Por intermédio do blog do notável poeta e tradutor Érico Nogueira (link ao lado) conheci a poesia e a tradução de Marco Catalão, que já foi alvo destes Arquivos implacáveis. E me reencontrei com o poeta, crítico e tradutor Carlos Felipe Moisés. O primeiro contato com Carlos Felipe se deu em 1995, em Recife, através da antologia Sincretismo, poesia da Geração 60, organizado por Pedro Lyra. Todos esses encontros aconteceram virtualmente, isto é, do modo mais antigo, e para nós modernos desde Gutenberg, de encurtar distâncias.
Os dois poemas postados mais abaixo foram retirados dos dois volumes: Lição de casa & poemas anteriores e Noite nula, os dois pela Nankin Editorial www.nankin.com.br
Há ótimas entrevistas e resenhas sobre a obra de Carlos Felipe Moisés nos seguintes links:
www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica 03/11/2008
www.affonsoromano.com.br 22/11/2008
http://diariodonordeste.globo.com 12/12/2008
www.weblivros.com.br 09/12/2008
http://sambaquis.blospot.com 12/01/2009
www.cidasepulveda.com 22/03/209
www.germinaliteratura.com.br/palavrascruzadas 03/2009
ARQUIVOS IMPLACÁVEIS
À maneira de João Condé
Nome - Carlos Felipe Moisés
Onde nasceu e a data - São Paulo, SP : 20/05/1942.
É casado, têm filhos? - Sim. Uma filha e um filho (este faleceu aos 18 anos).
Altura - 1m78
Peso - 80kg
Número dos sapatos - 41
Prato preferido, bebida e jogo - Feijoada, uísque, pôquer.
Gosta de cinema, teatro, qual prefere? - Muito. Mais cinema que teatro.
Poeta e prosador preferido - Fernando Pessoa, Machado de Assis.
Tipo de música e músico preferido - Não tenho preferência: MPB, jazz, música barroca; Cartola, Villa Lobos, Thelonius Monk, Vivaldi...
Qual o pintor preferido? - Mais de um: Van Gogh, Picasso, Matisse, surrealistas como Magritte e Delvaux.
Qual a cor predileta? - Não tenho uma só, depende do momento. Hoje é azul, escuro.
Quando escreveu seu primeiro texto? - Lá pelos 11-12, instigado pela professora, mas não guardei cópia, nem lembrança.
Dos seus livros publicados qual o preferido e por quê? - O último, Lição de casa, é o que vai mais direto ao ponto. Mas acho que vou gostar mais do próximo.
Se pudesse recomeçar a vida o que desejaria ser? - Fotógrafo.
Seu principal defeito - Sempre buscar uma explicação.
Sua principal virtude - Sempre buscar uma explicação.
Coleciona alguma coisa? - Comecei várias coleções (selos, moedas, figurinhas etc.), logo desfeitas, até me convencer de que o que vale a pena não é colecionável.
Algum hobby? - Fotografia.
Uma ou duas grandes emoções em sua vida? - Ganhar o título de bicampeão paulista de basquete (infanto-juvenil), em 1957-1958, como titular e cestinha de um time que tinha Victor, Otto, Plínio, Peninha, enfrentando adversários como Rosa Branca, Sucar, Mosquito, Ubiratan.
É crente ou ateu? - Nem um nem outro, só desconfio.
Três livros que mudaram sua vida ou, se não mudaram, tocaram fundo - Paulicéia desvairada, Memórias póstumas de Brás Cubas, Poemas de Alberto Caeiro. Se puder acrescentar um quarto: Claro enigma.
Se pudesse escolher, como gostaria de morrer? - Em silêncio.
POEMAS DE CARLOS FELIPE MOISÉS
CARREGO AS ESTAÇÕES
Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.
Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo),
à procura do sonho de uma nuvem fria.
Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.
Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços
- lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.
E pois que carrego as estações comigo,
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atiro
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.
MONK & MULLIGAN
Toda lição é de casa. Uma ensina a aprender
outra aprende a ensinar. Não sei para quando
será a viagem. Não sei se parti, se já estou
de regresso nem se a lição é de fato minha,
dos pombos que giram no telhado ou do silêncio
entre o sussurro de Monk & o sopro de Mulligan
no meio da sala: 'Round midnight.
Lá fora (
sol alto) lição interrompida. O sal da lição?
Não saber. Sabida, lição já não é.
Naquele
tempo eu viajava para longe, toda semana.
Um dia estranharam minha alegria ao partir.
"É tão bom assim?" "Não, é que aprendi
a antegozar o prazer da volta." Nada se iguala
ao alívio antecipado do dever cumprido. A casa
acumula todas as lições : ontem, hoje - o mesmo
tempo a escoar entre o já-não-mais e o ainda-
não - centro de tudo o que sou ou tenho. Mas não
tenho : a casa o contém. E não há lição que o
detenha.
O que tenho é um retrato na parede
: um menino me fita apaziguado, seu olhar
se dissolve na brisa. Escancaro as janelas
e o calor da tarde me lembra : outono se foi,
inverno se foi, primavera aí vem (o rendilhado
de Monk prossegue & o sopro agudo de Mulligan).
Outra primavera : midday midnight. O menino
salta do retrato, se aninha no sofá e me lembra
a sorrir : é hora de volta à lição interrompida.
Sorrio que sim, à sombra do jasmineiro
em flor.
É tarde. Não sei a lição (há pouco
estava no jardim). Como enfrentar classe
tão avançada? A sombra se adensa, é noitinha.
O olhar do menino me fita, não sei se do retrato
ou do canto do sofá onde se aninha,
não sei
se do olho iluminado da noite, e sorri. Sorrio
que sim. É a hora. (Monk & Mulligan insistem
agora sim : 'Round midnight. Lição de casa.)