de muito boa qualidade, o que sempre foi e ainda é e vai continuar a ser raro. Faz mais de três meses que eu assisti ao <strong>Bastardos Inglórios</strong> (Inglourious Basterds, 2009, 153 min) numa sala de shopping. Então é certo que muito já esqueci e só vou mandar um comentário superficial (como se eu fosse acostumado a fazer análises críticas muito profundas). O ponto forte da filmografia do Quentin são os diálogos e no <strong>Bastardos</strong> eles continuam lá, muito bem num ritmo natural e cadência fluente. Outro serviço que ele executa na boa é a direção. Já os roteiros do cara são aquela história: aluno aplicado nas aulas de fórmula pra roteiro. Como o próprio <strong>Pulp Fiction</strong> assume no título, são todos folhetins (muito bem construídos, escreva-se). E geralmente com alguns vários punhados de referências culturais misturadas no liquidificador projetado. No caso de <strong>Bastardos</strong>, acho que a tal homenagem às trilhas do Ennio Morricone ficou meio fora de lugar e fraca, não me pareceu ter razão de ser, sei lá, fora de lugar e tamos conversados. O Morricone merece homenagem ou citação muito mais cavala e apropriada. Mas, buenas, o último filme do Tarantino começa muito bem e se desenvolve muito bem também, tranquilo, fui preso sem revolta pela narrativa da projeção. Mas do meio pro fim, <strong>Bastardos Inglórios</strong> dá umas derrapadas que não me convenceram, quase me arrancaram fisicamente da sala (porque dentro de mim eu já tinha escapado). Ali, pra mim, o filme se perdeu como a terrível raposa falante do <strong>Anticristo</strong> (Antichrist, 2009, 104 min) de Lars von Trier, da qual eu tive que me recuperar respirando lentamente por uns três minutos até conseguir retornar ao filme. Horrível, duma estapafurdice ridícula, a raposa falante. E por essa e algumas outras simbologias idiotas (o tronco decadente de árvore posando de signo fálico arruinado - Blé!), acho que o Lars von Trier perdeu de fazer um Puta filmaço. Anticristo é bom filme, mas podia ter sido muito, muito melhor e menos metido a besta. <br />
Voltando ao caso do <strong>Bastardos</strong>, a ideia do final deve ter subido à cabeça do Tarantino como se ela justificasse tudo. Tipo "já tenho essa ideia pro fim que achei genial e original então é só acabar o filme num pastelão de qualquer jeito que vai ficar tudo beleza". Foi a minha impressão e isso que nem achei grandes trecos a ideia. Mesmo que o objetivo tenha sido mesmo esse desfecho pastelão sem graça, não foi bem realizado. Toda a forma de conclusão do roteiro (filmado) ficou muito nas coxas, otária, mal-acabada em relação ao resto. Não falo aqui do "desrespeito" do roteirista à História Oficial, mas do desleixo quanto à ficção pretendida. Até a mentira mais tosca merece um mínimo de verossimilhança e plausibilidade, vamos combinar. Dois fatos berrantes recordo que me incomodaram: </p>

<p>1) É sempre fácil (e é natural que seja, tem que ser) despencar no maniqueísmo quando o assunto é nazismo, mas tem escolhas que eu vejo desnecessárias. Falo do instante de hesitação piedosa da personagem Shosanna (Mélanie Laurent - boa, muito boa) diante do célebre ator nazista caído na sala de projeção. Pra mim, ficou forçado demais, não precisava. Não.<br />
2) Foi ridícula e estúpida a rendição do coronel Hans Landa (Christoph Waltz - espetáculo), não condisse com a inteligência da personagem. Fiquei de boca aberta que aquilo estivesse no roteiro e fosse usado no filme. Infantilidade bisonha. Totalmente incrível. </p>

<p>Ainda quero rever o filme pra enxergar com mais clareza e reconhecer outras besteiras (talvez nem existam. Talvez) que me pegaram e chutaram no subconsciente (e no superconsciente) e fizeram com que eu achasse o final tão ruim e desparelho em relação ao resto da última empreitada cinematográfica do Tarantino. Declaro então: o desfecho de <strong>Bastardos Inglórios</strong> é entretenimento de defeituosa qualidade, fato que o diretor tinha toda a capacidade de evitar. Certo que há uma legião abundante pra discordar de mim. Que venha. <br />
</p>]]>
        
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    <title>Regulamento individual para 2010 e além</title>
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    <published>2009-12-30T20:13:04Z</published>
    <updated>2009-12-30T20:16:45Z</updated>

    <summary>Art. 1º - Desneurotize automaticamente. Art. 2º - Produza fontes alternativas de renda que neutralizem qualquer espécie de prostituição profissional. Art. 3º - Cace o mosquito do empreendedorismo e exija ou compre ou, em último caso, implore genuflexo por uma...</summary>
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        <![CDATA[<p>Art. 1º - Desneurotize automaticamente. </p>

<p>Art. 2º - Produza fontes alternativas de renda que neutralizem qualquer espécie de prostituição profissional. </p>

<p>Art. 3º - Cace o mosquito do empreendedorismo e exija ou compre ou, em último caso, implore genuflexo por uma picada na veia da testa.</p>

<p>Art. 4º - Beba, no mínimo, por baixo (bem baixo, baixo demais), uma garrafa de Chimay por mês.</p>

<p> Art. 5º - Amplie consideravelmente a fidelidade ao seu espírito idiota e bote fé no instinto primitivo. </p>

<p>Art. 6º - Esqueça a posição política da Alternância Ilusória de Poder e anule o voto nas eleições presidenciais. </p>

<p>Art. 7º - Aja muito sempre antes de pensar. Pare de sonhar e pratique. Mais atividade, menos contemplação. Mas, continue lendo este até o fim, faç' favor.</p>

<p>Art. 8º - Escreva, escreva, escreva e depois atire fora, na poubelle (piada interna/A.F.C.A.), o pior do menos ruim. </p>

<p>Art. 9º - Adquira um aparelho fotográfico decente.</p>

<p>Art. 10º - Viaje para o Morro das Pedras e fique por duas semanas, ao menos uma vez por ano. </p>

<p>Art. 11º - Transforme o alongamento do esqueleto num hábito. </p>

<p>Art. 12º - Não gaste todos os seus trocados em bala e chiclete (Nota pros dias burros: este é um artigo simbólico).</p>

<p>Art. 13º - Resfrie a mufa nos prazeres (sabe aqueles prazeres?, é, nesses, e naqueles outros também), se continuarem não querendo te levar pra dar voltas no carrossel. </p>

<p>Art. 14º - Leve uma cópia deste no bolsinho com zíper da carteira, já que os Órgãos de Fiscalização e Corregedoria são internos, desleixados e corruptos. </p>

<p>PS: Outros artigos relevantes poderão ser adicionados ao andar da carruagem cotidiana.<br />
</p>]]>
        
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    <title>Eu não</title>
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    <published>2009-12-14T03:54:21Z</published>
    <updated>2009-12-14T04:00:36Z</updated>

    <summary>Eu não quero habitar aquele apartamento brilhante Onde um besouro ao entrar pela janela já cai morto no assoalho branco Onde as aranhas se recusam a tricotar o aconchego mortífero das teias Eu não consigo circular nessas rodas de inteligência...</summary>
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        <![CDATA[<p>Eu não quero habitar aquele apartamento brilhante<br />
Onde um besouro ao entrar pela janela já cai morto no assoalho branco<br />
Onde as aranhas se recusam a tricotar o aconchego mortífero das teias</p>

<p>Eu não consigo circular nessas rodas de inteligência rameira e pedante<br />
Onde as bebidas secam de medo em canecos pós-modernistas <br />
Onde a verdade é retilínea demais e a mentira não vale um bocejo</p>

<p>Eu não posso respirar nas higiênicas salas de reunião e escritórios<br />
Onde a labuta cansa tanto todos de tanta falta de serventia<br />
Onde os corredores têm complexo de labirinto sem saídas</p>

<p>Eu não tenho a bravura congênita pra suportar multidões ao redor<br />
Onde os indivíduos miscigenam-se num monstro ensandecente e fascista<br />
Onde a razão pro aglomerado humano geralmente não pode me convencer</p>

<p>Eu não, eu não. </p>

<p>Mas acontece que tudo isso no cotidiano me caça<br />
Me morde, mastiga, me cospe<br />
Esfrega no meu semblante que inevitável mascaro <br />
O que eu já sei decorado e finjo não entender:</p>

<p>Eu não apareci no mundo sangrando e nojento dentre as pernas da mãe <br />
Pra mascar sementes duras numa caverna sombria de montanha nenhuma. <br />
</p>]]>
        
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    <title>Longes grudentos</title>
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    <published>2009-11-25T14:34:06Z</published>
    <updated>2009-11-25T14:37:33Z</updated>

    <summary>Acapulco vibes overdose, ela saiu com essa e era ruim, meu deus, era ruim demais, um dó-e-sol muito além de monótono raspado nos bordões do violão e letra sussurrada numa voz enrouquecida de propósito (o que me levou a engolir...</summary>
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        <![CDATA[<p>Acapulco vibes overdose, ela saiu com essa e era ruim, meu deus, era ruim demais, um dó-e-sol muito além de monótono raspado nos bordões do violão e letra sussurrada numa voz enrouquecida de propósito (o que me levou a engolir meio mililitro de ternura e pena na saliva seca) ilustrando noites de uísque sem gelo, e muito pó, cigarros acendidos um no outro e anfetaminas e coitos no calor suado que um "ventilador de pesadas pás de ferro" não amansava; tudo uma nostalgia clichê de momentos que ela deve ter encenado de verdade (exceto pelo final trágico, eu tenho a impressão), não num quarto de hotel pulgueiro em Acapulco, mas noutro quartinho sujo duma casa antiga em alguma rua escondida do Partenon. Sabe aquelas tremedeiras típicas num colchão encardido e lambidas mordendo pele no bafo de álcool, dentes trincando, risadas e tossidas e pés imundos, tapas leves aqui-ali, uma lágrima involuntária, goles sobre goles, baforadas de fumaça grossa e silêncio entre algum debate trivial e tentativas desajeitadas dum exercício cansado que esqueceu o tesão em qualquer dobra do lençol? Sim, todo esse teatro exagerado sobre-over da página onze ou vinte e nove dum gibi descolorido da indústria cultural junkie rocker. Experiências requentadas autoimpostas e fantasiadas com farrapos reciclados de contracultura impostora. Uma cantilena patética no pior sentido, incrível, mas que eu já esperava. Então?, ela pergunta, o rosto branco afogado na revolta preta dos cabelos. Interessante, eu respondo sem mentir. Faz tempo eu ancoro meu bote nessas palavras dúbias que me esquivam da mentira pura e limpa. Bebo um gole do chá gelado (ruim porque aguado de gelo derretido), deixo o copo na penteadeira e puxo o Di Giorgio bege das garras pintadas de preto com lascas roídas na ponta das unhas pra deitá-lo no sofá ao lado (as cordas soando de leve uma nota ignorada) e sento na beira da cama. Firmo a mão esquerda úmida na coxa gorda, suave. Ela antecipa, num tremor dos lábios, um beijo que eu retardo, adio, e isso me arrepia duro, mas eu sigo na lenta como prefiro e quase não acredito na minha sorte (outra vez), na minha estrela que num brilho bom me massageia, joga no meu trajeto mais outro desses biótipos perfeitos, liso e carnudo e neurótico e adolescente, lotado de problemas e curvas que me olha esperando a mesma chave pruma porta óbvia e viciada que nunca leva pro destino querido. E outra vez (quase não creio) como sempre vou poder mergulhar, afundar, por hora e meia ou mais, no esquecimento de um resto sem gosto, na cadência pulsante que me aviva sem medo. Livre do depois que não existe agora, daquele acelerar caminhos inúteis ou projetos diários de tédio até voltar outra vez, na intimidade duma outra ninfeta perdida, a um símile da lentidão muda e trêmula que provoco e apanho enquanto (grudados e distantes) deitamos. </p>]]>
        
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    <title>Trilha sonora original</title>
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    <published>2009-11-17T22:30:17Z</published>
    <updated>2009-11-17T22:32:42Z</updated>

    <summary>É prática banal e institucionalizada montar a trilha sonora de um filme a partir duma coletânea de músicas (pop ou não) aleatórias e recortadas ao invés de compor uma trilha original. O CD com a soundtrack do filme é lançado...</summary>
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        <![CDATA[<p>É prática banal e institucionalizada montar a trilha sonora de um filme a partir duma coletânea de músicas (pop ou não) aleatórias e recortadas ao invés de compor uma trilha original. O CD com a soundtrack do filme é lançado feito uma mixtape eclética, o que deve ajudar nas vendas. E de repente é mais fácil e barato para a produção pagar direitos autorais do que encomendar uma trilha original. Sei lá. O caso é que virou mania que não sai de moda. Incontáveis cineastas fazem ou já fizeram essa salada sonora nos filmes que dirigem. Alguns roteiristas devem já pensar na música tal antes de escrever alguma cena. Wes Anderson é um diretor de cinema que usa a tática da mixtape nos filmes e, inclusive, abusa de cenas em slow motion com alguma musiquinha boa e apelativa tocando junto. Um truque ancião que, se bem-feito, é certo que funciona. O brabo é o exagero. Quentin Tarantino é outro que já vendeu muito CD soundtrack encravando uma set list bem garimpada nos filmes que executa. Em outros casos, são usadas várias músicas de um mesmo compositor na mesma película. O filme <strong>Ensina-me a Viver</strong> (Harold and Maude, 1971), do Hal Ashby, é um que praticamente só usa músicas do Cat Stevens na trilha. <strong>A Bela Junie</strong> (La Belle Personne, 2008), dirigido pelo Christophe Honoré, também encaixa uma boa leva de sons do Nick Drake no correr da película. Enfim, exemplo não falta. O caso é o seguinte: não é que eu seja exata e completamente contra essa prática, é que na maioria das vezes isso acaba vulgarizando uma música interessante, destrói a integridade (física e metafísica) da música. Sim, muitas vezes, a música é perfeita para a cena e foi escolhida com critérios legítimos e de forma que dialoga com a cena, podendo, na melhor das hipóteses, valorizar a própria música. Não é o que costuma acontecer em imensa parte dos filmes nos quais a música é arremessada por cima dos fotogramas só pra encher a faixa de áudio. Usar um naco da música tal numa cena, só porque ela é bonitinha e vai vender CDs e porque o espectador vai reconhecer o som (ou pra exibir ecletismo musical) é sacanagem, é retalhar uma obra dentro de outra "obra". Repito, não sou contra o uso de músicas não-originais (inclusive, os exemplos acima não se encaixam exatamente na minha ira), só queria mais cuidado e respeito com alguns sons que eu curto, cacete. Um cara que faz misérias, no ótimo e perfeito sentido, com trilhas não-originais é o Kubrick. O vínculo entre imagem e som nos filmes do Stanley é sempre cavalo (normal, cinematograficamente o cara não é humano, é cavalo mesmo). Mas então... Abro aqui uma campanha, irada e modesta, em favor da trilha sonora original. </p>]]>
        
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    <title>O monstro da casa azul</title>
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    <published>2009-10-30T16:31:42Z</published>
    <updated>2009-10-30T16:32:43Z</updated>

    <summary>Era manhã nublada quando abriram os portões. A mesma avenida, casas, botecos, gente, igual. Eu levava a bolsa no ombro, não tinha muito: um batom vermelho esfarelando, um espelhinho quebrado num dos cantos formando um triângulo, moedas, a carteira com...</summary>
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        <![CDATA[<p>Era manhã nublada quando abriram os portões. A mesma avenida, casas, botecos, gente, igual. Eu levava a bolsa no ombro, não tinha muito: um batom vermelho esfarelando, um espelhinho quebrado num dos cantos formando um triângulo, moedas, a carteira com identidade e CPF, o Novo Testamento de bolso, cortador de unhas, lixa, as duas chaves unidas por um barbante e o lenço rosa. Atravessei a avenida e fingi não ouvir os assobios que pulavam das janelas gradeadas, as gurias. O velho clichê Não olhar pra trás. Desci a ladeira e segui a rua, um cusco magricela passou por mim com as orelhas altas e o olhar de quem viu muita merda. Eu na paranóia que fossem ficar me olhando na rua, falando pelas costas, mas as pessoas passavam como se eu fosse um fantasma banal. Mais um quilômetro de pernada. A duas quadras da casa do tio Olavo, reconheci um casal vizinho, passeavam o labrador, não me reconheceram. Mais um pouco e já podia ver a casa azul do outro lado da rua. O mesmo azul. Tio Olavo tinha ao menos pintado a casa de verde oliva e consertara os degraus da entrada, pude ver ao chegar. <br />
	Subi a escadinha nova e bati na porta, bati várias vezes e com força. E aí o tio Olavo surgiu da penumbra da sala segurando a maçaneta. O cabelo grisalho e revolto, a cara de sono, bocejou e deu espaço pra que eu passasse, me beijou no rosto. Te esperava só em agosto, falou. Pois é..., respondi. Trancou a porta e pediu que eu fizesse um café. Larguei a bolsa no velho sofá de couro sintético e olhei pra ele. Uns grisalhos amplificados e só. Até aquele blusão verde e calça cinza eram do meu tempo. <br />
	Na cozinha, o tio sentou na cadeira de palha e perguntou, Tudo bem contigo?, mas eu sabia a pergunta era outra. Melhor agora, respondi, riscando um fósforo, e acendi a chama no fogão. Jorrei água na chaleira e botei pra esquentar. Fiquei com medo de não te encontrar, eu disse. Coçando a barba rala, ele bocejou. Eu ainda deixo a chave no mesmo lugar, respondeu, mas o tom da voz dizia não morro tão cedo, não me querem lá. <br />
	Botei o café no coador, despejei a água fervente e sentei de frente pra ele. Um silêncio gostoso nós curtimos no véu daquele perfume forte que dominava a cozinha. Não tive saudades nem da Rita, tio, mas de ti eu senti a falta, eu disse. Entortou os lábios num olhar de reprovação carinhosa. Sobrou alguma coisa?, perguntei pra tranquilizar o tio. Claro, respondeu, bem mais da metade. <br />
	Bebemos o café em poucos goles e eu pedi licença pra tomar uma ducha. Meu quarto estava empoeirado, mas os lençóis limpos e o cobertor tinha um leve cheiro de canela. Tomei o banho que enrugou meus dedos e deitei. Dormi até as oito horas da noite, o sono atrasado da ansiosa noite passada. <br />
	Saí do quarto e senti cheiro de molho cozinhando, dois pratos e copos na mesa. Enquanto o tio terminava de cozinhar, abri as cortinas da sala e olhei pra casa azul do outro lado da rua, o mesmo azul, as duas janelas projetavam uma luz esbranquiçada. Fechei as cortinas com cuidado. Jantamos no sofá, vendo o noticiário das oito na televisão. O tio bebeu vinho, eu preferi o suco de laranja de caixinha. Vimos o capítulo de uma novela horrível, o tio gostava, e depois um filme sobre um cara que naufragava numa ilha deserta. Achei bom o filme. Lavei os pratos, talheres, copos, panela e carreguei o tio pra cama. Ele começara a roncar no segundo ano do naufrágio. Escovei os dentes e desliguei a luz da sala, sentei no sofá. Acostumei os olhos ao escuro. <br />
	Duas horas e quarenta e dois piscava o relógio da cozinha. Olhei pela fresta das cortinas, as duas janelas fechadas da casa azul, nenhuma luz. Abri a porta e saí. Atravessei a rua deserta, a umidade deformava a luz do poste a uns metros da casa. Pulei o muro de cimento enrugado e contornei a casa azul até os fundos. Uma lâmpada ficara acesa acima da porta. No chão de terra, espalhados, um triciclo baixo de ferro amarelo, uma piscina plástica redonda, um espeto enferrujado e um banquinho de madeira. A pitangueira continuava ali, no canto do muro. Tirei do bolso o barbante com as chaves e testei a primeira. Nada. Fiz a segunda chave girar duas voltas e abri a porta. Já contava com a mesma fechadura. Entrei e tirei os sapatos. A porta fechada, fiquei uns segundos parada no escuro da sala. Aos poucos, fui reconhecendo o sofá e a mesa no centro. Andei até o primeiro quarto, Rita dormia roncando como sempre, um ronco tímido. No outro quarto, tive que abrir a porta, mas ela não rangeu. Escutei as respirações descompassadas. Consegui enxergar a silhueta sobre a cama, o monstro escuro feito de dois corpos entrelaçados. Segui para a cozinha. Esperava encontrar o mesmo jogo de facas.  <br />
</p>]]>
        
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    <title>Tomada de ombro</title>
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    <published>2009-10-14T21:21:27Z</published>
    <updated>2009-10-14T21:25:13Z</updated>

    <summary>O assunto é a clássica solução Plano e Contraplano do cinema pra agilizar os diálogos dum filme, a Tomada de Ombro. Personagem #1, confrontando a lente, diz algo e num canto do quadro vemos um pedaço de cabeça, ombro e...</summary>
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    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://verbeat.org/blogs/escarnioficina/">
        <![CDATA[<p>O assunto é a clássica solução Plano e Contraplano do cinema pra agilizar os diálogos dum filme, a Tomada de Ombro. Personagem #1, confrontando a lente, diz algo e num canto do quadro vemos um pedaço de cabeça, ombro e costas da personagem #2 que escuta. Alterna para a fronte da personagem #2 que responde para, noutro canto do quadro, o pedaço de cabeça, ombro e costas da personagem #1 e vai-se invertendo sucessivamente (mas bah!, como eu sou um mala didático). Buenas, o que eu vou escrever a seguir vai soar (gritar) ridículo, fútil e provavelmente como um equívoco total. Mas, não é de hoje que eu proponho a minha existência (de vencedor da corrida de espermatozóides) a divagar sobre inutilidades. A impressão que eu tenho às vezes, em alguns filmes, é que a personagem ouvinte, de costas, transparece através dos cabelos, da pele, da caveira, uma expressão estática no rosto. Uma reação (ou falta de) fora de sintonia, que não condiz com o que a personagem falante expressa. Talvez pra agilizar e baratear a produção, já que o rosto do ouvinte não aparece no quadro, o diretor ou o ator não se preocupem com as reações, invisíveis na tela, ao que está sendo dito. Eu posso estar errado, já que muitas produções utilizam duas câmeras filmando simultaneamente o diálogo, até para aproveitar alguma reação interessante da personagem que escuta. Mas, do contrário, a falta de reação adequada do ouvinte pode transparecer também no rosto de quem fala. Já que a atuação a dois (ou mais) é uma simbiose bilateral (simbiose bilateral acho que é redundância, mas agora já foi, fica pra enfatizar), mesmo que um lado não apareça pro espectador, ao reagir bem, ajuda o ator em quadro. O caso é que muitas vezes me peguei achando artificial aquele ouvinte parado de costas, parecendo um boneco. Resumindo, o que eu queria expor é que tem atores que não convencem nem de costas. </p>

<p>Da mala pro saco, eu revi um dia desses o <strong>Buffalo '66</strong> (1998) do Vincent Gallo (que, por sinal, tem várias tomadas de diálogo bem interessantes usando foco e outros truques), e continuo gostando bastante. A produção megalomaníaca do garoto (que escreveu, dirigiu, atuou, musicou etc) é bem construída, engraçada e muito boa de assistir. Inclusive perdoei alguns mínimos detalhes fracos do filme, descontando na minha impressão de que o filme é uma fábula da origem e da reformulação de uma personagem. Pode ser muito bom em algumas cenas e bem mais ou menos em outras, mas se alguém não viu, aponto o indicador, vale. Já o <strong>The Brown Bunny</strong> (2003), também do VG, eu achei um porre quando vi. Sei lá, talvez tenha que rever, mas achei que ele fez o filme só pra ganhar um boquete da Chloë Sevigny. Talvez, daqui a alguns anos, eu escreva exatamente o contrário de tudo isso. Talvez. Mas assim é que vale. Sigam-me os contraditórios. Tudo é momento. <br />
</p>]]>
        
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    <title>Perfumes caducos</title>
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    <published>2009-10-07T03:57:21Z</published>
    <updated>2009-10-07T03:58:25Z</updated>

    <summary>Saio sozinho pra rua na noite. Só quero expulsar da mente a tua carinha de boneca perfumada pedindo razão pra tudo. Farejando no pescoço ou na camisa algum coito recente já evaporado. O tabefe da mão esquelética na minha cara....</summary>
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        <![CDATA[<p>Saio sozinho pra rua na noite. Só quero expulsar da mente a tua carinha de boneca perfumada pedindo razão pra tudo. Farejando no pescoço ou na camisa algum coito recente já evaporado. O tabefe da mão esquelética na minha cara. A mesma cena de choro aprendida naqueles filmezinhos de romance idiota. Nojento. Cago pro teu sentimento morno de prateleira empoeirada. Teu ciúme de apartamentinho burguês, tua desilusão falsa de banho tomado. Vou atrás de paz submarina ou muito barulho talvez.<br />
	Não suportei o drama batido, saí num fervo atrás de outras curvas carne-osso, longe dos rancores esmiuçados, aquele porre. Liguei pro Valter, mas ele não atendeu. Passou um táxi, eu fiz sinal. Não conversei com o motorista. Pedi que parasse no posto de gasolina. Andei pela avenida e vi uma loira de casaco vermelho na esquina. <br />
	Tu aí, vem cá. Pode ser...  <br />
	Segui, não me perguntou nada, caminhou calada. Tirou um espelhinho da bolsa vermelha e retocou a maquiagem. Hotéis passavam por nós, ela indicou um, não gostei. Eu não me decidia, tinha que apresentar uma entrada escura, luzes fracas, prédio antigo, as paredes com a tinta descascando. Me perguntou a hora, limpou algo na minha cara. Nada de paixão ideal, discurso sentimental, orgulhinho machucado. O tesão pela moeda e só. A rua já ia acabar, eu desisti da tal entrada escura e carreguei aquele casaco vermelho pro último hotel que vi. Segurei a porta prum casal que saía, esperei um obrigado, inútil, passaram. A mão enrugada, unhas lilás, tirou da bolsa um telefone vibrante que simulava o badalar de sinos. Agucei os ouvidos, queria ouvir a conversa, mas ela desligou.<br />
	Peguei a chave, quarto térreo, como pedi. Entramos. Paredes amareladas oprimindo a cama, o cobertor azul-marinho. Respirei fumo, desinfetante, ranço e sei lá o que mais. Sim, até aquela minestrone de cheiros me sussurrava algo mais limpo e real. Teus perfumes de fora caducariam ali. Tirou o casaco e vestido, os mamilos cor de barro, a vulva careca. Fiquei com a camisa, larguei calça e paletó sobre o biombo espelhado. Num gesto clássico, dedilhou o polegar e o dedo médio e eu disse, quanto mesmo? Fez o preço. Paguei. Deitamos. Desenrolei a camisinha no pau e meti. Estoquei com vontade aquela carne abusada. Rápido como deve ser. <br />
	Vai mais outra?, perguntou. <br />
	Não, valeu, tá bom pra mim, respondi.<br />
	Chamei o Valter, voltava de uma corrida até a Estrada do Forte, resolvi esperar. Nove minutos, ele chegou, grande Valter. No trajeto, concordamos sobre o caso Dodô, patifaria. Falou de galhos com a filha mais nova, fiquei na minha. Doze e dezesseis no taxímetro, leva quinze. <br />
	O Arnaldo me atendeu à porta, sorridente, garrafa de vinho na mão, perguntou de ti: Foda-se, falei. Me apontou a geladeira, servi o copo d'água até a beira, virei tudo de uma vez. Molhei a camisa. Andei até a sala. Cumprimentos, piadinhas, pouca gente, ainda. Todos na sala em volta do telão, concerto de jazz, vários artistas, nojo. Falei que ia ao banheiro e fugi de todo aquele jazz fodido. Abri o pacote que roubei da cozinha e fui comendo as bolachas de chocolate no elevador espelhado. Olhei meu rosto mastigando, bonito. Sem dores nem marcas do teu tapa bem-educado. Só a cicatriz adolescente acima da sobrancelha.<br />
	Ia ligar pro Valter, mas o frio da noite não incomodava, caminhei. Fui descendo a Independência, fumando. Entrei num café, pedi um expresso com chantilly e peguei o jornal, disponível no balcão. Pela primeira vez no dia, me senti tranquilo. <br />
	Quando cheguei em casa, o papagaio assobiou e deu uma gargalhada. Tranquei o bicho na área de serviço. Um bilhete no balaústre da sala: <em>Vou dormir na casa da Joana. Me liga. Desculpa</em>. Tive que rir. Servi um copo d'água e fiquei olhando pra ele. Uma boa madrugada solitária. Sem teu questionário interminável, teorias, frases refeitas. Muito obrigado, valeu mesmo. Tomei um banho de quase meia hora, e depois cochilei pelado assistindo televisão - um inglês ensinava a cozinhar frango. Levantei, comi os restos de macarrão do almoço, dei uma cagada e liguei pro Valter.<br />
</p>]]>
        
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    <title>Coceira viva</title>
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    <published>2009-09-26T01:18:13Z</published>
    <updated>2009-09-26T01:19:36Z</updated>

    <summary>Boneco de carne curtida Um enigma intracraniano Cardíaco Acostumado no mundo Incômodo No erro dos atalhos Tão mirabolantes E cheios De tédio Sátira funérea pulsante Cautela atabalhoada Estripulia calculada Osso tremente e sério Umidade vermelha Na correnteza arterial E solidão...</summary>
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        <![CDATA[<p>Boneco de carne curtida<br />
Um enigma intracraniano<br />
Cardíaco <br />
Acostumado no mundo<br />
Incômodo<br />
No erro dos atalhos<br />
Tão mirabolantes <br />
E cheios<br />
De tédio<br />
Sátira funérea pulsante<br />
Cautela atabalhoada<br />
Estripulia calculada <br />
Osso tremente e sério<br />
Umidade vermelha<br />
Na correnteza arterial<br />
E solidão de berros intraduzíveis<br />
Na ânsia de colidir epidermes<br />
Em fricção vagarosa <br />
Pra ligeira delícia,<br />
E a dor de cortes abertos<br />
E a coceira viva no miolo da cicatriz.</p>]]>
        
    </content>
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    <title>Linda Maria*</title>
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    <published>2009-09-15T17:08:29Z</published>
    <updated>2009-09-15T17:10:42Z</updated>

    <summary>Os oito dias que eu passei na casa do Anderson foram deprimentes. Vazio e lentidão total por dentro e ao redor. Agora, eu certamente estou explodindo com um sorriso animal de satisfação na cara enquanto olho pra ti, Linda Maria...</summary>
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    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://verbeat.org/blogs/escarnioficina/">
        <![CDATA[<p>Os oito dias que eu passei na casa do Anderson foram deprimentes. Vazio e lentidão total por dentro e ao redor. Agora, eu certamente estou explodindo com um sorriso animal de satisfação na cara enquanto olho pra ti, Linda Maria que lê estas linhas que escrevi ontem (hoje). Sabe aquelas histórias sombrias e tristes que arrancam gargalhadas no parágrafo certo e fazem pensar de maneira diversa um assunto que parecia esgotado? E fascinam pelo estranho assimilável e emocionam vagamente construindo uma tensão suspensa e irresistível? Pois é mais ou menos esse tipo de história que aqui se espalha unida nas seguintes páginas. Já reli duas vezes e sempre me fisgou desigual a trajetória dessa personagem simples que, atirada numa situação extravagante, tenta manter o naco de sanidade restante. Lembra aquele dia de Reis, tardezinha nublada, que entrei no apartamento e te achei chorando de frente pra janela? Eu não disse nada, só fiquei ali perto, na penumbra. E ouvi tua voz meio rouca pedir: conta uma piada. E só consegui lembrar aquela dos sapos voadores que o Rafinha inventou. E ouvi tua risada fraca e depois o resto jorro do que ainda sobrava pra chorar. Naquele momento, eu mirava o céu azul escurecendo, me veio na memória um trecho no capítulo XIV do livro manuseado por ti agora. E preferi não perguntar o motivo do choro e esperar teu desabafo natural se essa intenção resultasse da tua vontade. Por algum tempo depois daquele dia eu envaideci de orgulho, orgulho por não ter perguntado nada.  Mas, agora, me vem um pedaço de dúvida pinicar atrás da orelha. Por isso, eu peço que, ao fim da leitura desta história a seguir, teu veredicto esclareça se fiz o certo ao não perguntar sobre a tua evidente tristeza rompida naquela tarde. E também espero muito que este livro, um dos meus preferidos, possa também ser um dos teus. </p>

<p>Um beijo inacabável com paixão demais,<br />
Paulo Roberto<br />
POA - 16/07/2009</p>

<p><br />
*Dedicatória manuscrita em tinta preta na página de rosto de um livro (em ótimo estado de conservação) da estante de promoções exposta em algum sebo de Porto Alegre. <br />
</p>]]>
        
    </content>
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    <title>Curiosidade Ficcionista</title>
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    <published>2009-09-03T03:12:25Z</published>
    <updated>2009-09-03T03:13:20Z</updated>

    <summary>Hoje eu vi duas malas grandes e abertas na esquina aqui de casa, uma preta em pé, outra marrom deitada, com uma pilha de lixo ao redor. Chovia e, debaixo do meu guarda-chuva, olhei praquelas malas no brilho molhado da...</summary>
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    </author>
    
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://verbeat.org/blogs/escarnioficina/">
        <![CDATA[<p>Hoje eu vi duas malas grandes e abertas na esquina aqui de casa, uma preta em pé, outra marrom deitada, com uma pilha de lixo ao redor. Chovia e, debaixo do meu guarda-chuva, olhei praquelas malas no brilho molhado da calçada e (lá veio me dominar) quis muito saber por onde andaram as malas, o que levaram, pra quem e o que testemunharam lá inanimadas.<br />
O que eu quero dizer é que do pouco que sei sobre mim, um fato é: sou um cabra curioso demais. É quase patológico e acabo sempre focando em detalhes supérfluos. Se alguém me diz que lambia um sorvete quando viu o maior acidente automobilístico do ano, começo perguntando o sabor do sorvete e por aí vai. Se um camarada foi mordido por um cachorro, já quero saber o nome do bicho, a raça, cor etc. Eu podia me esforçar pra cavoucar algum exemplo mais estapafúrdio, mas deixo assim. Acho é que essa curiosidade gratuita é um dos motores que me impulsionam a estimar tanto a Ficção. De tanto acaso cotidiano que estimula essa curiosidade, muito pouco pode ser esmiuçado em detalhes reais e desimportantes. Daí talvez venha a minha compulsão por inventar. Óbvio que há outras razões, tanto claras quanto obscuras, pra tanta curiosidade (muitas vezes intrometida). É certo que também a hipocrisia hedionda, a ideologia parcial, o interesse econômico e diversos et ceteras que simulam fatos em jornais e 'documentos' históricos e relatos 'autênticos' também me empurram fortes pra mentira e a verdade da ficção. </p>

<p>PS: Aconteceu pra dar um fecho mais redondo nesta crônica egocêntrica: Ainda hoje, na volta pra casa, já tinham limpado a esquina das malas e do lixo. Mas um pouco adiante estavam dois guarda-chuvas (um preto e outro vermelho) quebrados num canteiro. Mas eu preferi não viajar em cima do trajeto que eles pudessem ter feito até ali. Por enquanto...<br />
</p>]]>
        
    </content>
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    <title>Boletim de Ocorrência</title>
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    <published>2009-08-28T02:45:58Z</published>
    <updated>2009-08-28T02:54:26Z</updated>

    <summary> ESTADO DE SANTA GUADALUPE DO OESTE SUPERSECRETARIA DE SEGURANÇA PRIVADA MILÍCIA CIVIL S.A. PENÚLTIMA DELEGACIA DE REPRESSÃO AOS COITADOS BO nº: 969448/2009 Delegado: Almeida Agente plantonista: Juremar Godoy Natureza da ocorrência: Lesão epidérmica hedionda seguida de xingamentos chulíssimos Data:...</summary>
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    </author>
    
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://verbeat.org/blogs/escarnioficina/">
        <![CDATA[<p><br />
<div style="text-align: center;">ESTADO DE SANTA GUADALUPE DO OESTE<br />
SUPERSECRETARIA DE SEGURANÇA PRIVADA  <br />
MILÍCIA CIVIL S.A.<br />
PENÚLTIMA DELEGACIA DE REPRESSÃO AOS COITADOS</div></p>

<p><br />
BO nº: 969448/2009<br />
  <br />
Delegado: Almeida <br />
Agente plantonista: Juremar Godoy</p>

<p>Natureza da ocorrência: Lesão epidérmica hedionda seguida de xingamentos chulíssimos                    <br />
Data: 08/06/2009<br />
Local: Rua Lindomar Sampaio, 334, Bairro Supernova, <br />
Maria Bonita da Serra/SGO <br />
Hora do registro: 19h39m                               <br />
Hora do incidente: 16h30m </p>

<p>INDICIADO: Angelo Castilho <br />
Doc. Ident. nº: não consta <br />
Pai: Dimitri Castilho <br />
Mãe: não consta <br />
Cor: Vermelho                <br />
Idade: 44 anos                 <br />
Est. Civil: divorciado                 <br />
Prof.: Cigano <br />
Nac.: não consta          <br />
Nat.: não consta <br />
Residência: Onde calhar <br />
Local de trabalho: Terra </p>

<p>VÍTIMA/COMUNICANTE: Maria Rosa do Amparo Lubeck  <br />
Doc. Ident. nº: 4.556.97 - SSSP/SGO<br />
Pai: Rodolfo Lubeck <br />
Mãe: Dulcinéia Lubeck <br />
Cor: parda                <br />
Idade: 49 anos                 <br />
Est. Civil: viúva                 <br />
Prof.: Gerente de butique <br />
Nac.: brasileira         <br />
Nat.: Maria Bonita da Serra/SGO <br />
Residência: Rua Lindomar Sampaio, 334, Bairro Supernova, <br />
Maria Bonita da Serra/SGO<br />
Local de trabalho: não consta </p>

<p>TESTEMUNHAS: <br />
1)Amália Antunes, residente na Rua Genoveva Kampff, 125, Bairro Supernova, RG: 3.152.63 SSSP/SGO, fone: 323-2112. <br />
2)Rui Barbosa Leite, residente na Rua Ernesto Zimmer, 455, Centro, Maria Bonita da Serra/SGO, RG: 2.222.33 SSSP/SGO. </p>

<p>HISTÓRICO: Relata a vítima que, na data supracitada, o autor, seu amásio irredutível que há mais de onze anos aparece de vez em quando e fica por alguns dias, chegou de longa temporada ausente, charmosamente embriagado, e na calçada frontal à modesta residência da vítima agrediu-a com ósculos úmidos, cócegas, beliscos delicados e abraços lúbricos após a mesma ter se negado a dar-lhe vinte e cinco centavos para comprar chicletes em razão de suposta halitose. Segundo o relato das testemunhas, o indiciado, ao encontrar-se fatigado de tanta agressão, sentou no meio-fio e passou a insultar a vítima com lamentáveis adjetivos de admiração abjetamente suplicantes. Declarou, ainda, a vítima, que esta foi a primeira vez que o acusado teria agido de forma tão asquerosa. Nada mais.</p>

<p>EXAMES REQUISITADOS: (Minuciosos) Corpo de delito e coleta epitelial a serem realizados, mediante módico, porém justo, suborno, nas dependências do Instituto Médico SuperLegal.</p>

<p>FORMA DE PAGAMENTO: Seis parcelas de 231 Reais e quarenta e sete centavos debitados no Cartão de Crédito.</p>

<p>Juremar Godoy (Mat. 033.078/99)<br />
Agente Milicial de plantão</p>

<div style="text-align: center;">Maria Bonita da Serra, SGO, 08 de abril de 2009.</div>
]]>
        
    </content>
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    <title>Zero a zero terminal</title>
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    <published>2009-08-23T21:30:00Z</published>
    <updated>2009-08-23T21:31:21Z</updated>

    <summary>O moribundo sentado no chão da cozinha tem os olhos semicerrados, giram num lento contínuo, alheios da paisagem doméstica. O indicador e o dedo médio esfregam a baba do chá de cavalinha no fundo da xícara pousada na lajota ao...</summary>
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        <![CDATA[<p>O moribundo sentado no chão da cozinha tem os olhos semicerrados, giram num lento contínuo, alheios da paisagem doméstica. O indicador e o dedo médio esfregam a baba do chá de cavalinha no fundo da xícara pousada na lajota ao lado. O moribundo veste chambre vermelho e declama numa voz baixa, grave, rouca:</p>

<p>Rejeito arcos de sorriso torto<br />
Nas caras bibelô de fachada<br />
Cotovelos palestrando perdigotos<br />
Como fossem cobiçados nortes<br />
Máscaras no espanto ensaiado<br />
Mascando gomas tutti frutti<br />
A observar o nada evidente.<br />
Anseio a dor entorpecente<br />
Pra resistir calado<br />
Ou demolindo atrozes muros<br />
E pontes.<br />
Verdade...<br />
A verdade <br />
Que inexista,<br />
Não é motivo <br />
Para não investigá-la<br />
Insistindo em simular <br />
Enganos inverossímeis.<br />
Eu, sozinho, apenas<br />
No meu trajeto solo insano<br />
Não pude vislumbrar a fuga<br />
Da babel indestrutível.<br />
Pessimismo desconfiado<br />
Colecionando ruínas.</p>

<p>O gato, branco feito um corvo albino, aparece miando na soleira da porta. O moribundo cambia olhares com o gato por um segundo, não um segundo interminável que pausa tudo, não, somente um segundo real, e arremessa e atinge a xícara no lombo do bichano que foge num berro estridente. A xícara rodopia na lajota produzindo uma sonoplastia harmônica até emborcar imobilizada. O moribundo expele um híbrido rouco de tosse e gargalhada e submerge num choro de pena do gato branco, branco feito um anjo neurótico e egoísta. Rosto limpo de lágrimas e muco esfregados no vermelho do chambre, ele ergue o corpo num pulo desajeitado. Encarando a limpeza fria e cinza da pia, por enquanto, o moribundo parece contente e não espera mais. Avança até a sala nuns passinhos arrastados de colegial sardenta com trancinhas e no trajeto chuta de calcanhar a xícara que vai parar nos pés do refrigerador. Tenta num tom alto demais assobiar a Cavalgada das Valquírias e acaba soprando desafinada a melodia. Senta na poltrona de falso couro esverdeado. Pressiona o botão <strong>ON/OFF</strong> no controle remoto e muda para o canal de esportes. Aos quarenta e três e quarenta do segundo tempo, seu time está empatando fora de casa e o árbitro acaba de avisar dois minutos complementares. O moribundo grita prum dos jogadores surdos que rouba a bola do adversário. O moribundo vibra, como se acreditasse ainda no embuste da vitória. <br />
</p>]]>
        
    </content>
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    <title>Índios não cavalgam tobianos</title>
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    <id>tag:verbeat.org,2009:/blogs/escarnioficina//68.34115</id>

    <published>2009-08-07T19:20:52Z</published>
    <updated>2009-08-07T19:25:26Z</updated>

    <summary>Chove um pouco no terceiro dia de agosto e Wolfgang (eu) olha pela janela. O vento enruga o chão de água do rio num movimento constante. Tem uma bola deformada de brilhos bem no meio do rio, descrita pelo jato...</summary>
    <author>
        <name>thomé</name>
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        <![CDATA[<p>Chove um pouco no terceiro dia de agosto e Wolfgang (eu) olha pela janela. O vento enruga o chão de água do rio num movimento constante. Tem uma bola deformada de brilhos bem no meio do rio, descrita pelo jato de sol que escorre dum buraco nas nuvens. As mãos de Wolfgang (eu) estão encolhidas nos bolsos do casaco de gabardine cinza. A silhueta negra de uma barcaça chata passa deslizando nas rugas d'água e aquele edifício feio, sujo e alto à esquerda atravessa a chata bem no meio até que ela surge inteira no meio do rio. E Wolfgang está cansado de narrar, em terceira pessoa, os arredores pra si mesmo; então pra embaciar o barulho do chuveiro ligado e o que ele significa eu (Wolfgang) repasso aquela tarde dum janeiro retrasado: Wolfgang (meu avô) acabou de ler uma das minhas histórias de ficção-fantasia e diz: "Não, não, isso aqui tá errado, é falso, os índios não cavalgam, nem nunca cavalgaram um tobiano na vida. Eles achavam que era muito chamativo, dava pra avistar o bicho de longe e..." Eu interrompo meu avô pra dizer: "Mas, me responde uma coisa: essas chatas que carregam lixo pra lá e cá por acaso eram porta-aviões na guerra dos Farrapos?" E no espaço/tempo de um soco rápido já me sinto mal, portador de uma culpa que algum mosquito gordo me injetasse numa picada. Wolfgang (meu avô) fica meio perdido olhando a parede bege e então eu solto uma frase que generaliza tudo e ficamos conversando sobre toda essa ficção 'científica' rolando por aí que não é nada mais que fantasia pura ou conto de fadas mesmo. E então escurece e Wolfgang (meu avô) esmurra meu ombro de leve e vai embora, atravessa a rua, dobra a esquina, anda uns quinhentos metros e entra no edifício feio e cumprimenta o porteiro e certamente conversa alguma coisa com ele. Então sobe um andar no elevador e entra no apartamento e executa umas tarefas habituais que desconheço e deita no sofá e dorme e sofre uma parada cardíaca enquanto sonha com o olho negro e o traseiro da menina que trabalhava no café aqui da frente. A parte do sonho fui eu que inventei, mas o resto é basicamente o que aconteceu. Continua, segue o barulho da água corrente do chuveiro e, como se eu pescasse doidamente com os ouvidos, escuto o ruído estridente da broca de furadeira no apartamento aqui do lado. E broca, broca, lenteio a respiração, e broca... broca... então consigo ver meu tio Manfred abrindo um buraco na parede com sua furadeira de estimação e minha tia Judite do lado segurando a mangueira do aspirador de pó ligado pra sugar as migalhas de reboco. Mas a broca silencia no apartamento aqui do lado e a imagem se desfaz. Resta o barulho do chuveiro e o jorro dos pingos quentes por toda aquela carne tenra e suja, gostosa e nojenta e é como se eu não tivesse ainda me decidido se me afundo outra vez na vária humilhação doentia e desfaço aquelas malas cheias quase submersas no colchão da cama. Se pisoteio pra engolir o pedaço apodrecido de orgulho que ainda me sobra. Se finjo que esqueci tudo numa cena telenovelesca e tragicômica de medo pelos caminhos puros e isolados. Ou deixo tudo (o arrastar de malas e suspiros e a batida na porta) acontecer pelas minhas costas num bocejo ofendido e vacilante enquanto sigo mirando a chata desaparecer deslizando na água enrugada. A chata que recorda e ainda anseia o pouso de algum B-52 farroupilha. Mas o barulho do chuveiro cala de repente e só fica esse silêncio desgraçado.</p>]]>
        
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    <title>Ingredientes pra conversa vadia</title>
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    <published>2009-07-26T23:59:36Z</published>
    <updated>2009-07-27T00:03:49Z</updated>

    <summary>A coitadice do Sarney. Não foi ele sozinho quem inventou o sistema. E o pior são ainda os bons, os legais, os imaculados que apenas querem afastar o senador continuando a perpetuar o Sistema (e para eles, ridículo, o afastamento,...</summary>
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        <name>thomé</name>
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        <![CDATA[<p>A coitadice do Sarney. Não foi ele sozinho quem inventou o sistema. E o pior são ainda os bons, os legais, os imaculados que apenas querem afastar o senador continuando a perpetuar o Sistema (e para eles, ridículo, o afastamento, a exoneração e até a aposentadoria remunerada são condenações tenebrosas). Só o que urge é a reforma cavalar da Máquina, utopia das mais idiotas. Se não for pra transfigurar o Sistema todo, deixem o senador na dele, saindo o homem, muda apenas La Famiglia (ou mudam apenas as moscas). </p>

<p>De fabricação russa, um fuzil folheado a ouro apreendido num morro do Rio de Janeiro (progresso natural da desordem, organização do caos, piada de humor negro etc).</p>

<p>A reencarnação de Michael Jackson. Sua formação traumática e a eficiência das porradas para o sucesso. Sua vocação pop e a sua bizarra metamorfose. Seu trabalho relevante e a parte podre da obra, suas atitudes no mínimo estranhas e seus passinhos de dança bem ensaiados, mas descaradamente chupados de James Brown. </p>

<p>Flatulência espalhafatosa e denunciante dum vietcongue no arbusto, às margens do Mekong, em 1971.</p>

<p>Asas desajeitadas de um morcego nadando na água limpa da piscina duma tia.</p>

<p>A influência da mídia sobre a 'personalidade' opinativa do homem comum. </p>

<p>O suposto sabor das patas de caranguejo de fiorde, receita de programa culinário na tevê. </p>

<p>O cinema como um instrumento para a apatia abjeta das populações.</p>

<p>Sobre a Moda: Um camaleão de algodão-doce na chuva, um funeral precipitado, um festival de catalépticos cremados.<br />
</p>]]>
        
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