Pois sim...de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.
Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam.
É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira... mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.
Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era.
Voltaram para casa... mas então não podiam mais ser os mesmos e voltaram a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato...
Choravam todos...
Arrepiei. Chorei também.
Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.
Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.
Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?
Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: "Onde estava? Por que demorou tanto?"
Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!
Ainda bem que pude - depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira - contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo.
O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora...
O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem... decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.
Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:
"... Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.
Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais..."
Pediram-me que eu escrevesse uma mensagem para ser lida no aniversário de uma grande amiga. Inspirei-mei numa antiga carta que tinha escrito para enviar-lhe uma cesta imaginária cheia dos meus presentes, minha saudade e meu carinho.
Já que isso aqui também é meu cadernos de especiarias, não há melhor lugar onde guardá-la.
A mensagem virou carta... e ficou assim.
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Tete, minha tão querida amiga.
Queria estar com você neste momento para cantar o especial parabéns deste ano. Pode imaginar como eu queria estar nas "Bodas Douradas" de sua vida ? Pode imaginar como eu queria poder cantar em voz bem alta aquela sua música predileta - "Abra os braços pra me guardar/ e eu toda vou me entregar/ começo, meio e fim... e a minha cuca ruim "- e me acabar de rir com a coreagrafia, que eu sei de memória, mas que é sempre como se eu a visse pela primeira vez?
Queria poder encher seu copo de whisky e gelo para ver você subir na mesa mais próxima e fingir um sambinha legal olhando para as mãos - como você me ensinou - com ele sobre a cabeça - que isso eu nunca aprendi - e ver a cara de angústia daqueles que ainda não acreditam que esse copo não vai cair de jeito nenhum.
Eu sei. Eu sei.
TT, muléu do meu coração, queria poder entrar aí de surpresa - mais uma das muitas preparadas para esta noite - com um grande ramalhete de rosas coloridas e uma cesta cheia de presentes, meu sorriso, meu carinho, minha imensa vontade de estar com todos vocês.
Mas não posso ir de verdade e então descrevo o que há dentro da cesta e aí você faz de conta que ela existe...e me diz se você gosta.
Claro que há um búzio grande e rosado para você ouvir o mar que mora dentro dele - e de mim - mesmo enquanto estiver no escritório... chuam! chuam!
Minhas cestas sempre levam um búzio rosado... será que esta foi uma das minhas casas?
Leva também um caleidoscópio de lata, que faz txim...txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. Esse foi um dos belos presentes que eu ganhei do Lorde. Inesquecível presente... inesquecível ruído... absolutamente inesquecível felicidade!
E você diz " essa Nora é doida mesmo!" Mas ri encantada porque sente uma alegria antiga de menina feliz.
Tá bom... tá bom...
Também tem umas garrafas do whisky que você gosta, blusas lindas e decotadas e sapatos de saltos altos. Vai junto um kit com as melhores novelas de todos os tempos e uma assinatura da revista que conta a história delas com um mês de antecedência.
Tem uma agenda nova com todos os telefones de todas as pessoas que você conhece e quer voltar a ver. E ela se atualiza sozinha, como mágica.
Tem um pote cheio de saúde pra você distribuir com quem precisar, viu? Tirei só um pouquinho pro meu pé fodidinho e meu joelho podre. O resto estou mandando...
Do lado de lá da cestinha há uma caixa enfeitada, cheia de biscoitos da sorte, cada um com uma mensagem de boa ventura. Se você quiser poderá distribuir para toda a gente que te ama e que está aí... e assim haverá ventura para todos.
Aposto que todo mundo vai comer pelo menos um. E ninguém vai pensar se o tal biscoito engorda! Vai por mim, TT querida, todo mundo vai querer.
E você dirá, que eu mandei dizer, que felicidade engorda um pouco... mas vale a pena. Eles vão rir e trocar cúmplices olhares. Muitos já sabem, não é mesmo?
Deixe a caixa com papel dourado para o fim, que ela é nostálgica e talvez não seja ainda a hora de abri-la. Aproveite e prove as botas de camurça verde que acho que é seu número e fique sabendo que com elas vai poder viajar - sem pagar passagem alguma - pelo mundo inteiro!
Mas primeiro venha me ver, minha amiga, que a saudade é enorme e tenho tanta Espanha para te mostrar!
Pode abrir também a lata branca da paz profunda. Uma lata grande e redonda que está no fundo da cesta, já viu? Mas só abra de pouquinho, querida. Na natureza, já se sabe , é preciso alguma forma de inquietude, alguma ânsia sem nome que nos desperte no meio da noite, um desejo de vencer o tempo, um desafio da mente e até alguma lembrança triste para gente saber o que vale a alegria.
Então... ao lado ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de você precisar... a gente sempre precisa, não é? Se não pelas nossas dores, pelas dores dos amigos...
É preciso compartir de um tudo e eu sei que você é fera nesse negócio de ser amigo para todas as horas. Além das farras, das festas, das serenatas pelas madrugadas a fora, nunca deixa de estar com a gente nos dias escuros da dor.
Eu sei. Eu sei.
Também tem uma caixinha pequena, embrulhada com algodão, com vários tipos de silêncios. Assim você escolhe aquele que mais combine com a sua necessidade... ou a de seu amigo.
Mas veja bem, eu vou e ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir que é mágica, que tal? Você vai poder usar seus poderes para repartir balas e doces com as crianças ou tratar de alimentar seus velhinhos....
- Por sinal, por onde anda aquele seu velhinho?
Ou quem sabe, está precisando congelar alguém por um tempo, talvez fazê-lo desaparecer de uma vez por todas do cenário numa nuvem de pó bem fedorento!
Ah!... cuidado com esse saquinho cheio de furos, pois dentro há um bichinho! É um filhote de papagaio que já fala e sabe mil e uma sacanagens só para você embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas. Assim você esquece as agústias e os medos... e dorme o sono que precisa dormir.
Que? Não faz mal rir do que já se sabe que é engraçado. Isso eu sei que você sabe! E como sabe!
Agora pode abrir a tal caixa dourada. Digo que é uma caixa nostálgica porque ela guarda imagens, cheiros, gostos e sons que te contam as grandes e pequenas estórias... suas e minhas, nossas.
Guarda as estrelas cadentes sobre a casa de Toquinho, as agulhinhas fritas da Janete, um por do sol bem rosado em qualquer parte perto do rio... e depois, umas tantas caipiroskas com luas cheias nascendo, enormes e bonitas, bem em frente ao Bar Biruta.
Guarda os cinco contos de réis - porque fosse qual fosse a moeda a gente sempre saía com "contos de réis" - dos whiskies compartidos no antigo Bairro do Recife e os 17 cigarros fumados no Bar Real. Desculpe, você só tinha 17. Mas a gente fumou junto!
Guarda um desfile com uma baliza em biquini, sons metálicos das gargantas imitando as cornetas e os instrumentos feitos com sandálias havainas enfiadas nos dedos das mãos pelas ruas e praças da Barra, e também um prato de "Tinha" no bar miserável que nem sei mais o nome, onde faltava tudo o que tinha, menos nossa risada, apesar da fome!
Guarda a saudade do Urso de Casa Forte, dos bailes do Siri na Lata, das fantasias de pescadoras... "Caiu na rede é Peixe, meu bem! "
Guarda aquele seu maravilhoso Taxi de joelho fodido e amarrado - agora eu tenho um igual - que levava para todo lado uma índia beijoqueira, uma cigana macumbeira ou uma fada embrigada diante da câmara da televisão :
- Essa fada sai todo ano? Um microfone enorme e global bem na minha boca.
- Safada é teu passado, minha filha? Olhando para a câmara com cara de fada inocente.
Ai, meu deus... quanta ladeira!
A caixa dourada guarda o cheiro dos mares de Pernambuco, o gosto da cervejinha de Peu, dos Parmeggianas dos fins de noite, guarda os sons das serenatas dos amigos, o carinho dos muitos anos que convivemos, tantas coisas que compartilhamos, o respeito que sempre tivemos pelas nossas diferenças...
Ai.. Sodade. Sodade...
Já basta de nostalgias. Hora de festa! Felizes próximos 50 anos, muléu.
Eu sei que você já foi feliz nos 50 que já viveu. Abra o último dos pacotes e distribua a metade dos meus beijos para todo mundo que está aí! A outra metada é só pra você. Com todo o meu amor!
E manda botar o som na caixa, bem alto, com a melhor de todas as minhas saudades. Você chegando de braços abertos, balançando o corpo e dançando...
"Tetê..Te-te-re-tê... Tetê... Te.te-re-tê... Tetê... Te-te-re-têee!!!
Tetêeeeeeee!"
Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.
Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de "especiarias" os poemas preferidos.
O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar... e por aí.
Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.
Meu caderno sumiu em uma das mudanças... O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.
Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.
Então...
Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.
Te quiero
Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.
Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.
Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.
Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.
Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.
Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.
Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Mario Benedetti
Às vezes a semana nos dá de presente uma vista assim.
Quem dera fosse mais frequente.
O casamento de um amigo nos levou à Galícia.
O ganho extra foi aproveitar, por dois dias, o verde perfumado dos montes, as rias que se podem ver desde a estrada como se fossem dedos marítimos que penetram a terra galega levando os frutos do mar até a porta dos habitantes.
Além do mais, poder provar a comida saborosa e escutar o sotaque gostoso dos galegos.
A gente volta renovada... pena que é tão longe e não se possa ir sempre e sempre!
Eu adoro Madrid... mas sinto uma falta do mar!
Dizem que o universo conspira a favor dos nossos sonhos e cada vez estou mais segura de que isso é a pura verdade.
Eu tenho muitas histórias para contar sobre essas "conspirações" em minha vida, inclusive a maior de todas que é o motivo pelo qual vim parar na Espanha.

Mas, uma coisa é preciso avisar: os sonhos tem que ser compartilhados. Isto significa que eles precisam ser materializados na fala ou pelo menos na escrita. Nada de guardar os sonhos dentro da cabecinha. Eles precisam passear por aí, respirar ar puro... contaminar o planeta com a sua força, espalhar-se pelo cosmos.
Não é necessário que a gente saia contando para todas as pessoas... mas algo do mundo precisa saber que eles existem para que a energia se expanda.
Então... de vez em quando me lembro que é preciso continuar sonhando em voz alta, sempre, sempre. Há um universo a espera, a escuta! Ele tem provado uma e uma outra vez que é assim!
Isso aqui está parecendo livro de auto ajuda americano... mas não é.
Pois sim.
Isso tudo só para contar o que significou para mim o que aconteceu no início deste mês. Estive em Frankfurt, na Alemanha. Fui para assistir um concerto da Orquestra Sinfônica da Radio de Frankfurt, dirigida atualmente pelo diretor Paarvo Järvi, um discípulo de Leonard Bernstein. A famosa orquestra se apresentava com o Orfeon Donostiarra, um coral espanhol fantástico formado por quase cem homens e mulheres bascos. Além disso, duas excelentes solistas, Nathalie Dessay (soprano) y Alice Coote (mezzosoprano), completavam o espetáculo.
O repertório era a Sinfonía nº 2, "Resurreção" de Mahler.
Respire!
Eu mal podia respirar!
Desde o ano passado planejávamos uma viagem à Frankfurt para visitar o jovem músico da família, meu enteado. Ele conseguiu, com seus 25 anos, o que muitos músicos maduros tentaram e não conseguiram: a vaga de solista de oboé nessa prestigiosa orquestra europeia.
Uma vaga que não era preenchida nos últimos 5 anos, embora a orquestra estivesse sempre avaliando candidatos. Agora ele está nos últimos meses de experiência e anda precisando de uns mimos para aguentar a pressão que tem recebido da orquestra.
Queríamos organizar a visita, mas com a mudança de casa, o final do ano com hóspedes, os parcos recursos depois de tantos gastos, etc, etc... fomos deixando passar o tempo.
Mas, por obra e graça do... universo conspirador, estivemos falando desse sonho mais uma vez na segunda feira passada. Sabíamos sobre as datas do concerto, mas as condições do momento não estavam muito propícias para gastos extras.
Passamos a noite da segunda feira falando sobre a maravilha que seria poder estar lá... e vai e vem... e vem e vai....
Bueno, na quarta feira, abri meu correio eletrônico e começei a apagar os spams de sempre. Entre eles uma página de ofertas de viagens, pois se não tenho qualquer possibilidade, nem abro as propostas.
Tóin. Parei com o click do mouse no ar. A oferta era assim: "Vá a Frankfurt por 30 euros". Heim?
Entrei na página e era isso mesmo, 60 eurozinhos, ida e volta. Sem pensar comecei a fazer os cálculos, casa grátis, comida baratinha e gostosa ( cerveja e salsicha hahahahha...), convites gratis para o concerto. Perfeito!
Mais facilidades que isso impossível!
Telefonei para meu pirata ( o pai da criatura, que baba de vontade de vê-lo tocar numa orquestra como esta ) e em dez segundos estava resolvido: vamos!
Pois fomos...
Na quinta feira estávamos voando para Frankfurt.
Passamos a noite passeando por Berguerstrasse, uma rua movimentadíssima, com bares e restaurantes rodeados por plantas e flores, as cadeirinhas nas calçadas, muita gente andando de bicicleta, um ar de tranquila satisfação na cara das pessoas... um clima primaveril delicioso! Que encanto!
Ao final desta rua encontramos um pequeno parque chinês, com flores de cores incríveis!
Até aí... tudo bem tranquilinho. A coisa começou a complicar quando quisemos comer e recordamos, "de repente não mais que de repente", que as coisas ali estão escritas em Alemão e, na maioria das vezes, sem tradução para o Inglês.
Descobrimos uma lanchonete gostosa para comer as famosas salsichas que eu adoro. Como pedi-las olhando o menu sem fotos?
Arrisquei de primeira: "¿Hablas Español?" Perguntei sorrindo ao rapaz que me atendeu. "Un poquito". Respondeu-me, divertido e simpático.
Pronto. Resolvido o problema. Nos próximos minutos trocamos muitos gestos entremeados por palavras soltas de Espanhol, Inglês e Alemão ( só ele, claro! ) e consegui minhas salsichas, de dois tipos diferentes, com os molhos desejados e duas cervejas muito gostosas. Total: 10 euros.
Feliz. Feliz.
Tive a sorte, inclusive, de conseguir falar em Português num restaurante italiano, pois o garçom falou de futebol e quando soube que eu era do Brasil começou a expressar-se perfeitamente em nosso idioma... Hohoho! Ele disse que havia dividido um apartamento com brasileiros e por isso sabia falar Português.
Então, sempre que eu podia testava se o garçom falava algo de Espanhol, ou de Inglês ( mais fácil ), mas na maioria das vezes não foi necessário o exercício da mímica porque estávamos acompanhados por nosso querido músico, que já domina o Alemão.
Na sexta feira conhecemos o centro histórico.
Existem algumas construções que guardam o estilo anterior à Segunda Guerra Mundial, mas a destruição da cidade pelos bombardeios foi quase total. Quatro casitas de nada sobreviveram e foram restauradas, mantendo o clima de Alemania do início do século passado. O resto é novinho em folha.
Alguns arranha céus criam no horizonte um contorno moderno de espelhos e sombras. Mas eu não gosto de arranha céus... mesmo os bonitos.
Subi em um deles para ver a cidade lá de cima. Tá. Normal. Não foi lá grande coisa. Gosto mesmo é dos bairros cheios de árvores e casas antigas, pracinhas com fontes e chafarizes, beira de rio, parques...
E realmente aí foi possível encontrar, restauradas, casas e edifícios lindos.
Então aproveitamos para passear pela beira do rio, tomar mais uma cervejinha em um lindo bar montado numa barca e ver os patos, as embarcações a remo, a bicicleta-cervejaria manejada por jovens cheios de alegria e cerveja ( funciona como um balcão com um grifo de cerveja onde os jovens pedalam e bebem ao mesmo tempo circulando entre uma ponte e outra da cidade).
E... finalmente, na sexta feira à noite nos dirigimos emocionados para o concerto no Alte Oper de Frankfurt, o antigo Teatro de Ópera, quase totalmente destruído pelos bombardeos e recuperado, graças a campanha cidadana contrária a sua demolição, numa obra que durou quase trinta anos.
As pessoas que lutaram por isso podem estar orgulhosas de sua façanha. O edifício é precioso.
A sinfonia de Mahler abarca a alegría de viver, a união com a natureza, o medo existencial, a confiança e as visões do além. Mahler levou seis anos para completar a composição, que foi interpretada completa pela primeira vez pela Filarmônica de Berlim em 1895.
É simplesmente fantástica!
O primero de seus cinco movimentos, composto em 1888, teve durante algunos anos una existência independente como poema sinfônico. No verão de 1892 Mahler acabou o segundo, terceiro e quarto movimento mas ainda faltava o final que ele queria que fosse apoteótico. Para imprimir mais grandiosidade ele incorporou a parte coral, como Beethoven em sua Nona Sinfonia.
Durante o funeral de um famoso diretor, Hans von Bülow, em 1894, Mahler se inspirou para a conclusão da sua sinfonia, compondo o Juízo Final e a Ressurreição cantados por um coro que representa os santos e bem-aventurados.
O Orfeón Donostiarra é especialista nos pianíssimos e altos necessários para interpretar a peça.
E a solistas convidadas eram simplesmente fantásticas!
Quase duas de horas de concerto, sem parar nem para respirar.
Eu não sei como contar isso, mas imaginem 100 vozes de coro cantando e mais de 120 músicos tocando, às vezes ao mesmo tempo.
A Segunda Sinfonia de Mahler tem momentos de uma doçura encantadora, por exemplo, quando a voz da soprano "conversa" com o oboé. E tem também momentos de grandiosidade alucinante, quando a percursão soa como trovões e todos os demais instrumentos soam ao mesmo tempo.
É surpreendente quando o maestro dirige um som de metais que vem de fora do recinto e quando esses sons começam a mesclar-se com os sons dos instrumentos dentro do palco.
É de tirar o fôlego.
Ficamos imóveis até que os aplausos explodiram. Nem sei por quanto tempo aplaudimos de pé. Eu estava em transe... e nem me recordo de quantas vezes o diretor e as sopranos entraram e saíram do palco.
Bom... só me lembro que em algum momento eu me dei conta de que sonhara tanto poder estar pessoalmente num concerto como esse! E que antes de viver na Europa, enquanto vivia na casa do Poço da Panela escutando os maravilhosos discos de música clássica do Lorde, quando sequer podia dar-me ao luxo de ter um sonho assim, sonhava o sonho dele... acompanhando divertida e fascinada seus movimentos de mãos e imaginária batuta.
Meu pai sonhava dirigir todas as orquestras do mundo. E ele fazia isso muitas vezes, em pé, bem no meio de seu gabinete... com os olhos meio cerrados enquanto os auto falantes do som, em sua máxima potência, derramavam música pelo ar. Sua plateia, composta por 4 pessoas, minha mãe e seus três rebentos, também aplaudia de pé.
Uhaaóoooo! Bravo! Bravo!
Ele sempre tinha que trocar os auto falantes, que nunca suportavam o volume em que escutava os movimentos mais violentos das suas sinfonias e óperas mais queridas.
A sorte é que sem vizinhos, além das árvores e do rio, não havia quem se queixasse do barulho e podíamos "assistir" seus concertos a qualquer hora do dia ou da noite.
Pois sim... enquanto aplaudíamos diretor e orquestra em Frankfurt, com especial carinho ao excelente músico da família, José Luís, o solista de oboé que parecia brilhar entre tantos outros músicos justamente porque seu pai estava ali para homenageá-lo, aproveitei... e também dediquei a noite ao Lorde, meu pai.
E quis, no fundo do meu coração, que realmente existisse outra dimensão nos estágios de vida e que ele pudesse saber-ver-estar-ouvir-sentir tudo naquela noite através de mim.
Sábado acordamos em estado de graça. Passeamos todo o dia pela cidade e decidimos ficar em casa à noite, cozinhar algo e botar a conversa em dia relaxadamente.
Pois foi outra boa decisão. Choveu cântaros e relâmpagos iluminaram a cidade. Uma delícia escutar música em casa e conversar intimidades...
Domingo, pé de cachimbo, areia fina, bate no sino... caminhar pelas ruas, entrar nas igrejas, umas cervejinhas aqui, comida japonesa ali, fazer as malas e voltar para casa.
Madrid estava igual... nem percebeu que fugimos.
Agora ando tirando uns sonhos antigos do baú. Estou querendo assistir em concerto, ao vivo, Carmina Burana. Só não escolhi ainda onde.
Mas já comecei a soprar para os ventos...
Ps: Soube agorinha mesmo, vejam só... "O Alte Oper de Frankfurt é o antigo teatro de ópera da cidade, um edifício carregado de história desde que se inaugurou em 1880 com a presença do kaiser Guillermo II. Nele se produziu a estreia mundial de Carmina Burana, de Carl Orff, em 1937.
Ho Ho Ho...
Acho que pode ser lá mesmo. Já vou conferir a programação!
Esse universo!
Esse post sobre Barcelona é uma mistura de posts passados. Resolvi publicá-los aqui depois que Roseane, do blog Pavulagem da Ro, pediu-me um toque sobre a cidade, já que ela vai estar ali por uma semana.
Encontrei esses posts em um dos meus arquivos do Cicatrizes da Mirada.
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Sonhei por anos a fio estar em Barcelona com olhos-de mar-azul. Um sonho que parecia impossível enquanto escrevia-lhe cartas e e-mails. Agora que estava na hora de transformá-lo em realidade....eu queria mais.
Os seres humanos são assim, não é?
Ou isso é prerrogativa das mulheres?
Queria estar maravilhosa. Então, resolvi emagrecer uns poucos quilos e caber mais folgada no pretinho básico.
Pois sim... nem rezando pelo sangue de Cristo!
A viagem pelos Pirineus Aragoneses, uma semana antes de chegar à Barcelona, arrasaram com a minha "já-muito-fraca-força-de-vontade".
As tentações eram constantes pois a gastronomia aragonesa é fantástica. As tapas do Bar Pau, na cidade de Jaca, os vinhos, os queijos de Anso (um pequeno pueblo pelo qual me apaixonei perdidamente), que maravilha!
Apesar de ter caminhado bastante, não perdi uma miserável grama.
"Antigamente se creia que las setas eran producto de la union de un rayo de sol y uma gota de rocío". Isso dizia o cartaz do bar. Um bonito dito popular!
"Antigamente se acreditava que os cogumelos eram produto da união de um raio de sol e uma gota de orvalho". E esse era o estímulo para que provássemos o mais variado cardápio de cogumelos da região. E com eles, os queijos artesanais e os pães caseiros... era impossível beber água. Era necessário um bom vinho.
E lá vinha o vinho!
Ah... e esqueci de dizer que antes da viagem, já pensando em Barcelona, fui mexer nos cabelos, claro. Qual era a estratégia mais conhecida de todas as mulheres para melhorar a auto-estima, antes do silicone e da lipoaspiração? Ir ao cabeleireiro e mudar o corte ou a cor dos cabelos, certo? Fui... eu não aprendo nunca!
Não entendo por que TODAS as mulheres conseguem um tom acobreado nos cabelos castanhos, mas os meus sempre saem cor-de-rosa, assim meio da cor do mercúrio cromo, assim meio da cor do ridículo!
Mesmo que eu tenha pedido sinceramente, em meu Espanhol claudicante, que as mechas fossem discretas e apontado para a menos espalhafatosa do cardápio, não escapei.
Pois bem...
Depois de uma semana em Jaca, caminhando sob o sol e tomando vários banhos de piscina, a cor das mechas passou do rosa-cromo ao amarelo-ovo-queimado...
A piscina é um dos instrumentos mais recomendados para destruir qualquer cabelo, mas eu seria mais louca se recusasse os prazeres da água com aquele calor!
Resolvi relevar a aparência e aproveitar o passeio. "Tudo dependeria dos meus modelos mentais." Pensei muito zen.
E Barcelona chegando...
Quando estávamos à caminho da cidade eu ainda estava com idéias de felicidade. Mas a onda de calor chegou ao seu auge e, além de matar pessoas, não me deixou nem pensar...
Ao sair de casa pela manhã, em direção à Casa Batló, já estava suada até na sola dos pés.
E, a medida que caminhava e caminhava e caminhava, a roupa ia grudando na pele, o cabelo arrepiando como o de uma bruxa...e eu só queria um banho, dois banhos, três banhos... queria viver debaixo da ducha para sempre!
A roupa colada no corpo, o cabelo preso num rabo de cavalo e o cansaço extra que o calor emprestava a qualquer movimento, arruinaram com meu humor. Meus modelos mentais zen se transformaram em asas negras flutuando diante dos olhos e escurecendo, contra a minha vontade, momentos que poderiam ter sido magníficos.
Assim, sonhei com Barcelona no outono, no inverno, em qualquer outro momento do ano e de meu astral... mas eu queria sair dali imediatamente. Pensei nisso e logo veio uma lembrança astrológica. Isso! Estava a um mês do meu aniversário... claro!
Além de toda a onda de calor que invadiu a Espanha, estava em pleno INFERNO ASTRAL!!!!
Inferno. Inferno. Inferno. Só de pensar na palavra já me sentia queimar de dentro para fora. Ufa! Isso. Foi isso, claro!
Havia um inferno fora e outro dentro de mim! Não sou fã de astrologia, mas queria uma explicação... qualquer uma!
Bom, em alguns momentos de ferrenho esforço para controlar meu humor da cor de carvão e aproveitar as cores de Gaudí, pensava em meus amigos, em como gostaria de mostrar a todos as imagens que consegui guardar, como a incrível Casa Batlló e seu telhado dragão, suas chaminés de máscaras. Lindo! Parece uma casa construída pelas ondas do mar...
Vale a pena visitá-lo!
Antes era um edifício residencial, fechado ao público. Mas hoje é uma espaço para eventos absolutamente espetacular.
Adoro tudo o que Gaudí fez!
E fui , pela segunda vez, ver ao vivo e a cores a Catedral de la Sagrada Família.
Para aguentar o calor, comprei um leque que vendiam diante da fila quilométrica, sob um sol de lascar o crânio. Impossível resistir. Comprei o maior de todos.
Sacudi minha discreta comprinha diante do rosto por todo o dia, sem saber que estava "falando". Quando descobri sua linguagem, o danado dormiu dentro da bolsa a maior parte do tempo.
Imaginem que mensagem eu poderia enviar com um leque negro e rendado, enorme, os cabelos daquela cor e a blusa grudada no peito? É uma pena que o post sobre a linguagem dos leques tenha se perdido por aí... quem sabe o encontro também nos muitos cds de arquivos que tenho!
Voltando então à Sagrada Família.
Iniciada em 1882 pelo arquiteto Francisco de Paula del Villar, o projeto era o de uma igreja neogótica.
Em 1883 Gaudí se encarregou em dar continuidade à construção. A partir de seus esboços sobre a forma geral do edifício, o arquiteto foi improvisando a sua construção e criando à medida que avançava o projeto. Ele dizia que a igreja tinha o espírito gótico, mas na sua própria linguagem.
Dizem que ele evoluía enquanto a construía e vice versa.
A obra era sua obsessão. Em seus últimos anos de vida, morava dentro da construção e só saía de lá para conseguir dinheiro e continuar o trabalho.
A fachada atual da Sagrada Família é apenas uma das quatro torres projetadas, e a obra continua ninguém sabe até quando. Totalmente construída com doações, ela avança lentamente.
Não creio que eu viva para vê-la terminada.
A Catedral de Gaudí é alucinante!
Quando a vi pela primeira vez, em 1994, havia menos torres e portas de entrada construídas. Creio ter visto apenas a Puerta de La Natividad. Mas agora boa parte do projeto inicial já está em estado avançado de construção.
A Puerta de La Passion conta com esculturas modernas, de Subirachs, inspiradas na obra de Gaudí que vimos depois, nas chaminés de La Pedreira ou Casa Milá.
Uma das caracteríscas mais marcantes de Gaudí é a utilização de formas orgânicas em seus projetos. Suas colunas parecem galhos de árvores. Suas esculturas de ferro forjado mostram curvas e desenhos que parecem vivos. Seus telhados parecem sair de um conto de fadas ou bruxas... são cheios de máscaras imensas.
A Casa Milá ( ou La Pedreira, como era chamado o edifício pelos antigos habitantes de Barcelona, que o consideravam feio ) é um prédio habitado, mas que pode ser visitado.
É impressionante o que foi capaz de criar o famoso arquiteto naqueles tempos, e admirável que tenham permitido suas inovações.
O pátio, as escadas, a cobertura com suas chaminés-esculturas e um apartamento completo, que foi comprado por um banco e decorado à moda art-deco do princípio do século, estão abertos ao público e valem a fila e o preço.
Eu gosto dele. Parece uma duna molhada, ou um conjunto de cavernas escavadas numa montanha... e quanto mais a gente olha, mas vê coisas!
E, detalhe importante, tem AR CONDICIONADO, meu maior objeto de desejo naqueles dias...
A Catedral de Barcelona, de estilo gótico, além de ser maravilhosa em si mesma, tem um encanto extraordinário, para os catalãos: um Cristo negro. O Cristo de Lepanto.
Segundo conta a tradição, ele estava na galera que levava Don Juan de Áustria, irmão bastardo do Rei Felipe II, durante a famosa Batalha de Lepanto contra os turcos, no século XVI. Falei nesta batalha quando contei sobre a vida de Miguel de Cervantes. Ele também estava lá.
O Cristo é especialmente reverenciado em toda a Espanha e mais ainda na Cataluña.
O coro da catedral, de madeira escura e trabalhadíssimo é alucinante. Pode-se passar horas descobrindo os detalhes esculpidos em suas cadeiras e tronos.
Sempre há muita gente visitando as belíssimas catedrais espanholas e eu, às vezes, queria esses lugares só para mim, pelo menos por uns minutos.
Queria não ter que escutar gente conversando, piscando flashes por toda parte, correndo de um lado para outro sem ver nada.
Queria não ver grupos de pessoas absolutamente desinteressadas no que estão vendo, mas seguindo seus guias muitíssimo interessadas em levar a maior quantidade de fotografias possíveis, mais ainda se forem dos lugares onde é proibido fotografar.
Eu saio do sério com esta gente! Tenho vontade de expulsá-los do templo, como fez Cristo com os comerciantes em sua época. Juro!
Onde estão minha bondade e compaixão?! Tóin!
Eles tem tanto direito de estarem ali quanto eu.
Outra visita que não se pode perder é à Igreja Santa Maria del Mar. Uma igreja também muito linda.
Ela alberga a Virgem Del Mar, padroeira das gentes de todos os mares.
E eu, enamorada por um pirata mediterrâneo, adorei ficar ali, protegida do sol, sentindo um frescor que vinha das pedras antigas, do teto altíssimo, da paz que os templos me dão...
Não sou religiosa mas sinto um encantamento enorme pelos templos. Eles realmente são construídos para propiciar essa sensação de colo macio, de conforto.
Nunca deixo de visitar as igrejas, as mesquitas, as sinagogas... não só pela arquitetura e história, mas também pelo que transmitem de acolhimento.
Quando você estiver viajando por qualquer lugar, na hora do grande frio ou do grande calor, não insista em bater pernas pelas ruas... busque um templo e fique lá por um tempo. E a melhor hora é quando está todo mundo nos restaurantes comendo e fazendo barulho.
Essa é a hora de estar quase sós num templo. Vá por mim...
Ano passado li uma novela muito boa, inspirada na construção desta igreja: Catedral del Mar, de Idelfonso Falcones. Se estiver traduzida para o Português, leiam. Além da trama excelente passada na época medieval, muito se fica conhecendo sobre fatos históricos reais da Cataluña.
Um programa imperdível de Barcelona é o Museu Picasso , que ocupa cinco palácios dos séculos XIII e XIV.
Conta com desenhos e pinturas de seus primeiros anos, além de cerâmicas e esculturas. Assim podemos entender melhor porque ele experimentou tantas mudanças na longa vida de artista.
Imagino que, pintando como pintava aos 14 anos, era impossível fazer o mesmo durante os 78 que lhe restavam de vida... tinha que inovar ou morrer de tédio!
Na porta do museu, um sujeito posava com os turistas fantasiado do quadro, O Arlequim Cubista, cuja orelha era um nariz. Perfeito!
Infelizmente não tenho a foto!
As Ramblas "do Planeta", como diria Caetano é um lugar incrível. Ali acontece tudo. Na primeira vez que estive ali fiz questão de provar a orchata de chufas, que detestei. Pedi só por causa da música. Nunca mais!
As Ramblas são palco de todos os mímicos de Barcelona. Bailarinas, palhaços, princesas, Colombos, índios de arco e flecha, todos imóveis até que se jogue um moeda. Então eles se movem e agradecem. Um alegria para as crianças e os japoneses...
Eu gosto mais dos músicos. Sempre há músicos fantásticos nas ruas de Barcelona. Mas entre os mímicos que vi nas Ramblas , adorei este...
Ao som da moeda na caixa fazia caras e bocas de quem sofria terríveis cólicas...
Mas o melhor das Ramblas desta vez foi entrar no Mercado La Boqueria. Montanhas de frutas e especiarias. Verdadeiros quadros - ao vivo - de cor e alegria. Não resisti às amoras.
Encontramos um pequeno bar de tapas e cerveja dentro do mercado. Comemos choquitos ( um molusco) e aspargos verdes a la plancha e dois litros de cerveja... que delícia! Ai!
Vou aproveitar para explicar o que é uma tapa.
Nada de violência, meus queridos, é só um petisco qualquer. Pode ser uma fatia de pão com tomate e presunto crú ou um pratinho de azeitonas, ou de mariscos, ou batatas bravas, salada russa...ou... ou....
A variedade é infinita e deliciosa, e o tamanho também. Tem bares que servem tapas que são verdadeiras porções, generosas no tamanho e no preço! A maioria das vezes nem se cobram as tapas... são presentes do bar. Cada bebida que se pede, eles servem uma tapa.
O nome tem a seguinte história: há muitos anos, uma lei obrigava os donos de bares que serviam bebidas alcólicas a dar um pequeno petisco para que os clientes não ficassem muito bêbados.
Já que na maioria dos bares, os espanhóis bebem em pé, junto ao balcão, o bocadito era servido em um prato pequeno que cobria o copo, como uma tampa.
(tapa em Espanhol)
O costume permanece até hoje.
Os espanhóis nunca saem para beber num único lugar. Eles tomam uma cervejinha aqui, pagam e saem... vão para outro bar, e outro ... e outro... e assim saem de bar em bar. Só pagam a bebida e comem de graça. Ho, ho, ho...
Mas é preciso tomar cuidado, pois nem todos os bares servem tapas e nem todos são gratuitos. Por isso é bom saber antes!
Bueno, aprendi rapidinho o costume. E me encanta. Aproveitei todas cervejas e tapas de Barcelona. O pretinho básico que fosse ao inferno, ou ao fundo da mala já que no inferno estava eu!
Elegi uma saia e uma camiseta de algodão para a festa de aniversário de minha prima Paula, que trouxe os amigos de Londres para a "festa" e lá fomos nós para o Club Havana, na Barceloneta, comer, beber e dançar. Mesa reservada com antecedência.
Surpresa!! O ar condicionado era ótimo! No salão principal...
Nos reservaram uma mesa no salão lateral, sem ar... nem condicionado, nem natural. Uma estufa!
Reagimos revoltados ao "dar de ombros" do garçom e na cara de pau sentamos em outra mesa, que também estava reservada...
Mas quem disse que eles podiam ter ar e nós não?
Ao final, descemos para dançar. Escolhemos outra mesa, pois aí já não havia reservas, era de quem chegasse primeiro. Pedimos as bebidas, dispostos a curtir o melhor do Havana Club, a dança cubana!
De repente, percebi que a cada componente da nossa mesa que se levantava para dançar, sentavam desconhecidos com seus copos, como se fosse a coisa mais comum do mundo tomarem nossos lugares. Assim, quando as pessoas de nosso grupo voltavam do salão, já não tinham suas cadeiras. Como assim?
Assim. E pronto.
Ficamos entulhados num canto mínimo, com duas cadeiras para 11 pessoas, incomodando os novos donos da NOSSA mesa. Uma multidão chegando... e o ar condicionado acabando.
Tá bom. Tá bom...
"Modelos mentais, paradigmas..." pensei... "Que bobagem! Divirta-se..."
Tentei... Juro! E estava quase conseguindo, ajudada pela bebida fresca e a dança divertida comandada pelo cubano... mas quando saímos de lá e tivemos que passar mais de 1 hora para conseguir um taxi, a mais de 30 graus, às 3 da madrugada, andando de um lado para outro e tendo que quase lutar com os espertos que se atiravam pela porta do carro que nós tentávamos parar, o mal humor voltou com vontade de ficar.
Então... comecei a odiar Barcelona!
Às 4 da manhã, em casa, pensei que estaria finalmente livre da estufa.
Tomei uma longa ducha e deitei de frente para um ventilador lindo, fininho e vertical.
Isso, ele era apenas isso. Decorativo.
Tinha umas luzinhas de azul neón como olhos de extra terrestres no meio do escuro e soprava com uma elegância...
Pfussss...pfussss...
Ventilar que é bom, nipes nada!
Cadê meu leque???!!!
Não deu para dormir... e o dia seguinte já estava ali.
Nem imaginem minha cara de bom humor durante o café da manhã.
Mas como desistir de tudo ?!
Havia Paula e queríamos mostrar a ela o melhor da cidade.
Fomos ver o Palácio da Música. Bárbaro! Umas cores, uns desenhos!
Mas não pudemos entrar. Estava fechado, para reformas. Valeu ver pelo menos a fachada e comprar os postais.
Acho que o calor trouxe à Barcelona um forum de bruxas!
Ou foi o contrário?!
Então...
Para escapar do forno que estava mergulhada a cidade, um templo ou um museu são as pedidas mais refrescantes. E decidimos pegar a estrada e ir ao Museu - Teatro Gala-Dalí, em Figueres. Fora de Barcelona.
Parece que todo mundo teve a mesma idéia. Depois de uma hora e meia na fila, ao sol, e muito sorvete de limão, finalmente entramos para ver a genialidade do artista.
É impressionante!
Desenhos, esculturas, pinturas, frescos nos tetos, composições artísticas muito loucas... valem o sacrifício da fila, embora para o meu gosto, o museu guarde muitas extravagâncias do artista e não os seus melhores trabalhos.
Um dos que mais chamam a atenção é um enorme quadro onde se vê o ex-presidente americano Lincoln. Olhando por um "catalejo", se pode ver os detalhes do quadro e o corpo desnudo de Gala, sua mulher, debruçada sobre uma janela.
Também impressiona o fresco do teto de uma das salas do museu, em que Dalí e Gala sobem para o céu.

Ou o trabalho que representa a famosa Mae West, com um sofá em forma de boca e uma lareira em forma de nariz.
Subindo umas pequenas escadas, o expectador pode ver, em composição com as cortinas, o rosto da atriz.
Duvidoso gosto artístico, mas sem dúvida, criativo.
O museu não é só composto de obras provocativas. Dalí era um gênio da pintura e do desenho. Era um show de técnica. Mas ele adorava provocar e viveu o bastante para expressar todos os fantasmas de seu inconsciente, além das mirabolantes expressões de um ego fenomenal.
No dia seguinte desisti das cidades e pedi, pelo amor de deus, um parque. Vento, sombras... AR!
Então fomos ao Parque Güell, idealizado por Gaudí. É lindo... e fresco. Fiquei um tempo escutando um artista que tocava a guitarra espanhola, sob uma sombra deliciosa, cercada de colunas lindas... e senti-me mais feliz. Muito mais feliz...
Vi um dragão colorido sobre uma fonte de água fresca, e me apaixonei por ele. Trouxe uma réplica pequenita para meu invernadeiro. Adoro olhar para ela, pequena e encantadoramente colorida. O dragão é um dos símbolos da cidade de Barcelona. Por todas as lojas de suvenirs ele está, em todos os tamanhos e materiais.
Os bancos do parque, anatômicamente desenhados para aproximar as pessoas e facilitar a comunicação são decorados com pedacinhos de cerâmica de todas as cores e proporcionam ao visitante uma vista maravilhosa da cidade.
Não levem em conta meu humor, expressado tão enfaticamente aqui. Barcelona não teve culpa. A cidade é fantástica, mas estava sob o efeito de uma das maiores ondas de calor que assolou a Europa. Só sugiro aos viajantes que não escolham o mês de Agosto para estarem ali, se puderem.
A umidade do ar, a quantidade de gente nas filas, o sol de derreter os neurônios... é desesperador, pelo menos para mim.
Na volta do parque, um passeio pelo Porto Olímpico, a vista dos barcos à vela e navios de cruzeiro, branquíssimos e enormes, as pessoas de todo o mundo passeando pelas lojas, bares e restaurantes , a praia repleta de banhistas, os topless de todas as idades e tamanhos, e muitas paradas para uma cerveja ou um sorvete ou uma água pelo amor de Deus!
Isso tem que ser muito mais gostoso no Outono ou na Primavera, disso não tenho dúvidas!
No verão os sol só desaparece às 10:00 horas da noite. É um dia largo demais!
Eu já estava querendo a noite, a brisa... os terraços frescos.
Mas desta vez, nem de noite havia brisa. Era o inferno, de verdade!
Então... caminhando e caminhando, dei de cara com a Séphora, uma famosa loja de perfumes. Quase um supermercado de vidrinhos maravilhosamente cheirosos! É de enlouquecer entrar nessa loja.
Agora, meu presente de Barcelona foi a Happy Books. Uma livraria especial, com preços super especiais. Fiquei louca, babando como um cãozinho sedento com tantas ofertas!
Comprei um exemplar de História da Arte, ricamente ilustrado e encapado em caixa e fita de seda, por míseros €15,00, quando qualquer publicação deste quilate vale de €70 a €90 , por baixo!
Voltei "happy woman" para Santorcaz, com meu dragãozinho e meu livro debaixo do braço.
E voltar lá só em Novembro, com frio, se Deus quiser!
Pois, desta vez, nem pensei em dançar a Sardana diante da Catedral.
Quando estive ali, na Primavera de 94, tive o prazer de dançar o baile mais característico da Cataluña... e que eu morro de vontade de repetir.
Desta vez sequer pude ver o enorme grupo de pessoas rodando com as sapatilhas de lona e os braços erguidos, num grande círculo humano a "ciranda" espanhola.
E também não pude escutar um violinista ensaiando suas partituras no átrio em frente a Torre Antiga, no coração do bairro gótico dessa cidade encantada...
Com aquele calor, só turistas estavam nas ruas.
Mas eu volto lá... ah! se volto!
Belo lugar... belíssimo!
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Ano passado, durante a Expo 2008, em Zaragoza, tive a oportunidade de assistir um espetáculo interessantíssimo.
Soubemos, por uma amiga turca que estava trabalhando ali, que haveria uma apresentação dos Derviches, promovido pelo Ministério de Cultura da República da Turquia, em um auditório da feira internacional. Nos interessamos muito e nossa amiga nos conseguiu os convites. Não era algo que se pudesse comprar na bilheteria, as pessoas tinham que ser convidadas.
Agradecemos mutíssimo a Feyza pelo carinho e consideração, afinal chegamos de última hora e ainda saímos com um presentão destes.
Há muito tempo que eu tinha escrito, no meu Docs Google, um incipiente post sobre os Derviches, mas o texto estava precisando de ajustes, alguma boa pesquisa de fotos, uma re-leitura do folder ...
Depois esqueci. Com a mudança para a Cesta de Gatos perdi a memória.
Acho que agora ele sai do forno!
Havia ouvido falar sobre os Derviches alguma vez pela vida afora, mas não tinha nem a mais remota ideia de um dia poder assistir ao vivo a esse ritual religioso do Islam.
Não sei se vou conseguir explicar como foi a minha experiência, mas tive a sorte de encontrar no YouTube vários vídeos muito bons sobre eles.
Não era permitido gravar o espetáculo de Zaragoza e só pude tirar uma foto, sem flash, que nem saiu muito boa, porque eu não quis dar uma de turista chata. Também foi bom ter guardado o folder, de onde tirei todas as informações que pude para uma noção breve dos simbolismos presentes no ritual.
Tudo o que pude ver na Expo2008 de Zaragoza foi uma apresentação do Cirque du Solei, visitar alguns pavilhões mais ou menos interessantes sobre os projetos hídricos de vários países, e algumas apresentações musicais. .
Estive na feira por dois dias. As filas eram homéricas e não pude entrar em muitos pavilhões. Para ser sincera fiquei um pouco decepcionada. E talvez por isso não tenha escrito nada na época.
Então...
Decidi só escrever sobre o que mais me impressionou, pela beleza e também pelo inusitado e inesperado programa: a apresentação dos Derviches Dançantes Turcos, apesar deles não terem nada que ver com a água do planeta.
Aposto que há uma centena de posts sobre a Expo2008, se alguém quiser aprofundar o assunto. Acho que vou publicar uma das fotos, só para deixar o registro.
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Em primeiro lugar me impressionou o silêncio do público, mesmo antes de começar o espetáculo. Um silêncio respeitoso e solene, incluso nos grupos de jovens que estavam presentes. Afinal aquilo não seria um "show" e sim uma expressão tradicional da cultura e religião de um povo.
Primeiro houve uma apresentação do Conjunto de Música Tradicional de Istambul. Um grupo de músicos apoiado pelo Ministério de Cultura da Turquia para investigar e estudar a antiga música clássica turca, principalmente a Sufi. E incentivar, através de suas apresentações dentro de suas fronteiras e em palcos internacionais, a passagem para os jovens do conjunto de valores históricos e culturais de seus ancestrais.
Eles começaram a tocar e cantar... e o espírito da música começou a preencher o auditório de uma forma que parecia querer transportar-nos para a Turquia. Relaxei e me deixei levar.
Depois disso houve um pequeno intervalo antes que começasse a dança propriamente dita. Foi o tempo de ler um pouco para tentar entender os movimentos dos dançarinos.
A cerimônia da dança sagrada chama-se Sema.
Primeiro entram os cantores e músicos e se posicionam ao fundo da sala. Os músicos tocam instrumentos completamente distintos aos nossos. São flautas, intrumentos de cordas e de percussão medievais. O conjunto formado por eles, a luz, as cores, as vestimentas... o silêncio em torno de tudo já é um exercício de concentração.
Logo em seguida os dançarinos entram, com seus trajes claros e rodados cobertos por uma longa capa negra. Eles reverenciam o posto vermelho*, cruzam os braços sobre o peito com a mão esquerda apoiada sobre o ombro direito e a mão direita no ombro esquerdo, a posição de humildade.
Então, um a um, eles sentam numa pele de cordeiro branca à direita dos músicos. Tudo muito lentamente...
Posto vermelho é uma pele de cordeiro tingida de rubro que está à esquerda da sala e que será utilizada pelo Shaikh, o homem que sabe. A cor vermelha da pele simboliza a manifestação de Deus ao homem e o Shaikh representa o venerável Mevlana, um dos maiores líderes espirituais e também poeta, inspirador da Ordem Sufi Mavlevi, uma corrente espiritual mística do Islam.
Há, entre o posto vermelho e o setor dos músicos, uma linha imaginária que só o Shaikh, que conhece o caminho da realidade divina, pisa. Esta linha se chama o Equador e separa a sala do Sema em duas partes: o lado direito, descendente, é o reino material, e o lado esquerdo, ascendente, o reino espiritual.
Quando ele entra na sala dirige-se pausadamente ao posto vermelho, senta-se e todos começam a recitar o Naat, um poema que expressa amor e respeito pelo profeta Mohamed.
Depois há uma mudança da música e dos golpes de tambores, o Peshrev, na qual os dançarinos golpeiam o solo com as mão e se levantam, simbolizando que tudo existe por mandado de Alá, ao mesmo tempo que representam o morto levantando-se da tumba.
Eles dão três voltas em círculo pela sala que simbolizam a ascensão desde o reino do material ao reino do espiritual. As três voltas representam os três níveis do conhecimento que se conhecem nos ensinamentos sufies : saber, ver e chegar a ser.
Essa parte do ritual mostra que só se pode alcançar a Verdade e a Realidade confiando em um guia que conheça o caminho.
Quando os dançarinos e o Shaikh passam pelo posto vermelho se saúdam um ao outro com uma reverência de humildade que expressa a saudação de um irmão a outro irmão, de uma alma a outra alma.
Durante a saudação eles colocam a mão direita no coração sob a capa e os pés se cruzam com os dedos direitos sobre os dedos esquerdos.
Eles fazem isso nos dois lados do Equador. Finalmente, o Shaikh se põe em seu lugar, no posto vermelho, e essa parte do ritual, o Ciclo do Sultão Valed termina.
No momento seguinte os dançarinos se despojam de suas capas negras e se mostram com seus trajes claros, simbolizando o nascimento espiritual. Permanecem erguidos com os braços cruzados entre ombros enquanto o mestre de dança, o Semazenbashi, se dirige ao Shaikh e pede permissão para começar o Sema. Os dançarinos o acompanham nas saudações.
Aí já fazia um tempo que não recordo, mas que era muito grande, que estávamos assistindo, hipnotizados pela música e os lentos movimentos do grupo.
E só agora é que realmente a dança ia começar.
Quando o Shaikh dá permissão, os dançarinos passam um a um diante dele e beijam sua mão direita. Ele, por sua vez, beija a copa de seus chapéus e dá início ao Sema.
Os dançarinos estendem os braços com a palma da mão esquerda para baixo, os olhos entornados olhando fixamente o polegar esquerdo. Esta postura simboliza a justa distribuição entre os demais do que se recebe de Deus. Conforme eles giram da direita para a esquerda, os dançarinos repetem interiormente a cada volta Al-La enquanto o mestre de dança se move em torno da arena, dirigindo os dançarinos.
Esta parte do Sema, o Primeiro Selam é o nível da Justiça Divina no Sufismo, que quer dizer o nascer para a Realidade através do conhecimento, onde o ser humano se faz consciente da Grandeza do Criador e de sua própria condição de servo.
A medida que este Selam termina, o Shaikh avança para frente, recita as súplicas e anuncia sua permissão para o próximo Selam.
Quando o último dançarino começa a girar, ele troca humildes sinais de reverência com o mestre de dança e regressa à pele de cordeiro vermelha.
O Segundo Selam tem um ritmo mais lento, uma música que leva à contemplação. Os dançarinos saúdam o Shaikh mas começam a girar imediatamente depois, sem beijar sua mão. Este estágio da dança simboliza um estado de assombro reverencial ao presenciar o poder de Alá manifestado na grandeza e harmonia da criação.
O Terceiro Selam começa e termina com três ritmos distintos: o primeiro de 28 golpes de percussão, o segundo de 10 golpes e o terceiro de 6, levando a dança a uma cadência cada vez mais acelerada, incrementando a tensão da música.
Esse momento reflete o nível da Verdade e da Realidade, onde reverência e obrigação se convertem em amor e o intelecto se sacrifica em função do amor. É a submissão total, a união com Alá.
... Neste momento a gente, que assiste em silêncio, já está em uma espécie de transe...
O tempo em que eles permanecem girando, a música, as roupas, a meia luz...
Já faz tanto tempo que estamos ali...
Algumas senhoras se levantam e deixam o auditório. Creio que elas não suportaram a tensão...
O Quarto Selam tem um ritmo lento, como se tivessem sido todos arrancados do ritmo intoxicante do Selam anterior e estivessem a sós com a Realidade.
Os dançarinos começam a girar em torno de si mesmos, permanecendo em seu lugar.
O Shaikh e o mestre de dança se unem a este Sema e giram, mas eles não se despojam de suas túnicas negras. Eles agarram a túnica com a mão esquerda a altura da cintura e a parte de cima da túnica com a mão direita, abrindo-a ligeiramente enquanto giram sobre si mesmos.
Aqui se expressa a contemplação da viagem espiritual, onde, feliz com seu destino, o ser humano volta à obrigação para a qual foi criado, a saber, sua condição de servo.
Ao final deste Selam os músicos tocam peças com ritmos frenéticos, como se escutou no final do Terceiro Selam.
Depois se ouve um solo, onde afinal os corações acelerados e exuberantes por haverem alcançado a condição de servos, logram a calma gradualmente.
Quando o Shaikh volta ao posto vermelho, a música cessa e começa a recitação do Nobre Corão.
Enquanto se recita o Corão, os Derviches Dançantes param o Sema, retirando-se para o borde da pele de cordeiro branca e sentam-se. Um deles comprova se todos levam suas capas negras.
Depois de finalizar a recitação do Corão, eles todos rezam em seus interiores uma Sura de Fatiha e se levantam. Finalizam este estágio com a expressão "Hu" que todos dizem com intonação de voz profunda.
Os dançarinos fazem uma reverência ao Shaikh no posto vermelho e saem em um estado de sossego, humildade, sigilo e calma.
Duas horas e meia depois de entrarmos aí, somos uns seres distintos.
Os que não suportaram se foram. Os que ficaram sairam ainda em silêncio... com um sentimento de assombro e encantamento.
É impressionante a quantidade de rituais religiosos pelo planeta, cada um com sua história e seus simbolismos.
Eu gosto de rituais... desde que não sejam malvados.
E este, além de impressionante... é lindo!
Da seguinte vez que estive em Zaragoza já pude dedicar-me ao rio... e por algum tempo fiquei perto dele, escutando sua música e suas histórias.
Gosto de descobrir as lendas que vivem entranhadas nas cidades.
O rio Ebro tem muitas.
Numa delas, estudiosos bíblicos garantem que ele foi a via que seguiu Tubal, neto de Noé, depois do grande dilúvio.
Dizem que, quando se pode pisar terra firme, Tubal foi fundando colônias ao longo do Ebro.
Zaragoza é uma dentre tantas outras.
Além disso, são inúmeras as aparições de imagens católicas flutuando sobre suas águas: Nuestra Señora de la Ola, Santa Madrona, Santa Paulina, Santa Susana ou Santa María de la Muela.
Eu gostei da história do sino. Vou contar...
Uma vez apareceu um sino sobre as águas do rio, navegando contra a corrente. Foi retirado e colocado na igreja de San Nicolás, na capital aragonesa. Dizem que desde então ele tocava sozinho para anunciar grandes tragédias.
Prometi ir vê-lo... e mais uma vez não me deu tempo. Terei que voltar.
Só não quero que ele soe enquanto eu estiver ali. Ho ho ho!
A Ponte Romana também tem suas histórias e conta com a ajuda da crença popular para mantê-las vivas.
Dizem que junto a terceira arcada, perto da margem da Basílica del Pilar, há um temido poço, sem fundo "conhecido", chamado Pozo de San Lázaro. Ele traga para sempre os pobres desgraçados que caem aí. É, inclusive, o lugar eleito pelos suicidas para darem fim às suas vidas.
Contam os ventos que um casal de namorados afundou nele, unidos pelos pescoços atados com o mesmo lenço de quadros, o conhecido e tradicional "cachirulo zaragozano" e que seus corpos jamais foram encontrados.
Mas ela também nos conta seus dias de lutas pela liberdade de seu povo. Grandes batalhas foram travadas em Zaragoza.
Mas eu não gosto de falar em guerras. Ponto.
É bela, a ponte. Belíssima!
Também é bela a Catedral de Zaragoza. Consagrada a Cristo, el Salvador, o templo é um caso de amor da cidade. E eu entendo esse amor perfeitamente.
La Seo foi construída sobre o mesmo local onde havia um dos mais importante templos romanos de Hispânia. Com a queda do Império Romano e a chegada dos visigodos, o templo pagão foi transformado em cristão e consagrado a San Vicente.
Mas este período durou pouco e o local foi logo substituído por uma mesquita muçulmana, após a invasão árabe à Península Ibérica.
Acho que já falei isso aqui. A desculpa era que aquele lugar simbolizava uma terra sagrada, mas na minha opinião o verdadeiro motivo era tentar "apagar" a religião e a cultura passada, destruindo os seus lugares de reunião e culto.
Uma pena para a arte.
De vez em quando, durante alguma reforma, ainda se encontram peças de uma dessas antigas construções.
Nesta tivemos sorte, pois muito dos belos traços mudejar, isto é, o estilo utilizado nas mesquitas, permanece nos muros, entradas e tetos... e graças ao bom senso de alguns construtores continuam a enfeitiçar os visitantes da Catedral del Salvador.
La Seo, como é chamada, é um conjunto arquitetônico impressionante!
Esteve fechada ao público por muitos anos, devido a uma dessas reformas onde os achados arqueológicos exigem a presença, não de simples pedreiros e sim de renomados especialistas que custam muito caro e levam uma eternidade soprando pozinhos e passando pincéis por mil anos de pedrinhas.
Um trabalho encantador, diga-se de passagem.
A história da construção de La Seo é enorme e se remonta ao ano 1140. Nem pretendo contá-la aqui. Deixo a missão para outros.
Acho interessante saber a história de uma construção, mas geralmente esqueço os nomes e datas, os tipos de arcadas, etc. Esse tipo de relato é mais importante para arquitetos, estudantes de arte e por aí.
Eu sou só amante.
Procuro ler sobre ela "in loco", durante a visita. Vou lendo e acompanhando com os olhos o que me explicam os textos. É diferente de ler aqui.
Essa história a gente vai "sentindo" e aprendendo a medida que vai visitando, muitas e muitas vezes, suas naves e capelas e, pouco a pouco reconhecendo os estilos ( românico, mudejar, gótico, renascentista e barroco ) que convivem naquele templo.
É incrível ver essas mudanças na construção, de acordo com a moda do século, o dinheiro investido, a intenção de deslumbrar dos arquitetos e dos responsáveis pela obra.
La Seo é uma verdadeira aula de arquitetura sacra. Para qualquer lugar que se olhe a gente aprende.
Gostei principalmente das capelas de alabastro, repletas de translúcidas figuras que parecem roubar a alma do artista para dentro dos corpos esculpidos.
Mas deslumbrei também com os tetos, lindos como este.
E então, vale a pena ficar aí dentro por umas duas horas, não é?
Depois disso tudo... o melhor é parar, respirar fundo e sair agradecido por ter podido estar ali.
Ir descansar na praça ou entrar em algum bar de tapas para comer qualquer das muitas delícias de Aragón é uma excelente ideia.
Nada de sair correndo para ver outra igreja ou outro monumento. É preciso parar, deixar que ela se implante em sua memória.
Aproveite o relax para saborear o jamon de-li-ci-o-so, o vinho tinto, os caracoles, as migas, o cabrito...
O bom é que em Zaragoza, como em toda a Espanha "se come de maravilha!"
Quem sabe vale a pena trazer uma receitinha de novo... faz tanto tempo que não publico algo de comer por aqui!
Ah.. mas antes tenho que escrever sobre a Expo2008. Não, não pretendo contar como foi a exposição, depois de tanto tempo. Dela o que mais recordo são as filas intermináveis e que quase morri de calor!
Quero contar sobre um acontecimento especial que tive a oportunidade de presenciar quando estive ali.
Estou escrevendo sobre isso.
No próximo post.

Eu tenho uma cunhada que vive nesta linda cidade.
É uma pena que a gente não aproveite mais sua proximidade com Madrid para visitá-la mais amiúde. São coisas que passam, quando a gente se deixa tragar pela rotina dos dias e dos compromissos sociais.
Quando eu vivia no monte e não conhecia ninguém por aqui, viajava mais.
Tudo tem seu preço...
Zaragoza ( a pronúncia do nome é linda, linguodental... eu gosto ) é uma das mais antigas cidades da Espanha e fica a apenas duas horas de Madrid, de carro.
Vale a pena visitá-la.
Além de bela, tem muito o que contar sobre a história da Espanha, pois foi um importante centro político e cultural da Península Ibérica durante várias civilizações.
Quando habitada pelos íberos, chamava-se Salduba. Quando entraram os romanos, foi transformada por César Augusto em uma colônia militar e chamou-se Césaraugusta. Quando chegaram os árabes, rebatizaram-na com o nome de Sarakosta e finalmente, quando voltaram os cristãos, Zaragoza. Mais bonito, heim?!
Em qualquer destas circusntâncias, ela foi importante.
Às margens do rio Ebro, a cidade mostra o perfil fidalgo de seus palácios e casario, sua catedral e igrejas, com orgulho e paixão. E eu, com meu enamoramento incurável pelos rios e pontes, poderia ficar um dia diante deste... ouvindo seus cantos e prantos, reconhecendo as músicas que todos os rios conhecem e sabem cantar.
Mas, quando a gente não está sozinho tem que acompanhar os passos e as ânsias dos moradores, que querem mostrar tudo de uma só vez. E para muitos, mostrar os monumentos é mais importante do que mostrar o rio. Não sabem que vivi quase toda a minha vida em cumplicidade com um deles... e que isso ajudou a construir minha sensibilidade.
Assim, segui meus guias na minha primeira visita, uns anos atrás, mas internamente prometi voltar lá, só para sentar perto do rio, render minha homenagem a ele... ouvi-lo. Escutar o ruídos guardados na ponte romana, seus ecos e suas lendas misturados ao barulho constante da água que corre.
Voltei em Setembro, para ver a Expo Zaragoza 2008, uma exposição mundial justamente sobre a água do planeta e fiquei encantada com as obras de recuperação das margens do Ebro. Parece que o povo redescobriu o rio.
Mas isso eu conto depois, pois quero aproveitar o post e recuperar algo do vi na primeira visita, principalmente as fotos, que são lindas.
Então...
Abandonei o rio e ao dobrar uma esquina e atravessar uma cortina de vento, dei de cara com uma enorme praça. A maior de toda a Espanha. E fiquei muda com a beleza da Plaza del Pilar.
Caminhar lentamente pela praça é uma delícia, tudo em volta é lindo.
Naquele dia só pude visitar a Basílica del Pilar e depois descansar um pouco na praça admirando suas fontes e esculturas.
A Basílica del Pilar é consagrada a uma virgem que, segundo contam, apareceu ao Apóstolo Santiago, 40 anos depois da morte de Cristo. Era uma figura pequena mas possuía uma aura extremamente brilhante e estava sobre um "pilar". Quando desapareceu deixou o pilar para que Santiago construísse aí um templo que fosse um símbolo da fé aragonesa.
Li em algum lugar que foi a mãe de Cristo, em carne e osso, que veio de Jarusalém para incentivar o trabalho do Apóstolo que evangelizava por essas terras. E que o pilar presenteado por ela serviria de pedra fundamental para a construção do primeiro templo marianista da cristandade.
Aposto que se for lendo mais por aí aparecem mais explicações.
Não importa... não conheço nenhuma história contada duas vezes que seja a mesma. Imaginem depois de quase dois mil anos!
Hoje, a imagem da Virgem del Pilar, esculpida em madeira, repousa sobre um pilar de jaspe de 2 metros de altura.
Sua capela, de estilo neoclássico, é impressionante e a adoração de seus fiéis também. A cada hora se reza uma missa. E está sempre lotada.
Por trás do altar está seu camarim, suas jóias e seus mantos. Pinturas de Goya adornam o teto e peças de ouro e prata seu altar.
E sabem qual é o nome de mulher mais comum nesta cidade?
Tá. Eu sabia que era fácil.
O primeiro templo foi construído para substituir um templo visigótico e foi destruído por um incêndio no ano de 1434, do qual salvou-se - por milagre - a imagem da Virgem. Durante o século XVI foi restaurado e novamente derrubado no século XVII, para dar lugar a atual construção.
A Basílica é absolutamente grandiosa.
Por fora se vê as dez cúpulas de azulejos coloridos, a cúpula central e as quatro torres.
Por dentro as enormes colunas, os tetos abobadados, o coro e seus tronos trabalhados, o antigo órgão...
E a gente perde o fôlego diante do Altar Maior.
Esculpido em alabastro por Damián Forment a princípios do século XVI é uma das poucos obras que se conservam da antiga igreja gótica.
Fiquei muda outra vez. O alabastro dá uma sensação de transparência... e parece que a gente pode, ao tocar na pedra, atravessá-la... sentir a vida por dentro da obra.
A cor é extraordinária, porque absorve a luz e depois espalha-a por todo o recinto.
Bárbaro!
Não posso dizer nada, nem é necessário...
A música ambiente era um canto gregoriano suave e persuasivo, aturdindo a gente como um mantra.
É incrível o que se pode sentir num templo como este.
Dá vontade de rezar, chorar, meditar.
Dá vontade até de ir para o céu... se ele for assim tão artístico.
Acho que esta é uma das intenções dos templos. E conseguem, viu!
A gente sai com vontade de ficar.
Lá fora o rio cantava e a praça encantava com seus pombos, suas crianças coloridas, seus velhos de guarda chuva, sua atmosfera de vida terrena... tão artística quanto...
Mas parece que a gente leva a música dentro do coração e ela continua soando, soando...trazendo com ela um silêncio que abafa os ruídos da rua.
Fiquei por ali, sentindo o vento e aproveitando a paz que havia se instalado por debaixo da pele.
Parece que quando a gente se sente assim, o mundo inteiro fica mais bonito.
* As fotos são retiradas da Internet, mas podem ser vistas em tamanho maior dando um click sobre elas.
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