reencarnações

 

exumação

 


Add to Technorati Favorites

View Jorge Rocha's profile on LinkedIn


Creative Commons License
This weblog is licensed under a Creative Commons License.

agosto 31, 2008

dom 31ago08 02:11
Redes sociais sob o símbolo da samsara

Não é só discurso de pequeno-empreendedor-web-emulando-balcão-sebrae-way-of-life que faz meu fígado azedar sobremaneira. Época de campanha eleitoral dá uma forte contribuição para o azedume da minha bílis, sobrecarregando meu duodeno - esse pobre coitado. Para se ter uma idéia, não posso ver o cartaz de um certo candidato a vereador aqui em Belo Horizonte proclamando que "roqueiro vota em roqueiro" sem reagir com engulho. Não há anti-ácido que dê conta, mizifio. E tudo se complica quando, no tabuleiro político, mixa-se oportunismo travestido de camaradagem e conversação "sem compromisso" sobre internet, formação de opinião e chá das cinco com blogueiros. Lembro de um amigo, frasista exemplar sempre inspirado pelo Piritas Siderais, de Guilherme Kujawski, dizendo que "político conversa com poste encenando discurso pros holofotes e ensejando holodeck". De imediato, passo a escarafunchar as seguintes idéias: e se rolar um mashup da proposta do candidato mineiro com esta estratégia paulista, possivelmente teremos o slogan "blogueiro vota em blogueiro" ? Seria esta aproximação - tal caso merece o termo ? - um desses próximos passos evolutivos sobre os quais já ouvi falar ?

São vários os fatores que dão um ar de Twilight Zone a este momento específico. Além do beija-mão e morde-assopra deste período eleitoral, junta-se à equação o fato de que o termo "relevância" se encontra ... eeerrr ... bem ... em relevância. Eu avisei que são tempos bicudos. Redes sociais se encontram em evidência e é claro que o assim chamado mainstream está de olho nisso - até aí nenhuma novidade; ah, a "antropofagia enquanto fenômeno cultural e mercadológico" ... A questão é que, em relação à redes sociais, a relevância - esta bandeira levantada pelos adeptos da cauda longa e afins - não deveria seguir preceitos semelhantes àqueles que formam o status quo onde a mídia tradicional/convencional atua. O que é possível observar em casos como esse da "aproximação política" em plena campanha eleitoral - potencializada para pior se deslumbramento substituiu racionalidade no modo de pensar de certos players - é que parece haver necessidade de aprovação de, digamos, majors para que esta relevância tenha sentido.

O que soa, para dizer o mínimo, estapafúrdio.

Isso tudo parece acenar com mais força de que há um desvio no fluxo estratégico relativo à natureza das redes sociais. Em suma, há o risco de cair na esparrela de repetir conceitos e práticas de mídia de massa em meios digitais - o que iria de encontro ao que se apregoa de ... aham ... revolucionário nas redes sociais. Trata-se de evidenciar a samsara: de novo de novo de novo de novo. O que me leva a concordar - quem diria, hein ? - com Wagner Martins/Mr Manson, quando este fala sobre o mais do mesmo que acometeu certas redes, que parecem ciosas em funcionar nos mesmos moldes de conglomerados de comunicação. Assim como Alessandra Nahra Leal - cujas análises me mantém são - também não acredito em chiqueirinhos ou cercadinhos digitais num mundo de porteiras abertas. Ainda mantenho-me adepto da idéia de abrir caminhos.

É em momentos como esse que eu penso em apelar pro Velho Zuza.

agosto 29, 2008

sex 29ago08 00:52
Entrevista: Beth Saad

bethsaad

"Estrategista web e consultora em mídias e comunicação digital. Professora Titular do Departamento de Jornalismo e Editoração - ECA/USP, coordenadora do Grupo de estudos em mídias digitais, em nível de pós-graduação junto ao CNPq. Professora e orientadora: em nível de pós-graduação junto ao PPGCOM - ECA-USP; junto ao GESTCORP, na área de comunicação digital; de graduação nos cursos de Jornalismo e Editoração da ECA-USP; autora do livro Estratégias para a mídia digital e colaboradora do blog Intermezzo".
[entrevistador convidado: eduardo vasques]


Jorge Rocha - Recentemente você mediou um debate no lançamento do livro O destino dos jornais. Lendo suas impressões sobre o debate, verifico que, nos jornalões, o posicionamento discursivo e prático de boa parte das pessoas que coordenam os processos de integração de redações continua tacanho e dotado de uma certa inoperância. Que modelo estratégico possível você poderia sugerir para sanar esta questão, envolvendo aí academia, formação profissional e empresas jornalísticas ?

Beth Saad -A mudança de postura das empresas jornalísticas é fundamental e isso exige flexibilidade das pessoas envolvidas nos processos de decisão. Iniciar a mudança, ou pelo menos, apoiar a mudança por meio de um processo de aproximação universidade-empresa para desenvolvimento de pessoas, treinamentos de quadros, e geração de um novo currículo de formação na carreira é um grande avanço. É uma estratégia muito bem sucedida em diversos setores que envolvem alta tecnologia e aceleração do conhecimento, e poderia dar certo no campo da Comunicação e do Jornalismo. A questão é que também por parte da Universidade (no caso a pública) teríamos que promover um esforço interno para retirar os ranços com relação à proximidade com a iniciativa privada e outros aspectos ideológicos e corporativistas. No caso da universidade privada é mais fácil. Não existe exatamente um modelo fechado para isso, mas, por exemplo, a construção de programas de especialização e treinamento em nível de pós-graduaçao, como o que existe entre o jornal espanhol El País e a Universidade Autonoma de Madrid, juntando profissionais da prática com pesquisadores é um excelente projeto.

Eduardo Vasques - O processo de integração de redações, a meu ver, andam travados principalmente por conta da falta de visão de quem detém o poder e está no alto escalão nas redações - em geral pessoas mais velhas e presas a conceitos antigos, com medo de ousar. Quem tem a força da decisão na mão tem medo de arriscar o próprio pescoço. Como você enxerga a quebra desse paradigma/barreira no contexto atual do jornalismo?

BS - Esta é uma constatação, um fato vigente em nossas redações. O poder ainda não rejuvenesceu e, mesmo aqueles mais jovens que estão muito próximos do nível de decisão, ainda estão sob a tutela de uma cultura empresarial muito forte, arraigada a valores familiares e ao tamanho do poder social e de formação de opinião que o jornalismo supostamente possui. Hoje, quem decide não tem disposição em arriscar o pescoço porque o negócio como está ainda dá certo, ou seja lucro - não audiëncia . E além disso, esta faixa de executivos não é muito afeita a inovações e muito menos a aprender algo diferente....poucos sabem ir além de seus e-mails ou buscas no Google, com todo respeito. E também não podemos nos esquecer uma visão que foi muito evidente no debate do livro O Destino do Jornal: o jornalismo se basta!

EV - O jornalismo brasileiro aprendeu a integrar redações on e offline? E mais: está preparado para a introdução dessa nova cultura à medida em que a qualidade dos profissionais de comunicação vem decaindo com o passar dos anos e, mesmo com todo o crescimento do consumo e do acesso da classe C à web, o conhecimento das ferramentas proporcionadas pela internet ainda é restrito?

BS - Não, ainda não aprendeu. Está dependente de poucas consultorias internacionais que vendem seu "pacote de soluções". Mas, muitas redações andam divulgando que estão promovendo integração porque é a onda....Com relação ao preparo diria que os jovem jornalista e comunicador já tem arraigada em sua cultura a noção de mundo digital. É uma geração que nasceu sob a égide das telas, do celular e conhecem quase que naturalmente as ferramentas. Mesmo com as evidentes questões de classe sócio-econômica e acesso.

JR - Em Estratégias para a mídia digital, você destaca alguns tipos de modelos de negócios para redações, como turbina informativa, publishing house e mídia modular. Você consegue apontar um passo evolutivo seguinte à estas classificações ? Como enquadrar, por exemplo, redes sociais nessa formatação integradora produtiva?

BS - Sim, as coisas evoluíram. Aliás, já está na editora, com lançamento previsto para outubro próximo, a segunda edição do livro, com uma atulização profunda dos modelos, além de toda uma discussão com relação à entrada das empresas informativas no mundo 2.0 das mídias sociais digitalizadas. De qualquer forma, os modelos que vocë cita são característicos dos dez primeiros anos de web. Hoje, a tendência maior está na reformatação das operações da redação num modelo de desk central, sem paredes, totalmente multimídia e multiplataforma.

EV - Como aplicar a realidade de The Daily Telegraph, Miami Herald, entre tantos outros ao Brasil, com redações extremamente precárias, inclusive do ponto de vista de infra-estrutura, de máquinas e dispositivos para a produção de conteúdo digital? Sim, a criatividade vale muito, mas sem recursos é possível fazer bem pouco não?

BS - É indiscutível. Modelos deste tipo exigem investimentos pesados. Recursos financeiros. Todos eles foram baseados (e bem sucedidos) quando ocorreu uma mudança radical no espaço físico da redação acompanhado de uma política de treinamento e desenvolvimento e de pessoas, e acompanhado de um planejamento de produtos e serviços multiplataforma. O improviso brasileiro não cabe neste cenário. Muito menos a criatividade.

EV - A união entre os dois públicos (impresso e mídias digitais) tem considerado a integração de um terceiro elemento: o cidadão interativo e participativo? Estes veículos estão prontos para lidar com essa nova realidade em que não se permite somente ouvir, ler e assistir, mas interagir?

BS - O usuário-participante ainda é uma figura ameaçadora no atual perfil de relacionamento com o público das empresas brasileiras. É só verificar o que nossos websites informativos oferecem em termos de ferramentas de participação e comparar com o que é oferecido no exterior. Na segunda edição de meu livro tem um capítulo quase todo dedicado a esse tema.

JR - Ao mesmo tempo em que o modelo brasileiro de integração de redações parece ainda engatinhar, temos visto alguns trabalhos de conclusão de curso de Jornalismo aproveitando o manancial hipermidiático para elaborar - é o verbo que vem à cabeça no momento - uma linguagem comunicacional própria. Mas, infelizmente, ainda são casos um tanto quanto isolados. O que falta para a academia cumprir esse aspecto da formação profissional de um comunicador ?

BS - Neste final de semestre tive o prazer de orientar um TCC deste tipo e que foi bastante elogiado. A aluna Gabriela Agustini desenvolveu todo o trabalho com recursos próprios e de amigos - equipamentos (os poucos necessários, mas específicos), desenvolvimento do site, trilha sonora, edição não linear, etc. A ECA não possui esse tipo de recurso, e os professores voltados para as matérias de desenvolvimento de reportagem não têm noção do que seja o básico, por exemplo, um código em html. Para se ter uma idéia os dois professores que ministram a dita disciplina "jornalismo online" uma é engenheira eletrônica que há anos tenta se adaptar na linguagem e o outro é recém entrante no departamento, jamais editou nada no online, mas como prestou concurso por motivos políticos na cadeira, agora precisa ministrar a matéria. Portanto, o que a universidade precisa fazer? Acho que a resposta está dada.

JR - Uma vez, perguntei ao José Antonio Meira da Rocha quais seriam as competências que um webjornalista deveria apreender. Imbuído do mesmo espírito - de porco -, recorro agora à perguntas semelhantes: quais são as capacidades que um gestor de redações integradas deve buscar ? Estas capacidades podem realmente ser aplicadas no "caso brasileiro" ?

BS - Dinamismo, visão de conjunto, estar sempre antenado com inovaçoes São algumas das competëncias. Mas a principal é saber lidar com pessoas, gerenciar o grupo, conduzir as diferenças. Hoje, não conheço profissional totalente pronto aqui no Brasil. Tem muita gente quase lá, mas as empresas não os aproveitam.

agosto 7, 2008

qui 7ago08 22:37
Recriando o cachorro louco

[enquanto finalizo o terceiro post sobre o tema ensino de jornalismo x mercado de trabalho, deixo vocês com a resenha que fiz sobre à espera de tom para a paradoxo. como foi publicada sem os links que selecionei, coloco-os aqui neste blog-blefe.]

No encarte de Pesadelo na Discoteca, da banda carioca Zumbi do Mato, o vocalista Löis Lancaster vislumbrava um futuro onde o estilo de cantar de Tom Waits, que era ouvido com ressalvas pelos ocidentais, acabaria agradando os servos do Islã. Carlos Careqa talvez não queira chegar a este ponto, mas é indiscutível que À espera de Tom acertou em cheio os fãs de Tom Waits, costumeiramente viscerais quando se trata de defender o universo idiossincrático deste. Um exemplo: se isso não tivesse acontecido, eu não estaria agora, escrevendo estas palavras a respeito desta homenagem realizada por um artista ímpar para outro. Ahá!

[update: como os devidos links foram colocados na resenha publicada pela paradoxo, tirei o texto que estava aqui na íntegra, para que possa ser lido em seu habitat natural - obrigado, renata d´elia e marcus cardoso, editora de música e editor-chefe. fica, neste blog, apenas um aperitivo da resenha.]

julho 30, 2008

qua 30jul08 15:04
Ainda sobre jornalistas e diplomas

Sei, não é de hoje, que não estou só quando entôo o mantra "o jornalismo morreu". Encasquetado com algumas questões que não pude tratar a contento no post anterior, enviei três singelas perguntas a dez professores universitários cujas opiniões aprendi a respeitar, embora vez ou outra discorde d´algumas - o que já era esperado, não ? Destes, apenas Vitor Menezes, Raquel Recuero e Adilson Cabral enviaram suas considerações. Não sei os motivos dos demais não terem respondido, mas apresso-me a dizer que estas são perguntas em aberto, sempre à espera de maiores considerações. Surgindo mais algumas, posto-as aqui. Por enquanto, sigam aquele carro:

Recentemente, Paul Bradshaw perguntou em seu blog se as escolas de comunicação preparam estudantes para uma indústria jornalística que não os quer, apontando a redução de - aham - material humano nas redações e a formação profissional (ou falta de) em relação às mídias digitais com diversos exemplos. Uma das questões que me parece relevante é: "preparar" alunos para o mercado ou proporcionar uma formação humanista ? Sim, trata-se dum velho pensamento dicotômico colocado em xeque. Como vocês lidam com isso ?

Vitor Menezes - As escolas de jornalismo foram inventadas por jornalistas, justamente por perceberem que a dimensão técnica da profissão é menos importante do que as suas implicações éticas e humanísticas. Mas este era um outro tempo, quando jornais eram empresas aventureiras, quase sempre de políticos ou de jornalistas, que viam no jornalismo muito mais uma forma de interferir politicamente na vida pública, do que exatamente uma forma de ganhar dinheiro -- embora uma coisa acabasse, muitas vezes, por gerar a outra.

Nos dias atuais, os jornais muito mais se pensam como empresas do que como veículos de jornalismo. E daí a importância que conferem aos técnicos, sejam eles repórteres que apuram/redigem/editam com rapidez, ou administradores e especialistas em recursos humanos e as suas idéias quase sempre risíveis para promover a tal boa ambiência nos locais de trabalho.

Nas duas faculdades onde leciono, a Faculdade de Filosofia de Campos e a Faculdade Salesiana de Macaé, ambas cidades do Norte Fluminense, ainda percebo uma acentuada carga de conteúdo humanístico, o que considero uma opção acertada. A técnica muda a todo instante, já o que se faz com ela e o sentido que tem uma profissão precisam de noções mais consolidadas.

É engraçado quando os jornais reclamam que não encontram alunos com o perfil que desejam, quando na verdade eles estão por aí, aos montes. O que parece é o contrário: vejo muitos formandos mais criativos, mais preparados, do que muitos dos jornalistas que estão nas redações. O que há é que os estudantes estão sendo preparados para um jornalismo mais interessante, que ainda está por ser feito, e que não tem sido encontrado no mercado tradicional. É como se um sapateiro reclamasse por não mais encontrar aprendizes interessados em seu ofício. Repito: o jornalismo ensinado pelas universidades é melhor do que o praticado nas redações.

Raquel Recuero - Eu tenho um posicionamento meio controverso a respeito do papel da Universidade. Acho que o papel dela é formar críticos e não técnicos, ou seja, preparar o aluno para ser capaz de pensar, compreender o mercado, saber avaliá-lo, criticá-lo e posicionar-se a partir disso. E para isso, é claro que uma formação humanista é a melhor. E acho isso pelo simples fato de que é impossível, hoje, dizer que alguma faculdade prepara alguém para o mercado. O mercado está em constante mudança e, muito, muito rápido. O aluno que aprende o Corel 10 na faculdade pode ter a certeza de que, quando se formar, já se usará o Corel 15 (ou um programa completamente diferente). E durante todo a sua vida no mercado, as ferramentas e as técnicas estarão em constante mudança e o profissional terá de adaptar-se ou ficar rapidamente ultrapassado. Não que a técnica não deva ser ensinada, mas ela não deve ser o único ou principal foco de um curso universitário de jornalismo. Acho que a formação crítica a respeito da atualidade e daquilo que nos cerca é essencial.

Adilson Cabral - É uma dicotomia que não deveria existir, pois sempre permanece a demanda de uma formação profissional que incorpore essa visão humanista. Falta debate entre professores, faltam referências/projetos de qualidade a serem adaptados / intercambiados, falta diálogo. E isso é fruto tanto de uma indústria cada vez mais concentrada e pragmática como da falta de propostas no campo humanista que se contraponham a esse projeto de sociedade e de mercado de trabalho.

Um dos debates mais pobres nesse sentido é o da afirmação da obrigatoriedade do diploma de jornalismo no contexto desse mercado de trabalho a despeito da qualificação das relações de trabalho nas redações, que ficam relegadas a segundo/terceiro plano pelas organizações de trabalhadores do setor.


Neste mesmo texto do Bradshaw, o jornalista Patrick Thornton espicaça as escolas de jornalismo, dizendo que a maior parte delas está obsoleta. No Brasil, retomam-se os embates acerca da obrigatoriedade do diploma em Jornalismo, no mesmo momento em que um livro como "Eu, Mídia" é lançado e o Movimento em Defesa dos Jornalistas sem Diploma busca articular-se e "contra-atacar". Neste cenário, quais são os papéis possíveis aos estudantes e professores de Jornalismo ?

VM - Acho que estes movimentos são interessantes para manter acesa a necessidade de lutar pela legitimidade do jornalismo. Se estas vozes surgem e ganham alguma relevância, são sintomas de que a infinita crise do jornalismo se mantém, o que não é de todo um mal, dado que, como qualquer outra profissão, ele precisa ter a sua necessidade questionada a todo instante.

Não creio que a luta pela obrigatoriedade do diploma, ou pela regulamentação da profissão -- que é bem mais que uma luta pelo diploma -- sejam ações contrárias a estes questionamentos. São apenas as expressões desta luta pela legitimidade da profissão.

Ainda acredito no jornalismo como uma profissão, que por se confundir com comunicação de modo mais amplo e como noções como liberdade de expressão e entretenimento, acaba por ter seu papel menos nítido neste mundo de excesso de informações. Mas este papel ainda existe.

É muito bacana que cada um possa ser a sua própria mídia. E muito bacana que informações relevantes possam ser veiculadas a partir de um celular. Mas a questão é: quem garante isso de modo perene e industrial? Quem assume o compromisso de colocar esse conteúdo a todo minuto nas ruas? Quem busca formas de sobreviver deste fazer profissional? Ainda é o jornalismo e os jornalistas.

E falo isso na condição de jornalista, mas também de blogueiro -- que não me obrigo a postar todos os dias e nem tenho a pretensão de manter um blog jornalístico, a despeito de reunir vários jornalistas.

Ainda acredito no papel que têm os tais cães perdidos, como definidos por Ciro Marcondes Filho, e por isso defendo a tribo, o fazer profissional e as suas especificidades. Alguém precisa passar a madrugada à espera da libertação do refém, precisa arriscar-se acompanhando uma operação policial, e precisa estar disponível para o entediante feijão-com-arroz do dia-a-dia. O jornalismo pode até alimentar-se dos diletantes, mas não sobrevive deles.

RR - Eu penso que, na prática, não é diploma que faz um jornalista. Mas também acho que a Universidade ajuda, sim, a formar jornalistas mais críticos e mais capazes de articular-se diante do mercado. Conheço jornalistas excepcionais que não tiveram formação universitária (pré-obrigatoriedade) e também conheço jornalistas formados que são incapazes de exercer a profissão com competência. Do meu ponto de vista, a questão do diploma é cada vez menos relevante. Eu acho que os alunos devem procurar a universidade como um espaço para abrir os horizontes, gerar um crescimento humano e crítico e os professores devem pensar em como proporcionar isso e não apenas o ensino da "técnica", mas do "pensar sobre a técnica". Assim que penso que a grande questão não é o diploma, mas sim, a recolocação do jornalismo diante dos desafios das novas tecnologias. Esta circunstância sim, coloca em xeque o papel "tradicional" da mídia. Costumo discutir com os alunos que há uma grande mudança no sentido de que a Mídia chamada "tradicional" no jornalismo, sempre foi raramente questionada pela sociedade. Hoje, com o advento das tecnologias interativas e massivas da Internet, o jornalismo é criticado, o trabalho do jornalista é constantemente avaliado, discutido e debatido. Com isso, os erros, os problemas, os interesses econômicos e políticos aparecem cada vez mais. E, se o jornalista não faz bem seu trabalho, haverá quem tome para si esta função (jornalista ou não) e o fará na Internet. O grande diferencial do jornalista formado deveria ser a credibilidade e a capacidade crítica, cada vez mais valorizada nesses espaços e infelizmente, cada vez menos discutida nos bancos universitários.

AC - Valorizar a profissão, valorizando as relações de trabalho nas redações e a formação profissional capaz de evidenciar essas contradições e formas de superá-las. A defesa da obrigatoriedade do diploma nesse contexto acaba legitimando a indústria tal como ela vem sendo estabelecida, pois não aponta para mudanças significativas nas práticas de trabalho.

Poderíamos considerar que a crise do jornalismo encontra-se resumida da seguinte forma: entraves no ensino - desde questões laboratoriais até possíveis desacertos conceituais sistematizados na primeira pergunta - mais quedas de braço políticas entre sindicatos e entidades acadêmicas com empresas de comunicação mais visão empresarial tacanha, baseada na premissa "o que ? eu ? correr riscos ?" ?

VM - A questão é que não vejo uma crise maior nas escolas de jornalismo do que a existente nos próprios veículos. E, como disse anteriormente, percebo um vigor até maior nas escolas do que nas redações. E quanto aos sindicatos, é um erro acreditar que eles são anacrônicos ou criam caso por qualquer coisa. Acho os sindicatos dos jornalistas até bem cândidos, perto das mazelas que a categoria enfrenta. Sou assessor de imprensa do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, e sei o que é uma categoria organizada. Na relação com os patrões, os jornalistas são uns anjos.

RR - O problema atual, para mim, não é a questão do diploma. É o problema da "mercantilização" do ensino superior apoiada pelo governo federal. Vejo uma quantidade enorme de novos cursos sendo criados sem nenhum critério, faculdades abrindo sem nenhuma condição de funcionamento, sem biblioteca, sem nada... Há uma quantidade enorme de novos cursos de jornalismo sendo abertos sem sequer um professor da área. Será que, nesse universo de cursos sem qualidade, o diploma será um diferencial? Será que não deveríamos discutir esse problema primeiro? São questões que me fazem pensar bastante.

AC - A visão tacanha está mais alastrada e impregnada do que a gente pensa...mas da crise estão sendo reinventadas formas de pensar o jornalismo das quais podem sair sínteses interessantes.


julho 26, 2008

sáb 26jul08 21:23
Sobre jornalistas, diplomas e "a ameaça da cibercultura"

Quieto estava no meu canto, quando uma conjunção de fatores espicaçou-me. Em recente artigo publicado no site do SJPMRJ, Muniz Sodré imbuiu-se do afã de defender a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo e juntou a produção webjornalística neste imbróglio, como base validadora para sua argumentação. Uma estratégia equivocada, pontuada por alguns desvios conceituais e de interpretação. O principal deles: repercutir a cantilena pseudo-nemésica de que os processos comunicacionais desenvolvidos pela - para, através, entre, de viés, na - Internet representam a extinção dos jornalistas. Lembrei-me, nesse momento, das Senhoras de Santana e todo aquele discurso de livrai-nos do mal, amém. Valei-me, meu São Marcelo Nova !

Apesar da frase que intitula este blog, nunca considerei a extinção dos jornalistas como algo factível - não sei se isso é bom ou ruim. Fazer da produção webjornalística uma crônica de morte anunciada do "jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional", conforme estabelece Muniz Sodré, para justificar a necessidade de jornalistas profissionais formados por escolas de Comunicação não é algo meritório. É querer opor jornalistas e audiência em much ado about nothing, esquecendo de realmente dar tratos à bola do valor público da informação, uma das características que me ensinaram a ver como essencial para o Jornalismo. Digam que sou o último romântico e contra-atacarei dizendo que somente consigo compreender a Internet como comunicação interpessoal, interação, redes sociais, participação e colaboração, só para ficar em alguns tópicos.

Mas pensando dessa forma e aplicando esses valores aos papéis dos jornalistas, além de clamar por opiniões a respeito de formação acadêmica que supere a contenda escolas de jornalismo versus mercado, posso também ser enquadrado da mesma forma que "um arauto da chamada cibercultura" citado, porém não identificado no artigo. Se isso acontecer, posso dizer que prováveis respostas a esta questão que tal "arauto" apresenta e é repetida no artigo podem ser encontradas aqui. Ou aqui. Ou - quem sabe ? - aqui.

Muniz Sodré diz que uma resposta a esta questão é dada pela "progressiva conversão empresarial do papel à eletrônica", sustentando ainda que a natureza técnica desta transposição por si só pode delimitar as potencialidades de produção. Tal análise me assusta, porque é associada à idéia de que o jornal "pode trocar de suporte técnico, pode mesmo existir na complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania". Então uma delimitação técnica - cujo modelo de mera transposição/adequação de conteúdos não é o único a ser seguido, uma vez que pensamos em um caráter hipermidiático e colaborativo para o webjornalismo - poderia ser responsável pela falta de abordagem humanista em produções jornalísticas ? Socorro, Beth Saad !

Todas estas opções alinhavadas aqui, neste post, pressupõem esforço conjunto entre jornalistas e audiência, sempre apontando exemplos práticos e funcionais. O que me leva a pensar que talvez caiba às entidades acadêmicas que costumam manifestar-se de maneira lúcida em relação à exigência da formação superior para o exercício do jornalismo ponderar em relação a argumentações baseadas em uma contenda jornalistas versus audiência que não tem razão de existir.

junho 25, 2008

qua 25jun08 00:55
"Eu tão somente e cada vez mais prezo os meus amigos"


JR e Ayala cinza

Mais de uma vez** ouvi a reclamação: "você só sabe falar mal de tudo, não gosta de nada !". O pobrema, mizifios, é que não sou chegado à mistificação. Tanto é que não tenho ídolos; sempre procurei travar amizade com as pessoas que realmente admiro - o que me dá até mesmo oportunidades de xingá-los com mais propriedade. Até onde a vista alcança, nunca tive que ceder um milímetro à babação de ovo, puxação de saco ou congêneres para isso. Um tanto de cara-de-pau e mais um punhado de pequenas estratégias a compensar minha afamada rabugice garantiram-me sucesso em alguns destes casos. Claro, ser jornalista possibilitou conhecer algumas das pessoas que se encaixam na categoria citada acima e tê-las - até este momento, pasmem ! - como amigas. E todo esse intróito é apenas para dizer que hoje eu posso chamar de amigo o sujeito que tem uma parcela considerável de culpa pelo jornalista reclamão que eu sou. Seu nome: Sylvio Ayala.

Verdadeiro culpado apontado. Débitos dirigidos. Hail to the thief.

Por cortesia de Alessandra Nahra Leal, a autora da foto que ilustra este post e que também está na lista, estive cara a cara com Sylvio Ayala, num local tenebroso e mal-frequentado, cuja localização não posso revelar***. A função: colocar uns quinze anos - pelo menos - de conversa em dia. Tremenda satisfação finalmente conhecê-lo pessoalmente e poder culpabilizá-lo por sua participação em minha formação intelectual - atenção, Bródi Negão, é a primeira vez que uso o termo em benefício próprio !

Detalho o crime: no começo dos famigerados anos 90, ele editou dois números do jornal libertário chamado O Bobo da Corte, que tratava de política, literatura e subversões a granel. A qualidade do material - gráfico, editorial, textual, etc, etc, etc - acachapou-me de primeira. Dois pensamentos estribaram-se em minha cachola assim que tive o primeiro número em mãos. O primeiro, evidentemente, foi um palavrão. O segundo foi: quero escrever como esse malaco. Era o que faltava para que eu decidisse embicar de vez em direção ao jornalismo - e do tipo em que eu acredito desde sempre.

Mas o ato hediondo de Sylvio Ayala não se concentra apenas nisso. Não satisfeito com a bagunça que havia armado, tratou ainda de colaborar para que eu compreendesse a necessidade de uma auto-definição política. Que me orgulho de manter inflexível até hoje. Aprendi com ele, seguindo a uma distância calculada suas produções com o passar o tempo, um bocado sobre como ser este exucaveiracover que incorporo ao batucar textos de qualquer espécie.

E pensar, seu Sylvio, que o senhor havia escapado incólume todo esse tempo de ter esta culpa pesando sobre tua carcaça.

Conversar com ele fez com que eu lembrasse de outras conversas representativas que ocorreram nos últimos cinco anos - quando eu envelheci sobremaneira - com pessoas com as quais sempre aprendo bastante. Há a lembrança de uma conversa com o malacomano João Filho numa noite de 2004, em Salvador, fumando cigarrilhas baratas e proseando sobre tridentes, grand guignol, estética do perrengue e outros assuntos menos cotados na tabela periódica de elementos. Há a atenção prestimosa do casal Tadeu Sarmento e Patrícia Gondreck, acompanhada por Jack Daniels, Leonard Cohen e John Coltrane, contando histórias de família. Há as histórias de Löis Lancaster, outro desses culpados, camaradagem que rendeu parcerias das quais me orgulho com empáfia****. São pessoas como estas que mantêm a minha fé na humanidade. Em honra e glória a esses amigos distantes - e outros mais -, bebi umas Devassas e umas doses de uísque dia desses. Santifiquei-os.


* o título desse post veio - apropriadamente - de uma conversa com tadeu sarmento

** duas ? três ? cadê as estatísticas ?

*** merchandising é proibido aqui na verbeat. ordem dos donos.

**** empáfia: fato corriqueiro.


junho 12, 2008

qui 12jun08 15:36
Decálogo da Audiência Precavida

No último dia 21 completou-se o primeiro ano que este blog está hospedado no condomínio Verbeat, por obra e graça de Tiagón e Gejfin. Por estar envolvido até agora nas comemorações, entretido com uísque, charutos e bandalheiras que me eram ofertadas - o que é natural à prática do jornalismo -, não pude escrever um post comemorativo. Mas agora que abrandaram as safardanices, calhordagens e sardonices - porque estas não findam, como sabem os caros leitores -, resumo em um decálogo preceitos norteadores de uma boa conduta para a audiência que insiste em engalfinhar-se com o tal do jornalismo. O motivo disso ? Durante estas comemorações, entre uma baforada e outra de um charuto oferecido por André Deak, ouvi diversas vezes a seguinte assertiva, com pequenas variações: "se o jornalismo morreu, a audiência celebra a missa de sétimo dia". Vai depender do vinho, digo, do que esta audiência se propõe a fazer. Ou vocês acham que estamos falando aqui de coroinhas e beatas ? Sigam a bolinha:

1) Toda vez em que falarem "e agora as notícias do dia" leve sua mão ao coldre.

2) Esmurre os próprios olhos antes de assistir telejornais. Dificilmente o que vier depois lhe será mais doloroso.

3) Entre um e outro vício reserve tempo para a caridade. Desconfie.

4) A revolução não será televisionada, downloadeada, printscreenizada ou efecincozada.

5) Colecione chatos (Pthirus pubis, bem entendido). Indique-os como referência quando lhe perguntarem sobre credibilidade.

6) Na dúvida se jornalismo pode ou não ser entretenimento, responda sempre: achei tendência.

7) Borrife spray de pimenta ao redor ao ouvir o termo "quarto poder". Atrai bons fluidos.

8) Nunca pergunte a um jornalista para qual lado o vento sopra.

9) "Somos os cavaleiros que dizem Wii" não associa-se às Novas Tecnologias de Informação e Comunicação.

10) O jornalismo morreu ? Apele para o Cabôco Mamadô.